A Despedida.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013 0 comentários






A Despedida.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

O maquinista apitara mais uma vez. Seria a última oportunidade de adeus antes do embarque. O alvoroço se intensificou na estação de Keleti, em Budapeste. Acenos, lágrimas, sorrisos, despedidas, um vozerio sem fim. Enquanto Edit enlaçou István com um abraço aflito e cheio de saudade, seus dois filhos se enroscaram em suas pernas, chorando copiosamente, e imploraram para que o pai não partisse.

István, contendo-se, ainda derramou algumas lágrimas antes de respirar fundo, abaixar para pegar suas malas, sorrir confiante e se virar para embarcar. Ao subir a escadinha da locomotiva, foi severamente revistado. Após a constrangedora inspeção, entregou o bilhete para o fiscal que, por sua vez, indicou-lhe o seu assento. Em seguida, ajeitou suas malas para que coubessem no bagageiro e se acomodou ao lado da janela.

Pegou um lenço do bolso para desembaçar o vidro. O frio lá de fora contrastava com o ar quente inalado e expelido pelos passageiros. Uma espessa fumaça branca, em abundância, matizou o azul do céu. O gigante de ferro se pôs a trilhar seu caminho. István tentou esconder a emoção ao ver seus filhos correndo atrás do trem.

Sua esposa, cada vez menor pela distância, com uma das mãos no rosto, disfarçando o inchaço dos olhos e a vermelhidão do nariz, apenas acenava ao longe e gritava os nomes dos filhos para que voltassem. Visivelmente abatido, István ergueu a mão e mexeu os dedos, como se apenas os abrisse e os fechasse timidamente. Tal gesto jamais seria percebido por quem fosse que estivesse do outro lado da janela.

Seu peito apertava quanto mais se afastava. Vislumbrava melhores condições na Inglaterra. A guerra já consumira a maior parte do continente europeu. Ser cidadão húngaro só levava ao pior. Invasões após invasões. Dominações após dominações.

Como se já não bastasse perder sua língua materna para o império austríaco em outras épocas, agora corria o risco de perder sua própria família para o nacional-socialismo alemão. Estava obstinado em não permitir tamanha tragédia. Embora não fosse judeu, já havia perdido amizades valiosas para o obsceno antissemitismo. Nada pôde fazer para salvá-las, mas estava em suas mãos dar uma vida mais digna à sua família.

As condições eram péssimas até para os não-judeus. Tudo ia de mal a pior. Ouvira que na Inglaterra ainda havia algo de próspero naqueles tempos malditos. Sabia que algumas personalidades, inclusive as perseguidas, de diferentes nações, encontraram asilo político e econômico por lá. Deixaria sua esposa e filhos apenas por algumas semanas, pelo menos até descobrir uma maneira de se estabelecer financeiramente. Mandaria dinheiro antes de voltar para buscá-los.

Eles não passariam por necessidades por algum tempo. Havia uma boa economia que juntara debaixo do colchão, dinheiro vivo. Não acreditava nos banqueiros. O trabalho no setor agrícola, antes que a crise despencasse de vez, tinha lhe rendido alguma coisa. Esse dinheiro seria suficiente até o seu regresso. Seus conhecidos também não os deixariam passar fome durante sua ausência.

Enquanto István pensava em todas as suas responsabilidades, o trem parou numa estação desconhecida. Oficiais da SS entraram batendo com força seus coturnos no chão, como se marcassem território. Um deles arrancou um sujeito de um assento aos murros e pontapés.

Alguém cochichou ao fundo que judeus viajavam clandestinamente, com identidades falsas. Depois daquele, outro também foi jogado do trem com violência, maltratado, pisoteado, assassinado na frente de todos. Quando os soldados apanharam o terceiro, István, movido pelo remorso de nada ter feito para proteger seus amigos judeus, levantou-se, saltou no pescoço de um oficial, agarrou-o pela farda e lhe desferiu um soco na cara.

O companheiro do oficial do serviço secreto, sem que a origem de István importasse, sacou a pistola e disparou, acertando, com precisão cirúrgica, a testa do húngaro. Os demais passageiros, menos indiferentes do que apáticos, mantiveram-se em seus assentos.

