Dois Livros e um Amor.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014


Dois Livros e Um Amor.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Dois livros abertos, jogados na cama bagunçada. O de capa dura era de cor azul, e o outro, laranja. O primeiro, edição de luxo, embora sem orelha, aberto na página 25, apresentava visgos e dobras distribuídos pelos quatro cantos da folha em questão. Já o de tom laranja, aberto num tal capítulo III – quase já não faltando páginas para o fim -, mais modesto, de frágil brochura, estava desalinhado e com a lombada desbotada e arrepiada. Exibia velhas costuras e alinhavos com linhas de alfaiate, e não de escriba. O livro azul, apesar de ter quase 200 páginas, interrompera-se precocemente na página de número 25. O restante permanecera em branco. Um denso e massacrante branco, suprimindo a pequena quantidade de páginas escritas.

Muitas histórias não contadas. Muitas vidas esquecidas, perdidas na invisibilidade da linguagem. O que ficara para trás? O que não pôde ser contado? O que não seguiu o curso das palavras? Interrogações encobertas pela túnica branca da opressora falta de palavras. A história pode ser lida até o ponto em que o livro ficara aberto, até a folha amaldiçoada por visgos e dobras.

Se alguém que padecesse de heroica valentia lesse em retrospecto, da última à primeira página, transportaria-se sensorialmente ao tilintar de xícaras, ao trepidar da porcelana no granito escuro do balcão, ao chuá da água corrente rejuvenescendo a prataria. Aroma de café fresco recentemente moído. O encanto místico da bebida sendo coada e servida. Havia apenas uma mesa ocupada. Madeira rústica perfurada pelas ranhuras do amor. Talvez algum solitário com a alma em chamas recortara formas estranhas no tampo da madeira para se aprofundar em sua superfície. Ou foram entalhes feitos por quatro mãos enlaçadas pelo afeto de outrora.

Gil, com os cotovelos apoiados na mesa, repousou a cabeça na extremidade das palmas das mãos, encostadas uma na outra, formando asas de borboleta ou de anjo adormecido. Pedira um expresso com creme para não se afligir com a longa espera. Quando se conheceram, numa das aulas-espetáculo de Ariano Suassuna, ele que muito se atrasara. Ao chegar, havia apenas uma cadeira vazia ao lado de uma moça que, pontualíssima, lá estava antes mesmo do início da entusiasmada palestra. Afobado, pisando nos pés dos pobres espectadores - uns chiando de desgosto, outros solidários com a pressa do rapaz -, esbarrara no ombro de Cora, derrubando seus livros e papéis, antes equilibrados no espaço em que os braços das cadeiras se encontravam. Sem olhar para o desajeitado autor daquele empurrão, ela apenas curvou o corpo para frente, recolhendo o material espalhado pelo chão.

Constrangido pelo acidente e meio atrapalhado, sem perceber que Cora já recolhia seus pertences, Gil se precipitou sobre a moça, dando-lhe um puxão de cabelo daqueles que quase escalpelam as moças mais sensíveis. Erguendo seu tronco subitamente, por conta do dolorido sobressalto, houve um encontrão da nuca de Cora com a testa de Gil. Cada um levou a mão ao próprio alvo da pancada. Os papéis e os livros permaneceram espalhados. Sem pedir desculpas, Gil apenas se sentou, dobrando seu corpo logo em seguida para pegar os objetos de Cora. Ainda zonzo pela situação malsã, juntou os papéis e os entregou a ela. Depois, ele apanhou os dois livros que restavam caídos. Não conseguiu ler o título e o nome dos autores. Viu apenas que se tratava de um livro de capa azul e outro de capa laranja. Apoiou-os novamente nos braços das cadeiras e voltou-se para a aula.

O escritor discursava sobre a beleza de se combinar a cultura erudita com a arte popular. Ao longo de uma hora e meia de palestra, os dois ficaram quietos, sem o menor desvio de atenção, se não fosse pelas singelas viradinhas de cabeça de Gil para fitar o suave e compenetrado rosto de Cora. No instante em que a aula foi encerrada, ambos continuaram sentados enquanto uma fila gigantesca se formava na lateral do anfiteatro para os cumprimentos ao ilustre e bem-humorado acadêmico. Um círculo de pessoas ávidas pelo autógrafo de Ariano praticamente o engoliu, desaparecendo do campo de visão do público que se manteve sentado. Com o fracasso de acompanhar os movimentos do renomado dramaturgo com o olhar, simultaneamente, de modo aparentemente inexplicável, entreolharam-se. Cora respirou fundo, pegou sua papelada e os livros do braço da cadeira, depositando-os no colo com a cabeça baixa, e diante da frustração por não ter meios de chegar perto do seu ídolo, deu o pontapé inicial, meio como quem nada quer, para um diálogo com Gil:

- Esse cara é um dos meus autores favoritos. Queria tanto mostrar um conto que eu escrevi pra ele...

- Nossa! Você escreve? Que legal. Eu adoro literatura, mas ainda não escrevi nenhuma linha.

- Mas se você gosta tanto assim, por que nunca se arriscou?

