Os Amantes.

segunda-feira, 27 de maio de 2013 2 comentários





Toda tarde de segunda-feira, Jonas tinha um compromisso inadiável: dividir a cama com Mirtes. Nos finais de semana, dedicação exclusiva às suas famílias. Não se deixavam dividir nem em pensamento. Viviam para suas famílias, e estas por eles. Passeios, afazeres, atividades e inatividades domésticas. Mas nas noites de domingo para segunda a ansiedade da espera possuía-os por inteiro, sem dó nem piedade.

Mirtes e Jonas, durante a semana, ocupavam-se integralmente com seus respectivos trabalhos. Só nas segundas, à tarde, tinham o único período de folga. Entregavam-se à carne pulsante até a proximidade do anoitecer. Depois se banhavam, arrumavam-se e voltavam para suas casas como se retornassem de uma exaustiva tarde de trabalho. Eles só se conheceram justamente pela coincidência dessa tarde de descanso.

Mirtes era professora universitária de história da arte. Jonas, arquiteto numa empresa de paisagismo e decoração de interiores situada ao lado da universidade em que Mirtes lecionava. Eles se conheceram numa cafeteria muito frequentada por professores e alunos da faculdade de humanas e filosofia.

Quando se viram pela primeira vez, não conseguiram mais desviar o olhar. Flertavam-se à distância, sem a ousadia da aproximação. Numa dessas tardes de segunda-feira, Jonas foi quem tomou coragem para o encontro inaugural. Mirtes estava sozinha sentada a uma retangular mesa com tampo de jacarandá. Jonas apreciava muito aquele cantinho. Era a única mesa da cafeteria de tal qualidade. Não tinha cadeiras. Eram dois bancos rústicos de peroba do campo.

O barista tinha acabado de servir um cappuccino quando Jonas chegou e iniciou uma conversa:

- Não sabia que se interessava também por artes sacras.

Mirtes se virou para Jonas e abriu um sorriso, convidando-o para se sentar ao seu lado. Ele prontamente aceitou e pediu ao barista que lhe levasse um cappuccino igual ao de Mirtes. Eles se apresentaram com um simples aperto de mãos. Ela comentou a abordagem de Jonas:

- Acho louvável a caridade dos franciscanos, mas dos frades capuchinhos eu só curto mesmo o sabor deste café.

Mirtes soltou uma gostosa gargalhada, sem tirar os olhos de Jonas, e voltou a falar:

- Agora sério. Sou historiadora das artes em geral, mas pouco vinculo a história à teologia. Essa parte eu deixo para os meus colegas do Mosteiro São Bento e da PUC.

Interessado – mais nela do que em sua profissão -, Jonas continuou enveredando-se por uma disfarçada indagação sobre a profissão de Mirtes:

- Mas qual tipo de arte você prefere? Medieval, renascentista, moderna ou contemporânea?

- Todas essas me interessam como professora e pesquisadora que sou. Mas na prática da vida real, extramuros universitários, a arte que eu gosto só tem uma.

- E qual é?

- A arte do sexo!

Jonas se assustou com a resposta curta e grossa de Mirtes. Ele ficou por alguns instantes tentando tomar fôlego para assimilar a frase cortante daquela mulher fantástica. De repente, ele a tomou em seus braços e se beijaram com tanta ardência que calafrios se ramificaram dos membros superiores aos inferiores numa euforia decadente e incandescente.

Para evitar os curiosos e os que se ocupavam da vida alheia, eles saíram rapidamente até o carro de Mirtes para se entregarem à paixão em qualquer motel barato de beira de estrada. O contato dos seus corpos suados produziu melodias originais. Contorceram-se voluptuosamente como dois gatos jovens brincando no emaranhado de um novelo de lã. Dentadas, unhadas, salivas e secreções. Amaram-se como adolescentes furiosos e inebriados pela descoberta do sexo.

Só imaginaram o risco que correram ao se agarrarem publicamente, quando os cigarros foram acesos e os corpos nus esfriavam pela descarga de toda a tensão acumulada. Mirtes revelou que era recém-casada. Jonas já estava casado há mais de dez anos. Enquanto Jonas tinha dois filhos, Mirtes não tinha nenhum. A sorte é que aquela cafeteria perto da universidade não era frequentada pelos cônjuges de nenhum dos dois, pois, coincidentemente, tanto a esposa de Jonas quanto o marido de Mirtes odiavam café. Continuaram se encontrando em motéis. Mas procuravam não se repetirem. Cada segunda-feira à tarde os dois iam a um motel diferente. Menos para evitar que levantassem suspeitas do que para a relação não cair num ostracismo - a dolorosa rotina que ambos conheciam muito bem em seus matrimônios.

