Kovalski: do sul ao sudeste do Brasil.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014 0 comentários



Kovalski, do sul ao sudeste do Brasil.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Enquanto a locomotiva parava gradativamente, Kovalski precipitou-se no vagão, segurou firme nas barras próximas à porta e espichou o pescoço para fora. Um vento frio arrepiou até os pelos de sua orelha. Inspirou aquele ar gelado profundamente. Ficou tão maravilhado ao sentir a atmosfera de sua cidade que não pôde notar sua cartola escapulindo da cabeça, flutuando vagarosamente e caindo de leve sobre os trilhos.

Sentiu-se em casa outra vez. Depois de tanto tempo, não pôde conter um sorriso de contentamento. Em seus pensamentos, apenas uma mensagem: “Como é bom estar em casa!”. Quando a composição parou por completo, Kovalski, que já sentia a vitalidade doméstica no vento frio, saltou na plataforma ferroviária com a mesma confiança da época de criança. Desde que sua família saíra de Curitiba para morar no Rio de Janeiro, Kovalski sofrera muito com as mudanças de clima e de cultura. Embora seus pais tenham saído de sua cidade natal ainda em seus anos de infância - retornando com cinquenta e dois incompletos -, ele jamais esquecera sua Curitiba.

Quanto mais a idade pesava em seus ombros, mais Kovalski nutria o sonho do retorno. Muito antes de Curitiba se tornar uma capital modelo, referência de qualidade de vida e modernidade, às vésperas da proclamação de república, os pais de Kovalski, quando ele tinha apenas cinco primaveras, migraram da capital paranaense para o Rio. Seguindo o exemplo de alguns conterrâneos, partiram em busca de prosperidade lá pelas terras da Guanabara, ainda capital federal do Brasil. Apesar de jamais terem se adaptado ao clima excessivamente quente, só saíram do Rio para que suas cinzas, depositadas em duas urnas de porcelana, fossem espalhadas entre araucárias e pinheiros do saudoso Paraná.

Chegando ao Rio, na zona portuária, uma família de retirantes nordestinos, sensibilizada pela causa dos Kovalski, convidou-os para que se abrigassem em seu casebre ao pé do morro da Providência. Ao perceberam a precariedade da construção daquele barraco, os Kovalski ofereceram o auxílio da tradicional técnica de seus ancestrais poloneses em erguer casas com troncos de árvores empilhados. Conseguindo o material, puseram a mão na massa e montaram uma casinha aconchegante, aos moldes da antiga colônia. A família hospitaleira, grata pelo feito extraordinário, convidou o casal para que trabalhasse num promissora indústria têxtil no centro da cidade. Os retirantes garantiram que seus filhos mais velhos cuidariam do pequeno Kovalski durante a extensa labuta. O casal se alegrou com a oferta do emprego. No dia seguinte, apresentaram o casal ao dono da fábrica. Após uma série de testes, os largos conhecimentos da vida no campo renderam um contrato de trabalho na cidade.

Desde cedo, orientado pelo filho mais velho dos nordestinos, o pequeno Kovalski aprendeu a mexer com a terra. Aos dez anos, capinava, plantava e colhia grãos, milho, batata, aipim e algumas frutas para comercializar na cidade, ajudando na subsistência dos retirantes. Aos dezoito, foi trabalhar com os pais na indústria têxtil e os ajudou a erguer sua própria casa no morro da Gamboa. Mais tarde, já com vinte e três anos, subiu a serra pela primeira e vez e se encantou com o clima da região. A temperatura amena, mais para o frio, tocou a alma de Kovalski. As idas e vindas tornaram-se cada vez mais frequentes. Certa vez, embrenhou-se nos relevos serranos e nas curvas de uma mulher e nunca mais voltou. Enamorou-se de uma moça, descendente de suíços, com a qual se casou, e fixou residência numa cidade chamada Nova Friburgo. Adaptou-se com facilidade à cultura local. Seu sogro, um grande produtor rural, beneficiou-se de sua experiência na agricultura. Tornaram-se grandes amigos. Além de um genro com o qual se orgulhava, fora adotado como um filho querido. Após a morte do sogro, sendo sua esposa, assim como ele, filha única, herdou a fazendo e tocou os negócios para frente, investindo mais no setor pecuário e na produção de derivados do leite.

