Dois Livros e um Amor.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014 1 comentários


Dois Livros e Um Amor.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Dois livros abertos, jogados na cama bagunçada. O de capa dura era de cor azul, e o outro, laranja. O primeiro, edição de luxo, embora sem orelha, aberto na página 25, apresentava visgos e dobras distribuídos pelos quatro cantos da folha em questão. Já o de tom laranja, aberto num tal capítulo III – quase já não faltando páginas para o fim -, mais modesto, de frágil brochura, estava desalinhado e com a lombada desbotada e arrepiada. Exibia velhas costuras e alinhavos com linhas de alfaiate, e não de escriba. O livro azul, apesar de ter quase 200 páginas, interrompera-se precocemente na página de número 25. O restante permanecera em branco. Um denso e massacrante branco, suprimindo a pequena quantidade de páginas escritas.

Muitas histórias não contadas. Muitas vidas esquecidas, perdidas na invisibilidade da linguagem. O que ficara para trás? O que não pôde ser contado? O que não seguiu o curso das palavras? Interrogações encobertas pela túnica branca da opressora falta de palavras. A história pode ser lida até o ponto em que o livro ficara aberto, até a folha amaldiçoada por visgos e dobras.

Se alguém que padecesse de heroica valentia lesse em retrospecto, da última à primeira página, transportaria-se sensorialmente ao tilintar de xícaras, ao trepidar da porcelana no granito escuro do balcão, ao chuá da água corrente rejuvenescendo a prataria. Aroma de café fresco recentemente moído. O encanto místico da bebida sendo coada e servida. Havia apenas uma mesa ocupada. Madeira rústica perfurada pelas ranhuras do amor. Talvez algum solitário com a alma em chamas recortara formas estranhas no tampo da madeira para se aprofundar em sua superfície. Ou foram entalhes feitos por quatro mãos enlaçadas pelo afeto de outrora.

Gil, com os cotovelos apoiados na mesa, repousou a cabeça na extremidade das palmas das mãos, encostadas uma na outra, formando asas de borboleta ou de anjo adormecido. Pedira um expresso com creme para não se afligir com a longa espera. Quando se conheceram, numa das aulas-espetáculo de Ariano Suassuna, ele que muito se atrasara. Ao chegar, havia apenas uma cadeira vazia ao lado de uma moça que, pontualíssima, lá estava antes mesmo do início da entusiasmada palestra. Afobado, pisando nos pés dos pobres espectadores - uns chiando de desgosto, outros solidários com a pressa do rapaz -, esbarrara no ombro de Cora, derrubando seus livros e papéis, antes equilibrados no espaço em que os braços das cadeiras se encontravam. Sem olhar para o desajeitado autor daquele empurrão, ela apenas curvou o corpo para frente, recolhendo o material espalhado pelo chão.

Constrangido pelo acidente e meio atrapalhado, sem perceber que Cora já recolhia seus pertences, Gil se precipitou sobre a moça, dando-lhe um puxão de cabelo daqueles que quase escalpelam as moças mais sensíveis. Erguendo seu tronco subitamente, por conta do dolorido sobressalto, houve um encontrão da nuca de Cora com a testa de Gil. Cada um levou a mão ao próprio alvo da pancada. Os papéis e os livros permaneceram espalhados. Sem pedir desculpas, Gil apenas se sentou, dobrando seu corpo logo em seguida para pegar os objetos de Cora. Ainda zonzo pela situação malsã, juntou os papéis e os entregou a ela. Depois, ele apanhou os dois livros que restavam caídos. Não conseguiu ler o título e o nome dos autores. Viu apenas que se tratava de um livro de capa azul e outro de capa laranja. Apoiou-os novamente nos braços das cadeiras e voltou-se para a aula.

O escritor discursava sobre a beleza de se combinar a cultura erudita com a arte popular. Ao longo de uma hora e meia de palestra, os dois ficaram quietos, sem o menor desvio de atenção, se não fosse pelas singelas viradinhas de cabeça de Gil para fitar o suave e compenetrado rosto de Cora. No instante em que a aula foi encerrada, ambos continuaram sentados enquanto uma fila gigantesca se formava na lateral do anfiteatro para os cumprimentos ao ilustre e bem-humorado acadêmico. Um círculo de pessoas ávidas pelo autógrafo de Ariano praticamente o engoliu, desaparecendo do campo de visão do público que se manteve sentado. Com o fracasso de acompanhar os movimentos do renomado dramaturgo com o olhar, simultaneamente, de modo aparentemente inexplicável, entreolharam-se. Cora respirou fundo, pegou sua papelada e os livros do braço da cadeira, depositando-os no colo com a cabeça baixa, e diante da frustração por não ter meios de chegar perto do seu ídolo, deu o pontapé inicial, meio como quem nada quer, para um diálogo com Gil:

- Esse cara é um dos meus autores favoritos. Queria tanto mostrar um conto que eu escrevi pra ele...

- Nossa! Você escreve? Que legal. Eu adoro literatura, mas ainda não escrevi nenhuma linha.

- Mas se você gosta tanto assim, por que nunca se arriscou?

- Acho que eu não tenho talento pra isso...

- Não precisa desse negócio. É só sentar e deixar fluir. Mesmo que você não goste do resultado. Tente!

- É... Pode ser... Tenho medo. Mas enfim... Mudando de assunto, o que você faz? Ah... Desculpe meu mau jeito. Gafe minha. Não nos apresentamos ainda. Qual o seu nome?

- Eu me chamo Cora. Sou advogada. Até advogo, mas a minha paixão é pela literatura. Advogo para viver e vivo para escrever. E você? O que faz? Antes, seu nome, é claro!

- Sou Gil, uma contradição em pessoa. Eu me formei em letras. Dou aula de literatura. Engraçado, né? Sou professor disso, mas não tomo coragem pra escrever minha própria ficção.

- Sabe de uma coisa? Este livro laranja é a minha história. É uma edição independente. Eu mesma o editei e fiz algumas tiragens na gráfica. É sobre uma menina que sonha com um amor. O romance acontece no futuro. Tudo o que eu narro, o ambiente, o contexto, os personagens, a história toda acontece num futuro que não chega a se realizar. Tudo se passa na imaginação dessa menina. Meu livro tem dois capítulos e um terceiro que na verdade é o fim, deixando margem para que a história da menina abandone o futuro e se torne presente. É um convite para que o leitor também imagine um “e se fosse verdade”, como seria? Entendeu?

- Hummm... Parece ser um bom romance. Me deu vontade de ler e... também... digamos... Viver um amor desses, no presente. Nada de fantasias.

- Mas quem disse que o amor no presente não é fantasioso? O futuro idealizado pode ser mais pé no chão do que as fantasias vividas no presente.

- Será que é assim? É... deve ser... Mas esse outro livro aí, o de capa azul?

- Então... É sobre ele que eu quero falar. Ele é seu. Vou dar ele a você. Tome!

- Sério? Legal. Espere um pouco, deixe eu folheá-lo. Cadê o nome do autor? O título? Não tem nada escrito? Ué?! Como assim? Não entendi...

- Pois é... Isso que é o maior barato. Ele está todo em branco. É pra você escrever sua história. Quero que você escreva, que assine sua ficção!

- Nossa! Achei a ideia ótima. Mas estou apavorado.

- Quer minha ajuda?

- Como?

- Que tal contarmos uma história juntos?

- Juntos como?

- Venha!

Cora pediu a Gil para que ele segurasse seu material e o pegou pela mão. Foram se esgueirando por entre as cadeiras e pela plateia que já se acotovelava para conseguir um autógrafo do Ariano, até deixarem o anfiteatro para trás. Meio sem reação, Gil foi sendo levado pela mão até uma rua arborizada, ladeada por oitis repletos de frutos maduros, bem amarelinhos e rajados de verde. À sombra do oiti, Cora parou, colocou delicadamente uma mão em cada lado do rosto de Gil e encostou seus lábios nos seus. Ainda com as mãos no rosto de Gil, afastou-se o suficiente para olhar dentro dos seus olhos. Encostou seus lábios nos deles novamente, recuou outra vez e perguntou o que ele sentiu.

Quando ele, razoavelmente recuperado do toque e daquele encontro mágico, pôde responder a pergunta de Cora, ela colocou seus dedos em sua boca e o convidou para que se sentassem num banquinho à sombra do mesmo oiti. Ela pediu a ele que abrisse seu livro azul e escrevesse justamente sobre aquela sensação que ela acabara de lhe provocar. Ele atendeu seu pedido e assim registrou na primeira página: “Quando sua boca veio de encontro à minha, nada mais vi nem senti ao meu redor. Apenas um toque fascinante que me coloriu por dentro. A memória é eterna. É impossível esquecer-me dela. Nem o perfume das flores, nem o sabor dos frutos abafarão o gosto do seu beijo. E quando você se afastar, nos segundos em que seus lábios se fixam aos meus e deles evadem, não deixando você partir, sentirei que serei para sempre seu”. Cora, não desviando seus olhos dos de Gil, fechou o livro azul e o abandonou no colo dele. Os dois, ainda sentados, aproximaram-se e se beijaram acaloradamente.

Passaram-se outonos e primaveras, invernos e verões nutrindo o sentimento iniciado naquele encontro poético, porém inusitado e em nada convencional. O namoro oficializado só confirmou o fortalecimento daquilo que começou com palavras e eletrificou corações. Seus corpos trepidaram, bambearam, rodopiaram ao ritmo de palavras vulcânicas, beijos vibrantes e indecorosos enlaces da paixão. Decidiram alugar um cantinho para que o afeto se consolidasse ainda mais com a íntima experiência sob um teto comum. Passaram a conviver diariamente. Compartilharam a vida, os costumes, os erros, as qualidades, defeitos e felicidades. Dividiram as contas, os afazeres, as despesas, o amor, loucuras, acalantos e brevidades.

Uma vez por mês, às vezes sozinho, outras vezes acompanhado de Cora, Gil voltava ao oiti para escrever mais uma página de sua história de amor. O estímulo literário criado pela namorada atravessou os limites do ponderável e se converteu numa verve artística de grandes proporções. Gil se tornara um romancista. Mesmo com compromissos inadiáveis com seu editor, todo mês, uma vez por mês, voltava à sombra daquele mesmo oiti, sentava-se naquele mesmo banquinho e escrevia mais uma página do seu livro azul, sobre os sentimentos que, à flor da pele, doava à amada, e as sensações que esse amor sempre lhe provocava. Foram 25 meses de impressões ininterruptas. Naquelas páginas, escreveu sobre prazeres, volúpias, medos, deveres domésticos, obrigações conjugais, delírios, devaneios, alegrias, satisfações e emoções. Fez também alguns apontamentos sobre ameaças de partidas, idas e vindas, brigas, melindres, discussões e retornos sempre apaixonados.

Numa dessas idas e vindas, Cora não queria mais compartilhar e dividir sua vida com Gil. Apesar de muita insistência e declarações de amor dele, ela resistia. Depois de algumas semanas da última separação, Cora aceitou ter uma conversa com ele numa cafeteria que, no auge do amor - na época das carícias mútuas -, os dois gostavam de frequentar. Empolgado, Gil combinou o horário e, com uma incomum pontualidade, de manhã bem cedo, ele lá estava à espera de Cora. Ansioso, pediu um café com creme para ajudar a enfrentar a longa espera. Cinco xícaras de café expresso e quase duas horas se passaram sem nenhum sinal de Cora. Gil, arrasado, levantou-se e seguiu o caminho do apartamento em que viveu com ela por dois anos e um mês. Chegando em casa, ainda sem notícias de Cora, sentou-se na beirada da cama, desolado. Um tempo depois, notou que o livro que ela escreveu estava jogado na cama, aberto nas páginas finais. Espichou o corpo até alcançar o livro laranja. Segurou com pouca firmeza, até com certo tremor, e viu que havia algo escrito com caneta esferográfica logo abaixo da linha em que o capítulo III era anunciado.

