Uma Cena no Rio.

quinta-feira, 24 de julho de 2014


Uma Cena no Rio.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Foi à recepção, mostrou a identidade surrada à recepcionista para provar que era o dia do seu aniversário, e apresentou-lhe sua acompanhante para que também entrasse com gratuidade. Deteriorada, a carteira estava com os dias contados. Com dificuldades em conferir a data, a recepcionista ameaçou retirá-la do envelope plástico. Instintivamente, Lourival esticou o braço e agarrou o pulso da moça, evitando que os restos mortais se esfarelassem de vez. Assustada, a fiel funcionária manteve o olhar fixado nos olhos de Lourival. Titubeou. Em coisa de segundos, foi dominada por um desejo irresistível de chamar o segurança e expulsar o cliente abusado. Conteve-se. Observou a data, confirmou com o gerente a gratuidade do casal. Carimbou e assinou a comanda, autorizando a isenção da entrada.

Lourival enlaçou Catarina pela cintura, recebendo um beijo no canto da boca e um sorrisinho cúmplice. Subiram a suntuosa escadaria de madeira de lei, embalados pelo ritmo contagiante da percussão que espocava do palco retrô com finas cortinas vermelhas, decoradas com babados típicos de cabarés. O gogó afinado do cantor, reverberando no salão abarrotado de amadores rodopiando e tropeçando nos pés das parceiras, entoava um "Lalaiá, lalaiá, laiá... Lalaiá, lalaiá, laiá, o show tem que continuar...". O ambiente dançante era sufocado por objetos antiquíssimos, adornos seculares, esculturas renascentistas, pinturas modernistas, monumentos bizantinos, cadeiras flutuantes, presas por invisíveis fios de náilon, painéis com inúmeros retratos antigos, lustres e candelabros, sombrinhas asiáticas, ecletismo pitoresco e bem brasileiro com uma culinária típica e música para nenhum carioca botar defeito.

Contaminada pela atmosfera nauseante, Catarina puxou Lourival para dançar. Contrariado, pois queria se sentar no enorme sofá vinho e reconhecer antes de qualquer coisa, ao lado da mulher, o terreno em que pisava, continuou deslizando pelo salão, indiferente. Ela o tocou no ombro, insistindo para que ele se virasse e aceitasse seu pedido. Mas se manteve impávido e incorruptível, fingindo não se importar com a encarecida teimosia da mulher para que lhe concedesse uma dança. Enfezada e profundamente amargurada com a recusa daquele homem ignorante, Catarina encurtou o vestido - que já era bem curto -, deixando as coxas livres, leves e soltas. Pediu passagem - sem ter dificuldade para isso -, arrumando-se exatamente no meio do salão. Lá, bailou desavergonhada, vibrante, recheada de frenesi e sex appeal.

Ao seu redor, o salão esvaziou. Os casais e os solitários encostados no corrimão da escadaria pararam subitamente. Olhares excitados, babões boquiabertos, mulheres estupefatas e marinheiros de primeira viagem foram espontânea e energicamente atraídos para aquela extasiada e extravagante dançarina. Alguns, talvez motivados pelo vestido vermelho e rendado da moça, acreditaram piamente que se tratava da incorporação contumaz da Pomba Gira, saltitando e seduzindo os homens com seu encanto de sereia foguenta. Moçoilos afoitos tentaram uma abordagem mais acintosa, puxando-a pelos braços, pernas e alisando seus cabelos. Lourival, sem querer se virar para trás e não dar o braço a torcer a Catarina, custou muito para perceber a balbúrdia no salão. Um sujeito atarracado e rechonchudo que piscava demasiadamente e apontava com a boca, fazendo biquinho para chamar a atenção do possível futuro corno da noite, rejeitou sua incisiva recusa de reconhecer o par de chifres e o informou do fato quase consumado. Lourival, que mordiscava despreocupadamente um palito de dentes, virou-se inflamado, já inconformado pelas caretas de deboche que eram dirigidas a ele.

Não acreditou no que viu. Cuspiu furioso o palito mordido por cima de seu ombro direito. Contraiu o cenho, bufou, fez que ia... fez que não ia... e precisou de amparo para não tombar para trás. Estava tonto, zonzo, vendo estrelinhas. Tudo rodava ao ritmo do rodopiar de Catarina e da batida do tambor. Algumas pessoas conduziram-no ao requintado sofá que desde o início quisera se sentar com conforto e aconchego. Precisava tomar fôlego, colocar a cabeça no lugar, mas a visão de Catarina se esbaldando e sendo apalpada por marmanjos xexelentos, nauseava-o ainda mais. Acabou ficando com o semblante vermelho-escuro, quase se assemelhando ao estofado vinho do sofá tão cobiçado.