Apesar de muito chamar para que seus pais morassem em sua fazenda de Friburgo, eles não quiseram abandonar a ilusão de prosperidade no Rio de Janeiro. Muitas foram as visitas de um lado e de outro, mas jamais o clima serrano os convencera da mudança. Quando Kovalski completara quarenta e três anos, uma carta da capital federal, escrita com a inconfundível caligrafia do filho mais velho dos retirantes, deixara Kovalski em luto por quase uma semana. Seus pais estavam tuberculosos, mas a ignorância não os fez procurar por tratamento adequado. As condições insalubres de trabalho e moradia agravaram demasiadamente o quadro clínico. Ao descobrirem a maldita enfermidade, já era muito tarde. Morreram quase simultaneamente em poucos dias. Kovalski fora muito consolado por sua mulher, o que o permitiu retomar a lida em pouco tempo.

Porém, o golpe fatal ainda estava por vir. Cinco anos depois da morte de seus pais, sua amada esposa definhara numa velocidade assombrosa. Descobrira um câncer raro, sem nenhuma possibilidade de recuperação. Foram três anos de agonia. Kovalski não se afastou da esposa por nenhum motivo. Ela passou a depender dele das mais significativas as menores necessidades diárias. Embora tivessem empregados, era ele que preparava as refeições de acordo com a dieta alimentar, cuidava do corpo moribundo em sua higiene pessoal, dava-lhe o amor que sempre lhe fora devotado. Toda noite, até sua morte, conversava com ela, contando suas impressões dos acontecimentos durante o dia, apesar de, já na fase terminal, numa vida vegetativa, ela não mais ouvisse uma palavra que ele dizia.

Seis meses após o falecimento de sua esposa, um telegrama misterioso de uma tal senhora Ludmilla, chegara a suas mãos. Lendo aquelas palavras, parecia que a mulher conhecia toda a sua trajetória como a palma de sua mão. Emocionou-se. Ao ler o remetente, surpreendeu-se ainda mais: Era de Curitiba. A senhora Ludmilla, embora Kovalski não a conhecesse pessoalmente, nem ela a ele, parecia muito familiar. Ela o convidara para que fosse à casa dela, pois precisava lhe dizer algumas palavras de conforto, além de transmitir uma parte essencial de sua história que lhe fora negada. Certo calafrio lhe percorreu a espinha. Teve tremedeira e grande curiosidade. Assim como seus sogros e seus pais, ele havia tido apenas um filho. Como o pai, o jovem aprendera o ofício desde cedo. Como tinha empregados de extrema confiança, deixou-os como responsáveis pela fazendo pelo tempo que permaneceria fora, depositando no filho os direitos e deveres de sua herança.

Segurando uma maleta com algumas peças de roupa, Kovalski deixou-a no chão da estação para que se sentasse e apreciasse a saudosa paisagem curitibana. Passou a mão na cabeça e percebeu o imenso vazio. Olhou para um lado. Olhou para o outro. Depois de muitas tentativas frustradas, a cartola surgiu em seu campo de visão. Verificou se nenhuma locomotiva se aproximava, levantou-se, deixando a mala abandonada no meio da estação e se abaixou para pular a plataforma. Pegou a cartola e subiu de volta à plataforma. Deu alguns tapinhas para espanar a poeira e arrumou o elegante acessório no alto da já escassa cabeleira grisalha. Desamarrotou o paletó, abaixou-se para pegar a maleta e seguiu viagem de charrete até o Alto São Francisco, endereço fornecido pela tal senhora Ludmilla.

