Os Olhos de Sara.

quinta-feira, 5 de junho de 2014



Os Olhos de Sara.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Estofado de chenille rasgado. Um rasgão só, de cabo a rabo. Panelas amassadas por uma colher de pau. Cacos de vidro de uma tigela quebrada. Passos de salto alto. Vento gelado sacudindo as palhetas da veneziana.

Destrancou a porta do quarto e a abriu vagarosamente. Temia que fosse vítima, menos de algum fenômeno sobrenatural, do que de um bandido bem real. O breu do corredor impedia qualquer visão mais realista. Inadvertidas projeções do imaginário assustado distorcia a suposta clareza da razão. Apenas o silêncio e o vento frio cortavam o olhar esmaecido. Jana encostou a porta. Não ouvia mais nenhum movimento suspeito lá fora. Virou-se para a cama e ajeitou a coberta. Passar outra madrugada em claro seria impraticável. Não suportava mais a sonolência durante o dia. Sua jornada de trabalho pouco rendia após as estranhezas noturnas que não a deixavam dormir. Jana se sentou na cama. Dobrou a ponta da coberta e a levantou até o pescoço.

Ao suspender a perna direita, mantendo a outra ainda para baixo, sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha. Dois olhos redondos a contemplavam, saltando das órbitas. O branco dos globos oculares irradiava uma luz ofuscante. Jana tremia, suava frio. O medo era tanto que a paralisou. Aquele par de faroletes óticos ainda esbugalhara mais, aproximando-se de Jana. Os olhos assombrosos chegaram tão perto dela que se dissiparam como fumaça no instante que tocaram seus cabelos. Jana se manteve na mesma posição. Os braços erguidos, suspendendo a coberta. Uma perna repousando no colchão e a outra para fora da cama. Seu calcanhar gelara em contato com o piso rajado do porcelanato, feito águas turvas. Gotas de suor jaziam esquecidas no chão. Jana respirou fundo. Conseguiu colocar a outra perna debaixo da coberta. Com as duas mãos, cobriu a cabeça, deixando apenas a ponta dos dedos de fora. Esperou o medo passar.

A tremedeira cessou. Descobriu a cabeça suficientemente para enxergar ao redor. Tudo calmo. Nenhuma aparição assombrara mais seus nervos óticos. Nenhum pesadelo sonoro repetira a tormenta de sua audição ao longo da madrugada. Já pela manhã, os primeiros raios de sol aqueceram suas pálpebras, forçando-as para que se abrissem. Jana precipitou-se da cama, sem se espreguiçar. Deu uma ligeira espiada a sua volta. Tudo normal aparentemente. Todos os pertences e objetos em seus devidos lugares apesar daquela maldição noite após noite. Abriu a porta, saiu do quarto e entrou no banheiro. Depois, foi até a cozinha, pegou uma garrafa com água na geladeira e bebeu um gole no gargalo. Virou-se e se deparou com a porta do quarto de Sara trancada. Não resistiu em se curvar levemente até acomodar a orelha na porta. Nada pôde ouvir. Recuou o corpo suficientemente para colocar a mão na maçaneta e virá-la com suavidade.

Sara estava deitada de bruços. Deslocou-se na ponta dos pés para não incomodar a amiga com o barulho dos seus passos. Chegou cada vez mais perto para melhor visualizar o semblante de Sara. Jana agachou-se, ficando cara a cara com a amiga adormecida. Nesse instante, Sara abriu os olhos. Fixou o olhar em Jana, sem piscar nem mudar de posição na cama. Olhos redondos, medonhos, brilhantes, pretendendo engolir quem quer que fosse fitado por eles. Jana sentiu seu corpo gelar, arrepiar, descompensar. Era o mesmo olhar que a amedrontara em todas as madrugadas mal dormidas. Olhar de assombração. Olhar das trevas prestes a devorá-la, fazendo-a sucumbir ao desespero e à agonia.

Quando Sara recorreu à amiga, pedindo ajuda por não ter onde morar, Jana não sabia o terror que estava a sua espera. Após uma discussão com o noivo, que por pouco não descambou para a agressão corporal, Sara amargurou-se. Tornou-se vítima de uma depressão crônica que culminou em sua exclusão do mercado de trabalho. Sua facilidade em se comunicar arruinara-se na sombra da tragédia matrimonial. Sara passou a ameaçar o ex-noivo após ser obrigada a sair de sua casa. Uma intervenção policial a fez tomar distância do rapaz. Sara definhou gradativamente. Chorava, não comia, morria. Como era órfã de pai e mãe, pois ambos foram vitimados por um acidente de carro quando Sara tinha seis anos de idade, uma tia afastada se solidarizou e abriu a porta de sua casa para recebê-la. Sara estava no carro com seus pais no dia fatídico. Sobreviveu por um milagre.

