Até a Última Estação.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014



Até a Última Estação.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Enquanto a composição atravessava a vegetação coberta de neve, vários exemplares do chapim-real e do pisco-de-peito-ruivo entoavam cânticos de liberdade ao primeiro bater de asas naquela fria manhã. A fumaça espessa, como nuvem carregada que se adensa e enruga o céu, pigmentando-o de pesar e aflição, contrastava com finas camadas de gelo lançadas ao longe pelo frenético roçar de trilho e trem. Antes que a nevasca embranquecesse ainda mais a paisagem, ínfimos pontos azulados ainda resistiam num céu aprisionado pelo negrume que anunciava a sorrateira tempestade. Cedros, pinheiros e abetos, com suas grossas e gélidas folhagens, mantinham-se imponentes. As árvores suavizavam a paisagem melancólica que se descortinava ao toque célere da locomotiva, cortando a paralisia branca do inverno europeu. A natureza reagia com indiferença ao barulho daquela imensa máquina fumegante rasgando, em linha reta e suaves curvas, o cenário de bucolismo, lirismo e solidão.

Os vagões de passageiro, embora externamente se assemelhassem às cabines luxuosas, exibiam barras de ferro verticais, lembrando grades de uma gaiola, em cada janelinha lateral. O espaço interno mergulhava em sombras. Andrajosos, com chapéus, luvas, capotes, pulôveres e suéteres em estado lastimável - mas de uso necessário para que se protegessem da hipotermia que já os espreitava pela greta, vestindo capuz e foice -, as pessoas repartiam um pedaço de pão deixado em cima de palhas secas e feno. As cabines que já alojaram famílias abastadas, contemplando-as pelo deslumbrante visual campestre, foram adaptadas para o transporte de humanos, outrora dignos, agora reduzidos a porcos e a animais de quinta categoria. Até os bancos que não eram acolchoados foram barbaramente arrancados para que mais e mais famílias fossem apinhadas.

Assim espremidas, sem privacidade, submetidas a métodos retrógrados de higiene, ao menos, pelo calor dos corpos, podiam se esquentar, pois suas roupas não eram suficientes, e retardar a morte pelo frio extremo antes que chegassem ao destino final. Não sabiam o que os aguardava, mas só a condição subumana em que conviviam no trem e a maneira agressiva como foram retirados de suas casas e enfiados ali, já sinalizavam com todas as letras o fim da linha. Crianças chorosas e soluçantes, mulheres inquietas e trêmulas, homens desolados e de olhar perdido. Muitos passageiros foram empurrados para os vagões frios já previamente peneirados entre válidos e inválido, úteis e inúteis, capazes e incapazes.

Essas vidas desvalorizadas, reduzidas ao nada, entendidas como insignificantes pelas sórdidas intenções dos que estavam no poder e ousavam julgar seus semelhantes, eram imediatamente ceifadas sem direito à súplica. Mães assistiam aos filhos enfermos sendo puxados de seus braços e executados a sangue frio. Netos observavam, aflitos e passivos, seus avós sendo arremessados cruelmente do último andar de suas casas, muitas vezes quando jantavam calmamente, na calada da noite. Reduzidos a produtos que seriam descartados mais cedo ou mais tarde, os "tomates podres" apontados por bárbaros impolutos e bem vestidos, eram esmagados pelas mãos do ódio antes mesmo de embarcarem para a morte. Por causa das circunstâncias inóspitas a que se submetiam nas cabines do trem, mesmo os mais saudáveis e robustos que seriam aproveitados para trabalhos pesados, ficavam suscetíveis ao contágio de doenças incuráveis, sucumbindo antes do fim.

