Assassinato no dia de folga.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013



Um estampido seco seguido de um grito rouco foi ouvido há poucos metros dali. Saldanha, mesmo sem perder a compostura, apavorou-se. Fazia pouco que foi admitido na corporação policial. Tinha ainda pouco preparo e treinamento, mas não lhe faltava competência. Para ele, não havia a menor dúvida que não se tratava de suicídio, mas tentativa de homicídio e possivelmente crime passional por ter a vítima aquela voz de mulher que guarda algum tipo de estranha afetividade pelo algoz.

Saldanha não estava em atividade. Embora não fosse civil, recebera uma licença e aproveitou para descansar em sua residência. Sua esposa e sua filha não se encontravam em casa, pois foram almoçar na casa da avó materna da menina. Saldanha ficou um tempo ainda avaliando a situação, antes de tomar partido. Pensou em realizar um registro de ocorrência. Mas antes de qualquer coisa, como pertencia à polícia, resolveu averiguar pessoalmente pela vizinhança e descobrir por conta própria o que se passou, para só depois avisar à corporação.

Vestiu-se adequadamente para exercer seu ofício, trajando casaco tipo sobretudo como aqueles detetives antigos. O dia de folga não lhe permitia que colocasse a farda, exclusiva para se apresentar no quartel. Saiu praticamente na ponta dos pés, para que a vizinhança não percebesse sua ronda, e foi direto ao número 82, a casa na qual suspeitou que fosse o local do crime. Por não estar uniformizado, desarmado e sem o distintivo, não podia se identificar, principalmente porque se o criminoso ainda estivesse na residência da vítima, não poderia se defender.

Como não viu campainha, pensou em bater palmas como um cidadão comum que iria visitar a casa. Mas recuou de tal decisão ao se recordar que ele não tem de cidadão comum, pois, lembrou-se mais uma vez, fora admitido com orgulho na corporação militar. A porta principal estava trancada. Olhou para um lado e para o outro, confirmando que ninguém o via em tal missão, deu a volta e tentou o acesso à porta dos fundos. Num mínimo de esforço, a maçaneta girou. Por um instante se deteve na porta. Achou que talvez não fosse correto entrar sem mais nem menos. Afinal, lera na cartilha de leis que entrar na casa dos outros sem mandato judicial configura crime de invasão de privacidade. Logo declinou de sua consciência de culpa, e entrou assim mesmo.

A porta deu para a cozinha da casa. Um cheiro de café invadiu-lhe as narinas. O cômodo estava escuro e silencioso. Pelo menos o cheiro de café indicava que a casa não estava vazia. Antes de ganhar o corredor, Saldanha esbarrou numa frigideira pendurada na parede e quase causou um acidente. Por pouco conseguiu segurá-la antes que caísse e fizesse uma barulheira daquelas. Passou pelo corredor, também escuro. Antes de chegar à sala, viu que havia uma porta fechada. Por impulso, girou a maçaneta. Estava aberta, mas se deteve por uma voz de mulher, aparentando cansaço: - Pepê? É você? Um pouco assustado e sem iniciativa, Saldanha se manteve em silêncio. Quase voltou atrás. Mas voltou e se apresentou.

- Não, senhora. Sou seu vizinho. Ouvi um grito e vim ver se alguém precisava de ajuda.

- Qual o seu nome? Como entrou?

- Eu me chamo José. José Saldanha. A porta da frente está trancada. Eu entrei pela porta da cozinha.

- Ah... Deve ser o Pepê. Ele sai e esquece de fechar a porta dos fundos.

- Está tudo bem com a senhora?

- Sim, sim... Eu me machuquei com a faca, cortando carne, e vim fazer o curativo e descansar.

- Quer ajuda?

- Não precisa. Obrigada. Pode ir embora.

Saldanha ia se despedir. Desde o início do diálogo, manteve a mão na maçaneta, com a porta entreaberta, sem entrar nem fechá-la de vez. Não deu para ver quem ou o que estava atrás da porta. Mas sua intuição detectou algo de anormal naquela voz, além da informação sobre o corte com a faca não proceder, pois o que ouvira foi um estampido de arma de fogo. Fingiu que se afastava, batendo os pés em escala decrescente. Mas continuou ali, com o ouvido colado na porta.

