Do Jeito que Baco Gosta.

terça-feira, 20 de maio de 2014




Do Jeito que Baco Gosta.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Acostumado ao ambiente de botequins, Célio foi levado por sua nova companheira a uma requintada enoteca italiana. Ele nunca ouvira falar de um lugar com tal nome. Samaria lhe explicou que é só numa enoteca que os vinhos mais raros se encontram. Ele sabia que só o nome já era caro, mas quando soube do produto comercializado, sua carteira de dinheiro sofreu um tremelique patológico. Já à porta de entrada, Célio sentiu a primeira pontada de desgosto. O lugar era de uma finura incorrigível. Todos os cantinhos amadeirados. A iluminação era apropriada para aconchegar e, consequentemente vender mais: uma penumbra saudável para relaxar e degustar, sem nem sentir o tempo passar. Decoração assinada pelos mais renomados artistas.

Lustres cinematográficos. Uma adega climatizada aos fundos do estabelecimento de cair o queixo. O uniforme dos atendentes era impecavelmente asséptico e irretocável. Samaria e Célio foram recepcionados e levados à mesa reservada. O sommelier se aproximou e ofereceu ao casal a carta de vinhos. Enquanto escolhiam calmamente, ele disse que todos os vinhos da casa procediam da vinícola Paradiso di Frassina na região da Toscana. Disse também que o proprietário da vinícola deixava tocando o dia inteiro as composições de Mozart para que as parreiras ficassem alegres e produzissem uvas mais saborosas. Ele sugeriu a especialidade da casa, o vinho tinto chamado Brunello di Montalcino.

Célio ensaiou perguntar o preço, mas Samaria lhe deu uma pisada no pé para que ele não ousasse ser indelicado. O rosto de Célio inchou mais pela dor na sua unha encravada do que por vergonha. Disfarçou a vermelhidão da face cobrindo-a com o lenço de pano branco que estava no seu colo. Tal atitude foi recebida por uma nova reação de Samaria: um pontapé na canela. Menos por desconhecimento do que por nervosismo, o casal aceitou prontamente a sugestão do sommelier.

Logo depois, o especialista em queijos da casa, um francês membro da Confrerie des chevaliers du Taste Fromage, indicou aos dois o emmental ou o camembert. Samaria, fingindo exímio entendimento, optou pelo camembert, de cujo nome já ouvira falar algumas vezes por aí. Célio teve novamente vontade de intervir. Queria pedir seu amigo íntimo: o famoso cardápio "pé sujo". Mas seu primeiro impulso foi logo reprimido por um ligeiro beliscão de Samaria por baixo da mesa em sua batata da perna esquerda.

A garrafa de vinho chegou. O garçom retirou a rolha de cortiça com ímpar maestria e os serviu delicadamente em taças especiais. Colocou uma pequenina dose para cada um, esperando que o homem tomasse a iniciativa de provar e, caso não houvesse avinagrado, assentisse elegantemente para que ele completasse a dose até um pouco antes da metade da taça. Visivelmente irritado pela ínfima quantidade, encarou raivoso o garçom que, temendo aquele ignorante e atroz olhar, derramou logo o vinho nos finíssimos recipientes de cristal.

Samaria e Célio se entregaram ao ritual bizarro de enfiar o nariz na taça quase até encostá-los na bebida bordô. Beberam bem lentamente, estalando o biquinho ao final de cada golada. Quando o camembert foi servido, uma maçã verde acompanhava o glamoroso prato. Célio olhou enviesado para a fruta e estranhou ainda mais a camada mofada na superfície do queijo. Levantou o dedo e gritou: - "Não tem macaxeira frita?". Samaria não previu tal ridícula manifestação, pois cortava seu queijo enquanto Célio deixou escapar o berro vexatório. Samaria arrastou a cadeira para mais perto da mesa, abaixou-se discretamente e deu um soco no joelho de Célio.

Nesse instante, Célio estava saboreando o cremoso camembert e, assustado pelo soco de Samaria, engasgou-se. Começou a se contorcer na cadeira, sufocado. Ficou cada vez mais vermelho. Tentava puxar o ar e nada do ar vir. Virou para um lado, virou para o outro, deu alguns pulinhos sentado, cerrou os punhos, apertou o pescoço até que... Numa tossida magistral, o camembert, já pastoso, saltou de sua boca e foi parar na testa de Samaria. Ela esbugalhou os olhos, deu um instintivo tapa na testa e inclinou o corpo para trás. Foi aí que a força da gravidade não contribuiu muito. A cadeira desequilibrou e caiu para trás com tudo.

O estrondo fez com que todos olhassem. Célio deixou um risinho aparecer no canto da boca. Os garçons ficaram tão comovidos - para não dizer raivosos - que pediram desculpas e imediatamente convidaram o casal para que se retirassem sem nenhum custo adicional. A única coisa que passava pela cabeça de Samaria era o desejo de ser um avestruz para enfiar a cabeça no primeiro buraco que encontrasse. Célio pegou a mão de Samaria e a convidou para que fossem a um barzinho na esquina de sua casa. Ela quis recusar, mas estava tão frustrada pelo fiasco do encontro que resolveu aceitar.

Chegando lá, Célio cumprimentou todos os colegas de copo, falou alto, apresentou Samaria e pediu um mocotó para ele e uma fritada de mortadela para ela. A cervejinha gelada já estava à sua espera, como cortesia da casa. Eles beberam, comeram, falaram alto, gargalharam e foram felizes para sempre... ou até a próxima enoteca.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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