A charrete fez a volta pela capela dos franciscanos e parou em frente a um palacete recentemente construído. Kovalski não se lembrava de ter visto aquela arquitetura suntuosa em sua época de criança. O palácio, estruturado sob influência germânica, representava a transição artística entre o ecletismo neoclássico e o modernismo. Kovalski desceu da cabine, pagou o charreteiro, afagou a crina de um dos cavalos e bateu palmas em frente ao portão principal. Ninguém apareceu para recebê-lo. Ensaiou mais palmas. Mas antes que iniciasse aquela repetição barulhenta, notou um pequeno papel dobrado em forma de triângulo, debaixo de uma pedra, em cima do muro. Seu nome escrito foi o que mais lhe chamou a atenção. Tirou a pedra e desdobrou o bilhete. Era de Ludmilla. Dizia para que ele entrasse, sem cerimônias. As chaves estavam debaixo do capacho do alpendre, único acesso ao salão.

Ao entrar, fora engolido pela escuridão. Mesmo já havendo luz elétrica, não conseguiu ligar o interruptor. Numa banqueta ao lado da porta, um candeeiro estava à espera de ser aceso. Kovalski alcançou o objeto, constatou a existência de óleo, acendeu o pavio de barbante com fósforo e, mantendo a maleta bem segura com uma das mãos, ergueu o candeeiro acima da altura de sua cabeça. Tirou a cartola e a depositou num cabideiro diante de si. Quando seus olhos se acostumaram com o clarão, não pôde conter um gemido de pavor. Todos os quadros iluminados, um por um, pinturas ovais, exibiam traços marcantes que revelavam sua própria face. Sua mente afetada pela estranheza da situação não conseguiu discernir entre uma repetição em série do seu rosto, ou se as imagens eram de membros desconhecidos da família Kovalski.

O mal-estar era tanto que, ao se deparar com um espelho emoldurado, nas mesmas proporções das pinturas, Kovalski deu um grito e pulou para trás, quase permitindo que o candeeiro escapasse de seus dedos. O movimento daquele semblante amedrontado fez com que Kovalski, inexplicavelmente, acreditasse ser assombrado pelo inanimado que de súbito adquirira vida. Virou-se para a porta do salão no intuito de sair rapidamente dali. Sua maleta, já jogada no canto, com o impacto da queda, esparramara as roupas ao seu redor. O portão encontra-se trancado. Segurou a maçaneta com as duas mãos e começou a forçá-la para trás e para frente. Perante o fracasso do esforço, Kovalski, encostado na parede, deixou que seu corpo escorregasse até se sentar no piso de tábuas corridas.

No chão, vencido pelo medo, Kovalski se manteve estatelado no chão. Já quase cerrando as pálpebras pelo enorme cansaço, novamente ficara alerta ao ouvir tábuas rangendo, som de passou chegando cada vez mais perto, em sua direção. Kovalski ajeitou-se no chão, erguendo o corpo com o apoio dos braços, mas sem se levantar. Um vulto de cabelos esvoaçantes chegou tão perto que quase era possível sentir sua respiração quente. Um calafrio o eriçou por completo. Achou que fosse a enigmática Ludmilla. Mas, como num passe de mágica, o rosto se revelou. Era sua mãe na juventude, antes mesmo de tê-lo como filho. Kovalski agarrou-se aos tornozelos daquela aparição e se entregou a um choro convulsivo. O vulto se curvou até envolver Kovalski. Acariciou seus cabelos e ergueu sua cabeça até nivelar seus olhos. Uma atmosfera profética se apoderou do recinto.

Metamorfoseada em mulher, a assombração sentenciou que Kovalski precisava transmitir seu legado ao filho, responsável pela fazenda de Friburgo. Seu retorno à amada Curitiba simbolizava o reencontro de gerações, o reencontro de antepassados com os futuros frutos daquela terra. À capital paranaense, estava reservado um destino de glória, exemplo de preservação, política e sociedade. A participação de seus ancestrais poloneses seria indispensável àquela conquista. Kovalski precisava resgatar suas raízes, reassimilar suas origens, resistências do seu povo e existências vindouras para contribuir com o avanço do Brasil para além das fronteiras sulistas.