Após muitos meses conhecendo os mais variados motéis, Jonas sugeriu que tivessem um lugar fixo no qual pudessem se deleitar, não como um casal, mas como amantes que eram. Sob pretexto de montar um escritório particular, Jonas alugou um conjugado. Realmente montou seu escritório, mas nele havia uma divisória sagrada que só era aberta nas segundas à tarde para a folia do amor. Esses encontros transcorreram sob absoluto sigilo e satisfação garantida dos amantes durante quase um ano.

Exatamente numa segunda-feira que completaria um ano de carícias fogosas no conjugado de Jonas, Mirtes não apareceu. Ele ficou apreensivo, procurou-a como pôde, e não teve nenhuma notícia dela. Resolveu ficar quieto e aguardar um telefonema que explicasse sua ausência. Uma semana passou. Outra segunda chegou. Jonas a esperou, mas nem sinal de Mirtes. Embora ansioso e impaciente, Jonas esperou por cinco segundas-feiras sem a menor noção sobre o paradeiro da amante. Na quinta segunda, ele se desesperou. Sabia onde ela morava, mas jamais pensara em tamanha ousadia. Cada um tinha seu santuário inviolável. Eles fizeram um pacto para que nenhum dos dois chegasse nem perto da família do outro.

Mas o sumiço de Mirtes o angustiou tanto que Jonas, cansado de ligar e não obter resposta do único meio de comunicação que tinha com Mirtes - o celular particular dela - não pensou duas vezes e foi até a sua casa. Estava vazia. Levou alguns dias rondando a casa de Mirtes de longe. Estava sempre fechada. Não tinha ninguém por perto. Um dia, avançou o sinal e olhou pela janela. Tudo escuro.

Verificou se a porta estava aberta. Girou a maçaneta e, no mesmo instante, uma voz de homem o fez estremecer:

- Boa tarde, senhor. O senhor veio ver a casa?

- Está à venda?

- Sim. Há duas semanas. Não viu a tabuleta na entrada?

- Não. Mas aqui não morava um casal?

- Não soube o que aconteceu?

- Não.

- Bem... Não gosto de tocar neste assunto para não espantar potenciais compradores. Mas como o senhor, pelo menos é o que parece, não está interessado em comprá-la, eu vou contar. O senhor Conrado, proprietário deste imóvel, encontrou sua esposa morta no banheiro da casa. A moça cortou os pulsos com a lâmina de barbear do marido. Fizeram a autópsia e descobriram que a mulher estava grávida. Era uma gravidez recente, por isso não puderam salvar o feto. O senhor Conrado ficou inconsolável. Amava muito a Mirtes e planejava ter filhos. Uma história muito triste...

Jonas ficou atônito. Tão pálido que o corretor, assustado, ofereceu-lhe ajuda:

- O senhor era amigo da família? Quer um copo com água?

Percebendo que não havia melhora, o corretor pegou o carro e levou Jonas ao hospital. Foi internado em estado grave. Recusava-se a melhorar. Não comia, não bebia. Estava só à base de soro e medicamentos. A esposa e os filhos de Jonas acharam que ele não suportaria. Eles revezavam para acompanhá-lo no hospital. Fizeram vigília e muitas orações para que Jonas se recuperasse. Depois de cerca de dois meses, Jonas, pele e osso, recebeu alta do hospital e voltou para casa.

A primeira coisa que fez foi procurar o corretor que o hospitalizou. Eles conversaram amistosamente por telefone. Soube que a casa de Conrado ainda não tinha sido vendida. Jonas tratou de convencer a família que precisava de novos ares para se recuperar totalmente. Colocou sua casa à venda e fechou o negócio com o corretor. Adquiriu a antiga casa de Mirtes e se mudou para lá com sua mulher e os dois filhos.

Jonas ganhou peso, ficou novamente saudável, corado, e retomou sua vida profissional.
Sua esposa ficou maravilhada com a disposição do marido em se especializar mais na arquitetura. Jonas se tornou professor titular em história da arte, com ênfase em arquitetura medieval e renascentista. A família só nunca entendeu o motivo de Jonas se trancar toda segunda-feira à tarde no banheiro da casa e se balançar sentado no vaso sanitário com as duas mãos na barriga, sem dizer nenhuma palavra.