Sem tirar a mão da maçaneta, abriu a porta subitamente, já na expectativa de pegar alguém em flagrante. Com a luz apagada, um vulto rapidamente virou-se para o Saldanha e precipitou-se, jogando-se ao chão, ao lado da cama contra a parede. Com os olhos mal acostumados à escuridão, o novato da polícia não notou toda a cena que se desenrolou a sua frente.

Acendeu a lâmpada do quarto. O corpo de uma mulher alta de uns 30 anos, nem feia nem bonita, vestido apenas da cintura para cima, jazia ensanguentado em cima de lençóis brancos. Não sabia só de olhar se houve abuso sexual, ou se o prazer foi consentido, com um namorado ou amante, o que levou não ao orgasmo, mas à morte. Não parecida que houve resistência ao ato. A marca de tiro no coração fez Saldanha pensar que o amor nem sempre termina bem como nas histórias românticas.

Quando Saldanha se curvou para ver melhor a marca de bala no peito da vítima, num movimento rápido, alguém saiu debaixo da cama, fez o colchão de trampolim, e pulou no pescoço do policial. Assustado, Saldanha agarrou as mãos do sujeito, tentando tirar as unhas já encravadas em seu pescoço. Virou bruscamente para um lado e para o outro, sacolejando, mas quanto mais ele tentava se desvencilhar daquele ataque, mais o sujeito apertava seu pescoço. A briga durou cinco intermináveis minutos, até que Saldanha, já quase sem forças, conseguiu lançar o agressor para longe de si. Foi aí que ele pôde ver que o criminoso era um sujeito de baixíssima estatura, uma criaturinha mínima que não passava de um metro e dez centímetros de comprimento.

Ao cair, o pequenino bateu a cabeça na parede com força e ficou desacordado. Como Saldanha não dispunha de algemas, ele achou um corda grossa, tipo das de laçar gado pelos vaqueiros - provavelmente que o tal homem tinha deixado naquele quarto para amarrar os braços de sua vítima caso ela resistisse. O policial abraçou o corpinho franzino do homem, levantou-o e encostou suas costas no pé da cama. Virou suas mãos para trás e as amarrou com a corda grossa ao redor da cama. Deu um nó cego, tipo de marinheiro e o deixou lá, desmaiado. Saldanha pegou seu rádio que o liga diretamente com o departamento policial e comunicou detalhadamente o ocorrido. Confessou que estava passando aquele dia de folga, mas como cidadão de bem, não podia deixar de fazer alguma coisa ao ouvir um grito de dor na vizinhança.

Quando seus companheiros da polícia chegaram ao local do crime e isolaram a área, interditando-a, eles já encontraram o criminoso desperto. Envolveram o corpo da mulher num plástico preto, fechando-o com zíper, para prepara-lo para a autópsia no Instituto Médico-Legal, e colheram algumas provas para posterior investigação. Ao interrogarem o sujeito, perguntando seu nome primeiramente, Saldanha percebeu que aquela voz feminina que ouviu ao dialogar com o assassino sem saber, não se tratava de um disfarce vocal para mudar sua voz de homem e assim despistar o homem da lei, pois a voz verdadeira do pequenino era tão fina como a de uma mulher de fato e de direito.

Logo Saldanha soube que Pepê era o marido da mulher e amante do assassino, Andinho. O criminoso baixinho, não admitia que Pepê continuasse casado. Ele queria o amante só para ele. Um dia, após uma discussão acalorada entre os dois amantes, eles combinaram se livrar da mulher, liberando assim o caminho para ambos. O marido, Pepê, preparou minuciosamente uma noite de amor com a mulher, e depois do sexo, Andinho entraria, fingia ser um ladrão que renderia a mulher e também Pepê, matando “acidentalmente” a esposa traída. Só que Andinho, não suportando a agonia de ouvir os gemidos sexuais do casal, entrou furioso antes do tempo, atirando no peito da mulher e no amante, que pulou pela janela desesperado.

Pepê foi encontrado pelado e machucado no quintal da casa. Andinho e Pepê foram encaminhados para a delegacia, julgados e condenados à prisão por crime doloso, com intenção de matar. Saldanha, num misto de perplexidade e orgulho por ter ajudado os amigos a desvendarem o caso, foi condecorado e promovido. Depois de ficar por um tempo na delegacia auxiliando nas investigações, Saldanha voltou para casa mais á noite e terminou o dia com a mulher e filha, na paz do lar. No dia seguinte, o policial agora oficial, vestiu sua farda e partiu para um dia de trabalho real na delegacia de polícia.


Conto Escrito por ALEX AZEVEDO DIAS.

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