A chegada de Sara ao mundo já fora um verdadeiro enigma. Ela tinha uma irmã vinte anos mais velha, casada, mãe de um menino, que assumiu a criação da menina após a perda abrupta dos seus pais. Após o nascimento de Judith, sua irmã, por causa de uma enfermidade uterina, a mãe se submeteu à laqueadura das trompas, evitando assim uma futura gestação de alto risco. Quando Judith estava prestes a completar vinte e um anos, sua mãe, que se tornara bastante rechonchuda ao longo dos anos, tinha ido ao médico para tratar uma azia desconfortável e recebera a notícia surpreendente que, além de estar grávida, faltava poucos dias para parir. Era uma menina. O casal ficou em estado de choque. Não sabia como proceder perante tal ironia do destino. Depois de vinte anos teria mais uma filha. Nem a doença uterina, nem as trompas ligadas impediram aquela gestação, que só foi descoberta quando a menina já estava quase nascendo. Por achar que se tratava de obra da providência divina, decidiram chamá-la pelo nome bíblico, Sara.

Ela era uma criança normal. Seus grandes e expressivos olhos logo se transformaram no xodó da família. Mas após o acidente fatal, tudo mudou. A expressão de alegria nos seus grandes olhos desaparecera. Olhos redondos de tormenta, pesar e horror. Até os dez anos, a menina perdera a capacidade de falar. Só emitia gemidos. Judith se atemorizava sempre que Sara, sentada a sua frente, no chão, fitava-a com aquele par de olhos redondos e amedrontadores. Judith ficava paralisada de medo. Queria gritar, correr, fugir dali. Mas ia ao seu encontro, afagava seus cabelos e a colocava sentada numa antiga cadeira de balanço, herança de seus avós. Só aos quinze anos, depois de apenas balbuciar sons incompreensíveis, Sara, como num passe de mágica, voltou a falar. Judith foi pega desprevenida. Assustou-se, mas a alegria vencera o medo. Abraçou a irmã, deixando que algumas lágrimas deslizassem de seu rosto e molhassem os olhos de Sara. A sensação de ter os olhos molhados pelas lágrimas da irmã lhe provocou uma repulsa instintiva. Subitamente empurrou Judith que, perdendo o equilíbrio, tombou. Seu marido e filho olharam a cena espantados.

Judith se levantou, ameaçou se reaproximar de Sara, mas, atônita, retirou-se, deixando-a sozinha. O filho de Judith, quando passava por Sara, mostrava a língua e fazia gestos obscenos. Ela o ignorava. Judith evitava o contato do seu filho pré-adolescente com sua irmã. Mas por morarem na mesma casa, a convivência era inevitável. Sara estudou. Era uma boa aluna. De uma criança que quase não falava, expressando-se apenas com os olhos, passou a ser uma comunicadora fantástica. Logo foi descoberta como jovem e promissor talento por uma empresa multinacional de publicidade. Sara vendia bem o seu peixe. Os clientes a adoravam e a empresa confiava em seu poder de persuasão. Após convencer o seu ex-noivo, Sara logo se mudara da casa de sua irmã. Alugaram um apartamento e foram morar juntos. Quase um ano depois da mudança, como maléfica repetição do destino, Judith, seu filho e o marido morreram também num trágico acidente de carro. Sara soube da notícia sem que o seu porta-voz tivesse o menor cuidado para contar, justamente por seu delicado e trágico passado.

Por quase seis meses ficara novamente sem falar. Seu ex-noivo, compreensivo, ajudou Sara em sua recuperação. Quase perdera o emprego. O rapaz conseguiu negociar uma licença para que Sara tivesse a garantia de voltar a trabalhar quando se recuperasse. No sétimo mês ela voltou. Mas nunca mais rendeu como já rendera. Nada de excepcional. Tornara-se um peso morto para a multinacional. Só a mantiveram no emprego por causa do histórico brilhante, de conquistas, que alavancou os negócios em tempos áureos. Pouco tempo depois, numa crise de sonambulismo que jamais tivera, o ex-noivo sobressaltara-se ao ser despertado pelos redondos olhos de Sara a observá-lo num estranho êxtase, com uma faca de cozinha em punho. Dias depois tiveram uma briga homérica que culminou no término do noivado e na patética expulsão de Sara de sua casa. Sua tia distante a acolheu. Sara não mais voltou ao trabalho. Permanecia olhando para o alto. Às vezes falava de suas mágoas para a tia. Ela a ouvia com cuidado maternal, embora sua presença a inquietasse no âmago do seu ser.

