Absinto.

terça-feira, 22 de maio de 2012 17 comentários















Deixou o copo escorregar. O vidro gélido escapou por seus flácidos dedos. Parecia que o tempo entre a queda e o primeiro contato com o solo eternizara-se. Um suspiro profundo se fez ouvir, abafando o já inaudível impacto do objeto. Esfacelado, reduzido à insignificância de lascas perfurantes, seu coração ainda ruidosamente estalava. O copo, fabricado com um material resistente, absorveu o impacto, mantendo-o intacto, sem nenhuma deformidade.

Corpo quebrado. Copo inteiro. As mãos suadas, trêmulas, logo após receber aquela revelação, e a dose de absinto fora derramada ao chão. Nem seu adorado aperitivo - a fada verde dos poetas -, que Poe, cerimonioso, bebericava sempre ao entardecer, resistiu às palavras invasoras. Provocou-lhe irritações no estreito canal auditivo. Depois de derrubar o copo, levou a mão, com dificuldade devido aos espasmos, ao ouvido ferido. Uma dor lancinante impedia que raciocinasse.

Poe inquieto, quase sucumbindo à náusea, notou a umidade no ouvido machucado pelo verbo devastador. Uma gota escarlate ficou à deriva, oscilando como pêndulo no lóbulo da orelha esquerda. Limpou a boca com um guardanapo rasgado, desfazendo-se dos resíduos da bebida, e, com o restante do papel, tentou enxugar o líquido espesso persistente. Ao aproximar o papel dos seus olhos, nenhum vestígio que comprovasse o material que expelia do ouvido em abundância. O pedacinho de papel manteve sua brancura irretocável.

Balançou a cabeça para um lado e para o outro, buscando afastar pensamentos negativos. Mesmo sem ser bem sucedido em sua empreitada, encostou-se ao balcão para pedir ao garçom uma nova dose de seu aperitivo predileto. Tinha absoluta certeza, confiando no diletantismo alcóolico do poeta Baudelaire, que o absinto seria capaz de inebriá-lo, embevece-lo, diluir todas as suas mágoas e frustrações. Tragou a bebida em duas goladas veneráveis. Novamente cedeu ao impulso de enxugar a boca, mas dessa vez usou o dorso da mão como qualquer bêbado em botequim de beira de estrada.

Ao se lembrar de seus autores preferidos, a velha frase de seu pai – leitor voraz, quase compulsivo -, tocou fundo em sua alma. “Um bálsamo para os olhos”, ele dizia. Amava aquele homem, embora não o perdoasse por desperdiçar os últimos dias de sua vida com a fraqueza do vício. Morrera de ataque cardíaco sobre o feltro de uma mesa de Pôquer. Nem a infinita sabedoria dos seus livros o salvou. Poe não herdou o gosto pela jogatina de seu pai. Já a voracidade pela leitura o levou para a mesma sorte do seu velho. Não jogava, mas bebia. Justamente o absinto, que seu pai odiava. Mas Poe sempre repetia com entusiasmo que era a bebida dos grandes escritores. Outro apreciador de tal aperitivo, escritor misterioso, era a quem devia a inspiração do seu nome. Talvez nem mesmo eles pudessem evitar o desfecho trágico de Poe, ou, por isso mesmo, ainda mais o quisessem.

Ao se preparar para tomar a terceira dose da fada verde, Já com o copo entre os lábios, a imagem de Ritinha se impôs. Paralisou-se. Permaneceu segurando o copo com a mão direita, apoiando-o no lábio inferior. Mesmo perante a esquiva, a contemplação se fez imperiosa. Ritinha, a mulher virtuosa com a qual passava do riso às lágrimas em frações de segundos, sua fiel companheira na arte da enganação, levou-o à ruina no mesmo espaço de tempo que o fazia rir e chorar. Poe não sabia se seria possível recuperar-se daquele duro golpe. Remoía sem parar os acontecimentos que lhe comprimiam as têmporas já martirizadas pela dor da perda.