Totalmente mergulhado nas palavras que lhe tocaram tão profundamente, Kovalski recebera o pinhão de uma araucária entregue pela assombrosa mulher, que o fez fechar a mão com o objeto ofertado. Logo depois, desfez-se em seus braços. O candeeiro apagou, as luzes acenderam e Kovalski se viu deitado na grande cama do seu quarto na fazenda de Friburgo, ao lado de sua mulher. Um sorriso espontâneo e revelador de uma felicidade transbordante o impulsionou a abraçar a esposa com tanta força que ela acordou assustada. Ela lhe endereçou um olhar incrédulo, mas percebendo a alegria desmesurada no rosto do marido, retribuiu o sorriso e o envolveu num abraço afetuoso.

A esposa viu as horas e demonstrando pressa. Falou que eles deveriam correr para que nada faltasse para os preparativos do almoço festivo. Kovalski se surpreendeu e perguntou sobre que ocasião especial era aquela. Sua mulher, achando graça com a dúvida do marido, falou que os pais se Kovalski já estariam chegando de Curitiba para o casamento do neto. Kovalski não conseguiu esconder a euforia de saber que seus pais estavam vivos. Perguntou à mulher sobre como aquilo tudo era possível. Ela soltou uma gostosa gargalhada. Disse que o marido não estava batendo bem das ideias.

Kovalski quis saber também o motivo dos pais terem voltado para a capital paranaense. A mulher, ainda mais admirada com a loucura do marido, afirmou que eles jamais saíram de lá. Falou que ele, como ninguém, sabia que seus pais nunca trocariam aquele lugar por nada neste mundo. Disse ainda que, só ele, filho desgarrado, resolveu se apaixonar e que, por isso, viajou para o estado do Rio de Janeiro, subiu a serra e se casou com a filha de um fazendeiro suíço. Nesse instante, ela olhou para Kovalski por cima do ombro e deu algumas piscadelas sedutoras. Ele aderiu à brincadeira, e muito animado, correu para abraçá-la e beijá-la.

Quando os pais bateram à porta, Kovalski os abraçou, os dois juntos, com tanta emoção que os dois não resistiram e deixaram que muitas lágrimas rolassem junto a sorrisos de alegria pelo reencontro. A choradeira foi de tal proporção que precisou que a esposa intervisse alegando que Kovalski tinha que se desgrudar dos pais para não matá-los do coração. Todos riram. Ele acomodou os pais na grande sala. Kovalski também se alegrou ao ver seu sogro chegando para receber os ilustres convidados. Na cerimônia matrimonial realizada em campo aberto, dependência da fazenda, Kovalski abençoou os noivos, desejou uma vida promissora a sua nora e chamou seu filho para um lugar afastado.

Lá, Kovalski deu ao filho o pinhão que a aparição do palácio lhe entregara. Seu filho lhe lançou um olhar com visível emoção, entendendo o recado, e lhe deu um abraço apertado. Vendo o rapaz se afastar, indo para perto da noiva, Kovalski permaneceu em isolamento, só admirando de longe tudo aquilo. Ali, teve a certeza final que a paz e o progresso, unindo o sul ao sudeste, reinariam de vez naquela família e nos corações dos brasileiros.

Mais tarde, já idoso, Kovalski soube que, apesar de ter sido criado como filho único, teve uma irmã que morrera aos quinze anos. Ele nascera quando essa irmã já estava com quase treze. Não se recordava dessa irmã, justamente por ser ainda muito novinho, três anos, quando ela falecera. Só percebia que seus pais choravam muito durante a fatalidade daqueles dias amaldiçoados. Poucos meses antes de a tragédia se abater sobre a família, seus pais celebraram o matrimônio da jovem menina com um nobre rapaz da região.

Após o casamento, eles se mudaram para o Rio de Janeiro. Os pais do noivo, ricos proprietários de indústrias de tecido, estavam também se mudando para o Rio devido a novas instalações fabris. Antes que chegassem à capital federal, um grave acidente, o descarrilamento da locomotiva na qual viajavam, os vitimara. A única sobrevivente fora a mãe do rapaz, mas falecera no hospital de um cidade vizinha ao Rio que acolhera as vítimas. Ludmilla era o nome dessa irmã.