Um dos soldados agarrou o corpo de István com desdém, cuspiu em seu rosto e o jogou no trilho, deixando que o gigante de ferro terminasse o serviço - desfigurasse-o, tornando-o irreconhecível. Após identificarem o terceiro judeu, os oficiais se retiraram, levando-os para um gabinete anexo à estação.

O trem seguiu viajem como se tudo aquilo jamais tivesse acontecido. Semanas e meses se passaram sem que Edit e seus dois filhos tivessem notícias de István. Seus parentes a tranquilizavam, dizendo que os correios extraviavam muitas correspondências em época de guerra e que em breve ele estaria de volta.

Mas após dois anos sem que nada soubesse do marido e passando por terríveis necessidades, Edit cedeu aos galanteios de Moritz, um oficial alemão. Um ano depois, ela e os filhos se mudaram para uma agradável casinha no interior de Berlim. Moritz cuidava dos filhos de Edit como se fossem seus. Com os cuidados do oficial da SS, a família jamais passou por mais nenhum aperto.

Moritz prometera encontrar István. Mas, depois de muito tempo sem nenhuma pista do seu paradeiro, nem mais no nome dele a nova família alemã tocara. István fora esquecido para que a vida retomasse seu curso normal. Com o atencioso mantenedor alemão e uma nova casa em outro país, Edit reencontrou a paz indispensável para recomeçar ao lado dos filhos.


Conto Escrito por Alex Azevedo Dias.

Um Doce Encontro.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013 0 comentários















Um Doce Encontro.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Diariamente, ao entardecer, ela passava pela calçada de mosaicos tortos. Artistas anônimos, mestres calceteiros, desenharam ondulações com as irregulares pedrinhas portuguesas. Talvez a maioria deles já não mais exista, mas deixaram suas marcas nas calçadas brasileiras, herdeiras que são da última flor do Lácio. Das ondas do mar de Copacabana às partituras de Noel Rosa em Vila Isabel. O mosaico do calçadão da praia de Icaraí, em Niterói, lembra os naipes das cartas de baralho, muito semelhante às calçadas lisboetas.

Pontualmente, às seis horas da tarde, aquela jovem cruzava a rua Augusta. Eu a via desde a Praça do Rossio até atravessar o trilho do histórico bonde amarelo da Praça do Comércio. A primeira vez em que a vi, eu contemplava a algazarra dos vendedores ambulantes e artistas de rua da janela do hotel em que estava hospedado. Da multidão homogênea, ela apareceu. Todos os holofotes imaginários a destacaram, enquanto a massa de transeuntes desaparecera por completo de minha vista. Vestido branco, rendado, deixando as coxas à mostra, sapatos de salto-alto, sutiã levemente visível pela alça do vestido que lhe escorregava pelo ombro. De seus cabelos longos e discretamente ondulados à maneira como balançava a cintura e brincava de esconde-esconde, cobrindo e descobrindo as costas e o colo com sua mexida de cabelo, uma saudade do Rio me tocou a alma.

Estava em Portugal a trabalho, Precisava fechar um negócio lucrativo para o restaurante paulista com o qual tinha sociedade. Iguarias lusitanas eram o meu alvo. A rua Augusta, homenagem a D. José I, o Augusto, dentre outros tipos de comércios, tem um mercado gastronômico de primeiríssima qualidade. Além da formalidade dos cafés, com suas mesas distribuídas ao longo do calçamento, os artesãos da culinária - populares preciosidades - também, e principalmente, merecem honrarias. A rua Augusta é fechada ao trânsito. Faz lembrar a rua Quinze de Novembro em Curitiba. Escrevo estas linhas daqui, de Portugal. Hoje, não mais à procura dos artistas da boa mesa, mas por outro motivo. Um motivo vital. Motivo que me impulsionou a transferir residência de São Paulo para a terrinha dos alfacinhas lusitanos.

Não sei se os lisboetas ainda consomem tanto alface, mas na época da invasão moura, talvez esse fosse um dos únicos alimentos do povo de Lisboa. Por isso o tal título pejorativo que perdura até hoje dos cidadãos lisboetas: alfacinhas. Tenho saudade da minha terra natal. Tenho saudade do Rio, de São Paulo, de Curitiba... Tenho saudade do Brasil. Mas nenhuma saudade é capaz de me tirar desta cidade. Eu amo uma mulher e amo um país. Gosto de Portugal, mas não é amor. E o meu amor pelo Brasil em nada se compara ao amor pela mulher. O amor pela mulher é mais forte e me impede de voltar para lá, para além mar.