Sua esposa muito se preocupava com o ritual de Jonas, que poderia ser o início da loucura. Mas Jonas estava tão bem disposto profissionalmente, também como pai e marido, que ela nunca o questionou sobre esse estranho comportamento.

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

Um Sem o Outro.

0 comentários





Uma multidão se acotovelava pelas ruas no horário do rush. Driblando os obstáculos humanos, Mauro correu o máximo que pôde para alcançá-la antes de embarcar.
Tentou ligar. Não atendeu. Possivelmente já entrara no ônibus. Esbaforido, chegou à rodoviária. O privilégio da altura de Mauro era a possibilidade de olhar por cima das cabeças e ombros que bloqueiam a visão da maioria dos aflitos. Mesmo assim não a viu. Aproximou-se mais da plataforma em que algumas filas se desfaziam. Procurou-a impacientemente.

Conseguiu ler o itinerário de um dos ônibus e identificou subitamente o lugar sobre o qual Diana tanto falara. Mauro enxergava longe como os emplumados de rapina, mas quando se tratava dos sonhos da amada, enceguecia-se.
Apesar de sua incapacidade para assimilar as ambições e intimidades dela, fingindo-se de morto, sua memória não falhara. Sabia qual era o destino de Diana. Embora sem chuva, o tempo nublado dificultava a visão do interior do ônibus. A luminosidade exterior contrastava com as trevas do coração de Mauro e a penumbra na qual os passageiros mergulhavam em seus assentos.

O motorista ligou a ignição no mesmo instante em que as esperanças da última despedida começaram a esmorecer. Inconsolável, mas já quase conformado, Mauro revisitou as janelinhas já incansavelmente analisadas. Seu coração acelerou e se encheu de alegria ao notar Diana, com as duas mãos no rosto, cotovelos apoiados no parapeito da janela, contemplando o vazio. Mauro deu um salto e foi ao encontro dela. As janelas não abriam, pois eram vedadas por causa do sistema de climatização.

Mauro espichou o tronco, inflou os pulmões, estufou o peito e, confiante, bateu no vidro com o nódulo dos dedos. Diana elevou o olhar. Seu rosto inchado e os olhos encarnados pelo pranto de outrora, sublimaram-se na magnitude de um sorriso.
Uma chuva fininha deixou a poeira da janela com aspecto de lama. Os olhos de Diana se umedeceram pelas lágrimas do reencontro. Por detrás da sujeira molhada do vidro, o rosto da amada parecia a Mauro uma triste pintura enegrecida pelo borrão do tempo. Mauro sabia que precisava restaurar aquele amor. Retirar as camadas de impureza que maculavam as tintas da ternura para atingir o primoroso começo que os manteve unidos até então.

O ônibus partiu. A espessura do vidro não permitia ouvir o som nem de fora para dentro, nem de dentro para fora. O semblante de Diana ficou pesaroso. O ônibus se afastou gradativamente. Mauro foi atrás tentando gesticular o quanto a amava e na ânsia que ela fizesse uma leitura labial da frase que tanto se esmerava em repetir: “Eu te amo!”. Ela, apesar de não articular os lábios visivelmente, murmurava em seu íntimo que, não importando para onde fosse, jamais esqueceria Mauro.

Para sair da rodoviária, o ônibus fez uma curva muito fechada, o que obrigou o motorista a manobrar o veículo. Nesse breve contratempo, Mauro chegou novamente à altura da janela de Diana e, com a ponta do dedo indicador, desenhou um coração na sujeira enlameada do vidro. Diana levou ambas as mãos ao contorno feito pelo amado, e como se tentasse segurá-lo, fechou as mãos e as levou até o peito. Depois soprou os dedos abertos como a oferta do seu próprio coração a Mauro.

O motorista fez a curva e saiu da rodoviária. Diana lentamente se perdeu nas neblinas do coração de Mauro. Ela seguiu viagem pensando nele. Ele, por mais algum tempo, permaneceu olhando para a ausência que restou dela. Virou-se e seguiu o rumo de sua casa. Em todo o trajeto, Mauro só tentava se imaginar sem Diana. Pensava como sobreviver ao resto de uma vida condenada à sua inexistência.