Inconscientemente, Kovalski identificava o Rio de Janeiro como um lugar no qual superaria uma existência. Não se recordava da irmã, muito menos de sua morte, mas, em seu íntimo, reconhecia o Rio como uma prova e expiação das dores de sua família. Deixando seus pais com o coração na mão, viajou diversas vezes às terras da Guanabara, até conhecer, em Nova Friburgo, a filha de um simpático fazendeiro suíço, com a qual se casara.

Depois de tantas revelações, Kovalski sentou-se numa rocha, local de ampla visibilidade, abrindo a paisagem para a grande fazenda de Nova Friburgo. Deixou que um sorriso largo e espontâneo se apoderasse de seu semblante. Sua família, crescida e unida, teria a linda missão de manter as raízes das gerações de hoje e de sempre.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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A Cidade Cativante.

domingo, 12 de janeiro de 2014 0 comentários



A Cidade Cativante.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Ao saltar da embarcação, deparou-se com a estátua de um índio mal-encarado, esperando-o de braços cruzados. Apesar de austero e valente, em seu rosto, transbordava ternura e serenidade. Carmo contornou aquele monumento improvável e o comparou aos rígidos braços abertos do Cristo Redentor. Talvez em nada se assemelhassem. A posição do índio suscitava proteção e cuidado. Os braços do Cristo, frágil abraço, denotava devoção, com certa dose de desamparo. Carmo observou que o pôr do sol emprestava ímpar vivacidade à pele de bronze daquele guerreiro indômito. A camada esverdeada composta pelo tempo implacável, em contato com os últimos raios do astro adormecido, convertera a bravura do cacique em destemido amor.

Quando tomou consciência de si, ficara mais de meia hora parado em plena Praça Arariboia, olhando para o alto, contemplando a imponente estátua. Carmo deu uma olhadinha para cada lado, temendo cair no ridículo. As pessoas passavam frenéticas, para cima e para baixo, para um lado e para o outro e não se davam conta daquele inusitado visitante embasbacado pela força do ilustre anfitrião niteroiense. Ligeiramente constrangido pela cena patética à qual se entregara, Carmo abandonou a veneração ao monumento de Arariboia e saiu de fininho.

Recuperando-se da inquietante experiência, atravessou a movimentada Avenida Visconde do Rio Branco e, novamente, deparou-se, maravilhado, com a arquitetura suntuosa de um palácio em art nouveau inteiramente restaurado e iluminado. Leu que se tratava de uma edificação dos Correios, inaugurada com a presença do primeiro presidente da república brasileira. Consultou o relógio. O tempo corria velozmente. Não mais permitiria ser sugado por seu deslumbramento sensível. Ajeitou a gravata, tirou o paletó, arrumando-o no antebraço - com o cotovelo levemente dobrado para não amassá-lo - e prosseguiu viagem. Faltava pouco tempo para seu compromisso inadiável e não poderia se atrasar um minuto sequer.

Carmo não quis pegar nenhuma condução. Sabia que se não se distraísse pelo caminho, margearia a orla sem que corresse o risco de perder a hora. Tinha quase duas horas para reservar tal prazer a si. Viu, ao longe, toda a extensão da Ponte Rio/Niterói. Observou duas estátuas, também de bronze, sentadas em um banco de concreto. Uma, representando o presidente Juscelino que, entusiasmado, olhava os projetos arquitetônicos de Niemeyer. Sentiu a brisa soprada da Baía de Guanabara em seu rosto, amenizando o calor e enxugando os pequenos brotos de suor.