Acho que nunca mais cruzarei a imensidão do Atlântico. Pois o sentimento que tenho pela mulher dos cabelos encaracolados - tão carioca no jeito e tão portuguesa na origem - é mais oceânico do que o mar. Tirando o samba que se ouve em cada esquina, a rua Augusta de Lisboa tem alguma coisa da rua do Ouvidor do meu saudoso Rio de Janeiro. Talvez os bares, a arquitetura, uma certa musicalidade entoada pelos tocadores de harmônica, pessoas se divertindo, comprando, cantando, bebendo, enfim... sendo felizes.

Certa vez, como quem não quer nada, peguei um bondinho turístico bem na hora em que a jovem, que já estava no meu coração sem que soubesse, passaria por lá. Quando a vi chegar à Praça do Comércio, saltei do bonde e me aproximei. Tomei coragem, respirei fundo e ensaiei um cumprimento, uma saudação, um alô de apresentação. Mas recuei envergonhado. Levava uma sacola com pasteizinhos de nata e alguns folhetos informativos sobre o folclore gastronômico da cidade. Eu me sentia mal vestido. Peças amarrotadas. Estava suado pelo tempo de andança pelas ruas de Lisboa. Usava uma boina e havia deixado a barba áspera, por fazer, e exibia um bigode cultivado há semanas. Tirando a parte do bigode que, para mim, mesmo forçando a barra, é um símbolo viril de outros tempos, eu me sentia sujo e feio. Com um pé fincado no chão, fiz que ia e que vinha duas vezes, hesitando o primeiro encontro.

Quando eu me dei por mim, lá estava ela, estatelada à minha frente, me olhando espantada. Eu parei, constrangido e a olhei, franzindo as sobrancelhas com ar patético. Ela ficou séria por mais alguns segundos até, incontrolavelmente, cair na gargalhada. Com cara de bobo, para não parecer ainda mais bobo, ri de mim mesmo. Aquela situação vexatória fora o momento mais empolgante pelo qual passei em todo aquele tempo em Portugal. Ela ria de mim. Eu ria com ela. Nosso primeiro contato. Nossa primeira risada juntos. Contrariando minha expectativa em correr com os braços abertos até ela, eu apenas suspendi a boina com a mão direita, cumprimentando-a, e corri para o sentido contrário, sem olhar para trás.

Cheguei ao meu hotel com incontida felicidade. Sempre achei a palavra "radiante" meio afrescalhada, mas tal palavra era a mais apropriada para representar minha alegria: Eu estava radiante, era isso! Mas o sentimento de euforia logo cedeu lugar a certo arrependimento por não ter ficado e conversado com ela. Por dois dias eu não a vi. Nossos horários não coincidiram. Fiz vários contatos importantes com doceiros e confeiteiros, mas o meu coração estava amargo, temendo não mais vê-la.

No terceiro dia sem vê-la, meu coração novamente açucarou. Estava tomando um cafezinho sentado a uma mesa exterior de uma cafeteria local, quando a vi se aproximar e me perguntar se eu gostaria de sua companhia. O rubor esquentou minhas bochechas. Meio afônico, eu a convidei para se sentar. Então, iniciamos nossa primeira de muitas conversas:

- O que foi aquilo na Praça outro dia? - Falou a jovem segurando o riso e tampando a boca com uma das mãos.

- Eu... é... Queria te dar um "oi".

- Só um "oi"?

- Também queria perguntar o seu nome.

- Só o meu nome?

- É... pode ser... Não sei...

- Não fique inibido. Estou brincando com você. Meu nome é Márcia. E o seu?

- Eu me chamo Fael.

- Você não é daqui, né Fael? Você fala como um brasileiro. Você é brasileiro?

- Sim. Sou do Rio. Mas moro em São Paulo. Sou sócio de um restaurante lá.

- Hum... Que interessante. Tenho tanta vontade de conhecer o Rio...

- E por que não vai?

- Porque nunca tive alguém que eu gostasse o suficiente para me fazer companhia e me apresentar a cidade.