Por mais que estivessem naquele trem, sendo concedido o adiamento do inevitável desfecho trágico, a via férrea só lhes permitia a lamentável sobrevida. Alguns ainda tinham a felicidade transitória de se reunirem derradeiramente com suas famílias ao longo de todo o percurso. De alguma forma compartilhavam o sofrimento e a apreensão com um pouco de calor e afeto de pai, de mãe, de filhos, de esposa e marido. Nas poucas malas permitidas, os pertences mais caros não eram objetos usáveis, mas sim sentidos. Lágrimas, saudades, um aroma bom de infância, um sabor suave de dias amáveis na ponta adocicada da língua, ursinhos de pelúcia, caixinhas de música, trapinhos de história e paixão, carinho e dor, valores de uma memória que lutava com unhas e dentes para que não se perdesse.

Itzig, um jovem que ainda não chegara aos trinta anos, viajava sozinho. Seus irmãos foram postos em outro vagão, ou mesmo em outro trem, mas isso era o que ele acreditava, pois os que restaram ao massacre da primeira seleção ficaram para trás quando Itzig fora embarcado à força. Por resistir ao embarque, sem querer que seus irmãos ficassem para trás, recebera uma pancada na cabeça com a coronha de um revólver. Se seus colegas de infortúnio não se solidarizassem, teria se esvaído em sangue até perder os sentidos subitamente. Embora, infelizmente, nem toda solidariedade, boas intenções e caridade, resultem sempre na benção da vida. Um homem alto, de boina, pegou um pano bordado em sua malinha, um artefato sagrado com uma insígnia bordada, desdobrou-o e o levou aos lábios para beijá-lo. Logo depois, com os olhos fechados, rasgou-o com um só movimento dos dedos.

Recorreu novamente à sua mala. Apanhou uma espécie de emplastro curativo, uma mistura úmida de ervas que estava num potinho redondo, aplicou-o no ferimento da cabeça de Itzig para cicatrizar e em seguida enfaixou-o para estancar o sangue que escorria sem parar. Em contato com a substância, fez uma careta de dor e rapidamente encolheu-se no canto do vagão. Com a cabeça entre os joelhos, permaneceu um tempo em silêncio. Itzig levou as mãos ao abdômen, contorcendo-se e fazendo um esgar de dor. Olhou à sua volta. Avistou apenas um baldinho usado como latrina improvisada. Sentiu ojeriza. Esperou que melhorasse, mantendo-se por mais algum tempo sentado e recurvado, com a cabeça entre os joelhos, sem recorrer à tal necessária humilhação.

Quando restava apenas uma leve sensação de desconforto intestinal, ele se levantou escorado por outros dois homens um pouco mais velhos. Já de pé, sem ter em que se apoiar, tocou em cilindros de ferro. Ao virar-se para tal, deparou-se com as grades na janela, confirmando se tratar de um cárcere sobre trilhos. O vento frio já lhe inflamara a garganta, deixando-a de aspecto macilento pela infecção atroz. Percebeu o motivo de muitas crianças agonizarem, respirando mal no colo de suas mães e com o peito arfando em suspiros penosos. Uma delas já exibia um aspecto arroxeado de tanto frio. A janela não tinha vidro, só as barras da jaula móvel em que cumpriam o martírio. Alguns montículos de neve já se acumulavam no interior do vagão.

Os que podiam, cobriam o nariz com cachecóis ou aproximavam a ponta de mantas para filtrar o ar gelado que já enrijecia a tez dos mais debilitados. Itzig segurou firme nas barras de ferro e, protegendo o nariz com uma das mãos em formato de concha, observou o horizonte branco e as quase invisíveis copas verdes das árvores, por causa da neblina que se avolumava. Entrando em contato com a natureza, Itzig despediu-se de sentimentos puros que ainda lhe povoavam a alma. Seus sorrisos, amores e ilusões - os únicos que nasceram livres e assim sempre serão -, ultrapassaram as grades vergonhosas que segregavam a vida com um leve aceno de saudade. Itzig visualizou mentalmente seus pais adoecidos que não tiveram suas vidas poupadas. Foram executados com um tiro. Um tiro covarde que cada um recebera na cabeça. Mortos pela estupidez de um regime sangrento.