Estava escrito assim: “Caros leitores, fui estúpida em acreditar que imaginar uma história de amor num futuro irreal, pudesse ser preenchido, com toques de veracidade, pela história real de cada um de vocês. Vejo agora o quanto fui cruel, pois uma história de amor verdadeira é humanamente impossível. Peço o perdão e a absolvição de vocês pelo ato de covardia, mas declaro que nunca mais me aventurarei a escrever essas besteiras que, iludida, tanto insisti em traçar literariamente. Termino aqui estas e nestas linhas. Esqueçam o capítulo III. Se ainda assim quiserem me ler, que terminem no segundo capítulo e jamais tentem dar realidade à fantasia do amor. De agora em diante, sou apenas Dra. Cora, advogada. Vou para uma cidade distante em que exercerei minha profissão plenamente. Ninguém me achará, nem editores nem ninguém. Adeus, Cora”.

Gil enxugou uma lágrima que descia, solitária, por sua bochecha um tanto quanto inchada por um choro reprimido. Esticou novamente o corpo para deixar o livro aberto exatamente onde o tirou. Encolheu-se logo após, chegando ainda mais para a beirada da cama. Apoiou os cotovelos nas pernas e colocou a cabeça entre as mãos. Ficou um pouco meditativo. Abriu sua mochila e retirou seu livro azul. Abriu-o e o folheou. Ainda faltava uma infinidade de páginas em branco. Ergueu o corpo, mantendo o livro seguro com as duas mãos. Abriu-o na página 25 e, impulsionando-se para chegar perto do livro laranja de Cora, apertou o azul contra a cama até que a última página escrita se amassasse por completo. Arrumou suas coisas numa pasta. Aprontou-se e foi para dar mais uma de suas aulas de literatura.

Gil continuou morando no mesmo apartamento durante muito tempo. Nunca soube para qual cidade Cora se mudou. Não teve mais notícias. Depois de alguns anos, numa noite de autógrafos, evento organizado para o lançamento do seu novo romance, Gil teve quase certeza de que tinha visto Cora olhando para ele e com um dos seus livros nas mãos. Achou que ela se aproximaria dele. Falaria com ele. Mas ela desapareceu em meio à multidão que o cercava.

Guardou o livro laranja escrito por Cora na gavetinha de sua cabeceira. O seu permanecera interrompido na página 25. Mas toda noite, antes de dormir, Gil o abria e escolhia uma página aleatória. Só dessa forma, sentia o aroma que as letras do afeto de ontem exalavam no presente, para que jamais perdesse o real motivo da sua verdadeira vocação. Sempre escreveu com o amor e nunca esqueceu do amor verdadeiro ao escrever.


Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Até a Última Estação.

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Até a Última Estação.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Enquanto a composição atravessava a vegetação coberta de neve, vários exemplares do chapim-real e do pisco-de-peito-ruivo entoavam cânticos de liberdade ao primeiro bater de asas naquela fria manhã. A fumaça espessa, como nuvem carregada que se adensa e enruga o céu, pigmentando-o de pesar e aflição, contrastava com finas camadas de gelo lançadas ao longe pelo frenético roçar de trilho e trem. Antes que a nevasca embranquecesse ainda mais a paisagem, ínfimos pontos azulados ainda resistiam num céu aprisionado pelo negrume que anunciava a sorrateira tempestade. Cedros, pinheiros e abetos, com suas grossas e gélidas folhagens, mantinham-se imponentes. As árvores suavizavam a paisagem melancólica que se descortinava ao toque célere da locomotiva, cortando a paralisia branca do inverno europeu. A natureza reagia com indiferença ao barulho daquela imensa máquina fumegante rasgando, em linha reta e suaves curvas, o cenário de bucolismo, lirismo e solidão.

Os vagões de passageiro, embora externamente se assemelhassem às cabines luxuosas, exibiam barras de ferro verticais, lembrando grades de uma gaiola, em cada janelinha lateral. O espaço interno mergulhava em sombras. Andrajosos, com chapéus, luvas, capotes, pulôveres e suéteres em estado lastimável - mas de uso necessário para que se protegessem da hipotermia que já os espreitava pela greta, vestindo capuz e foice -, as pessoas repartiam um pedaço de pão deixado em cima de palhas secas e feno. As cabines que já alojaram famílias abastadas, contemplando-as pelo deslumbrante visual campestre, foram adaptadas para o transporte de humanos, outrora dignos, agora reduzidos a porcos e a animais de quinta categoria. Até os bancos que não eram acolchoados foram barbaramente arrancados para que mais e mais famílias fossem apinhadas.

Assim espremidas, sem privacidade, submetidas a métodos retrógrados de higiene, ao menos, pelo calor dos corpos, podiam se esquentar, pois suas roupas não eram suficientes, e retardar a morte pelo frio extremo antes que chegassem ao destino final. Não sabiam o que os aguardava, mas só a condição subumana em que conviviam no trem e a maneira agressiva como foram retirados de suas casas e enfiados ali, já sinalizavam com todas as letras o fim da linha. Crianças chorosas e soluçantes, mulheres inquietas e trêmulas, homens desolados e de olhar perdido. Muitos passageiros foram empurrados para os vagões frios já previamente peneirados entre válidos e inválido, úteis e inúteis, capazes e incapazes.

Essas vidas desvalorizadas, reduzidas ao nada, entendidas como insignificantes pelas sórdidas intenções dos que estavam no poder e ousavam julgar seus semelhantes, eram imediatamente ceifadas sem direito à súplica. Mães assistiam aos filhos enfermos sendo puxados de seus braços e executados a sangue frio. Netos observavam, aflitos e passivos, seus avós sendo arremessados cruelmente do último andar de suas casas, muitas vezes quando jantavam calmamente, na calada da noite. Reduzidos a produtos que seriam descartados mais cedo ou mais tarde, os "tomates podres" apontados por bárbaros impolutos e bem vestidos, eram esmagados pelas mãos do ódio antes mesmo de embarcarem para a morte. Por causa das circunstâncias inóspitas a que se submetiam nas cabines do trem, mesmo os mais saudáveis e robustos que seriam aproveitados para trabalhos pesados, ficavam suscetíveis ao contágio de doenças incuráveis, sucumbindo antes do fim.

Por mais que estivessem naquele trem, sendo concedido o adiamento do inevitável desfecho trágico, a via férrea só lhes permitia a lamentável sobrevida. Alguns ainda tinham a felicidade transitória de se reunirem derradeiramente com suas famílias ao longo de todo o percurso. De alguma forma compartilhavam o sofrimento e a apreensão com um pouco de calor e afeto de pai, de mãe, de filhos, de esposa e marido. Nas poucas malas permitidas, os pertences mais caros não eram objetos usáveis, mas sim sentidos. Lágrimas, saudades, um aroma bom de infância, um sabor suave de dias amáveis na ponta adocicada da língua, ursinhos de pelúcia, caixinhas de música, trapinhos de história e paixão, carinho e dor, valores de uma memória que lutava com unhas e dentes para que não se perdesse.

Itzig, um jovem que ainda não chegara aos trinta anos, viajava sozinho. Seus irmãos foram postos em outro vagão, ou mesmo em outro trem, mas isso era o que ele acreditava, pois os que restaram ao massacre da primeira seleção ficaram para trás quando Itzig fora embarcado à força. Por resistir ao embarque, sem querer que seus irmãos ficassem para trás, recebera uma pancada na cabeça com a coronha de um revólver. Se seus colegas de infortúnio não se solidarizassem, teria se esvaído em sangue até perder os sentidos subitamente. Embora, infelizmente, nem toda solidariedade, boas intenções e caridade, resultem sempre na benção da vida. Um homem alto, de boina, pegou um pano bordado em sua malinha, um artefato sagrado com uma insígnia bordada, desdobrou-o e o levou aos lábios para beijá-lo. Logo depois, com os olhos fechados, rasgou-o com um só movimento dos dedos.

Recorreu novamente à sua mala. Apanhou uma espécie de emplastro curativo, uma mistura úmida de ervas que estava num potinho redondo, aplicou-o no ferimento da cabeça de Itzig para cicatrizar e em seguida enfaixou-o para estancar o sangue que escorria sem parar. Em contato com a substância, fez uma careta de dor e rapidamente encolheu-se no canto do vagão. Com a cabeça entre os joelhos, permaneceu um tempo em silêncio. Itzig levou as mãos ao abdômen, contorcendo-se e fazendo um esgar de dor. Olhou à sua volta. Avistou apenas um baldinho usado como latrina improvisada. Sentiu ojeriza. Esperou que melhorasse, mantendo-se por mais algum tempo sentado e recurvado, com a cabeça entre os joelhos, sem recorrer à tal necessária humilhação.

Quando restava apenas uma leve sensação de desconforto intestinal, ele se levantou escorado por outros dois homens um pouco mais velhos. Já de pé, sem ter em que se apoiar, tocou em cilindros de ferro. Ao virar-se para tal, deparou-se com as grades na janela, confirmando se tratar de um cárcere sobre trilhos. O vento frio já lhe inflamara a garganta, deixando-a de aspecto macilento pela infecção atroz. Percebeu o motivo de muitas crianças agonizarem, respirando mal no colo de suas mães e com o peito arfando em suspiros penosos. Uma delas já exibia um aspecto arroxeado de tanto frio. A janela não tinha vidro, só as barras da jaula móvel em que cumpriam o martírio. Alguns montículos de neve já se acumulavam no interior do vagão.

Os que podiam, cobriam o nariz com cachecóis ou aproximavam a ponta de mantas para filtrar o ar gelado que já enrijecia a tez dos mais debilitados. Itzig segurou firme nas barras de ferro e, protegendo o nariz com uma das mãos em formato de concha, observou o horizonte branco e as quase invisíveis copas verdes das árvores, por causa da neblina que se avolumava. Entrando em contato com a natureza, Itzig despediu-se de sentimentos puros que ainda lhe povoavam a alma. Seus sorrisos, amores e ilusões - os únicos que nasceram livres e assim sempre serão -, ultrapassaram as grades vergonhosas que segregavam a vida com um leve aceno de saudade. Itzig visualizou mentalmente seus pais adoecidos que não tiveram suas vidas poupadas. Foram executados com um tiro. Um tiro covarde que cada um recebera na cabeça. Mortos pela estupidez de um regime sangrento.

Sentiu novamente uma pontada dolorida no peito, como se sua noiva fosse arrancada outra vez de seus braços e jogada com tanta brutalidade ao chão que não resistira. Ela fora espancada enquanto já extinguia o sopro de vida do seu peito. Durante a sessão de tortura, com golpes de botina no ventre já morto, os soldados gargalhavam com o sofrimento de Itzig - que presenciara tudo sem nada poder fazer. Toda maldade assolando um Itzig impotente em seu desespero absoluto. Ainda na janelinha do vagão, ele se angustiou também por não saber do paradeiro de seus irmãos, atirados à própria sorte. Tal turbilhão de emoções fez com que ele forçasse instintivamente as barras de ferro, com ambas as mãos, para entortá-las e abrir uma brecha capaz de passar um corpo inteiro. Ao se deparar com tal pretensão, analisou-se dos pés à cabeça. Estava enfraquecido, desnutrido. Assustou-se com sua magreza quase cadavérica. Percebeu que precisaria apenas de um pequeno espaço entre as grades para que seu corpo franzino passasse.

Olhou à sua volta. Parecia invisível aos seus companheiros. Forçou ainda mais as sólidas e intransponíveis barras de ferro. Forçou pela terceira, quarta, quinta, sexta vez, até se esgotar quase que completamente. Observou outra vez seus colegas de cela. Todos o ignoravam, sem exceção. A solidariedade que tiveram com ele quando ali chegou havia cessado. Ninguém mais se solidarizava. O semblante de todos exibia apenas a resignação com o destino cruel. Estavam conformados com a condenação imposta pela soberba humana. Itzig convenceu-se que teria que agir sozinho. Retirou seu casaco de flanela, enroscou-o numa das barras, segurou nas extremidades do tecido e, chegando ao máximo que podia para trás, impulsionou os braços com toda força.