Nesse instante, eu apenas sorri, visivelmente envergonhado. Sem saber como agir, coincidentemente, um vendedor de flores passou entre as mesas e me ofereceu uma. Sei que no Rio, comprar uma rosa para a mulher que está com você equivale, pejorativamente, ao chamado "consolo" para mulheres da vida. Mas como eu estava numa cultura diferente, e os vendedores de flores não são maltrapilhos com muitos do Rio, têm postura e elegância, resolvi arriscar. Escolhi uma, paguei e a coloquei entre as mãos, como se a fizesse um galanteio. Márcia sorriu e aceitou o presente.

- Mas que gentil, esse gajo...

- Não vou negar, estou tímido. Me desculpe se eu a ofendi com essa flor.

- Não, não. Muito pelo contrário. Eu a achei linda. Amo flores.

- Que bom, que bom. Bem... é... se quiser... algum dia... eu... é... te levo para conhecer o Brasil. Quer?

- Uauuu! Claro que eu quero. Pensei que você não me convidaria nunca.

- Você fala muito bem o português brasileiro. Tem certeza que nunca foi ao meu país?

- Sim, Nunca fui. Mas amo as músicas e as novelas brasileiras. Eu assisto a todas. Adoro MPB. Caetano. Conhece?

- Claro! Gosto muito também.

- Como não o conheceria, né? Boba que sou. Você deve ser até vizinho dele, né?

- Não, não. Nunca o vi, para falar a verdade.

- O Brasil é muito grande... Fui boba novamente por achar que o seu país é do tamaninho do meu. Portugal cabe na palma da mão.

- Mas é lindo!

- É, isso é sim.

-...

- Posso fazer uma coisa?

- Pode. O quê?

Antes mesmo de perguntar sobre que coisa ela queria fazer, Márcia se levantou, debruçou-se sobra a mesa, pegou o meu rosto com as duas mãos, suavemente, e me deu o mais açucarado beijo na boca. Naquele instante, eu descobri o que procurava em Portugal. Era o doce mais perfeito de todos. Inigualável. Nenhuma iguaria, sofisticada ou popular, chegava aos pés daquele beijo. Eu sentia a língua de Márcia. Sentia seu sabor. Eu nasci para aquele beijo. Meu paladar jamais sentira tamanha formosura. O verdadeiro manjar dos deuses. Estava no Olimpo. Não o Olimpo grego, nem o português, nem o brasileiro, caso existam, mas o Olimpo do amor.

Ela deveria se chamar Dulce, pelo açúcar e não Márcia. Mas eu gostava de Márcia. Amava aquela Márcia. No dia seguinte, ela me levou para conhecer os pontos turísticos de Lisboa. Foi um passeio incrível. Terminamos a noite no meu hotel. Amanhecemos abraçados, amando-nos, nus, um sobre o outro, do lado do outro, misturados. No outro dia, eu liguei para Jonas, o sócio majoritário do restaurante paulista. Disse para ele que de todos os doces que experimentei em Portugal, saboreei um cuja sensação maravilhosa me impedia de voltar. Disse que estava perdidamente hipnotizado por aquele sabor e que não poderia mais voltar para o restaurante no Brasil.

Ele entendeu. Também sentira algo parecido pela mãe de seus filhos. Ele se encantou por um beijo doce assim como eu me encantei pelo sabor da boca de Márcia. Márcia morava com os pais. Com a ajuda da família dela, não foi difícil conseguir o visto de permanência e a cidadania portuguesa. Nos casamos em uma cerimônia simples, porém repleta de cumplicidade e afeto. Passamos a lua de mel no Rio de Janeiro. Ela ficou encantada. Eu a levei aos principais pontos turísticos, além dos menos badalados e mais românticos. Por coincidência, Caetano Veloso fazia uma turnê pelo Rio naquela ocasião. Márcia ficou deslumbrada. Fomos ao show e seu encantamento se completou. Depois de uma semana e meia de amor melífluo, voltamos a nossa querida terrinha portuguesa.

Em frente a um dos mais belos mosaicos de pedrinhas na calçada da mesma rua em que a conheci, montei um pequeno restaurante especializado em comida brasileira. Márcia me dava ótimos conselhos. Ela virou a minha mulher, a mãe dos meus filhos, uma formidável conselheira gourmet e a responsável por açucarar meu coração.

