O Brejo e o Quarto.

terça-feira, 20 de maio de 2014



O Brejo e o Quarto.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Certa noite, Astolfo, um sapo cururu escorregadio, encardido e enrugado, após coaxar alegremente num brejo em frente à janela de uma casinha, saltou tanto com as fêmeas ao seu redor que acabou caindo na cama de uma jovem adormecida.

Num reflexo, pelo impacto do bicho nos lençóis, a jovem dobrou uma das pernas para logo depois jogá-la para o lado, acertando em cheio o pobre Astolfo. Ao sentir aquele objeto almofadado com a panturrilha, apesar de meio gosmento, ela teve um prazer inenarrável e, ainda mais reconfortada, continuou o soninho.

O sapo, cada vez mais esmagado, tentou coaxar para se livrar daquele pedaço roliço de pele, carne e osso, mas seus esforços foram em vão. Já quase todo amassado, parecendo uma ervilha pisoteada por um mamute, o anuro Astolfo reuniu toda a sua energia para escapar daquela torturadora batata da perna.

Inflou tanto sua bolsa vocal, gerando um coaxar tão estridente, que seu corpinho já fragilizado esticou o máximo permitido por sua pele elástica. Como uma bexiga, ou um balão de soprar, cujo limite de ar se excedeu, Astolfo estourou. Partículas gelatinosas espirraram para cada cantinho do quarto. Uma delas, inclusive, foi parar exatamente no meio da testa da jovem que, abalada pelo barulho e pela comichão, acordou.

Evelin ficou apalermada com o ocorrido. Não compreendia a origem daquelas coisinhas nojentas espalhadas pelos móveis e paredes do seu quarto. Sua pele estava empolada e avermelhada. Ela se coçou até quase se rasgar. Mas até aí, um bom banho resolveria. Só que a elevação de sua perna a deixou intrigada. Havia algo volumoso embaixo de sua panturrilha.

Ao levantar a perna, um novo espanto: Um homem de baixa estatura, meio encardido e enrugado, dormia calmamente abraçado à sua canela. Evelin reprimiu um grito. Teve o sangue frio para erguer o corpo e, com uma das mãos, sacudir o ombro do pequeno homem. Ao abrir os olhos e dar com a jovem assustada contemplando-o, o homenzinho soltou um berro, pulou da cama e se atirou pela janela.

Evelin foi até a janela para tentar ajudá-lo. O homenzinho estava caído com o rosto enfiado na lama. Ela se apoiou no parapeito da janela e, impulsionando-se, chegou ao outro lado para socorrer o pequeno. Tentou acalmá-lo e pediu para que ele a esperasse. Ela voltou com uma toalhinha úmida, álcool e algodão para limpá-lo e desinfetar seus ferimentos.

Após ajudá-lo, ela o convidou para que voltassem para o quarto. Ele aceitou. Ela apontou duas cadeiras para que se sentassem. Ele obedeceu e escolheu uma mais ao canto. Ficaram por um tempo só olhando um para a cara do outro sem que nada dissessem, até que ela interrompeu aquele silêncio constrangedor:

- Quem é você? Como chegou ao meu quarto?

O pequenino respirou fundo, encheu os pulmões de ar e vocalizou o sonoro "coach-coach". A jovem ficou perplexa. Esbugalhou os olhos para imediatamente fechá-los. Ameaçou fugir dali e nem olhar para trás. Mas tal fuga espetacular ficou só na imaginação. Ela permaneceu imóvel. Recuperou a abertura normal dos olhos e apenas deu sutis piscadelas. Não quis que o homem que coaxava em vez de falar se sobressaltasse, fugisse desesperado ou mesmo a atacasse. Tentou novamente um contato amistoso:

- Por que você imita sapo?

Ele se esforçou mais, coaxou mais algumas vezes, balançou a cabeça sucessivamente e, enfim, falou:

- Oi.

- Ah, finalmente... Pensei que você não falasse.

- Sim, eu falo. Desculpe o meu mau jeito. Seu quarto é bem bonito. Gosto dessa tonalidade verde-clara.

- Ah, obrigada. Mas afinal, quem é você? O que faz aqui?

- Eu me chamo Astolfo. Estava namorando ali ao lado quando caí em sua cama.

Evelin torceu o nariz, elevou as sobrancelhas e contraiu as maçãs do rosto. Não podia acreditar que alguém namorasse debaixo de sua janela enquanto ela dormia inocentemente. Menos ainda podia acreditar que um sujeitinho esquisito como aquele pudesse namorar.

- Oi, Astolfo. Eu me chamo Evelin. Mas que história é essa de namorar perto da minha janela?

O ex-sapo engoliu a seco, franziu seu recente cenho humano, coçou a barba espessa e... Antes de tudo, apavorou-se com aquele excesso de pelo em seu queixo. Não sabia nem que tinha um queixo, muito menos que fosse tão peludo. ...e pigarreou efusivamente, para não coaxar.

- Eu... é... Sou um sapo! Pronto, falei.

Evelin colocou a mão na boca para conter um risinho de estupefação por ouvir tamanho absurdo. Quis dizer algo, mas um soluço insistente não a deixou pronunciar nenhuma palavra.

Subitamente, interrompendo o riso, uma desconfiança invadiu seus pensamentos. Temia que o homem a sua frente fosse um louco fugitivo. Precisava telefonar para as autoridades. Precisava interná-lo. Pensou em espancá-lo, matá-lo, proteger-se contra qualquer possibilidade de se tornar vítima do miúdo insano.

Uma comichão novamente lhe subiu pelas coxas. Um desejo intenso de copular atingiu-lhe à intimidade. Sua pele novamente ficou severamente empolada. Só que a vermelhidão cedeu lugar ao tom esverdeado. A urticária evoluiu até enrugar toda a extensão do seu corpo. Sua estatura reduziu-se drasticamente. A cadeira aumentava na proporção que Evelin diminuía.

Astolfo se levantou e foi até a cadeira em que Evelin estava sentada. Pegou o pequeno animal no qual a jovem se transformara, colocou-o no ombro e pulou a janela. Ao longo do brejo, Astolfo massageava o pescocinho enrugado da jovem. Em cada palavra que falava, ele esticava a garganta de anuro de Evelin, ensinando-a a coaxar.

Numa atitude radical, após pronunciar a palavra "amor", Astolfo abriu a boca de Evelin e soprou com toda a sua força. Percebendo que ela nunca assimilaria suas palavras e as convertesse num significativo coaxar, ele apertou o biquinho da boca de Evelin e o amarrou com um barbante que antes servia para prender sua barba.

Após inflar o corpinho da pequenina jovem como um balão de gás verde e enrugado, Astolfo seguiu com um animado assovio pelo brejo adentro, segurando o barbantinho numa ponta, com a sapinha flutuando na outra.

Ele só não sabia se seriam felizes para sempre. Ele, antes sapo, agora um homem feio. E ela, antes uma bela mulher, agora uma sapa cheia de ar - e não de si. E se vivessem felizes? Essa felicidade toda se daria no quarto ou no brejo? Talvez tanto faz como tanto fez. E... assim caminha a humanidade e... os sapos também.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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