Como a flanela começou a ceder, viu que necessitava aprimorar a ideia. Chegou à conclusão que com a flanela molhada, girando-a em espiral até formar um tipo de trança, faria um resistente torniquete. Foi direto a um dos montinhos de neve no canto do vagão. Cambaleou pelo frio intenso que já o corroía pela falta do agasalho. Agachou-se para umedecer a flanela. Como o gelo que derretia não era suficiente para encharcar o pano, frustrou-se. Olhou para um lado, olhou para o outro. Ficou sem alternativa. Pensou em desistir até ver o baldinho que era usado como latrina. Mesmo enojado, foi até ele e enfiou de uma tacada só, com a cabeça virada para o lado, mantendo os olhos fechados e prendendo a respiração, o casaco inteiro na urina já turva e viscosa.

Devidamente encharcado, preparou o torniquete, enlaçou-o na grade, tomou distância, e puxou com toda força que ainda possuía, assim como as crianças brincando de cabo de guerra. Puxou, puxou, puxou, trincando os dentes e soltando grunhidos pela agressividade que imprimia na trança, descontando toda a raiva e o ódio reprimidos. Seu empenho foi tanto que, ouvindo um rangido, a barra de ferro foi entortando, entortando, entortando, até abrir um espaço suficiente para que seu corpo seco pudesse passar. Antes de partir, apenas com uma camisa pouco impermeável à friagem, Itzig deu uma última olhada para trás, buscando um olhar de complacência dos companheiros. Continuavam ignorando-o. Não compreendeu. Tal situação era absurda. Eles não podiam permanecer tão conformados com o juízo final. Muitos, como ele, passariam facilmente por entre aquelas grades entortadas. Não suportando o alheamento, gritou a todo vapor, usando o máximo de seus pulmões, para que aquele povo todo despertasse do sonambulismo.

Achou que temessem a morte, que acreditassem que se fossem descobertos seriam assassinados imediatamente. Mas morreriam de qualquer jeito. Por que ninguém, além dele, queria se aventurar numa fuga espetacular como possibilidade ímpar para que suas vidas fossem enfim devolvidas? Itzig desistiu de esperar pelos outros. Saltou, espremendo-se todo até se jogar do trem em movimento, caindo de joelhos num imenso bolo de neve. Ao se entregar à liberdade de braços abertos e com um sorriso de cabo a rabo estampado no rosto, nem sentiu o corpo ralado pela queda. Encantou-se ao contemplar os frondosos abetos, cedros e pinheiros com suas folhagens verdes cobertas pela brancura da neve. Alegrou-se com o canto do chapim-real e do pisco-de-peito-ruivo, embalando a liberdade com uma música sublime.

Ao erguer-se do chão, viu um arco-íris de cores brilhantes. Como os antigos sempre afirmavam que a bonança estava no final do arco-íris, foi ao seu encontro, na esperança de voltar para casa. Porém, quanto mais dele se aproximava, mais dele se afastava. Itzig, exausto, deixou-se desabar novamente naquela neve de dor. Lá ficou até ser tocado por delicados dedos de mulher. Abriu os olhos com dificuldade. Esfregou-os, não acreditando no que acabara de ver. Sua noiva sorria para ele, convidando-o para que se levantasse e segurasse sua mão. Sem nada falar, apenas correspondendo ao sorriso da amada, obedeceu ao pedido dela sem titubear. Abraçou-a calorosamente e demorou-se num longo beijo de cumplicidade, paixão e saudade. Ela o levou mais à frente. De trás do arco-íris, seus pais apareceram. Suas imagens pouco nítidas, distantes, meio nebulosas, foram adquirindo foco, nitidez, até o semblante do pai e da mãe exalar um puro e verdadeiro amor. Itzig não resistiu e se entregou às lágrimas copiosas.

Não contendo a emoção, correu para abraçá-los. Abriu os braços ao máximo que pôde para envolver os três de uma só vez, como se fosse um meninote exigindo de sua pequena compleição física dar a volta com os bracinhos de fino calibre, num grosso e antigo tronco de árvore. Sua voz sumira, pois seus sentimentos transbordaram. Só as lágrimas e os beijos da noiva e de seus pais lhe tocavam a face trêmula. Quando se recuperou suficientemente do enternecedor reencontro, acalmando-se e reorganizando o raciocínio para falar, indagou a respeito dos irmãos que ficaram para trás quando ele embarcou. Seus pais se limitaram a olhar para ele com doçura e carinho. Sua noiva foi quem tomou a palavra, dizendo que ainda não havia chegado a hora deles, que passariam por tormentas, mas que ficariam bem e chegariam à velhice.

Itzig pouco compreendeu o que ela dissera, afinal, todos ali também estavam bem, mas atribuiu o estranhamento de sua escuta ao trauma vivido até então. Também não quis pensar, para não reviver a tragédia, sobre ter visto seus pais e sua noiva sendo mortos. Talvez o momento traumático assim tinha desenhado a cena, pregando-lhe uma peça, pois a morte não passara de má alucinação. Aceitou a sucinta explicação da noiva. Olhou para todos com enorme felicidade, apalpando-os para se certificar da realidade do amor e como deles não mais suportasse se separar. Desse jeito, Itzig caminhou com eles para onde tinham surgido, atravessando a túnica transparente de sete cores vivas, para o outro lado do arco-íris.

No vagão, por mais que se esforçassem para estancar o sangramento - fluindo continuamente feito água tingida de vermelho - do rapaz que recebera a violenta coronhada, o unguento e a tala não foram suficientes para conter a vitalidade que dele escapava a galopes acelerados. Sem que ninguém nele mais mexesse, lá ficou, na mesma posição, sentado e com a cabeça entre os joelhos, balançando os ombros flácidos apenas ao trepidar da locomotiva, até a última estação.


Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Uma Cena no Rio.

quinta-feira, 24 de julho de 2014 0 comentários


Uma Cena no Rio.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Foi à recepção, mostrou a identidade surrada à recepcionista para provar que era o dia do seu aniversário, e apresentou-lhe sua acompanhante para que também entrasse com gratuidade. Deteriorada, a carteira estava com os dias contados. Com dificuldades em conferir a data, a recepcionista ameaçou retirá-la do envelope plástico. Instintivamente, Lourival esticou o braço e agarrou o pulso da moça, evitando que os restos mortais se esfarelassem de vez. Assustada, a fiel funcionária manteve o olhar fixado nos olhos de Lourival. Titubeou. Em coisa de segundos, foi dominada por um desejo irresistível de chamar o segurança e expulsar o cliente abusado. Conteve-se. Observou a data, confirmou com o gerente a gratuidade do casal. Carimbou e assinou a comanda, autorizando a isenção da entrada.

Lourival enlaçou Catarina pela cintura, recebendo um beijo no canto da boca e um sorrisinho cúmplice. Subiram a suntuosa escadaria de madeira de lei, embalados pelo ritmo contagiante da percussão que espocava do palco retrô com finas cortinas vermelhas, decoradas com babados típicos de cabarés. O gogó afinado do cantor, reverberando no salão abarrotado de amadores rodopiando e tropeçando nos pés das parceiras, entoava um "Lalaiá, lalaiá, laiá... Lalaiá, lalaiá, laiá, o show tem que continuar...". O ambiente dançante era sufocado por objetos antiquíssimos, adornos seculares, esculturas renascentistas, pinturas modernistas, monumentos bizantinos, cadeiras flutuantes, presas por invisíveis fios de náilon, painéis com inúmeros retratos antigos, lustres e candelabros, sombrinhas asiáticas, ecletismo pitoresco e bem brasileiro com uma culinária típica e música para nenhum carioca botar defeito.

Contaminada pela atmosfera nauseante, Catarina puxou Lourival para dançar. Contrariado, pois queria se sentar no enorme sofá vinho e reconhecer antes de qualquer coisa, ao lado da mulher, o terreno em que pisava, continuou deslizando pelo salão, indiferente. Ela o tocou no ombro, insistindo para que ele se virasse e aceitasse seu pedido. Mas se manteve impávido e incorruptível, fingindo não se importar com a encarecida teimosia da mulher para que lhe concedesse uma dança. Enfezada e profundamente amargurada com a recusa daquele homem ignorante, Catarina encurtou o vestido - que já era bem curto -, deixando as coxas livres, leves e soltas. Pediu passagem - sem ter dificuldade para isso -, arrumando-se exatamente no meio do salão. Lá, bailou desavergonhada, vibrante, recheada de frenesi e sex appeal.

Ao seu redor, o salão esvaziou. Os casais e os solitários encostados no corrimão da escadaria pararam subitamente. Olhares excitados, babões boquiabertos, mulheres estupefatas e marinheiros de primeira viagem foram espontânea e energicamente atraídos para aquela extasiada e extravagante dançarina. Alguns, talvez motivados pelo vestido vermelho e rendado da moça, acreditaram piamente que se tratava da incorporação contumaz da Pomba Gira, saltitando e seduzindo os homens com seu encanto de sereia foguenta. Moçoilos afoitos tentaram uma abordagem mais acintosa, puxando-a pelos braços, pernas e alisando seus cabelos. Lourival, sem querer se virar para trás e não dar o braço a torcer a Catarina, custou muito para perceber a balbúrdia no salão. Um sujeito atarracado e rechonchudo que piscava demasiadamente e apontava com a boca, fazendo biquinho para chamar a atenção do possível futuro corno da noite, rejeitou sua incisiva recusa de reconhecer o par de chifres e o informou do fato quase consumado. Lourival, que mordiscava despreocupadamente um palito de dentes, virou-se inflamado, já inconformado pelas caretas de deboche que eram dirigidas a ele.

Não acreditou no que viu. Cuspiu furioso o palito mordido por cima de seu ombro direito. Contraiu o cenho, bufou, fez que ia... fez que não ia... e precisou de amparo para não tombar para trás. Estava tonto, zonzo, vendo estrelinhas. Tudo rodava ao ritmo do rodopiar de Catarina e da batida do tambor. Algumas pessoas conduziram-no ao requintado sofá que desde o início quisera se sentar com conforto e aconchego. Precisava tomar fôlego, colocar a cabeça no lugar, mas a visão de Catarina se esbaldando e sendo apalpada por marmanjos xexelentos, nauseava-o ainda mais. Acabou ficando com o semblante vermelho-escuro, quase se assemelhando ao estofado vinho do sofá tão cobiçado.

Atarantado, visando ganhar tempo e força, pediu ao garçom uma aguardente poderosa. O garçom o serviu prontamente. Uma dose caprichada. Lourival virou o copo e, numa golada só, sorveu todo o conteúdo do copinho de vidro. Com as costas da mão esquerda, limpou a boca e soltou um guincho de prazer. O garçom ofereceu outra dose. Ele tomou a garrafa da mão do pacífico empregado, encarando-o com a cara feia, agarrou a botija imitando terracota da cachaça, e a abraçou com ardor. Encostou a embalagem da bebida no peito, que arfava ininterruptamente como um galo de briga, e mandou que o garçom se afastasse.

O homem cordial e servil obedeceu-o sem nenhuma resistência, apenas anotando na comanda o pedido avantajado do cliente beberrão. Depois de já suficientemente calibrado, sobrando apenas um golinho no fundo da garrafa, Lourival se levantou. Cambaleou e inclinou o corpanzil para trás, ficando por um triz de desabar outra vez. Nesse instante, Catarina estava sendo carregada por cinco trogloditas salivando e sem camisa, girando nos braços o seu corpo suado e arrepiado pela adrenalina e feromônios reinantes no salão. Lourival aprumou-se, ficando ereto e alinhou os ombros. Cerrou os dentes e mirou a mulher de forma fulminante, espumando e grunhindo. Fuçou o chão feito porco ou boi bravo e se atirou de cabeça como autêntico chifrudo enraivecido para derrubar os cinco pinos bombados de um boliche grotesco.