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Assassinato no dia de folga.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013 0 comentários



Um estampido seco seguido de um grito rouco foi ouvido há poucos metros dali. Saldanha, mesmo sem perder a compostura, apavorou-se. Fazia pouco que foi admitido na corporação policial. Tinha ainda pouco preparo e treinamento, mas não lhe faltava competência. Para ele, não havia a menor dúvida que não se tratava de suicídio, mas tentativa de homicídio e possivelmente crime passional por ter a vítima aquela voz de mulher que guarda algum tipo de estranha afetividade pelo algoz.

Saldanha não estava em atividade. Embora não fosse civil, recebera uma licença e aproveitou para descansar em sua residência. Sua esposa e sua filha não se encontravam em casa, pois foram almoçar na casa da avó materna da menina. Saldanha ficou um tempo ainda avaliando a situação, antes de tomar partido. Pensou em realizar um registro de ocorrência. Mas antes de qualquer coisa, como pertencia à polícia, resolveu averiguar pessoalmente pela vizinhança e descobrir por conta própria o que se passou, para só depois avisar à corporação.

Vestiu-se adequadamente para exercer seu ofício, trajando casaco tipo sobretudo como aqueles detetives antigos. O dia de folga não lhe permitia que colocasse a farda, exclusiva para se apresentar no quartel. Saiu praticamente na ponta dos pés, para que a vizinhança não percebesse sua ronda, e foi direto ao número 82, a casa na qual suspeitou que fosse o local do crime. Por não estar uniformizado, desarmado e sem o distintivo, não podia se identificar, principalmente porque se o criminoso ainda estivesse na residência da vítima, não poderia se defender.

Como não viu campainha, pensou em bater palmas como um cidadão comum que iria visitar a casa. Mas recuou de tal decisão ao se recordar que ele não tem de cidadão comum, pois, lembrou-se mais uma vez, fora admitido com orgulho na corporação militar. A porta principal estava trancada. Olhou para um lado e para o outro, confirmando que ninguém o via em tal missão, deu a volta e tentou o acesso à porta dos fundos. Num mínimo de esforço, a maçaneta girou. Por um instante se deteve na porta. Achou que talvez não fosse correto entrar sem mais nem menos. Afinal, lera na cartilha de leis que entrar na casa dos outros sem mandato judicial configura crime de invasão de privacidade. Logo declinou de sua consciência de culpa, e entrou assim mesmo.

A porta deu para a cozinha da casa. Um cheiro de café invadiu-lhe as narinas. O cômodo estava escuro e silencioso. Pelo menos o cheiro de café indicava que a casa não estava vazia. Antes de ganhar o corredor, Saldanha esbarrou numa frigideira pendurada na parede e quase causou um acidente. Por pouco conseguiu segurá-la antes que caísse e fizesse uma barulheira daquelas. Passou pelo corredor, também escuro. Antes de chegar à sala, viu que havia uma porta fechada. Por impulso, girou a maçaneta. Estava aberta, mas se deteve por uma voz de mulher, aparentando cansaço: - Pepê? É você? Um pouco assustado e sem iniciativa, Saldanha se manteve em silêncio. Quase voltou atrás. Mas voltou e se apresentou.

- Não, senhora. Sou seu vizinho. Ouvi um grito e vim ver se alguém precisava de ajuda.

- Qual o seu nome? Como entrou?

- Eu me chamo José. José Saldanha. A porta da frente está trancada. Eu entrei pela porta da cozinha.

- Ah... Deve ser o Pepê. Ele sai e esquece de fechar a porta dos fundos.

- Está tudo bem com a senhora?

- Sim, sim... Eu me machuquei com a faca, cortando carne, e vim fazer o curativo e descansar.

- Quer ajuda?

- Não precisa. Obrigada. Pode ir embora.

Saldanha ia se despedir. Desde o início do diálogo, manteve a mão na maçaneta, com a porta entreaberta, sem entrar nem fechá-la de vez. Não deu para ver quem ou o que estava atrás da porta. Mas sua intuição detectou algo de anormal naquela voz, além da informação sobre o corte com a faca não proceder, pois o que ouvira foi um estampido de arma de fogo. Fingiu que se afastava, batendo os pés em escala decrescente. Mas continuou ali, com o ouvido colado na porta.

Sem tirar a mão da maçaneta, abriu a porta subitamente, já na expectativa de pegar alguém em flagrante. Com a luz apagada, um vulto rapidamente virou-se para o Saldanha e precipitou-se, jogando-se ao chão, ao lado da cama contra a parede. Com os olhos mal acostumados à escuridão, o novato da polícia não notou toda a cena que se desenrolou a sua frente.