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

Sangue do Meu Sangue.

quinta-feira, 23 de maio de 2013 1 comentários






Numa gaveta da cozinha, pegou uma vela e uma caixa de fósforos. Na sala, abaixou-se para alcançar na mesinha de mármore um cinzeiro de granito. Emborcou-o sobre a cristaleira antiga, riscou um fósforo para acender o pavio da vela e deixou que a cera derretida pingasse sobre o fundo do cinzeiro. Fixou a vela acesa na superfície parafinada. Apanhou um terço feito de bronze patinado que estava pendurado na parede, cruzou os dedos com a peça sagrada entrelaçada, ajoelhou-se em frente à vela e “desfiou o rosário”:

- Perdoe-me Pai, por ser hospedeiro do “coisa ruim”. O fato de querer matá-lo não o exclui de ser sangue do meu sangue. Ele não é culpado por ter nascido do mesmo pai e da mesma mãe.

- Deus misericordioso, não permita que eu o mate. Segure minha mão antes que eu desfira o golpe fatal. A culpa é minha, só minha, por odiá-lo tanto.

- O que ele fez comigo não se faz ao pior inimigo!! Como um irmão pode querer mal ao outro? Minha desgraça se deve a ele e a mais ninguém. Crápula maldito!!

Num gesto abrupto, Sânio bateu com as costas da mão no cinzeiro, arremessando-o contra a parede. No impacto com o piso de cerâmica vermelha, a vela quebrou ao meio, resistindo apenas mais alguns segundos com a chama acesa. Com o semblante contraído, a testa franzida e os olhos apertados, Sânio empunhou bem alto o terço de bronze, sacudiu-o diversas vezes e, desajeitadamente, colocou-o no lugar de sempre, pendurado na parede por um preguinho.

Percebendo que a hora já se avançara muito, foi ao quarto se arrumar. Seu irmão, Samir, marcara com ele uma conversa a sós. Faltava apenas quarenta minutos para o horário combinado. Ele precisava se apressar. Sânio morava numa casinha bem distante do tumulto civilizatório. A única casa de uma colina verdejante, com um lago de azul cintilante e um frondoso ipê amarelo. Sânio vestiu uma camisa branca de botão, com seu especial colarinho de linho engomado, colocou uma calça preta de brim e calçou os sapatos sociais devidamente engraxados. Deixou a camisa para fora da calça para ficar mais informal. Afinal, estava bem vestido, mas era para encontrar-se com alguém da família, e não com um grande executivo ou empresário.

Sânio saiu. Esquecera-se de fechar a porta. Contornou o lago. Parou em frente ao ipê amarelo e passou a mão em seu tronco de espessura moderada. Olhou para o horizonte e avistou um vulto próximo à beira do penhasco. Viu que ainda faltavam cinco minutos do horário marcado. Teve satisfação em constatar que Samir continuava pontual como sempre fora. Nunca atrasava nenhum compromisso. Mesmo quando brincavam na rua em que moravam quando crianças, Samir era o primeiro a chegar, antes de todos os garotos, e o primeiro a ir embora quando ouvia a grito da mãe avisando que anoitecera, e mandando que os dois irmãos voltassem para casa.

Samir estava de costas para Sânio e defronte ao precipício. Usava tênis branco, uma calça jeans surrada e um casaco Sobretudo azul-marinho que deixava entrever apenas a gola e as mangas da camisa de seda clara. Sobre sua cabeça, um chapeuzinho panamá compunha o figurino. Saboreava calmamente, com tragadas pausadas, um cigarrinho de palha. Antes de chegar, Samir - que não consumia fumo industrializado - enrolou o tabaco numa pequena palha de milho e passou a língua para fechá-lo. Pegou um isqueiro do bolso esquerdo e acendeu seu cigarro artesanal. Enquanto esperava o irmão, Samir ficou contemplando o belíssimo vale que se abria sob seus pés. Colocou o cigarrinho no canto da boca, deixou as mãos repousarem nos bolsos da calça e se manteve olhando fixamente para além do precipício, numa hipnótica sensação nauseante.

Um vento muito forte soprou para a colina. Sacudiu os galhos do ipê amarelo e levou embora o chapéu de panamá de Samir. Ele ainda tentou segurá-lo com as duas mãos, demonstrando certo nervosismo, mas a força da natureza venceu a tentativa do homem de recuperar o acessório esvoaçante. Enquanto Samir arrumava os cabelos desgrenhados, Sânio o cumprimentou com dois tapinhas nas costas.

- Há quanto tempo, velho irmão! Não me aguentava de curiosidade para saber o que o trouxe aqui depois de anos.

- Sânio, Sânio... Continua com a mesma ironia fina de sempre, heim!?