Antes que o indignado Lourival chegasse perto dos brutamontes embevecidos pela folia das curvas de Catarina, ela saltou e se requebrou para longe dali, enquanto ele, cabeceando o rígido abdome de um careca aluado, desequilibrou-se e bateu no corrimão entalhado também numa nobre madeira de lei. De lá, escorregou e se precipitou no vazio, desabando até se estatelar no pavimento inferior. Catarina, sambando às apalpadelas dos barbados gotejando libido, estancou os movimentos sinuosos e provocantes ao ouvir aquele estrondo vindo do primeiro piso. Ela chegou ao corrimão e se debruçou para observar de perto Lourival esborrachado lá embaixo. Estremeceu. Pôs instintivamente as duas mãos na boca, abafando um suspiro mais profundo, e se afastou. Um chinês animado e ébrio, alheio ao sofrimento da pobre mulher, tascou um tapa bem dado nas nádegas de Catarina. Ela se virou imediatamente.

Do alto de seus saltos monumentais, teve dificuldade de notar um jovem chinês sorridente ameaçando dar um apertão em seus seios, esticando o braço com supremo empenho de baixote tarado. Sem pensar duas vezes, Catarina aplicou um tabefe certeiro no meio da cara do chinesinho abusado, que caiu para trás desacordado. Catarina desdobrou o vestido, cobrindo novamente as coxas, arrancou os sapatos, desceu a escadaria com pressa e meio desajeitada e se ajoelhou ao lado de Lourival. Agarrou-o pelos ombros e o fez virar de barriga para cima. Deu uns tapinhas em suas bochechas. Ele abriu os olhos preguiçosamente. Um sorriso estonteante estampou-se de súbito no rosto fogoso e irrequieto daquela mulher. Debruçou-se mais sobre o peito de Lourival e começou a beijar, satisfeita, toda a extensão da cara daquele valente e combalido homem.

Ele se levantou, apoiando-se no espaldar de uma cadeira decorativa, objeto do antiquário, e enlaçou Catarina pela cintura, assim como ali chegaram. Ela, vencendo o mau hálito deixado pelo excesso de birita, beijou-o com tal enroscar de língua jamais presenciado na história de pés de cana, bambas e manguaceiros cativos. Por alguns segundos, a maioria parou de dançar e aplaudiu aquela explosão de amor e volúpia. Rapidamente, embalados pelo batuque e pelo beijo arranca-goela, todos novamente caíram na cadência bonita do samba.

Enquanto a percussão e o gogó do vocalista pegavam fogo, o casal não mais se desgrudou, dançando até o dia clarear para finalizar, com chave de ouro e muito samba no pé, a comemoração de mais um ano de vida do boêmio Lourival... “Mas iremos achar o tom. Um acorde com um lindo som. E fazer com que fique bom. Outra vez, o nosso cantar. E a gente vai ser feliz. Olha nós outra vez no ar. O show tem que continuar...”. E por aí vai...

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Os Olhos de Sara.

quinta-feira, 5 de junho de 2014 1 comentários



Os Olhos de Sara.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Estofado de chenille rasgado. Um rasgão só, de cabo a rabo. Panelas amassadas por uma colher de pau. Cacos de vidro de uma tigela quebrada. Passos de salto alto. Vento gelado sacudindo as palhetas da veneziana.

Destrancou a porta do quarto e a abriu vagarosamente. Temia que fosse vítima, menos de algum fenômeno sobrenatural, do que de um bandido bem real. O breu do corredor impedia qualquer visão mais realista. Inadvertidas projeções do imaginário assustado distorcia a suposta clareza da razão. Apenas o silêncio e o vento frio cortavam o olhar esmaecido. Jana encostou a porta. Não ouvia mais nenhum movimento suspeito lá fora. Virou-se para a cama e ajeitou a coberta. Passar outra madrugada em claro seria impraticável. Não suportava mais a sonolência durante o dia. Sua jornada de trabalho pouco rendia após as estranhezas noturnas que não a deixavam dormir. Jana se sentou na cama. Dobrou a ponta da coberta e a levantou até o pescoço.

Ao suspender a perna direita, mantendo a outra ainda para baixo, sentiu um arrepio percorrendo-lhe a espinha. Dois olhos redondos a contemplavam, saltando das órbitas. O branco dos globos oculares irradiava uma luz ofuscante. Jana tremia, suava frio. O medo era tanto que a paralisou. Aquele par de faroletes óticos ainda esbugalhara mais, aproximando-se de Jana. Os olhos assombrosos chegaram tão perto dela que se dissiparam como fumaça no instante que tocaram seus cabelos. Jana se manteve na mesma posição. Os braços erguidos, suspendendo a coberta. Uma perna repousando no colchão e a outra para fora da cama. Seu calcanhar gelara em contato com o piso rajado do porcelanato, feito águas turvas. Gotas de suor jaziam esquecidas no chão. Jana respirou fundo. Conseguiu colocar a outra perna debaixo da coberta. Com as duas mãos, cobriu a cabeça, deixando apenas a ponta dos dedos de fora. Esperou o medo passar.

A tremedeira cessou. Descobriu a cabeça suficientemente para enxergar ao redor. Tudo calmo. Nenhuma aparição assombrara mais seus nervos óticos. Nenhum pesadelo sonoro repetira a tormenta de sua audição ao longo da madrugada. Já pela manhã, os primeiros raios de sol aqueceram suas pálpebras, forçando-as para que se abrissem. Jana precipitou-se da cama, sem se espreguiçar. Deu uma ligeira espiada a sua volta. Tudo normal aparentemente. Todos os pertences e objetos em seus devidos lugares apesar daquela maldição noite após noite. Abriu a porta, saiu do quarto e entrou no banheiro. Depois, foi até a cozinha, pegou uma garrafa com água na geladeira e bebeu um gole no gargalo. Virou-se e se deparou com a porta do quarto de Sara trancada. Não resistiu em se curvar levemente até acomodar a orelha na porta. Nada pôde ouvir. Recuou o corpo suficientemente para colocar a mão na maçaneta e virá-la com suavidade.

Sara estava deitada de bruços. Deslocou-se na ponta dos pés para não incomodar a amiga com o barulho dos seus passos. Chegou cada vez mais perto para melhor visualizar o semblante de Sara. Jana agachou-se, ficando cara a cara com a amiga adormecida. Nesse instante, Sara abriu os olhos. Fixou o olhar em Jana, sem piscar nem mudar de posição na cama. Olhos redondos, medonhos, brilhantes, pretendendo engolir quem quer que fosse fitado por eles. Jana sentiu seu corpo gelar, arrepiar, descompensar. Era o mesmo olhar que a amedrontara em todas as madrugadas mal dormidas. Olhar de assombração. Olhar das trevas prestes a devorá-la, fazendo-a sucumbir ao desespero e à agonia.

Quando Sara recorreu à amiga, pedindo ajuda por não ter onde morar, Jana não sabia o terror que estava a sua espera. Após uma discussão com o noivo, que por pouco não descambou para a agressão corporal, Sara amargurou-se. Tornou-se vítima de uma depressão crônica que culminou em sua exclusão do mercado de trabalho. Sua facilidade em se comunicar arruinara-se na sombra da tragédia matrimonial. Sara passou a ameaçar o ex-noivo após ser obrigada a sair de sua casa. Uma intervenção policial a fez tomar distância do rapaz. Sara definhou gradativamente. Chorava, não comia, morria. Como era órfã de pai e mãe, pois ambos foram vitimados por um acidente de carro quando Sara tinha seis anos de idade, uma tia afastada se solidarizou e abriu a porta de sua casa para recebê-la. Sara estava no carro com seus pais no dia fatídico. Sobreviveu por um milagre.

A chegada de Sara ao mundo já fora um verdadeiro enigma. Ela tinha uma irmã vinte anos mais velha, casada, mãe de um menino, que assumiu a criação da menina após a perda abrupta dos seus pais. Após o nascimento de Judith, sua irmã, por causa de uma enfermidade uterina, a mãe se submeteu à laqueadura das trompas, evitando assim uma futura gestação de alto risco. Quando Judith estava prestes a completar vinte e um anos, sua mãe, que se tornara bastante rechonchuda ao longo dos anos, tinha ido ao médico para tratar uma azia desconfortável e recebera a notícia surpreendente que, além de estar grávida, faltava poucos dias para parir. Era uma menina. O casal ficou em estado de choque. Não sabia como proceder perante tal ironia do destino. Depois de vinte anos teria mais uma filha. Nem a doença uterina, nem as trompas ligadas impediram aquela gestação, que só foi descoberta quando a menina já estava quase nascendo. Por achar que se tratava de obra da providência divina, decidiram chamá-la pelo nome bíblico, Sara.

Ela era uma criança normal. Seus grandes e expressivos olhos logo se transformaram no xodó da família. Mas após o acidente fatal, tudo mudou. A expressão de alegria nos seus grandes olhos desaparecera. Olhos redondos de tormenta, pesar e horror. Até os dez anos, a menina perdera a capacidade de falar. Só emitia gemidos. Judith se atemorizava sempre que Sara, sentada a sua frente, no chão, fitava-a com aquele par de olhos redondos e amedrontadores. Judith ficava paralisada de medo. Queria gritar, correr, fugir dali. Mas ia ao seu encontro, afagava seus cabelos e a colocava sentada numa antiga cadeira de balanço, herança de seus avós. Só aos quinze anos, depois de apenas balbuciar sons incompreensíveis, Sara, como num passe de mágica, voltou a falar. Judith foi pega desprevenida. Assustou-se, mas a alegria vencera o medo. Abraçou a irmã, deixando que algumas lágrimas deslizassem de seu rosto e molhassem os olhos de Sara. A sensação de ter os olhos molhados pelas lágrimas da irmã lhe provocou uma repulsa instintiva. Subitamente empurrou Judith que, perdendo o equilíbrio, tombou. Seu marido e filho olharam a cena espantados.

Judith se levantou, ameaçou se reaproximar de Sara, mas, atônita, retirou-se, deixando-a sozinha. O filho de Judith, quando passava por Sara, mostrava a língua e fazia gestos obscenos. Ela o ignorava. Judith evitava o contato do seu filho pré-adolescente com sua irmã. Mas por morarem na mesma casa, a convivência era inevitável. Sara estudou. Era uma boa aluna. De uma criança que quase não falava, expressando-se apenas com os olhos, passou a ser uma comunicadora fantástica. Logo foi descoberta como jovem e promissor talento por uma empresa multinacional de publicidade. Sara vendia bem o seu peixe. Os clientes a adoravam e a empresa confiava em seu poder de persuasão. Após convencer o seu ex-noivo, Sara logo se mudara da casa de sua irmã. Alugaram um apartamento e foram morar juntos. Quase um ano depois da mudança, como maléfica repetição do destino, Judith, seu filho e o marido morreram também num trágico acidente de carro. Sara soube da notícia sem que o seu porta-voz tivesse o menor cuidado para contar, justamente por seu delicado e trágico passado.

Por quase seis meses ficara novamente sem falar. Seu ex-noivo, compreensivo, ajudou Sara em sua recuperação. Quase perdera o emprego. O rapaz conseguiu negociar uma licença para que Sara tivesse a garantia de voltar a trabalhar quando se recuperasse. No sétimo mês ela voltou. Mas nunca mais rendeu como já rendera. Nada de excepcional. Tornara-se um peso morto para a multinacional. Só a mantiveram no emprego por causa do histórico brilhante, de conquistas, que alavancou os negócios em tempos áureos. Pouco tempo depois, numa crise de sonambulismo que jamais tivera, o ex-noivo sobressaltara-se ao ser despertado pelos redondos olhos de Sara a observá-lo num estranho êxtase, com uma faca de cozinha em punho. Dias depois tiveram uma briga homérica que culminou no término do noivado e na patética expulsão de Sara de sua casa. Sua tia distante a acolheu. Sara não mais voltou ao trabalho. Permanecia olhando para o alto. Às vezes falava de suas mágoas para a tia. Ela a ouvia com cuidado maternal, embora sua presença a inquietasse no âmago do seu ser.