- Acho que eu não tenho talento pra isso...

- Não precisa desse negócio. É só sentar e deixar fluir. Mesmo que você não goste do resultado. Tente!

- É... Pode ser... Tenho medo. Mas enfim... Mudando de assunto, o que você faz? Ah... Desculpe meu mau jeito. Gafe minha. Não nos apresentamos ainda. Qual o seu nome?

- Eu me chamo Cora. Sou advogada. Até advogo, mas a minha paixão é pela literatura. Advogo para viver e vivo para escrever. E você? O que faz? Antes, seu nome, é claro!

- Sou Gil, uma contradição em pessoa. Eu me formei em letras. Dou aula de literatura. Engraçado, né? Sou professor disso, mas não tomo coragem pra escrever minha própria ficção.

- Sabe de uma coisa? Este livro laranja é a minha história. É uma edição independente. Eu mesma o editei e fiz algumas tiragens na gráfica. É sobre uma menina que sonha com um amor. O romance acontece no futuro. Tudo o que eu narro, o ambiente, o contexto, os personagens, a história toda acontece num futuro que não chega a se realizar. Tudo se passa na imaginação dessa menina. Meu livro tem dois capítulos e um terceiro que na verdade é o fim, deixando margem para que a história da menina abandone o futuro e se torne presente. É um convite para que o leitor também imagine um “e se fosse verdade”, como seria? Entendeu?

- Hummm... Parece ser um bom romance. Me deu vontade de ler e... também... digamos... Viver um amor desses, no presente. Nada de fantasias.

- Mas quem disse que o amor no presente não é fantasioso? O futuro idealizado pode ser mais pé no chão do que as fantasias vividas no presente.

- Será que é assim? É... deve ser... Mas esse outro livro aí, o de capa azul?

- Então... É sobre ele que eu quero falar. Ele é seu. Vou dar ele a você. Tome!

- Sério? Legal. Espere um pouco, deixe eu folheá-lo. Cadê o nome do autor? O título? Não tem nada escrito? Ué?! Como assim? Não entendi...

- Pois é... Isso que é o maior barato. Ele está todo em branco. É pra você escrever sua história. Quero que você escreva, que assine sua ficção!

- Nossa! Achei a ideia ótima. Mas estou apavorado.

- Quer minha ajuda?

- Como?

- Que tal contarmos uma história juntos?

- Juntos como?

- Venha!

Cora pediu a Gil para que ele segurasse seu material e o pegou pela mão. Foram se esgueirando por entre as cadeiras e pela plateia que já se acotovelava para conseguir um autógrafo do Ariano, até deixarem o anfiteatro para trás. Meio sem reação, Gil foi sendo levado pela mão até uma rua arborizada, ladeada por oitis repletos de frutos maduros, bem amarelinhos e rajados de verde. À sombra do oiti, Cora parou, colocou delicadamente uma mão em cada lado do rosto de Gil e encostou seus lábios nos seus. Ainda com as mãos no rosto de Gil, afastou-se o suficiente para olhar dentro dos seus olhos. Encostou seus lábios nos deles novamente, recuou outra vez e perguntou o que ele sentiu.

Quando ele, razoavelmente recuperado do toque e daquele encontro mágico, pôde responder a pergunta de Cora, ela colocou seus dedos em sua boca e o convidou para que se sentassem num banquinho à sombra do mesmo oiti. Ela pediu a ele que abrisse seu livro azul e escrevesse justamente sobre aquela sensação que ela acabara de lhe provocar. Ele atendeu seu pedido e assim registrou na primeira página: “Quando sua boca veio de encontro à minha, nada mais vi nem senti ao meu redor. Apenas um toque fascinante que me coloriu por dentro. A memória é eterna. É impossível esquecer-me dela. Nem o perfume das flores, nem o sabor dos frutos abafarão o gosto do seu beijo. E quando você se afastar, nos segundos em que seus lábios se fixam aos meus e deles evadem, não deixando você partir, sentirei que serei para sempre seu”. Cora, não desviando seus olhos dos de Gil, fechou o livro azul e o abandonou no colo dele. Os dois, ainda sentados, aproximaram-se e se beijaram acaloradamente.

Passaram-se outonos e primaveras, invernos e verões nutrindo o sentimento iniciado naquele encontro poético, porém inusitado e em nada convencional. O namoro oficializado só confirmou o fortalecimento daquilo que começou com palavras e eletrificou corações. Seus corpos trepidaram, bambearam, rodopiaram ao ritmo de palavras vulcânicas, beijos vibrantes e indecorosos enlaces da paixão. Decidiram alugar um cantinho para que o afeto se consolidasse ainda mais com a íntima experiência sob um teto comum. Passaram a conviver diariamente. Compartilharam a vida, os costumes, os erros, as qualidades, defeitos e felicidades. Dividiram as contas, os afazeres, as despesas, o amor, loucuras, acalantos e brevidades.

