Amor Espelhado.

sábado, 14 de setembro de 2013





Amor Espelhado.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Sentada na beirada da cama, Leila avaliou o espelho retangular encostado na parede. Meses se passaram e ele ficara lá, jogado de lado. Era o objeto dos seus sonhos. Mandara fazer sob medida. Poucos dias antes daquele desaparecimento, sem que soubesse, estava no auge da felicidade. Queria se ver por inteira, abraçada ao seu amor, diariamente, quando se levantasse pelas manhãs, após as sempre memoráveis noites de sono ao lado de Lipe.

Os dois foram à vidraçaria, escolheram um espelho resistente, porém delicado, que refletisse a imagem com exatidão, sem que engordasse nem emagrecesse. No comprimento, cortaram vinte centímetros além da altura de Leila para que Lipe coubesse atrás, de pé, envolvendo-a com seus longos e afetuosos braços. De largura, um pouco mais de meio metro já seria de bom tamanho. Enquanto Lipe se encarregava de negociar as dimensões ideais com o vidraceiro, Leila foi a uma loja especializada em quadros e combinou que montassem no espelho uma moldura de jacarandá, entalhada, com um detalhe folheado a ouro. Era tudo o que ela mais queria.

Depois que a preparação foi concluída, levaram a estimada peça, com cuidado, para casa. Para que o espelho fosse colocado com segurança, precisava de uma armação apropriada. Na véspera do objeto de desejo ser colocado em seu devido lugar, Leila soube, por uma antiga amiga, que Lipe se acidentara numa autoestrada, bem próximo ao seu trabalho. O acidente que o vitimou fora fatal. Leila não deu nenhuma resposta à amiga. Permaneceu por alguns segundos, estática, segurando o fone enquanto a outra a chamava pelo nome em vão do outro lado da linha. Com os olhos fixos no nada, foi se encolhendo na cama. Suas mãos se abriram vagarosamente até que o fone escorregasse pelos seus dedos e batesse mudo, no carpete do quarto.

À noite, após o triste episódio, Leila se deitou no vazio. A falta de Lipe derrubara uma lágrima dos olhos da mulher que se recusava a olhar para a realidade. Por quase uma semana, ela não saiu da cama. Abandonou-se à sombra deixada pela ausência do amado. Antes, pés e mãos reprimidos, corpo tenso, deitada de lado, quase na posição fetal, manteve-se em silêncio absoluto, com olhos bem abertos, sem conciliar o sono. Depois, entregando-se à tontura cruel, foi ajeitando-se para o meio da cama até adormecer no lado de Lipe, ainda aquecido pelos fantasmas da falta que a perseguiam.

Naquele dia, pôs finalmente o espelho na parede. Com um vestido preto, longo, de gola canoa, tecido fino que Lipe a presenteara no primeiro ano do matrimônio, Leila a contemplou em frente ao espelho. Deixou por algum tempo seus cabelos presos, com apenas algumas mechas flutuando em liberdade, até soltá-los totalmente. Quase não conseguiu vê-la. Seus olhos, teimosamente, deslizaram-se para os vinte centímetros que celebravam a crueldade de um sumiço irreparável. As cortinas da janela, entreabertas, balançavam pela fresta de vento. Olhou para as finas alças que deixavam seus ombros desnudos e abaixou uma a uma até que as alças escorregassem por toda a extensão dos seus braços. Sem as tiras de pano que o sustentavam no corpo de Leila, o vestido desceu até cair embolado sobre seus pés.

A palidez e a magreza não eram defeito da superfície espelhada. O objeto dos sonhos transmitira a mais perfeita imagem. Mas agora, enegrecido pela saudade, Leila observava apenas o seu desamparo. Deu um passo para trás, dobrou os cotovelos às costas, e desprendeu o sutiã. Retirou suas alças e o arremessou à cesta de roupas esquecidas. Seus seios de boa proporção e bem delineados perderam a densidade. Sentia-os somente ao serem apalpados pelas fervorosas mãos de Lipe. Envolvia-os por completo até enrijecerem pelo calor erótico. Sem suas mãos, esmoreciam, perdendo a vitalidade e o frescor.

Leila levou o dedo indicador à boca e o umedeceu com a língua. Em movimento circular, suavemente, acariciou os mamilos. Soltou um gemido, em homenagem ao prazer perdido. Depois, levantou os seios e espalmou as costelas proeminentes. Deu um passo à frente e se desvencilhou da calcinha rendada vinda de um passado que ela resistia em recordar. Nesse instante, sentiu uma mão masculina separando suas pernas e tocando seus pelos pubianos. Um esgar de excitação crispou seus dedos sobre a mão do homem à altura do seu sexo. Instintivamente fechou os olhos. Era Lipe. Visualizou todos os detalhes daquele corpo amado. Entregou-se ao prazer. Os vinte centímetros se preencheram com beijos e tremores.

Ao abrir os olhos, não se sentiu só. O espelho continuou encostado na parede, fora do lugar, virado ao contrário. Leila esticou um dos braços para sentir Lipe, mas tocara nos lençóis amassados. Mas o calor do seu corpo não deixara sua cama. Uma força incontrolável a fez se jogar de bruços sobre o lado quente do amado. A ausência de Lipe não mais o apresentava no íntimo de Leila. Era sua presença indelével, pegadas sublimes do amor, que se ausentara de dentro daquela casa para viver no eterno abismo de sua alma.

*

Conto escrito por Alex Azevedo Dias.

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