A Cidade Cativante.

domingo, 12 de janeiro de 2014



A Cidade Cativante.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Ao saltar da embarcação, deparou-se com a estátua de um índio mal-encarado, esperando-o de braços cruzados. Apesar de austero e valente, em seu rosto, transbordava ternura e serenidade. Carmo contornou aquele monumento improvável e o comparou aos rígidos braços abertos do Cristo Redentor. Talvez em nada se assemelhassem. A posição do índio suscitava proteção e cuidado. Os braços do Cristo, frágil abraço, denotava devoção, com certa dose de desamparo. Carmo observou que o pôr do sol emprestava ímpar vivacidade à pele de bronze daquele guerreiro indômito. A camada esverdeada composta pelo tempo implacável, em contato com os últimos raios do astro adormecido, convertera a bravura do cacique em destemido amor.

Quando tomou consciência de si, ficara mais de meia hora parado em plena Praça Arariboia, olhando para o alto, contemplando a imponente estátua. Carmo deu uma olhadinha para cada lado, temendo cair no ridículo. As pessoas passavam frenéticas, para cima e para baixo, para um lado e para o outro e não se davam conta daquele inusitado visitante embasbacado pela força do ilustre anfitrião niteroiense. Ligeiramente constrangido pela cena patética à qual se entregara, Carmo abandonou a veneração ao monumento de Arariboia e saiu de fininho.

Recuperando-se da inquietante experiência, atravessou a movimentada Avenida Visconde do Rio Branco e, novamente, deparou-se, maravilhado, com a arquitetura suntuosa de um palácio em art nouveau inteiramente restaurado e iluminado. Leu que se tratava de uma edificação dos Correios, inaugurada com a presença do primeiro presidente da república brasileira. Consultou o relógio. O tempo corria velozmente. Não mais permitiria ser sugado por seu deslumbramento sensível. Ajeitou a gravata, tirou o paletó, arrumando-o no antebraço - com o cotovelo levemente dobrado para não amassá-lo - e prosseguiu viagem. Faltava pouco tempo para seu compromisso inadiável e não poderia se atrasar um minuto sequer.

Carmo não quis pegar nenhuma condução. Sabia que se não se distraísse pelo caminho, margearia a orla sem que corresse o risco de perder a hora. Tinha quase duas horas para reservar tal prazer a si. Viu, ao longe, toda a extensão da Ponte Rio/Niterói. Observou duas estátuas, também de bronze, sentadas em um banco de concreto. Uma, representando o presidente Juscelino que, entusiasmado, olhava os projetos arquitetônicos de Niemeyer. Sentiu a brisa soprada da Baía de Guanabara em seu rosto, amenizando o calor e enxugando os pequenos brotos de suor.

Passou por Gragoatá e São Domingos. Ao se aproximar de Boa Viagem não resistiu e contemplou, timidamente, o Museu de Arte Contemporânea em seu inconfundível formato de disco voador. Ele foi construído praticamente à beira de um precipício, desafiando a lógica matemática e a razão humana. Grato pela fascinante paisagem que se descortinara à sua frente, derramando beleza aos cinco sentidos, avistou uma pequena igreja no alto de uma ilha próxima ao MAC. Viu que essa ilha unia-se ao calçadão da orla por uma longa e estreita ponte de concreto armado. Notou também que abaixo dessa ponte o mar se dividia por uma fina camada de areia. Convidado por tal fenômeno da natureza aliado às façanhas humanas, Carmo, que não era católico, entregou-se, emotivo, ao sinal da cruz, dobrando sutilmente seus joelhos em reverência àquela imensidão.

Fez uma pequena pausa para fotografar a magistral obra de Niemeyer, símbolo da cidade de Niterói. Não pôde ignorar que de um pequeno lago artificial, no qual a estrutura do museu fora instalada, as ondulações refletiam os raios do sol, formando um móbile de luz em toda a circunferência daquela obra magnífica. Carmo consultou novamente o relógio. Só faltava meia hora. Agitou-se ao constatar a inevitável passagem do tempo. Apressado, atravessou, mantendo o contorno litorâneo, o bairro do Ingá. Da praia das Flechas, notou chamativas formações rochosas, conhecidas como Pedra do índio e de Itapuca. Antes de o MAC ser elevado como representante maior da cidade, tais monumentos naturais assumiam a categoria de símbolos máximos da cidade.

Acelerando os passos, ao invés de continuar seguindo pelo calçadão, já na praia de Icaraí, virou à esquerda, na Miguel de Frias e a seguiu até pegar a Moreira César desde o início. Na esquina, em frente a uma padaria, deteve-se diante de uma banca de jornais. Lá, admirou-se com cartões postais com os mais variados retratos. Primeiro viu que, perto dali, havia um amplo espaço arborizado e florido, uma reserva ambiental com um grande chafariz, bem no coração de Icaraí. Logo uma vontade atroz fustigou-lhe a alma. Mas, sabendo de seu compromisso, afastou a ideia de conhecer o Campo de São Bento. Aquele lugar lhe traria a paz tão almejada, a mesma paz que receberia como retribuição ao concluir o trabalho ao qual se comprometera. Além da compensatória paz ao final do serviço, muito dinheiro também estava em jogo.