Em um domingo ensolarado, a tia convidou Sara para um passeio de carro. Num cruzamento perigoso, essa tia, que dirigia, assustou-se ao perceber que Sara a contemplava severamente com os olhos arregalados. Distraiu-se. Não viu um caminhão que atravessava em alta velocidade. Uma colisão lateral que deu perda total. Reduzira o veículo a um montante de lata amassada. Mais de um ano após esse acidente, aparentemente ao acaso, Jana encontrou Sara em frente à redação de um jornal em que trabalhava. Surpreendeu-se em vê-la novamente, depois de tanto tempo. Ambas estudaram na mesma sala da faculdade de comunicação social. Jana concluiu jornalismo e Sara, publicidade. Após a colação de grau, nunca mais se viram. As duas amigas foram tomar café numa cafeteria da esquina, conversando animadamente ao longo de alguns minutos.

Jana percebeu que aquela animação toda escondia muita tristeza e pesar. Sara baixou a cabeça e chorou, contando a história de sua aflição e amargura. Falou da tragédia à qual sua vida se reduzira. A amiga sabia dos dois primeiros acidentes que vitimaram seus pais e depois a família de sua irmã, mas não sabia do terceiro que matara sua tia, muito menos sabia que Sara também estava no carro. Jana se comoveu, indo inclusive às lágrimas solidária ao seu tormento. Poucos dias depois desse reencontro, Sara telefonou para Jana pedindo encarecidamente para que ela a hospedasse em sua casa, justificando-se pela incontornável perda do emprego e pela impossibilidade de se recuperar suficientemente do término do noivado. Jana pensou um pouco, mas logo aceitou. Sentia-se sozinha e animou-se em ter companhia, além de poder apoiar a amiga no momento de abalo profundo pelo qual passava. Porém, desde o dia da mudança de Sara para sua casa em diante, ela nunca mais tivera sossego, nunca mais tivera uma noite de sono completa e satisfatória.

Naquela manhã, ao se deparar com o tormentoso olhar da amiga que, deitada de bruços, fixara-se sobre seus próprios olhos, Jana percebera que ao lado de sua cama havia um pedaço rasgado e amassado de jornal. Apalpou o corpo de Sara. Ela se manteve imóvel. Apesar dos olhos arregalados, fitando-a, estranhamente parecia que ainda dormia. Aproximou-se do jornal, abaixando-se para pegá-lo. Desamassou-o cuidadosamente para não rasgar mais e leu a notícia. Levou a mão à boca, assombrada pelo que acabara de ler. Sara falecera no acidente com o caminhão que vitimara sua tia. Os olhos de Sara permaneciam imóveis. Jana se curvou sobre a amiga. Certificou-se se ela realmente dormia. Ela não dormia. Não havia respiração. Jana afastou-se dela ainda mais apavorada. O corpo de Sara foi gradativamente perdendo a densidade. Perdera o colorido, o brilho, a forma, transformara-se em um aspecto esfumaçado. Acinzentou-se. Dissipou-se.

Não havia nenhuma Sara em sua casa. Jana saiu dali, abandonando aquele quarto. Foi até a sala. Olhou a sua volta. Observou a decoração. Não havia nada que fizesse lembrar Sara. Foi até a cozinha. Nenhuma panela amassada, nenhum caco de vidro pelo chão. Abriu a geladeira. Nenhum vestígio que houvesse alguém habitando aquela casa além dela mesma. Sentou-se no sofá. Não havia nenhum rasgão no estofado de chenille. Jana pensou na vida, na morte. Pensou no que as pessoas são, no que já foram e no que nunca serão. Pensou no vazio de sua existência, na estranheza de ser o que era. Não queria mais uma existência falsa e insossa. Queria mais. Precisava pontuar melhor a sua história. Um ponto final no que havia se transformado, no que os outros viam dela, na imagem exterior que, para ser como tal, Jana se tornou o que era, somente Jana. Aquela falsa personalidade, a sua de berço, violentava-a severamente noite e dia. Um ponto de basta. Estava prestes a inaugurar uma continuação mais real, reencontrando sua essência. Uma vírgula seria oportuna, uma vírgula que separaria a antiga Jana de sua nova personalidade. A história sofrida de sua amiga morta a inebriava radicalmente. A partir daquele dia, não mais se chamaria Jana. A partir daquele dia, assumiria sua nova identidade. Seria apenas Sara e nada mais. Jana veria com seus olhos. Eternamente Sara, eternamente os olhos de Sara. Era Sara que estava morta, mas era Jana que deixara de existir. Sara encarnara em Jana. Sara vive!

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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O Brejo e o Quarto.

terça-feira, 20 de maio de 2014 0 comentários



O Brejo e o Quarto.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Certa noite, Astolfo, um sapo cururu escorregadio, encardido e enrugado, após coaxar alegremente num brejo em frente à janela de uma casinha, saltou tanto com as fêmeas ao seu redor que acabou caindo na cama de uma jovem adormecida.

Num reflexo, pelo impacto do bicho nos lençóis, a jovem dobrou uma das pernas para logo depois jogá-la para o lado, acertando em cheio o pobre Astolfo. Ao sentir aquele objeto almofadado com a panturrilha, apesar de meio gosmento, ela teve um prazer inenarrável e, ainda mais reconfortada, continuou o soninho.

O sapo, cada vez mais esmagado, tentou coaxar para se livrar daquele pedaço roliço de pele, carne e osso, mas seus esforços foram em vão. Já quase todo amassado, parecendo uma ervilha pisoteada por um mamute, o anuro Astolfo reuniu toda a sua energia para escapar daquela torturadora batata da perna.

Inflou tanto sua bolsa vocal, gerando um coaxar tão estridente, que seu corpinho já fragilizado esticou o máximo permitido por sua pele elástica. Como uma bexiga, ou um balão de soprar, cujo limite de ar se excedeu, Astolfo estourou. Partículas gelatinosas espirraram para cada cantinho do quarto. Uma delas, inclusive, foi parar exatamente no meio da testa da jovem que, abalada pelo barulho e pela comichão, acordou.

Evelin ficou apalermada com o ocorrido. Não compreendia a origem daquelas coisinhas nojentas espalhadas pelos móveis e paredes do seu quarto. Sua pele estava empolada e avermelhada. Ela se coçou até quase se rasgar. Mas até aí, um bom banho resolveria. Só que a elevação de sua perna a deixou intrigada. Havia algo volumoso embaixo de sua panturrilha.

Ao levantar a perna, um novo espanto: Um homem de baixa estatura, meio encardido e enrugado, dormia calmamente abraçado à sua canela. Evelin reprimiu um grito. Teve o sangue frio para erguer o corpo e, com uma das mãos, sacudir o ombro do pequeno homem. Ao abrir os olhos e dar com a jovem assustada contemplando-o, o homenzinho soltou um berro, pulou da cama e se atirou pela janela.

Evelin foi até a janela para tentar ajudá-lo. O homenzinho estava caído com o rosto enfiado na lama. Ela se apoiou no parapeito da janela e, impulsionando-se, chegou ao outro lado para socorrer o pequeno. Tentou acalmá-lo e pediu para que ele a esperasse. Ela voltou com uma toalhinha úmida, álcool e algodão para limpá-lo e desinfetar seus ferimentos.

Após ajudá-lo, ela o convidou para que voltassem para o quarto. Ele aceitou. Ela apontou duas cadeiras para que se sentassem. Ele obedeceu e escolheu uma mais ao canto. Ficaram por um tempo só olhando um para a cara do outro sem que nada dissessem, até que ela interrompeu aquele silêncio constrangedor:

- Quem é você? Como chegou ao meu quarto?

O pequenino respirou fundo, encheu os pulmões de ar e vocalizou o sonoro "coach-coach". A jovem ficou perplexa. Esbugalhou os olhos para imediatamente fechá-los. Ameaçou fugir dali e nem olhar para trás. Mas tal fuga espetacular ficou só na imaginação. Ela permaneceu imóvel. Recuperou a abertura normal dos olhos e apenas deu sutis piscadelas. Não quis que o homem que coaxava em vez de falar se sobressaltasse, fugisse desesperado ou mesmo a atacasse. Tentou novamente um contato amistoso:

- Por que você imita sapo?

Ele se esforçou mais, coaxou mais algumas vezes, balançou a cabeça sucessivamente e, enfim, falou:

- Oi.

- Ah, finalmente... Pensei que você não falasse.

- Sim, eu falo. Desculpe o meu mau jeito. Seu quarto é bem bonito. Gosto dessa tonalidade verde-clara.

- Ah, obrigada. Mas afinal, quem é você? O que faz aqui?

- Eu me chamo Astolfo. Estava namorando ali ao lado quando caí em sua cama.

Evelin torceu o nariz, elevou as sobrancelhas e contraiu as maçãs do rosto. Não podia acreditar que alguém namorasse debaixo de sua janela enquanto ela dormia inocentemente. Menos ainda podia acreditar que um sujeitinho esquisito como aquele pudesse namorar.

- Oi, Astolfo. Eu me chamo Evelin. Mas que história é essa de namorar perto da minha janela?

O ex-sapo engoliu a seco, franziu seu recente cenho humano, coçou a barba espessa e... Antes de tudo, apavorou-se com aquele excesso de pelo em seu queixo. Não sabia nem que tinha um queixo, muito menos que fosse tão peludo. ...e pigarreou efusivamente, para não coaxar.

- Eu... é... Sou um sapo! Pronto, falei.

Evelin colocou a mão na boca para conter um risinho de estupefação por ouvir tamanho absurdo. Quis dizer algo, mas um soluço insistente não a deixou pronunciar nenhuma palavra.

Subitamente, interrompendo o riso, uma desconfiança invadiu seus pensamentos. Temia que o homem a sua frente fosse um louco fugitivo. Precisava telefonar para as autoridades. Precisava interná-lo. Pensou em espancá-lo, matá-lo, proteger-se contra qualquer possibilidade de se tornar vítima do miúdo insano.

Uma comichão novamente lhe subiu pelas coxas. Um desejo intenso de copular atingiu-lhe à intimidade. Sua pele novamente ficou severamente empolada. Só que a vermelhidão cedeu lugar ao tom esverdeado. A urticária evoluiu até enrugar toda a extensão do seu corpo. Sua estatura reduziu-se drasticamente. A cadeira aumentava na proporção que Evelin diminuía.

Astolfo se levantou e foi até a cadeira em que Evelin estava sentada. Pegou o pequeno animal no qual a jovem se transformara, colocou-o no ombro e pulou a janela. Ao longo do brejo, Astolfo massageava o pescocinho enrugado da jovem. Em cada palavra que falava, ele esticava a garganta de anuro de Evelin, ensinando-a a coaxar.

Numa atitude radical, após pronunciar a palavra "amor", Astolfo abriu a boca de Evelin e soprou com toda a sua força. Percebendo que ela nunca assimilaria suas palavras e as convertesse num significativo coaxar, ele apertou o biquinho da boca de Evelin e o amarrou com um barbante que antes servia para prender sua barba.

Após inflar o corpinho da pequenina jovem como um balão de gás verde e enrugado, Astolfo seguiu com um animado assovio pelo brejo adentro, segurando o barbantinho numa ponta, com a sapinha flutuando na outra.

Ele só não sabia se seriam felizes para sempre. Ele, antes sapo, agora um homem feio. E ela, antes uma bela mulher, agora uma sapa cheia de ar - e não de si. E se vivessem felizes? Essa felicidade toda se daria no quarto ou no brejo? Talvez tanto faz como tanto fez. E... assim caminha a humanidade e... os sapos também.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Do Jeito que Baco Gosta.

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Do Jeito que Baco Gosta.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Acostumado ao ambiente de botequins, Célio foi levado por sua nova companheira a uma requintada enoteca italiana. Ele nunca ouvira falar de um lugar com tal nome. Samaria lhe explicou que é só numa enoteca que os vinhos mais raros se encontram. Ele sabia que só o nome já era caro, mas quando soube do produto comercializado, sua carteira de dinheiro sofreu um tremelique patológico. Já à porta de entrada, Célio sentiu a primeira pontada de desgosto. O lugar era de uma finura incorrigível. Todos os cantinhos amadeirados. A iluminação era apropriada para aconchegar e, consequentemente vender mais: uma penumbra saudável para relaxar e degustar, sem nem sentir o tempo passar. Decoração assinada pelos mais renomados artistas.

