O Caminho das Flores.

domingo, 12 de maio de 2013








Num jardim em frente à sua casa, Lívia contemplava as pequenas begônias vermelhas e os arbustos altos de gardênias brancas. Não teve inspiração para compor boleros, mas o perfume das gardênias despertou a lembrança de Otávio. Ela abriu os braços o máximo que pôde, deu alguns saltos na ponta dos pés, girou o corpo ainda saltando e correu entre os arbustos, tocando as flores brancas com os dedos.

Tirou as sandálias para sentir o verde orvalhado do gramado, abaixou-se até alcançar uma begônia, cortou o caule com as unhas e colocou a flor perto da orelha, nos longos cabelos encaracolados. Lívia deixou que o ar puro daquela tarde de outono entrasse em seus pulmões. Expirou vagarosamente e se deixou cair até se sentar com os joelhos dobrados e as pernas de lado. Retirou a flor dos cabelos com os dedos em formato de pinça e acariciou a coxa direita com uma pétala. Eriçou a penugem dourada da perna por sentir a mão de Otávio na flor.

A conversa animada abafava a voz feminina acompanhada por um dedilhado de violão. Otávio sorria e falava alto, mas em seu coração, uma saudade muda permanecia de olhos fechados. Na mesa, inúmeras garrafas vazias de cerveja sacudiam e se chocavam pelas batidas de mãos durante os argumentos inflamados. O gestual dos amigos às vezes dizia mais do que o volume mais alto de suas vozes podia expressar.

O garçom chegou com mais uma garrafa de cerveja. Otávio pegou o abridor de metal e a abriu. Segurou-a firmemente e encheu o copo dos amigos ao seu lado. Naquele instante, como se tomado por uma força misteriosa, ofereceu o brinde a uma moça chamada Lívia. Estranharam a menção de tal nome, pois não o conheciam, mas não interrogaram o amigo e se entregaram prazerosamente ao brinde proposto.

Os petiscos chegaram: Uma travessa com polenta frita ao molho de gorgonzola, azeitonas pretas, queijo gruyere cortado em cubinhos e um prato de carne seca acebolada com aipim. Esfomeados, mas sem que perdessem o fio da meada da conversação, os amigos atacaram as guloseimas, cada vez bebendo mais cerveja para ajudar na digestão. A jovem cantora tentou aumentar a voz para ser ouvida pelos gulosos conversadores, mas logo percebeu o intento fracassado e a diminuiu tanto que só o insistente violonista ainda se fazia ouvir.

Depois de todos os excessos permitidos quando amigos se encontram num barzinho e de se esbaldarem com a fartura da comida e com a bebedeira, eles se despediram. Prometeram um reencontro. Otávio seguiu acompanhado por dois amigos até uma esquina a partir da qual continuou sozinho, mantendo a linha reta, enquanto os outros dois dobraram à direita. No percurso solitário de volta para casa, Otávio foi seduzido por um inesperado e radiante perfume. Parou de súbito.

Sem pestanejar, ao descobrir o lugar do qual aquele indescritível cheiro vinha, alterou o caminho e seguiu o aroma dos sonhos. Como se fosse uma trilha deixada por alguém, viu várias grandes pétalas brancas pelo chão. Seguiu-as instintivamente. De repente, não havia mais pétalas. Otávio sentiu a fragrância que lhe encantara ainda mais intensa. Levantou a cabeça e viu uma casa de um lado e um grande jardim do outro. As paredes da casa eram brancas e um pouco amareladas na base pelo tempo. Na janela, vasos de flores e, na varanda, decoração de motivação campestre com um espaçoso banco suspenso, para balançar, na calçada.

O perfume irresistível vinha do jardim do outro lado. O portão estava entreaberto. Otávio entrou. Admirado, ele olhou as diversas begônias rasteiras e os altos arbustos de inspiradoras gardênias. Mas nenhuma flor era mais bela que a mulher que viu sentada entre elas. Por um tempo, engasgou-se com as palavras não ditas. O perfume não vinha das flores. Otávio sentia o aroma da Lívia, o cheiro que desde aquele afastamento, jamais esquecera. Tentou chamar o nome dela, mas as palavras insistiam em não sair.

Lívia virou a cabeça e, surpresa, avistou Otávio. Uma lágrima escorreu pela maçã rosada do seu rosto. Aquela forte emoção a impulsionou para os braços do homem amado há tanto tempo desaparecido. Otávio ficou imóvel e se deixou abraçar. Ela encostou a cabeça em seu peito e se entregou a um choro que jamais pôde chorar. Otávio contraiu a face pela forte dor da saudade e da longa ausência. Ele afagou os cabelos da amada e disse que em nenhum momento a esquecera.

A vida os levou para caminhos opostos. Ficaram sem notícias um do outro. Ela fez tudo para reencontrá-lo. Nunca perdeu as esperanças. Mas como não mais o achou, deixou-se levar pelos mistérios das flores, amando-as e sendo amada por elas. As flores o representavam. Não sabia como, mas tinha certeza que suas begônias e gardênias levariam os passos de Otávio até ela. Ele a procurou de todas as maneiras possíveis, sem sucesso. Sabia que o impulso de pronunciar o nome da amada no brinde entre os amigos, era o sinal de que ela estava muito perto dele. Beijaram-se longamente. Abraçaram-se de novo e seguiram, agora de mãos dadas, a trilha das flores para nunca mais se perderem.


Conto escrito por Alex Azevedo Dias.


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