- Ok. Obrigado pela parte que me toca, mas vamos logo ao assunto que o fez voltar aqui.

- Meu assunto é apenas voltar a vê-lo, matar as saudades do meu irmão.

- Então vamos apertar as mãos como dois adultos civilizados. Daremos um ou dois abraços e eu voltarei para minha casa. Não posso convidá-lo para tomar um café, porque estou sem gás para esquentar a água.

Sânio, que ainda se mantinha distante, andou em direção a Samir com o braço direito estendido para apertar a mão do outro. A vontade era, ao invés de oferecer a mão aberta para um amigável cumprimento, cerrar o punho e desferir uma violenta bofetada na cara de pau do irmão. Samir, na borda do penhasco, recuou meio passo, o suficiente para que seu calcanhar ficasse suspenso no ar e deixasse que algumas pedrinhas se desprendessem e rolassem pelo despenhadeiro. Desequilibrando-se, Samir impulsionou-se para frente para recuperar o aprumo corporal. Sânio, sem notar o rápido deslocamento do irmão, seguiu em linha reta. Samir ainda tentou puxar o irmão pela manga de sua camisa, mas Sânio precipitou-se no vazio e despencou.

Sânio ainda conseguiu se segurar com os dedos da mão esquerda na beirada do penhasco. Samir que, ao contrário do irmão, jamais pensara em matá-lo, inclinou o corpo para frente para puxá-lo com as duas mãos. Sem que obtivesse nenhum êxito, caindo para trás pelo excesso de força que imprimira na tentativa frustrada, levantou-se e constatou que Sânio, resistindo bravamente, agarrado ao fiapo de vida que lhe restara, ainda lutava contra a morte, dependurado na beira do precipício.

Movido por um irresistível impulso, Samir resolveu ajudá-lo novamente. Porém, dessa vez o ajudou a abreviar seu martírio. Com um estranho sentimento de piedade, Samir chegou o mais perto possível da mão de Sânio, com o corpo ereto, e apenas a cabeça levemente inclinada para baixo, e esmagou os dedos do irmão do mesmo modo que se esmaga uma binga de cigarro, pressionando e arrastando a planta do pé de um lado para o outro. Antes de desabar, Sânio ainda olhou fixamente para os olhos de Samir, de tal modo que seu irmão entendesse que era ele que deveria morrer em seu lugar. Samir ficou só observando o corpo de Sânio se esfarelando contra o rochedo até se esborrachar, já sem vida, no chão de terra batida daquele vale.

Samir levantou a cabeça e perdeu o olhar na imensidão do horizonte. Levou o cigarrinho de palha à boca para a última tragada. A pontinha que restou, apoiou no polegar direito, e com o indicador, deu um peteleco até vê-la cair suavemente, ao contrário da queda monumental do corpo de Sânio. Deu meia volta, e caminhou em direção à casa do irmão. Contornou o ipê amarelo, o lago, e girou a maçaneta da porta.

Antes de entrar, Samir bateu os pés num tapetinho felpudo, em sinal de respeito e se admirou com os dotes estéticos de Sânio. Achou a decoração da casa de muito bom gosto. Só abaixou-se para recolher uma vela quebrada e um cinzeiro de granito que estavam jogados na cerâmica vermelha. Sentiu uma ponta de decepção por aquele descuido. Mas logo afastou qualquer má lembrança do outro e se sentou na poltrona predileta de Sânio para, desfrutando do conforto, recordar alegremente daquele velho e querido irmão.

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

O Caminho das Flores.

domingo, 12 de maio de 2013 0 comentários








Num jardim em frente à sua casa, Lívia contemplava as pequenas begônias vermelhas e os arbustos altos de gardênias brancas. Não teve inspiração para compor boleros, mas o perfume das gardênias despertou a lembrança de Otávio. Ela abriu os braços o máximo que pôde, deu alguns saltos na ponta dos pés, girou o corpo ainda saltando e correu entre os arbustos, tocando as flores brancas com os dedos.

Tirou as sandálias para sentir o verde orvalhado do gramado, abaixou-se até alcançar uma begônia, cortou o caule com as unhas e colocou a flor perto da orelha, nos longos cabelos encaracolados. Lívia deixou que o ar puro daquela tarde de outono entrasse em seus pulmões. Expirou vagarosamente e se deixou cair até se sentar com os joelhos dobrados e as pernas de lado. Retirou a flor dos cabelos com os dedos em formato de pinça e acariciou a coxa direita com uma pétala. Eriçou a penugem dourada da perna por sentir a mão de Otávio na flor.