Passou por Gragoatá e São Domingos. Ao se aproximar de Boa Viagem não resistiu e contemplou, timidamente, o Museu de Arte Contemporânea em seu inconfundível formato de disco voador. Ele foi construído praticamente à beira de um precipício, desafiando a lógica matemática e a razão humana. Grato pela fascinante paisagem que se descortinara à sua frente, derramando beleza aos cinco sentidos, avistou uma pequena igreja no alto de uma ilha próxima ao MAC. Viu que essa ilha unia-se ao calçadão da orla por uma longa e estreita ponte de concreto armado. Notou também que abaixo dessa ponte o mar se dividia por uma fina camada de areia. Convidado por tal fenômeno da natureza aliado às façanhas humanas, Carmo, que não era católico, entregou-se, emotivo, ao sinal da cruz, dobrando sutilmente seus joelhos em reverência àquela imensidão.

Fez uma pequena pausa para fotografar a magistral obra de Niemeyer, símbolo da cidade de Niterói. Não pôde ignorar que de um pequeno lago artificial, no qual a estrutura do museu fora instalada, as ondulações refletiam os raios do sol, formando um móbile de luz em toda a circunferência daquela obra magnífica. Carmo consultou novamente o relógio. Só faltava meia hora. Agitou-se ao constatar a inevitável passagem do tempo. Apressado, atravessou, mantendo o contorno litorâneo, o bairro do Ingá. Da praia das Flechas, notou chamativas formações rochosas, conhecidas como Pedra do índio e de Itapuca. Antes de o MAC ser elevado como representante maior da cidade, tais monumentos naturais assumiam a categoria de símbolos máximos da cidade.

Acelerando os passos, ao invés de continuar seguindo pelo calçadão, já na praia de Icaraí, virou à esquerda, na Miguel de Frias e a seguiu até pegar a Moreira César desde o início. Na esquina, em frente a uma padaria, deteve-se diante de uma banca de jornais. Lá, admirou-se com cartões postais com os mais variados retratos. Primeiro viu que, perto dali, havia um amplo espaço arborizado e florido, uma reserva ambiental com um grande chafariz, bem no coração de Icaraí. Logo uma vontade atroz fustigou-lhe a alma. Mas, sabendo de seu compromisso, afastou a ideia de conhecer o Campo de São Bento. Aquele lugar lhe traria a paz tão almejada, a mesma paz que receberia como retribuição ao concluir o trabalho ao qual se comprometera. Além da compensatória paz ao final do serviço, muito dinheiro também estava em jogo.

Já mais para o fim da Moreira César, Carmo dobrou à direita, na Oswaldo Cruz e novamente se dirigiu à praia de Icaraí. Tirou do bolso um bilhete amassado. Espichou o papel até conseguir visualizar o endereço e confirmou sua exata localização. Colocou-se defronte ao condomínio luxuoso, de vinte andares. Enquanto aguardava a oportunidade adequada para entrar, teve sua atenção tomada pelos trajes elegantes com os quais os moradores desfilavam a torto e a direito. Notou que o modo de se vestir daquelas pessoas muito se assemelhava aos cidadãos que circulavam pela Moreira César. Não evitou que um sorriso malicioso escapasse de seus lábios. Mas logo se recompôs. Sabia ser aquele um bairro nobre, embora o dinheiro não fosse sua prioridade. Estava ali para cumprir seu compromisso e ponto final, sem mais nem menos.

Pacientemente, esperou que a garagem abrisse para acompanhar o veículo que entrasse ou saísse. Não demorou muito, um automóvel parou. O motorista acionou o controle remoto e o portão iniciou sua abertura. Carmo, nesse instante, comparou o portão à abertura cerimoniosa das cortinas de um teatro, convidando-o a subir ao palco. Estava exultante. Sentia que aquela era sua deixa para o encerramento de grande espetáculo. Abaixou-se à lateral do carro, tomando cuidado para não ser identificado pelo espelhinho retrovisor. Paralelamente ao movimento do veículo, foi se esgueirando lentamente até passar por completo, também sem ser visto pela câmera de segurança do edifício.