Uma vez por mês, às vezes sozinho, outras vezes acompanhado de Cora, Gil voltava ao oiti para escrever mais uma página de sua história de amor. O estímulo literário criado pela namorada atravessou os limites do ponderável e se converteu numa verve artística de grandes proporções. Gil se tornara um romancista. Mesmo com compromissos inadiáveis com seu editor, todo mês, uma vez por mês, voltava à sombra daquele mesmo oiti, sentava-se naquele mesmo banquinho e escrevia mais uma página do seu livro azul, sobre os sentimentos que, à flor da pele, doava à amada, e as sensações que esse amor sempre lhe provocava. Foram 25 meses de impressões ininterruptas. Naquelas páginas, escreveu sobre prazeres, volúpias, medos, deveres domésticos, obrigações conjugais, delírios, devaneios, alegrias, satisfações e emoções. Fez também alguns apontamentos sobre ameaças de partidas, idas e vindas, brigas, melindres, discussões e retornos sempre apaixonados.

Numa dessas idas e vindas, Cora não queria mais compartilhar e dividir sua vida com Gil. Apesar de muita insistência e declarações de amor dele, ela resistia. Depois de algumas semanas da última separação, Cora aceitou ter uma conversa com ele numa cafeteria que, no auge do amor - na época das carícias mútuas -, os dois gostavam de frequentar. Empolgado, Gil combinou o horário e, com uma incomum pontualidade, de manhã bem cedo, ele lá estava à espera de Cora. Ansioso, pediu um café com creme para ajudar a enfrentar a longa espera. Cinco xícaras de café expresso e quase duas horas se passaram sem nenhum sinal de Cora. Gil, arrasado, levantou-se e seguiu o caminho do apartamento em que viveu com ela por dois anos e um mês. Chegando em casa, ainda sem notícias de Cora, sentou-se na beirada da cama, desolado. Um tempo depois, notou que o livro que ela escreveu estava jogado na cama, aberto nas páginas finais. Espichou o corpo até alcançar o livro laranja. Segurou com pouca firmeza, até com certo tremor, e viu que havia algo escrito com caneta esferográfica logo abaixo da linha em que o capítulo III era anunciado.

Estava escrito assim: “Caros leitores, fui estúpida em acreditar que imaginar uma história de amor num futuro irreal, pudesse ser preenchido, com toques de veracidade, pela história real de cada um de vocês. Vejo agora o quanto fui cruel, pois uma história de amor verdadeira é humanamente impossível. Peço o perdão e a absolvição de vocês pelo ato de covardia, mas declaro que nunca mais me aventurarei a escrever essas besteiras que, iludida, tanto insisti em traçar literariamente. Termino aqui estas e nestas linhas. Esqueçam o capítulo III. Se ainda assim quiserem me ler, que terminem no segundo capítulo e jamais tentem dar realidade à fantasia do amor. De agora em diante, sou apenas Dra. Cora, advogada. Vou para uma cidade distante em que exercerei minha profissão plenamente. Ninguém me achará, nem editores nem ninguém. Adeus, Cora”.

Gil enxugou uma lágrima que descia, solitária, por sua bochecha um tanto quanto inchada por um choro reprimido. Esticou novamente o corpo para deixar o livro aberto exatamente onde o tirou. Encolheu-se logo após, chegando ainda mais para a beirada da cama. Apoiou os cotovelos nas pernas e colocou a cabeça entre as mãos. Ficou um pouco meditativo. Abriu sua mochila e retirou seu livro azul. Abriu-o e o folheou. Ainda faltava uma infinidade de páginas em branco. Ergueu o corpo, mantendo o livro seguro com as duas mãos. Abriu-o na página 25 e, impulsionando-se para chegar perto do livro laranja de Cora, apertou o azul contra a cama até que a última página escrita se amassasse por completo. Arrumou suas coisas numa pasta. Aprontou-se e foi para dar mais uma de suas aulas de literatura.

Gil continuou morando no mesmo apartamento durante muito tempo. Nunca soube para qual cidade Cora se mudou. Não teve mais notícias. Depois de alguns anos, numa noite de autógrafos, evento organizado para o lançamento do seu novo romance, Gil teve quase certeza de que tinha visto Cora olhando para ele e com um dos seus livros nas mãos. Achou que ela se aproximaria dele. Falaria com ele. Mas ela desapareceu em meio à multidão que o cercava.

Guardou o livro laranja escrito por Cora na gavetinha de sua cabeceira. O seu permanecera interrompido na página 25. Mas toda noite, antes de dormir, Gil o abria e escolhia uma página aleatória. Só dessa forma, sentia o aroma que as letras do afeto de ontem exalavam no presente, para que jamais perdesse o real motivo da sua verdadeira vocação. Sempre escreveu com o amor e nunca esqueceu do amor verdadeiro ao escrever.


Escrito por Alex Azevedo Dias.

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1 comentários:

{ António Jesus Batalha } at: 2 de março de 2016 15:52 disse...

Estou a tentar visitar todos os seguidores do Peregrino E Servo, e verifiquei que eu estava a seguir sem foto, por motivo de uma acção do google, tive de voltar a seguir, com outra foto. Aproveito para deixar um fraterno abraço.
António Jesus Batalha.

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