Sentiu novamente uma pontada dolorida no peito, como se sua noiva fosse arrancada outra vez de seus braços e jogada com tanta brutalidade ao chão que não resistira. Ela fora espancada enquanto já extinguia o sopro de vida do seu peito. Durante a sessão de tortura, com golpes de botina no ventre já morto, os soldados gargalhavam com o sofrimento de Itzig - que presenciara tudo sem nada poder fazer. Toda maldade assolando um Itzig impotente em seu desespero absoluto. Ainda na janelinha do vagão, ele se angustiou também por não saber do paradeiro de seus irmãos, atirados à própria sorte. Tal turbilhão de emoções fez com que ele forçasse instintivamente as barras de ferro, com ambas as mãos, para entortá-las e abrir uma brecha capaz de passar um corpo inteiro. Ao se deparar com tal pretensão, analisou-se dos pés à cabeça. Estava enfraquecido, desnutrido. Assustou-se com sua magreza quase cadavérica. Percebeu que precisaria apenas de um pequeno espaço entre as grades para que seu corpo franzino passasse.

Olhou à sua volta. Parecia invisível aos seus companheiros. Forçou ainda mais as sólidas e intransponíveis barras de ferro. Forçou pela terceira, quarta, quinta, sexta vez, até se esgotar quase que completamente. Observou outra vez seus colegas de cela. Todos o ignoravam, sem exceção. A solidariedade que tiveram com ele quando ali chegou havia cessado. Ninguém mais se solidarizava. O semblante de todos exibia apenas a resignação com o destino cruel. Estavam conformados com a condenação imposta pela soberba humana. Itzig convenceu-se que teria que agir sozinho. Retirou seu casaco de flanela, enroscou-o numa das barras, segurou nas extremidades do tecido e, chegando ao máximo que podia para trás, impulsionou os braços com toda força.

Como a flanela começou a ceder, viu que necessitava aprimorar a ideia. Chegou à conclusão que com a flanela molhada, girando-a em espiral até formar um tipo de trança, faria um resistente torniquete. Foi direto a um dos montinhos de neve no canto do vagão. Cambaleou pelo frio intenso que já o corroía pela falta do agasalho. Agachou-se para umedecer a flanela. Como o gelo que derretia não era suficiente para encharcar o pano, frustrou-se. Olhou para um lado, olhou para o outro. Ficou sem alternativa. Pensou em desistir até ver o baldinho que era usado como latrina. Mesmo enojado, foi até ele e enfiou de uma tacada só, com a cabeça virada para o lado, mantendo os olhos fechados e prendendo a respiração, o casaco inteiro na urina já turva e viscosa.

Devidamente encharcado, preparou o torniquete, enlaçou-o na grade, tomou distância, e puxou com toda força que ainda possuía, assim como as crianças brincando de cabo de guerra. Puxou, puxou, puxou, trincando os dentes e soltando grunhidos pela agressividade que imprimia na trança, descontando toda a raiva e o ódio reprimidos. Seu empenho foi tanto que, ouvindo um rangido, a barra de ferro foi entortando, entortando, entortando, até abrir um espaço suficiente para que seu corpo seco pudesse passar. Antes de partir, apenas com uma camisa pouco impermeável à friagem, Itzig deu uma última olhada para trás, buscando um olhar de complacência dos companheiros. Continuavam ignorando-o. Não compreendeu. Tal situação era absurda. Eles não podiam permanecer tão conformados com o juízo final. Muitos, como ele, passariam facilmente por entre aquelas grades entortadas. Não suportando o alheamento, gritou a todo vapor, usando o máximo de seus pulmões, para que aquele povo todo despertasse do sonambulismo.