Em um domingo ensolarado, a tia convidou Sara para um passeio de carro. Num cruzamento perigoso, essa tia, que dirigia, assustou-se ao perceber que Sara a contemplava severamente com os olhos arregalados. Distraiu-se. Não viu um caminhão que atravessava em alta velocidade. Uma colisão lateral que deu perda total. Reduzira o veículo a um montante de lata amassada. Mais de um ano após esse acidente, aparentemente ao acaso, Jana encontrou Sara em frente à redação de um jornal em que trabalhava. Surpreendeu-se em vê-la novamente, depois de tanto tempo. Ambas estudaram na mesma sala da faculdade de comunicação social. Jana concluiu jornalismo e Sara, publicidade. Após a colação de grau, nunca mais se viram. As duas amigas foram tomar café numa cafeteria da esquina, conversando animadamente ao longo de alguns minutos.

Jana percebeu que aquela animação toda escondia muita tristeza e pesar. Sara baixou a cabeça e chorou, contando a história de sua aflição e amargura. Falou da tragédia à qual sua vida se reduzira. A amiga sabia dos dois primeiros acidentes que vitimaram seus pais e depois a família de sua irmã, mas não sabia do terceiro que matara sua tia, muito menos sabia que Sara também estava no carro. Jana se comoveu, indo inclusive às lágrimas solidária ao seu tormento. Poucos dias depois desse reencontro, Sara telefonou para Jana pedindo encarecidamente para que ela a hospedasse em sua casa, justificando-se pela incontornável perda do emprego e pela impossibilidade de se recuperar suficientemente do término do noivado. Jana pensou um pouco, mas logo aceitou. Sentia-se sozinha e animou-se em ter companhia, além de poder apoiar a amiga no momento de abalo profundo pelo qual passava. Porém, desde o dia da mudança de Sara para sua casa em diante, ela nunca mais tivera sossego, nunca mais tivera uma noite de sono completa e satisfatória.

Naquela manhã, ao se deparar com o tormentoso olhar da amiga que, deitada de bruços, fixara-se sobre seus próprios olhos, Jana percebera que ao lado de sua cama havia um pedaço rasgado e amassado de jornal. Apalpou o corpo de Sara. Ela se manteve imóvel. Apesar dos olhos arregalados, fitando-a, estranhamente parecia que ainda dormia. Aproximou-se do jornal, abaixando-se para pegá-lo. Desamassou-o cuidadosamente para não rasgar mais e leu a notícia. Levou a mão à boca, assombrada pelo que acabara de ler. Sara falecera no acidente com o caminhão que vitimara sua tia. Os olhos de Sara permaneciam imóveis. Jana se curvou sobre a amiga. Certificou-se se ela realmente dormia. Ela não dormia. Não havia respiração. Jana afastou-se dela ainda mais apavorada. O corpo de Sara foi gradativamente perdendo a densidade. Perdera o colorido, o brilho, a forma, transformara-se em um aspecto esfumaçado. Acinzentou-se. Dissipou-se.

Não havia nenhuma Sara em sua casa. Jana saiu dali, abandonando aquele quarto. Foi até a sala. Olhou a sua volta. Observou a decoração. Não havia nada que fizesse lembrar Sara. Foi até a cozinha. Nenhuma panela amassada, nenhum caco de vidro pelo chão. Abriu a geladeira. Nenhum vestígio que houvesse alguém habitando aquela casa além dela mesma. Sentou-se no sofá. Não havia nenhum rasgão no estofado de chenille. Jana pensou na vida, na morte. Pensou no que as pessoas são, no que já foram e no que nunca serão. Pensou no vazio de sua existência, na estranheza de ser o que era. Não queria mais uma existência falsa e insossa. Queria mais. Precisava pontuar melhor a sua história. Um ponto final no que havia se transformado, no que os outros viam dela, na imagem exterior que, para ser como tal, Jana se tornou o que era, somente Jana. Aquela falsa personalidade, a sua de berço, violentava-a severamente noite e dia. Um ponto de basta. Estava prestes a inaugurar uma continuação mais real, reencontrando sua essência. Uma vírgula seria oportuna, uma vírgula que separaria a antiga Jana de sua nova personalidade. A história sofrida de sua amiga morta a inebriava radicalmente. A partir daquele dia, não mais se chamaria Jana. A partir daquele dia, assumiria sua nova identidade. Seria apenas Sara e nada mais. Jana veria com seus olhos. Eternamente Sara, eternamente os olhos de Sara. Era Sara que estava morta, mas era Jana que deixara de existir. Sara encarnara em Jana. Sara vive!

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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1 comentários:

{ Alex Azevedo Dias } at: 23 de julho de 2014 17:28 disse...

Amigos, convido-os à releitura. Reescrevi o final. Totalmente diferente do primeiro. Nova versão mais surpreendente. Eu os aguardo para novas leituras. Abraços, Alex.

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