Lustres cinematográficos. Uma adega climatizada aos fundos do estabelecimento de cair o queixo. O uniforme dos atendentes era impecavelmente asséptico e irretocável. Samaria e Célio foram recepcionados e levados à mesa reservada. O sommelier se aproximou e ofereceu ao casal a carta de vinhos. Enquanto escolhiam calmamente, ele disse que todos os vinhos da casa procediam da vinícola Paradiso di Frassina na região da Toscana. Disse também que o proprietário da vinícola deixava tocando o dia inteiro as composições de Mozart para que as parreiras ficassem alegres e produzissem uvas mais saborosas. Ele sugeriu a especialidade da casa, o vinho tinto chamado Brunello di Montalcino.

Célio ensaiou perguntar o preço, mas Samaria lhe deu uma pisada no pé para que ele não ousasse ser indelicado. O rosto de Célio inchou mais pela dor na sua unha encravada do que por vergonha. Disfarçou a vermelhidão da face cobrindo-a com o lenço de pano branco que estava no seu colo. Tal atitude foi recebida por uma nova reação de Samaria: um pontapé na canela. Menos por desconhecimento do que por nervosismo, o casal aceitou prontamente a sugestão do sommelier.

Logo depois, o especialista em queijos da casa, um francês membro da Confrerie des chevaliers du Taste Fromage, indicou aos dois o emmental ou o camembert. Samaria, fingindo exímio entendimento, optou pelo camembert, de cujo nome já ouvira falar algumas vezes por aí. Célio teve novamente vontade de intervir. Queria pedir seu amigo íntimo: o famoso cardápio "pé sujo". Mas seu primeiro impulso foi logo reprimido por um ligeiro beliscão de Samaria por baixo da mesa em sua batata da perna esquerda.

A garrafa de vinho chegou. O garçom retirou a rolha de cortiça com ímpar maestria e os serviu delicadamente em taças especiais. Colocou uma pequenina dose para cada um, esperando que o homem tomasse a iniciativa de provar e, caso não houvesse avinagrado, assentisse elegantemente para que ele completasse a dose até um pouco antes da metade da taça. Visivelmente irritado pela ínfima quantidade, encarou raivoso o garçom que, temendo aquele ignorante e atroz olhar, derramou logo o vinho nos finíssimos recipientes de cristal.

Samaria e Célio se entregaram ao ritual bizarro de enfiar o nariz na taça quase até encostá-los na bebida bordô. Beberam bem lentamente, estalando o biquinho ao final de cada golada. Quando o camembert foi servido, uma maçã verde acompanhava o glamoroso prato. Célio olhou enviesado para a fruta e estranhou ainda mais a camada mofada na superfície do queijo. Levantou o dedo e gritou: - "Não tem macaxeira frita?". Samaria não previu tal ridícula manifestação, pois cortava seu queijo enquanto Célio deixou escapar o berro vexatório. Samaria arrastou a cadeira para mais perto da mesa, abaixou-se discretamente e deu um soco no joelho de Célio.

Nesse instante, Célio estava saboreando o cremoso camembert e, assustado pelo soco de Samaria, engasgou-se. Começou a se contorcer na cadeira, sufocado. Ficou cada vez mais vermelho. Tentava puxar o ar e nada do ar vir. Virou para um lado, virou para o outro, deu alguns pulinhos sentado, cerrou os punhos, apertou o pescoço até que... Numa tossida magistral, o camembert, já pastoso, saltou de sua boca e foi parar na testa de Samaria. Ela esbugalhou os olhos, deu um instintivo tapa na testa e inclinou o corpo para trás. Foi aí que a força da gravidade não contribuiu muito. A cadeira desequilibrou e caiu para trás com tudo.

O estrondo fez com que todos olhassem. Célio deixou um risinho aparecer no canto da boca. Os garçons ficaram tão comovidos - para não dizer raivosos - que pediram desculpas e imediatamente convidaram o casal para que se retirassem sem nenhum custo adicional. A única coisa que passava pela cabeça de Samaria era o desejo de ser um avestruz para enfiar a cabeça no primeiro buraco que encontrasse. Célio pegou a mão de Samaria e a convidou para que fossem a um barzinho na esquina de sua casa. Ela quis recusar, mas estava tão frustrada pelo fiasco do encontro que resolveu aceitar.

Chegando lá, Célio cumprimentou todos os colegas de copo, falou alto, apresentou Samaria e pediu um mocotó para ele e uma fritada de mortadela para ela. A cervejinha gelada já estava à sua espera, como cortesia da casa. Eles beberam, comeram, falaram alto, gargalharam e foram felizes para sempre... ou até a próxima enoteca.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Um Divã Erótico.

segunda-feira, 14 de abril de 2014 0 comentários




Um Divã Erótico.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Ao ouvir seu nome, levantou-se e se aproximou do consultório. A porta estava apenas encostada. Tocou a maçaneta e a abriu. Uma força o impulsionara para fora, embora tivesse marcado aquela consulta espontaneamente, usando o próprio punho para ligar e agendar a entrevista.

Assustou-se ao se dar conta de que não havia uma viva alma no consultório. Espiou atrás da cortina. Apalpou o divã. Mexeu nos livros em cima da mesinha. Pegou um copinho de café na banqueta ao lado. Sentou-se no divã, cruzou as pernas, folheou uma revista e novamente ficou de pé. Certificou-se que realmente não havia ninguém. Deu uma rápida olhada para um lado, depois para o outro, flexionou os joelhos e fez o sinal da cruz.

Quando ia se deitar, engoliu um grito ao perceber que a analista já se encontrava em sua poltrona apenas olhando para ele com cara de poucos amigos. Jason deu um pulo para trás. Arrumou a gola da camisa e espanou pelinhos imaginários de sua calça jeans. Constrangido, sem deixar de olhar para o semblante paisagístico da analista, ensaiou um retorno ao divã.

Antes de tocar as nádegas no estofado do móvel freudiano, a doutora franziu o cenho e com apenas um gesto com o dedo indicador, disse para que Jason não se sentasse ali. Com a outra mão, indicou-lhe um sofazinho de apenas um lugar localizado à sua frente. A analista tirou os óculos e os depositou sobre a mesma banqueta do café ao lado de sua poltrona.

Jason desviou o olhar para o lado enquanto a analista continuara fitando-o fixamente, mas como se seu olhar o atravessasse, como se seu corpo fosse transparente. Depois de um longo tempo em silêncio, Jason tomou coragem e falou de suas compulsões. Nesse instante, a analista, até então sem mover um músculo da face, novamente ergueu o dedo indicador e apontou o divã, sugerindo que o paciente se deitasse. Jason procurou algum sinal que consolidasse tal convite, mas ela se manteve com feições imutáveis.

Timidamente, o paciente se levantou e se dirigiu ao divã. Antes de se deitar ainda deu uma espiadela na analista, buscando confirmação e temendo ser novamente interrompido ao se ajeitar naquele estofado macio. Não havendo repressão ao seu ato, Jason arrumou-se confortavelmente, com as pernas esticadas e as mãos cruzadas no peito. Ficou em silêncio por um tempo considerável, receando quebrar o clima de paz por alguma palavra mal colocada. Tomou fôlego, respirando fundo, e reiniciou a história sobre compulsões.

Antes mesmo de completar a terceira frase, sentiu dedos finos e longos acariciando seus cabelos. Calou-se, prendendo a respiração por um instante de perplexidade. Além da analista, não imaginava ninguém que teria entrado no consultório e se posicionado atrás do divã, acariciando seus cabelos. Temia se virar e acabar dando de cara com alguém que resistia em ver e saber. Também duvidou ser tudo aquilo apenas fruto de sua imaginação ou pior, de uma alucinação psicótica. Mas as carícias continuaram. Já sentia as duas mãos deslizando do rosto ao queixo e do queixo ao pescoço. Fechou os olhos, apertando as pálpebras. Começou a suar frio, embora permanecesse imóvel.

No momento em que lábios carnudos tocaram os seus, colando-os ao desencostarem pela secura da tensão, Jason não mais resistiu e abriu os olhos. Ao ver o rosto que se delineara à sua frente, quis novamente fechá-los, mas continuou olhando-o firmemente, pois não acreditava em tal espetacular visão. Era sua analista que havia subido em cima dele, já sem sua discreta roupa de ofício. Estava apenas de calcinha e sutiã. Separara as coxas com fúria e as encaixara no quadril de Jason. Com as mãos apoiadas em seu peito, a analista inclinou o corpo para trás e soltara os volumosos e encaracolados cabelos castanhos, sacudindo-os de um lado ao outro para que se desembaraçassem e assegurassem sua sensualidade natural.

Jason estremeceu. Fechou os olhos e se concentrou para aguentar o tranco com virilidade. Apalpou os seios de boa proporção da analista, tirando seu sutiã após arranhar de leve suas costas. Depois, apertou a bunda da moça com rara impaciência e lhe retirou a calcinha. Reconheceu as partes internas por entre as coxas suadas, recebendo como retribuição, um gemido de prazer. Ambos se livraram de todo o estorvo de tecidos e panos. Após um encaixe perfeito, a mulher, urrando de excitação, ainda com as mãos apoiadas no peito de Jason, requebrou alucinadamente a cintura, para cima e para baixo, enquanto ele colhia seus seios com a palma das mãos.

Segurando com as duas mãos no tronco da moça, trouxe-a até que se deitasse por completo sobre ele, enquanto assumia, freneticamente, o controle daqueles movimentos eróticos. Antes do ato final, a doutora saiu de cima da Jason e se colocou de quatro, apoiada no estofamento do divã, e esperou receber o instrumento pulsante do rapaz. O móvel freudiano fora empurrado alguns metros pelo consultório adentro, visto a gana daquele inusitado encontro sexual. Sussurros, gritos e suores. Os dois desabaram em frangalhos pela violência e volúpia daquela embolação sem vergonha. Encerrando o gozo derradeiro, acompanhado pelo úmido e surdo desabafo do tesão, os dois, num silêncio ofegante, vestiram-se e retomaram seus devidos lugares.

(...)

Jason estava sentado num largo sofá na sala de espera. Cochilara com a cabeça encostada na parede. Abriu os olhos. Conferiu as horas. Havia só mais uma pessoa para entrar, mas apenas depois dele. Estremeceu ao ouvir seu nome. Finalmente chegara sua vez. Uma figura feminina, elegantemente vestida, estava à sua espera. Jason cumprimentou a analista e se apresentou. Ela sorriu e lhe indicou um sofazinho para se sentar. Ele queria logo se deitar no divã como via em filmes sobre psicanálise que tanto gostava.

Ainda trêmulo, ele se sentou e cruzou as pernas. A analista se aconchegou em sua poltrona e se disponibilizou a escutá-lo. Ele custou a começar a falar. Vencendo a covardia para dizer o motivo de sua procura, iniciou timidamente um discurso sobre compulsões. A analista, apenas com um gesto de mãos, indicou o divã para que ele se deitasse. Jason se levantou e sem que a doutora visse, de costas, fez um sinal da cruz. Deitou-se e permaneceu a sessão toda em silêncio. Após um tempo determinado, a analista se levantou, abriu a porta e, sorrindo, o convidou que se retirasse, marcando a próxima sessão para a semana seguinte.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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A Segunda Estrela.

quinta-feira, 27 de março de 2014 1 comentários



A Segunda Estrela.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

O sopro frio da manhã, sacudindo os ramos brutos de um pinheiro, mantinha imóvel a sombria peça de vestuário fincada no arame farpado. Ao longe, coturnos reluzentes de soldados batiam com desdém e destemor na terra seca e dura, levantando poeira e rasgando os trapos e fiapos de esperança de homens, mulheres e crianças. Com o corpo arranhado e imundo, Guttmann rastejava sobre pedregulhos como punição por pedir água e um pedaço de pão para sua mãe que agonizava em um cômodo úmido e mal iluminado.