Na ausência do porteiro, Carmo, fingindo ser um condômino comum para não levantar suspeitas, sentou-se no sofá, cruzou as pernas e, calmamente, abriu o jornal do dia. Verificou outra vez o relógio. Faltava apenas cinco minutos para executar a vítima do oitavo andar. Fechou o jornal, depositando-o sobre os joelhos, ergueu de leve o corpo e conferiu discretamente o revólver preso pelo cinto da calça, junto à pele. Quando ia se levantar, estancou subitamente ao ver uma praia belíssima na capa da revista sobre a mesinha, com tampo de mármore, no centro da portaria.

Largou o jornal em cima da almofada do sofá e folheou a revista. Não pôde conter uma lágrima solitária descendo pelo seu rosto. As praias paradisíacas da região oceânica de Niterói o enterneceram. Tocaram-no profundamente. Ele não fazia a menor ideia da riqueza daquela cidade. Tudo que já tinha visto até então já fora suficiente para convencê-lo do fascínio daquele lugar. Abriu página por página. Vislumbrou retrato por retrato. Encantou-se com as praias de Piratininga, Itaipu, Camboinhas e Itacoatiara. Um sentimento tão oceânico quanto o mar aberto invadiu-lhe por completo, intensificando à exaustão as lágrimas de emoção.

Naquele instante, decidiu: largaria a odiosa vida de matador de aluguel. Diante de tanta beleza, não valeria a pena ceifar vidas, privando as pessoas da contemplação pacífica da natureza em seu esplendor e formosura. Carmo contraíra uma séria dívida com mandantes do crime na Baixada Fluminense e fora encarregado de desembarcar pela primeira vez em Niterói para assassinar um juiz de direito em troca de perdão e paz. Decidido a mudar de vida definitivamente, Carmo guardou a revista em sua pasta e saiu pela porta da frente. Ao ver o límpido e cristalino cenário, composto por um azul infinito, deixando ainda mais visível o Pão de Açúcar e o Corcovado do calçadão da Praia de Icaraí, entregou-se novamente ao mais copioso pranto.

Carmo seguiu pelo calçadão em direção ao bairro de São Francisco. Subiu a estrada Fróes até mirar a praia do alto. Certificou-se que ninguém passava naquele instante, tirou a arma da cintura com cuidado e, impulsionando bem forte o braço, arremessou-a para o meio da água. Como não poderia retornar ao Rio de Janeiro, lembrou-se que havia um conhecido seu que falsificava identidades. Coincidentemente, ele residia em Niterói. Telefonou. Conversaram longamente. Ele explicou sua situação delicada ao Petrotski - seu amigo falsificador -, nascido no estado do Paraná e também amante de Niterói, que há muitos anos fixara residência em Itaipu. Ao ouvir toda a história atentamente, sensibilizou-se pela causa de Carmo.

Algum tempo depois, Carmo passou a se chamar Manoel. Petrotski ainda foi além do combinado para ajudar o amigo. Apesar de ser num lugar distante de Itaipu, numa rua apenas numerada, sem nome e sem asfalto, Petrotski tinha mais uma propriedade que, mediante uma quantia camarada, alugou para Carmo morar temporariamente. Favorecendo o amigo financeiramente, viabilizou seu contato com pescadores da região. Rapidamente, Manoel, que jamais revelara sua real identidade aos novos amigos, enturmou-se, alugou um barquinho modesto e se aventurava, toda quarta-feira, no mar aberto, junto às traineiras e gaivotas famintas, empenhando-se no seu ganha-pão.

Após muito trabalho, comprou um espaço em sociedade com um camarada seu do mundo dos pescados no tradicional Mercado São Pedro. Logo depois, agradecendo com muito carinho ao amigo Petrotski, deixou a casinha em Itaipu e se mudou para a Vila Pereira Carneiro na Ponta da Areia - um pequeno bairro residencial construído por trabalhadores da construção naval. Manoel, O Peixeiro, como se popularizara entre os amigos e clientes da banca de peixe, vivia com um sorriso largo de orelha a orelha.

Com muito orgulho, em sua certidão de nascimento falsa, estava a cidade de Niterói como seu berço querido. E de Niterói, Manoel jamais saíra e nunca mais se recordara que um dia tivera outro nome.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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