Acendeu a lâmpada do quarto. O corpo de uma mulher alta de uns 30 anos, nem feia nem bonita, vestido apenas da cintura para cima, jazia ensanguentado em cima de lençóis brancos. Não sabia só de olhar se houve abuso sexual, ou se o prazer foi consentido, com um namorado ou amante, o que levou não ao orgasmo, mas à morte. Não parecida que houve resistência ao ato. A marca de tiro no coração fez Saldanha pensar que o amor nem sempre termina bem como nas histórias românticas.

Quando Saldanha se curvou para ver melhor a marca de bala no peito da vítima, num movimento rápido, alguém saiu debaixo da cama, fez o colchão de trampolim, e pulou no pescoço do policial. Assustado, Saldanha agarrou as mãos do sujeito, tentando tirar as unhas já encravadas em seu pescoço. Virou bruscamente para um lado e para o outro, sacolejando, mas quanto mais ele tentava se desvencilhar daquele ataque, mais o sujeito apertava seu pescoço. A briga durou cinco intermináveis minutos, até que Saldanha, já quase sem forças, conseguiu lançar o agressor para longe de si. Foi aí que ele pôde ver que o criminoso era um sujeito de baixíssima estatura, uma criaturinha mínima que não passava de um metro e dez centímetros de comprimento.

Ao cair, o pequenino bateu a cabeça na parede com força e ficou desacordado. Como Saldanha não dispunha de algemas, ele achou um corda grossa, tipo das de laçar gado pelos vaqueiros - provavelmente que o tal homem tinha deixado naquele quarto para amarrar os braços de sua vítima caso ela resistisse. O policial abraçou o corpinho franzino do homem, levantou-o e encostou suas costas no pé da cama. Virou suas mãos para trás e as amarrou com a corda grossa ao redor da cama. Deu um nó cego, tipo de marinheiro e o deixou lá, desmaiado. Saldanha pegou seu rádio que o liga diretamente com o departamento policial e comunicou detalhadamente o ocorrido. Confessou que estava passando aquele dia de folga, mas como cidadão de bem, não podia deixar de fazer alguma coisa ao ouvir um grito de dor na vizinhança.

Quando seus companheiros da polícia chegaram ao local do crime e isolaram a área, interditando-a, eles já encontraram o criminoso desperto. Envolveram o corpo da mulher num plástico preto, fechando-o com zíper, para prepara-lo para a autópsia no Instituto Médico-Legal, e colheram algumas provas para posterior investigação. Ao interrogarem o sujeito, perguntando seu nome primeiramente, Saldanha percebeu que aquela voz feminina que ouviu ao dialogar com o assassino sem saber, não se tratava de um disfarce vocal para mudar sua voz de homem e assim despistar o homem da lei, pois a voz verdadeira do pequenino era tão fina como a de uma mulher de fato e de direito.

Logo Saldanha soube que Pepê era o marido da mulher e amante do assassino, Andinho. O criminoso baixinho, não admitia que Pepê continuasse casado. Ele queria o amante só para ele. Um dia, após uma discussão acalorada entre os dois amantes, eles combinaram se livrar da mulher, liberando assim o caminho para ambos. O marido, Pepê, preparou minuciosamente uma noite de amor com a mulher, e depois do sexo, Andinho entraria, fingia ser um ladrão que renderia a mulher e também Pepê, matando “acidentalmente” a esposa traída. Só que Andinho, não suportando a agonia de ouvir os gemidos sexuais do casal, entrou furioso antes do tempo, atirando no peito da mulher e no amante, que pulou pela janela desesperado.

Pepê foi encontrado pelado e machucado no quintal da casa. Andinho e Pepê foram encaminhados para a delegacia, julgados e condenados à prisão por crime doloso, com intenção de matar. Saldanha, num misto de perplexidade e orgulho por ter ajudado os amigos a desvendarem o caso, foi condecorado e promovido. Depois de ficar por um tempo na delegacia auxiliando nas investigações, Saldanha voltou para casa mais á noite e terminou o dia com a mulher e filha, na paz do lar. No dia seguinte, o policial agora oficial, vestiu sua farda e partiu para um dia de trabalho real na delegacia de polícia.


Conto Escrito por ALEX AZEVEDO DIAS.