A camisa listrada do seu uniforme fora arrancada com brutalidade e cravada no arame farpado como advertência aos indolentes e insubordinados. O peito rasgado de Guttmann permanecera exposto após as miseráveis ordens. Largado à própria sorte, ou receberia o unguento necessário do sol, ou seria vítima de infecção oportunista por malditas larvas das inúmeras lixeiras e todo tipo de podridão a céu aberto. No alojamento, durante a madrugada, seus companheiros de infortúnio se depararam com Guttmann suando frio e murmurando desacordado. Mesmo com escassos recursos, teve seus ferimentos desinfetados e cobertos por tiras de pano velho.

Antes do amanhecer, foram surpreendidos por um burburinho do lado de fora. Uma enorme fila só de mulheres havia se formado. As que resistiam a entrar na fila - as que, por enfermidade não se aguentavam em pé e as muito idosas - levavam chutes e pontapés, socos, tabefes e bofetões. Muitas morreram ali, estiradas inertes no chão. Um deles identificou a mãe de Guttmann. Por mais doente que estivesse, perfilou-se, seguindo estritamente as ordens dos soldados. Em silêncio, obedientes, elas foram levadas até uma câmara misteriosa na qual só se entrava em grandes grupos e da qual jamais se vira ninguém sair. Várias chaminés expeliam uma fumaça espessa e enegrecida. Um odor insuportável era exalado de lá de forma intermitente. Alguns acreditavam se tratar de um crematório - lugar de extermínio dos que eram julgados inválidos -, mas poucos tinham certeza dessa informação.

Pela manhã bem cedo, tiraram os curativos improvisados de Guttmann e, mesmo com dificuldades de se erguer, levantaram-no na marra, pois se os soldados o flagrassem naquelas condições, seu destino fatal já era previsto. Não contaram sobre sua mãe para poupá-lo um pouco, pois já quase sucumbia às dores físicas. Para que ele se deitasse, espalharam palhas secas no chão e as forraram com uma coberta fina e esgarçada. Evitavam, assim, que o já moribundo Guttmann fosse atacado por pulgas, carrapatos e percevejos, cada vez mais se amontoando nos colchões dos alojamentos.

Ao recobrar os sentidos, foi logo em direção ao alojamento feminino para ter notícias de sua mãe. Na metade do caminho, um punho cerrado explodiu em seu peito descamisado. A pancada o fez curvar-se. Mas logo se endireitou, engoliu a seco as primeiras lágrimas que teimavam em descer e levantou a cabeça, exibindo um semblante com o máximo de serenidade. O soldado lhe apontou uma pá encostada no tronco de uma árvore e mandou que cavasse algumas covas. O odor do monturo de corpos, entrando em putrefação, estava nauseando os vigilantes da SS. Então, incumbiram os que consideravam mais fortes para que abrissem grandes buracos nos quais metessem o maior número possível de mortos.

Guttmann cavou dia e noite, sem parar, até a exaustão. Não soube de sua mãe, nem muito menos tivera tempo de pensar nisso. Após três dias ininterruptos de trabalho árduo, fora concedida uma noite de descanso. Mesmo esgotado, não conseguiu dormir. Algumas dores não foram feitas para que se deságuem no sono profundo e refazedor, mas, ao contrário, para que excitem ainda mais a mente para que arregalem os olhos da consciência. Antes de entrar no alojamento, apoiou a pá no chão e debruçou-se em seu cabo com uma mão sobre a outra e o queixo sobre ambas. À luz do luar, avistou sua camisa listrada fincada no arame farpado. Ao olhar mais acima, observou uma estrela solitária. Notou a semelhança entre o bordado mal feito de seu uniforme, esfarrapado naquela cerca, e a pequena estrela cintilante.

O trabalho tosco daquele bordado, que marcava o peito triste e abafado dos seus companheiros de jornada, significava nada mais nada menos que a liberdade do seu povo. Sua camisa listrada, aquele pedaço de trapo destroçado no arame, ostentava uma estrela disforme, atada à desesperança de um campo morto. Mas a outra estrela, a brilhante, pairando acima de todas as cabeças, seja dos maus, seja dos bons, estava além do arame farpado. Estava nas alturas. Estava livre.

Olhou para os lados. Os soldados marchavam, realizando rondas noturnas. Faziam a vigília, não deixando escapar nenhum ângulo sequer de seus olhos de sicário. Qualquer movimento humano, suspeito ou insuspeito, os guardas cravejavam o infeliz sem culpa nem clemência. Matar era o mais disputado esporte deles. A iluminação em toda a extensão da cerca impedia qualquer ponto cego e garantia a visibilidade em amplo espectro. Uma ponta de esperança surgiu quando Guttmann se deu conta de algo inusitado. Estranhamente, talvez por causa da luz do luar em contraste com a luminosidade artificial do campo, ao lado de um poste, justamente na linha da estrelinha especial, uma pequena circunferência de terra ficara completamente mergulhada na sombra.

Um espaço mínimo, permitindo que seu corpo se encaixasse perfeitamente sem que fosse visto. Esgueirando-se, deslocou-se até à sombra, ajoelhou-se e se pôs a cavar. Não sabia como ainda tinha tanta força. Tantos dias sem dormir, abrindo covas e jogando corpos quase podres naqueles buracos precários e vergonhosos. Não precisava descansar. Sentia-se em plena forma para cavar mais um buraco, dessa vez com as próprias mãos. Precisava alcançar a estrela, não por cima – seu verdadeiro lugar -, mas por baixo, junto a minhocas e vermes. Buraco que o elevaria à categoria de homem livre, testemunhado pelo sorriso protetor da lua e alçado pelo brilho da verdade estelar. Guttmann cavou naquela noite o que nenhum homem poderia cavar em semanas sem cessar.

Em meio à terra, pedaços de unhas, de pele, de carne, de todas as vidas que se esvaíram pelo chão frio em sangue quente. Seu corpo franzino e subnutrido se espremeu como gato fugido pelo exíguo vão cavado por baixo da cerca. Cambaleando, com o arame farpado às suas costas, deixado-o para trás, Guttmann esfregou os olhos, cego pela potência do mundo inteiro a ser reencontrado. Abriu os braços e deixou que as lágrimas, outrora contidas, descessem e lavassem seu rosto enlameado pela tristeza. Pura embriaguez dos sentidos que só a sensação de liberdade pôde trazer. Olhou para cima. Ela estava lá. Sua estrela solitária o conduziria à paz de espírito e lhe devolveria o mundo inteiro.

Ao dar o primeiro passo em direção à nova vida, um impacto em suas costas lhe tirou o inocente sorriso dos lábios e o fez cair de peito no chão. Mesmo gradativamente perdendo a vivacidade do olhar, ainda conseguiu avistar a estrela radiante e esboçar um sorriso junto a um sangue espesso e ao último suspiro. Ainda com a arma em punho, o soldado virou-se novamente para o interior do campo. Guardou a arma e se afastou do arame farpado. A banalidade de mais uma vida tirada em tais circunstâncias não fora capaz de deter a energia libertária daquele homem sofrido.

Como um sopro de alegria, após atravessar por debaixo da discórdia, Guttmann alçou voo, subindo cada vez mais alto em direção à estrela. Quando chegou tão alto quanto ela, iluminado pela luz do luar, não mais quis subir. Abraçou-a com fervor e dela não mais soltou. Daquele dia em diante, o céu sombrio do campo de concentração enfeitara-se com o cintilar de mais uma estrela, mais uma luz, mais uma pequenina esperança.

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

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Kovalski: do sul ao sudeste do Brasil.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014 0 comentários



Kovalski, do sul ao sudeste do Brasil.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Enquanto a locomotiva parava gradativamente, Kovalski precipitou-se no vagão, segurou firme nas barras próximas à porta e espichou o pescoço para fora. Um vento frio arrepiou até os pelos de sua orelha. Inspirou aquele ar gelado profundamente. Ficou tão maravilhado ao sentir a atmosfera de sua cidade que não pôde notar sua cartola escapulindo da cabeça, flutuando vagarosamente e caindo de leve sobre os trilhos.

Sentiu-se em casa outra vez. Depois de tanto tempo, não pôde conter um sorriso de contentamento. Em seus pensamentos, apenas uma mensagem: “Como é bom estar em casa!”. Quando a composição parou por completo, Kovalski, que já sentia a vitalidade doméstica no vento frio, saltou na plataforma ferroviária com a mesma confiança da época de criança. Desde que sua família saíra de Curitiba para morar no Rio de Janeiro, Kovalski sofrera muito com as mudanças de clima e de cultura. Embora seus pais tenham saído de sua cidade natal ainda em seus anos de infância - retornando com cinquenta e dois incompletos -, ele jamais esquecera sua Curitiba.

Quanto mais a idade pesava em seus ombros, mais Kovalski nutria o sonho do retorno. Muito antes de Curitiba se tornar uma capital modelo, referência de qualidade de vida e modernidade, às vésperas da proclamação de república, os pais de Kovalski, quando ele tinha apenas cinco primaveras, migraram da capital paranaense para o Rio. Seguindo o exemplo de alguns conterrâneos, partiram em busca de prosperidade lá pelas terras da Guanabara, ainda capital federal do Brasil. Apesar de jamais terem se adaptado ao clima excessivamente quente, só saíram do Rio para que suas cinzas, depositadas em duas urnas de porcelana, fossem espalhadas entre araucárias e pinheiros do saudoso Paraná.

Chegando ao Rio, na zona portuária, uma família de retirantes nordestinos, sensibilizada pela causa dos Kovalski, convidou-os para que se abrigassem em seu casebre ao pé do morro da Providência. Ao perceberam a precariedade da construção daquele barraco, os Kovalski ofereceram o auxílio da tradicional técnica de seus ancestrais poloneses em erguer casas com troncos de árvores empilhados. Conseguindo o material, puseram a mão na massa e montaram uma casinha aconchegante, aos moldes da antiga colônia. A família hospitaleira, grata pelo feito extraordinário, convidou o casal para que trabalhasse num promissora indústria têxtil no centro da cidade. Os retirantes garantiram que seus filhos mais velhos cuidariam do pequeno Kovalski durante a extensa labuta. O casal se alegrou com a oferta do emprego. No dia seguinte, apresentaram o casal ao dono da fábrica. Após uma série de testes, os largos conhecimentos da vida no campo renderam um contrato de trabalho na cidade.

Desde cedo, orientado pelo filho mais velho dos nordestinos, o pequeno Kovalski aprendeu a mexer com a terra. Aos dez anos, capinava, plantava e colhia grãos, milho, batata, aipim e algumas frutas para comercializar na cidade, ajudando na subsistência dos retirantes. Aos dezoito, foi trabalhar com os pais na indústria têxtil e os ajudou a erguer sua própria casa no morro da Gamboa. Mais tarde, já com vinte e três anos, subiu a serra pela primeira e vez e se encantou com o clima da região. A temperatura amena, mais para o frio, tocou a alma de Kovalski. As idas e vindas tornaram-se cada vez mais frequentes. Certa vez, embrenhou-se nos relevos serranos e nas curvas de uma mulher e nunca mais voltou. Enamorou-se de uma moça, descendente de suíços, com a qual se casou, e fixou residência numa cidade chamada Nova Friburgo. Adaptou-se com facilidade à cultura local. Seu sogro, um grande produtor rural, beneficiou-se de sua experiência na agricultura. Tornaram-se grandes amigos. Além de um genro com o qual se orgulhava, fora adotado como um filho querido. Após a morte do sogro, sendo sua esposa, assim como ele, filha única, herdou a fazendo e tocou os negócios para frente, investindo mais no setor pecuário e na produção de derivados do leite.

Apesar de muito chamar para que seus pais morassem em sua fazenda de Friburgo, eles não quiseram abandonar a ilusão de prosperidade no Rio de Janeiro. Muitas foram as visitas de um lado e de outro, mas jamais o clima serrano os convencera da mudança. Quando Kovalski completara quarenta e três anos, uma carta da capital federal, escrita com a inconfundível caligrafia do filho mais velho dos retirantes, deixara Kovalski em luto por quase uma semana. Seus pais estavam tuberculosos, mas a ignorância não os fez procurar por tratamento adequado. As condições insalubres de trabalho e moradia agravaram demasiadamente o quadro clínico. Ao descobrirem a maldita enfermidade, já era muito tarde. Morreram quase simultaneamente em poucos dias. Kovalski fora muito consolado por sua mulher, o que o permitiu retomar a lida em pouco tempo.