Achou que temessem a morte, que acreditassem que se fossem descobertos seriam assassinados imediatamente. Mas morreriam de qualquer jeito. Por que ninguém, além dele, queria se aventurar numa fuga espetacular como possibilidade ímpar para que suas vidas fossem enfim devolvidas? Itzig desistiu de esperar pelos outros. Saltou, espremendo-se todo até se jogar do trem em movimento, caindo de joelhos num imenso bolo de neve. Ao se entregar à liberdade de braços abertos e com um sorriso de cabo a rabo estampado no rosto, nem sentiu o corpo ralado pela queda. Encantou-se ao contemplar os frondosos abetos, cedros e pinheiros com suas folhagens verdes cobertas pela brancura da neve. Alegrou-se com o canto do chapim-real e do pisco-de-peito-ruivo, embalando a liberdade com uma música sublime.

Ao erguer-se do chão, viu um arco-íris de cores brilhantes. Como os antigos sempre afirmavam que a bonança estava no final do arco-íris, foi ao seu encontro, na esperança de voltar para casa. Porém, quanto mais dele se aproximava, mais dele se afastava. Itzig, exausto, deixou-se desabar novamente naquela neve de dor. Lá ficou até ser tocado por delicados dedos de mulher. Abriu os olhos com dificuldade. Esfregou-os, não acreditando no que acabara de ver. Sua noiva sorria para ele, convidando-o para que se levantasse e segurasse sua mão. Sem nada falar, apenas correspondendo ao sorriso da amada, obedeceu ao pedido dela sem titubear. Abraçou-a calorosamente e demorou-se num longo beijo de cumplicidade, paixão e saudade. Ela o levou mais à frente. De trás do arco-íris, seus pais apareceram. Suas imagens pouco nítidas, distantes, meio nebulosas, foram adquirindo foco, nitidez, até o semblante do pai e da mãe exalar um puro e verdadeiro amor. Itzig não resistiu e se entregou às lágrimas copiosas.

Não contendo a emoção, correu para abraçá-los. Abriu os braços ao máximo que pôde para envolver os três de uma só vez, como se fosse um meninote exigindo de sua pequena compleição física dar a volta com os bracinhos de fino calibre, num grosso e antigo tronco de árvore. Sua voz sumira, pois seus sentimentos transbordaram. Só as lágrimas e os beijos da noiva e de seus pais lhe tocavam a face trêmula. Quando se recuperou suficientemente do enternecedor reencontro, acalmando-se e reorganizando o raciocínio para falar, indagou a respeito dos irmãos que ficaram para trás quando ele embarcou. Seus pais se limitaram a olhar para ele com doçura e carinho. Sua noiva foi quem tomou a palavra, dizendo que ainda não havia chegado a hora deles, que passariam por tormentas, mas que ficariam bem e chegariam à velhice.

Itzig pouco compreendeu o que ela dissera, afinal, todos ali também estavam bem, mas atribuiu o estranhamento de sua escuta ao trauma vivido até então. Também não quis pensar, para não reviver a tragédia, sobre ter visto seus pais e sua noiva sendo mortos. Talvez o momento traumático assim tinha desenhado a cena, pregando-lhe uma peça, pois a morte não passara de má alucinação. Aceitou a sucinta explicação da noiva. Olhou para todos com enorme felicidade, apalpando-os para se certificar da realidade do amor e como deles não mais suportasse se separar. Desse jeito, Itzig caminhou com eles para onde tinham surgido, atravessando a túnica transparente de sete cores vivas, para o outro lado do arco-íris.

No vagão, por mais que se esforçassem para estancar o sangramento - fluindo continuamente feito água tingida de vermelho - do rapaz que recebera a violenta coronhada, o unguento e a tala não foram suficientes para conter a vitalidade que dele escapava a galopes acelerados. Sem que ninguém nele mais mexesse, lá ficou, na mesma posição, sentado e com a cabeça entre os joelhos, balançando os ombros flácidos apenas ao trepidar da locomotiva, até a última estação.


Escrito por Alex Azevedo Dias.

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