Já mais para o fim da Moreira César, Carmo dobrou à direita, na Oswaldo Cruz e novamente se dirigiu à praia de Icaraí. Tirou do bolso um bilhete amassado. Espichou o papel até conseguir visualizar o endereço e confirmou sua exata localização. Colocou-se defronte ao condomínio luxuoso, de vinte andares. Enquanto aguardava a oportunidade adequada para entrar, teve sua atenção tomada pelos trajes elegantes com os quais os moradores desfilavam a torto e a direito. Notou que o modo de se vestir daquelas pessoas muito se assemelhava aos cidadãos que circulavam pela Moreira César. Não evitou que um sorriso malicioso escapasse de seus lábios. Mas logo se recompôs. Sabia ser aquele um bairro nobre, embora o dinheiro não fosse sua prioridade. Estava ali para cumprir seu compromisso e ponto final, sem mais nem menos.

Pacientemente, esperou que a garagem abrisse para acompanhar o veículo que entrasse ou saísse. Não demorou muito, um automóvel parou. O motorista acionou o controle remoto e o portão iniciou sua abertura. Carmo, nesse instante, comparou o portão à abertura cerimoniosa das cortinas de um teatro, convidando-o a subir ao palco. Estava exultante. Sentia que aquela era sua deixa para o encerramento de grande espetáculo. Abaixou-se à lateral do carro, tomando cuidado para não ser identificado pelo espelhinho retrovisor. Paralelamente ao movimento do veículo, foi se esgueirando lentamente até passar por completo, também sem ser visto pela câmera de segurança do edifício.

Na ausência do porteiro, Carmo, fingindo ser um condômino comum para não levantar suspeitas, sentou-se no sofá, cruzou as pernas e, calmamente, abriu o jornal do dia. Verificou outra vez o relógio. Faltava apenas cinco minutos para executar a vítima do oitavo andar. Fechou o jornal, depositando-o sobre os joelhos, ergueu de leve o corpo e conferiu discretamente o revólver preso pelo cinto da calça, junto à pele. Quando ia se levantar, estancou subitamente ao ver uma praia belíssima na capa da revista sobre a mesinha, com tampo de mármore, no centro da portaria.

Largou o jornal em cima da almofada do sofá e folheou a revista. Não pôde conter uma lágrima solitária descendo pelo seu rosto. As praias paradisíacas da região oceânica de Niterói o enterneceram. Tocaram-no profundamente. Ele não fazia a menor ideia da riqueza daquela cidade. Tudo que já tinha visto até então já fora suficiente para convencê-lo do fascínio daquele lugar. Abriu página por página. Vislumbrou retrato por retrato. Encantou-se com as praias de Piratininga, Itaipu, Camboinhas e Itacoatiara. Um sentimento tão oceânico quanto o mar aberto invadiu-lhe por completo, intensificando à exaustão as lágrimas de emoção.

Naquele instante, decidiu: largaria a odiosa vida de matador de aluguel. Diante de tanta beleza, não valeria a pena ceifar vidas, privando as pessoas da contemplação pacífica da natureza em seu esplendor e formosura. Carmo contraíra uma séria dívida com mandantes do crime na Baixada Fluminense e fora encarregado de desembarcar pela primeira vez em Niterói para assassinar um juiz de direito em troca de perdão e paz. Decidido a mudar de vida definitivamente, Carmo guardou a revista em sua pasta e saiu pela porta da frente. Ao ver o límpido e cristalino cenário, composto por um azul infinito, deixando ainda mais visível o Pão de Açúcar e o Corcovado do calçadão da Praia de Icaraí, entregou-se novamente ao mais copioso pranto.

Carmo seguiu pelo calçadão em direção ao bairro de São Francisco. Subiu a estrada Fróes até mirar a praia do alto. Certificou-se que ninguém passava naquele instante, tirou a arma da cintura com cuidado e, impulsionando bem forte o braço, arremessou-a para o meio da água. Como não poderia retornar ao Rio de Janeiro, lembrou-se que havia um conhecido seu que falsificava identidades. Coincidentemente, ele residia em Niterói. Telefonou. Conversaram longamente. Ele explicou sua situação delicada ao Petrotski - seu amigo falsificador -, nascido no estado do Paraná e também amante de Niterói, que há muitos anos fixara residência em Itaipu. Ao ouvir toda a história atentamente, sensibilizou-se pela causa de Carmo.

Algum tempo depois, Carmo passou a se chamar Manoel. Petrotski ainda foi além do combinado para ajudar o amigo. Apesar de ser num lugar distante de Itaipu, numa rua apenas numerada, sem nome e sem asfalto, Petrotski tinha mais uma propriedade que, mediante uma quantia camarada, alugou para Carmo morar temporariamente. Favorecendo o amigo financeiramente, viabilizou seu contato com pescadores da região. Rapidamente, Manoel, que jamais revelara sua real identidade aos novos amigos, enturmou-se, alugou um barquinho modesto e se aventurava, toda quarta-feira, no mar aberto, junto às traineiras e gaivotas famintas, empenhando-se no seu ganha-pão.

Após muito trabalho, comprou um espaço em sociedade com um camarada seu do mundo dos pescados no tradicional Mercado São Pedro. Logo depois, agradecendo com muito carinho ao amigo Petrotski, deixou a casinha em Itaipu e se mudou para a Vila Pereira Carneiro na Ponta da Areia - um pequeno bairro residencial construído por trabalhadores da construção naval. Manoel, O Peixeiro, como se popularizara entre os amigos e clientes da banca de peixe, vivia com um sorriso largo de orelha a orelha.

Com muito orgulho, em sua certidão de nascimento falsa, estava a cidade de Niterói como seu berço querido. E de Niterói, Manoel jamais saíra e nunca mais se recordara que um dia tivera outro nome.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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