Porém, o golpe fatal ainda estava por vir. Cinco anos depois da morte de seus pais, sua amada esposa definhara numa velocidade assombrosa. Descobrira um câncer raro, sem nenhuma possibilidade de recuperação. Foram três anos de agonia. Kovalski não se afastou da esposa por nenhum motivo. Ela passou a depender dele das mais significativas as menores necessidades diárias. Embora tivessem empregados, era ele que preparava as refeições de acordo com a dieta alimentar, cuidava do corpo moribundo em sua higiene pessoal, dava-lhe o amor que sempre lhe fora devotado. Toda noite, até sua morte, conversava com ela, contando suas impressões dos acontecimentos durante o dia, apesar de, já na fase terminal, numa vida vegetativa, ela não mais ouvisse uma palavra que ele dizia.

Seis meses após o falecimento de sua esposa, um telegrama misterioso de uma tal senhora Ludmilla, chegara a suas mãos. Lendo aquelas palavras, parecia que a mulher conhecia toda a sua trajetória como a palma de sua mão. Emocionou-se. Ao ler o remetente, surpreendeu-se ainda mais: Era de Curitiba. A senhora Ludmilla, embora Kovalski não a conhecesse pessoalmente, nem ela a ele, parecia muito familiar. Ela o convidara para que fosse à casa dela, pois precisava lhe dizer algumas palavras de conforto, além de transmitir uma parte essencial de sua história que lhe fora negada. Certo calafrio lhe percorreu a espinha. Teve tremedeira e grande curiosidade. Assim como seus sogros e seus pais, ele havia tido apenas um filho. Como o pai, o jovem aprendera o ofício desde cedo. Como tinha empregados de extrema confiança, deixou-os como responsáveis pela fazendo pelo tempo que permaneceria fora, depositando no filho os direitos e deveres de sua herança.

Segurando uma maleta com algumas peças de roupa, Kovalski deixou-a no chão da estação para que se sentasse e apreciasse a saudosa paisagem curitibana. Passou a mão na cabeça e percebeu o imenso vazio. Olhou para um lado. Olhou para o outro. Depois de muitas tentativas frustradas, a cartola surgiu em seu campo de visão. Verificou se nenhuma locomotiva se aproximava, levantou-se, deixando a mala abandonada no meio da estação e se abaixou para pular a plataforma. Pegou a cartola e subiu de volta à plataforma. Deu alguns tapinhas para espanar a poeira e arrumou o elegante acessório no alto da já escassa cabeleira grisalha. Desamarrotou o paletó, abaixou-se para pegar a maleta e seguiu viagem de charrete até o Alto São Francisco, endereço fornecido pela tal senhora Ludmilla.

A charrete fez a volta pela capela dos franciscanos e parou em frente a um palacete recentemente construído. Kovalski não se lembrava de ter visto aquela arquitetura suntuosa em sua época de criança. O palácio, estruturado sob influência germânica, representava a transição artística entre o ecletismo neoclássico e o modernismo. Kovalski desceu da cabine, pagou o charreteiro, afagou a crina de um dos cavalos e bateu palmas em frente ao portão principal. Ninguém apareceu para recebê-lo. Ensaiou mais palmas. Mas antes que iniciasse aquela repetição barulhenta, notou um pequeno papel dobrado em forma de triângulo, debaixo de uma pedra, em cima do muro. Seu nome escrito foi o que mais lhe chamou a atenção. Tirou a pedra e desdobrou o bilhete. Era de Ludmilla. Dizia para que ele entrasse, sem cerimônias. As chaves estavam debaixo do capacho do alpendre, único acesso ao salão.

Ao entrar, fora engolido pela escuridão. Mesmo já havendo luz elétrica, não conseguiu ligar o interruptor. Numa banqueta ao lado da porta, um candeeiro estava à espera de ser aceso. Kovalski alcançou o objeto, constatou a existência de óleo, acendeu o pavio de barbante com fósforo e, mantendo a maleta bem segura com uma das mãos, ergueu o candeeiro acima da altura de sua cabeça. Tirou a cartola e a depositou num cabideiro diante de si. Quando seus olhos se acostumaram com o clarão, não pôde conter um gemido de pavor. Todos os quadros iluminados, um por um, pinturas ovais, exibiam traços marcantes que revelavam sua própria face. Sua mente afetada pela estranheza da situação não conseguiu discernir entre uma repetição em série do seu rosto, ou se as imagens eram de membros desconhecidos da família Kovalski.

O mal-estar era tanto que, ao se deparar com um espelho emoldurado, nas mesmas proporções das pinturas, Kovalski deu um grito e pulou para trás, quase permitindo que o candeeiro escapasse de seus dedos. O movimento daquele semblante amedrontado fez com que Kovalski, inexplicavelmente, acreditasse ser assombrado pelo inanimado que de súbito adquirira vida. Virou-se para a porta do salão no intuito de sair rapidamente dali. Sua maleta, já jogada no canto, com o impacto da queda, esparramara as roupas ao seu redor. O portão encontra-se trancado. Segurou a maçaneta com as duas mãos e começou a forçá-la para trás e para frente. Perante o fracasso do esforço, Kovalski, encostado na parede, deixou que seu corpo escorregasse até se sentar no piso de tábuas corridas.

No chão, vencido pelo medo, Kovalski se manteve estatelado no chão. Já quase cerrando as pálpebras pelo enorme cansaço, novamente ficara alerta ao ouvir tábuas rangendo, som de passou chegando cada vez mais perto, em sua direção. Kovalski ajeitou-se no chão, erguendo o corpo com o apoio dos braços, mas sem se levantar. Um vulto de cabelos esvoaçantes chegou tão perto que quase era possível sentir sua respiração quente. Um calafrio o eriçou por completo. Achou que fosse a enigmática Ludmilla. Mas, como num passe de mágica, o rosto se revelou. Era sua mãe na juventude, antes mesmo de tê-lo como filho. Kovalski agarrou-se aos tornozelos daquela aparição e se entregou a um choro convulsivo. O vulto se curvou até envolver Kovalski. Acariciou seus cabelos e ergueu sua cabeça até nivelar seus olhos. Uma atmosfera profética se apoderou do recinto.

Metamorfoseada em mulher, a assombração sentenciou que Kovalski precisava transmitir seu legado ao filho, responsável pela fazenda de Friburgo. Seu retorno à amada Curitiba simbolizava o reencontro de gerações, o reencontro de antepassados com os futuros frutos daquela terra. À capital paranaense, estava reservado um destino de glória, exemplo de preservação, política e sociedade. A participação de seus ancestrais poloneses seria indispensável àquela conquista. Kovalski precisava resgatar suas raízes, reassimilar suas origens, resistências do seu povo e existências vindouras para contribuir com o avanço do Brasil para além das fronteiras sulistas.

Totalmente mergulhado nas palavras que lhe tocaram tão profundamente, Kovalski recebera o pinhão de uma araucária entregue pela assombrosa mulher, que o fez fechar a mão com o objeto ofertado. Logo depois, desfez-se em seus braços. O candeeiro apagou, as luzes acenderam e Kovalski se viu deitado na grande cama do seu quarto na fazenda de Friburgo, ao lado de sua mulher. Um sorriso espontâneo e revelador de uma felicidade transbordante o impulsionou a abraçar a esposa com tanta força que ela acordou assustada. Ela lhe endereçou um olhar incrédulo, mas percebendo a alegria desmesurada no rosto do marido, retribuiu o sorriso e o envolveu num abraço afetuoso.

A esposa viu as horas e demonstrando pressa. Falou que eles deveriam correr para que nada faltasse para os preparativos do almoço festivo. Kovalski se surpreendeu e perguntou sobre que ocasião especial era aquela. Sua mulher, achando graça com a dúvida do marido, falou que os pais se Kovalski já estariam chegando de Curitiba para o casamento do neto. Kovalski não conseguiu esconder a euforia de saber que seus pais estavam vivos. Perguntou à mulher sobre como aquilo tudo era possível. Ela soltou uma gostosa gargalhada. Disse que o marido não estava batendo bem das ideias.

Kovalski quis saber também o motivo dos pais terem voltado para a capital paranaense. A mulher, ainda mais admirada com a loucura do marido, afirmou que eles jamais saíram de lá. Falou que ele, como ninguém, sabia que seus pais nunca trocariam aquele lugar por nada neste mundo. Disse ainda que, só ele, filho desgarrado, resolveu se apaixonar e que, por isso, viajou para o estado do Rio de Janeiro, subiu a serra e se casou com a filha de um fazendeiro suíço. Nesse instante, ela olhou para Kovalski por cima do ombro e deu algumas piscadelas sedutoras. Ele aderiu à brincadeira, e muito animado, correu para abraçá-la e beijá-la.

Quando os pais bateram à porta, Kovalski os abraçou, os dois juntos, com tanta emoção que os dois não resistiram e deixaram que muitas lágrimas rolassem junto a sorrisos de alegria pelo reencontro. A choradeira foi de tal proporção que precisou que a esposa intervisse alegando que Kovalski tinha que se desgrudar dos pais para não matá-los do coração. Todos riram. Ele acomodou os pais na grande sala. Kovalski também se alegrou ao ver seu sogro chegando para receber os ilustres convidados. Na cerimônia matrimonial realizada em campo aberto, dependência da fazenda, Kovalski abençoou os noivos, desejou uma vida promissora a sua nora e chamou seu filho para um lugar afastado.

Lá, Kovalski deu ao filho o pinhão que a aparição do palácio lhe entregara. Seu filho lhe lançou um olhar com visível emoção, entendendo o recado, e lhe deu um abraço apertado. Vendo o rapaz se afastar, indo para perto da noiva, Kovalski permaneceu em isolamento, só admirando de longe tudo aquilo. Ali, teve a certeza final que a paz e o progresso, unindo o sul ao sudeste, reinariam de vez naquela família e nos corações dos brasileiros.

Mais tarde, já idoso, Kovalski soube que, apesar de ter sido criado como filho único, teve uma irmã que morrera aos quinze anos. Ele nascera quando essa irmã já estava com quase treze. Não se recordava dessa irmã, justamente por ser ainda muito novinho, três anos, quando ela falecera. Só percebia que seus pais choravam muito durante a fatalidade daqueles dias amaldiçoados. Poucos meses antes de a tragédia se abater sobre a família, seus pais celebraram o matrimônio da jovem menina com um nobre rapaz da região.

Após o casamento, eles se mudaram para o Rio de Janeiro. Os pais do noivo, ricos proprietários de indústrias de tecido, estavam também se mudando para o Rio devido a novas instalações fabris. Antes que chegassem à capital federal, um grave acidente, o descarrilamento da locomotiva na qual viajavam, os vitimara. A única sobrevivente fora a mãe do rapaz, mas falecera no hospital de um cidade vizinha ao Rio que acolhera as vítimas. Ludmilla era o nome dessa irmã.

Inconscientemente, Kovalski identificava o Rio de Janeiro como um lugar no qual superaria uma existência. Não se recordava da irmã, muito menos de sua morte, mas, em seu íntimo, reconhecia o Rio como uma prova e expiação das dores de sua família. Deixando seus pais com o coração na mão, viajou diversas vezes às terras da Guanabara, até conhecer, em Nova Friburgo, a filha de um simpático fazendeiro suíço, com a qual se casara.

Depois de tantas revelações, Kovalski sentou-se numa rocha, local de ampla visibilidade, abrindo a paisagem para a grande fazenda de Nova Friburgo. Deixou que um sorriso largo e espontâneo se apoderasse de seu semblante. Sua família, crescida e unida, teria a linda missão de manter as raízes das gerações de hoje e de sempre.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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