Atarantado, visando ganhar tempo e força, pediu ao garçom uma aguardente poderosa. O garçom o serviu prontamente. Uma dose caprichada. Lourival virou o copo e, numa golada só, sorveu todo o conteúdo do copinho de vidro. Com as costas da mão esquerda, limpou a boca e soltou um guincho de prazer. O garçom ofereceu outra dose. Ele tomou a garrafa da mão do pacífico empregado, encarando-o com a cara feia, agarrou a botija imitando terracota da cachaça, e a abraçou com ardor. Encostou a embalagem da bebida no peito, que arfava ininterruptamente como um galo de briga, e mandou que o garçom se afastasse.

O homem cordial e servil obedeceu-o sem nenhuma resistência, apenas anotando na comanda o pedido avantajado do cliente beberrão. Depois de já suficientemente calibrado, sobrando apenas um golinho no fundo da garrafa, Lourival se levantou. Cambaleou e inclinou o corpanzil para trás, ficando por um triz de desabar outra vez. Nesse instante, Catarina estava sendo carregada por cinco trogloditas salivando e sem camisa, girando nos braços o seu corpo suado e arrepiado pela adrenalina e feromônios reinantes no salão. Lourival aprumou-se, ficando ereto e alinhou os ombros. Cerrou os dentes e mirou a mulher de forma fulminante, espumando e grunhindo. Fuçou o chão feito porco ou boi bravo e se atirou de cabeça como autêntico chifrudo enraivecido para derrubar os cinco pinos bombados de um boliche grotesco.

Antes que o indignado Lourival chegasse perto dos brutamontes embevecidos pela folia das curvas de Catarina, ela saltou e se requebrou para longe dali, enquanto ele, cabeceando o rígido abdome de um careca aluado, desequilibrou-se e bateu no corrimão entalhado também numa nobre madeira de lei. De lá, escorregou e se precipitou no vazio, desabando até se estatelar no pavimento inferior. Catarina, sambando às apalpadelas dos barbados gotejando libido, estancou os movimentos sinuosos e provocantes ao ouvir aquele estrondo vindo do primeiro piso. Ela chegou ao corrimão e se debruçou para observar de perto Lourival esborrachado lá embaixo. Estremeceu. Pôs instintivamente as duas mãos na boca, abafando um suspiro mais profundo, e se afastou. Um chinês animado e ébrio, alheio ao sofrimento da pobre mulher, tascou um tapa bem dado nas nádegas de Catarina. Ela se virou imediatamente.

Do alto de seus saltos monumentais, teve dificuldade de notar um jovem chinês sorridente ameaçando dar um apertão em seus seios, esticando o braço com supremo empenho de baixote tarado. Sem pensar duas vezes, Catarina aplicou um tabefe certeiro no meio da cara do chinesinho abusado, que caiu para trás desacordado. Catarina desdobrou o vestido, cobrindo novamente as coxas, arrancou os sapatos, desceu a escadaria com pressa e meio desajeitada e se ajoelhou ao lado de Lourival. Agarrou-o pelos ombros e o fez virar de barriga para cima. Deu uns tapinhas em suas bochechas. Ele abriu os olhos preguiçosamente. Um sorriso estonteante estampou-se de súbito no rosto fogoso e irrequieto daquela mulher. Debruçou-se mais sobre o peito de Lourival e começou a beijar, satisfeita, toda a extensão da cara daquele valente e combalido homem.

Ele se levantou, apoiando-se no espaldar de uma cadeira decorativa, objeto do antiquário, e enlaçou Catarina pela cintura, assim como ali chegaram. Ela, vencendo o mau hálito deixado pelo excesso de birita, beijou-o com tal enroscar de língua jamais presenciado na história de pés de cana, bambas e manguaceiros cativos. Por alguns segundos, a maioria parou de dançar e aplaudiu aquela explosão de amor e volúpia. Rapidamente, embalados pelo batuque e pelo beijo arranca-goela, todos novamente caíram na cadência bonita do samba.

Enquanto a percussão e o gogó do vocalista pegavam fogo, o casal não mais se desgrudou, dançando até o dia clarear para finalizar, com chave de ouro e muito samba no pé, a comemoração de mais um ano de vida do boêmio Lourival... “Mas iremos achar o tom. Um acorde com um lindo som. E fazer com que fique bom. Outra vez, o nosso cantar. E a gente vai ser feliz. Olha nós outra vez no ar. O show tem que continuar...”. E por aí vai...

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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