A conversa animada abafava a voz feminina acompanhada por um dedilhado de violão. Otávio sorria e falava alto, mas em seu coração, uma saudade muda permanecia de olhos fechados. Na mesa, inúmeras garrafas vazias de cerveja sacudiam e se chocavam pelas batidas de mãos durante os argumentos inflamados. O gestual dos amigos às vezes dizia mais do que o volume mais alto de suas vozes podia expressar.

O garçom chegou com mais uma garrafa de cerveja. Otávio pegou o abridor de metal e a abriu. Segurou-a firmemente e encheu o copo dos amigos ao seu lado. Naquele instante, como se tomado por uma força misteriosa, ofereceu o brinde a uma moça chamada Lívia. Estranharam a menção de tal nome, pois não o conheciam, mas não interrogaram o amigo e se entregaram prazerosamente ao brinde proposto.

Os petiscos chegaram: Uma travessa com polenta frita ao molho de gorgonzola, azeitonas pretas, queijo gruyere cortado em cubinhos e um prato de carne seca acebolada com aipim. Esfomeados, mas sem que perdessem o fio da meada da conversação, os amigos atacaram as guloseimas, cada vez bebendo mais cerveja para ajudar na digestão. A jovem cantora tentou aumentar a voz para ser ouvida pelos gulosos conversadores, mas logo percebeu o intento fracassado e a diminuiu tanto que só o insistente violonista ainda se fazia ouvir.

Depois de todos os excessos permitidos quando amigos se encontram num barzinho e de se esbaldarem com a fartura da comida e com a bebedeira, eles se despediram. Prometeram um reencontro. Otávio seguiu acompanhado por dois amigos até uma esquina a partir da qual continuou sozinho, mantendo a linha reta, enquanto os outros dois dobraram à direita. No percurso solitário de volta para casa, Otávio foi seduzido por um inesperado e radiante perfume. Parou de súbito.

Sem pestanejar, ao descobrir o lugar do qual aquele indescritível cheiro vinha, alterou o caminho e seguiu o aroma dos sonhos. Como se fosse uma trilha deixada por alguém, viu várias grandes pétalas brancas pelo chão. Seguiu-as instintivamente. De repente, não havia mais pétalas. Otávio sentiu a fragrância que lhe encantara ainda mais intensa. Levantou a cabeça e viu uma casa de um lado e um grande jardim do outro. As paredes da casa eram brancas e um pouco amareladas na base pelo tempo. Na janela, vasos de flores e, na varanda, decoração de motivação campestre com um espaçoso banco suspenso, para balançar, na calçada.

O perfume irresistível vinha do jardim do outro lado. O portão estava entreaberto. Otávio entrou. Admirado, ele olhou as diversas begônias rasteiras e os altos arbustos de inspiradoras gardênias. Mas nenhuma flor era mais bela que a mulher que viu sentada entre elas. Por um tempo, engasgou-se com as palavras não ditas. O perfume não vinha das flores. Otávio sentia o aroma da Lívia, o cheiro que desde aquele afastamento, jamais esquecera. Tentou chamar o nome dela, mas as palavras insistiam em não sair.

Lívia virou a cabeça e, surpresa, avistou Otávio. Uma lágrima escorreu pela maçã rosada do seu rosto. Aquela forte emoção a impulsionou para os braços do homem amado há tanto tempo desaparecido. Otávio ficou imóvel e se deixou abraçar. Ela encostou a cabeça em seu peito e se entregou a um choro que jamais pôde chorar. Otávio contraiu a face pela forte dor da saudade e da longa ausência. Ele afagou os cabelos da amada e disse que em nenhum momento a esquecera.

A vida os levou para caminhos opostos. Ficaram sem notícias um do outro. Ela fez tudo para reencontrá-lo. Nunca perdeu as esperanças. Mas como não mais o achou, deixou-se levar pelos mistérios das flores, amando-as e sendo amada por elas. As flores o representavam. Não sabia como, mas tinha certeza que suas begônias e gardênias levariam os passos de Otávio até ela. Ele a procurou de todas as maneiras possíveis, sem sucesso. Sabia que o impulso de pronunciar o nome da amada no brinde entre os amigos, era o sinal de que ela estava muito perto dele. Beijaram-se longamente. Abraçaram-se de novo e seguiram, agora de mãos dadas, a trilha das flores para nunca mais se perderem.


Conto escrito por Alex Azevedo Dias.