A presença de Ritinha não o deixava em paz. Continuou lá, atormentando-o lentamente em sua concupiscência. Pretendia gozar com toda crueza. Seu caso já havia sido desfeito. O abalo que o corrompeu era previsto antes mesmo de começarem qualquer coisa. Poe, imóvel, na mesma posição, com o copo entre os lábios, contendo um restinho de absinto no fundo, distante de sua boca, sentiu uma comichão percorrendo-lhe a garganta. Teve impulso de se coçar, mas a sensação da coceira era interna. Conseguiu inclinar mais o copo para ingerir a gotinha final da bebidinha sagrada. Passou como ácido, queimando a garganta que latejava em carne viva.

De repente, tudo fez sentido.A alegria da revelação entrelaçara-se à agonia da realidade que tanto Poe quis afastar. O desespero arranhou a porta de suas entranhas com unhas inflamadas de abutre. A claridade o cegou. Tanta luz. Tanta dor. Ritinha estava morta! Os dedos flácidos de Poe não suportaram mais segurar o copo. De rosto enrijecido, esculpido em cera, nem se deu conta que o copo de vidro, contendo apenas uma gota de seu líquido querido, escapulira de sua mão empapuçada pela transpiração fugidia.

O copo foi ao chão e se estilhaçou em inúmeros caquinhos. O que sobrara do absinto, derramado pelas ranhuras do piso de tábua corrida, jazia inerte à espera das lambidas de algum animal sedento que passasse por ali. De súbito, Poe se sentiu revigorado. O corpo fortalecido. Não mais seguiria o destino traçado por seu pai. Poe se levantou - corpo ereto, sem cambalear -, esfregou a testa com o antebraço, abriu bem os olhos, e seguiu em direção à velha biblioteca da antiga moradia.

Já na casa herdada de seu pai, Poe se sentou na confortável poltrona destinada ao anfitrião e se pôs em frente à lareira. Virou a cabeça para a esquerda, mirando a extensa estante de livros. Estava decidido. Precisava mata-lo. Seu pai, mesmo já falecido, ainda não morrera em sua mente. O plano que arquitetara, e que colocaria em prática, enterraria definitivamente a mórbida lembrança de aquele ser abominável que chamara de pai. Pegou um por um. Livro por livro, lançando-os à chamuscada lareira. Coleções inteiras foram depositadas sem nenhuma piedade para que as chamas as consumissem. Poe apanhou o querosene, desatarraxou a pequenina tampa de plástico, e derramou todo o líquido da garrafa na pilha de livros. Riscou um palito de fósforo, e, num peteleco, arremessou-o flamejante para seu destino incendiário.

O som da contorção agonizante das páginas reduzidas a cinzas foi ouvido como o estalar de carvão molhado. Todo o horror daquele velho sem coração explodia num bailado de fagulhas e labaredas. Poe aspirava a fuligem expelida da lareira com uma satisfação ímpar, inenarrável. Foi aí que sentiu novamente o gotejar de uma substância espessa de sua orelha esquerda. Levou a mão até ela, na esperança de descobrir se realmente se tratava de sangue ou de outra secreção, mas sua mão retornou seca, sem nenhum vestígio que explicasse tal sensação.

Algo próximo aos seus pés chamou-lhe a atenção. Viu uma página rasgada do livro de Edgar Allan Poe, do poema “O Corvo”, com uma intrigante mancha escarlate. Percebeu que aquele borrão avermelhado estava aumentando intensamente. Gotejava do teto. Passou novamente a mão em sua orelha. Não era do teto. Era dele que escorria o líquido escarlate. Ficou atônito diante dos fatos. O fluxo escarlate só se avolumava. Olhou para a página suja. Contornado pelo líquido vermelho de sua orelha, o nome daquela mulher ressaltara diante de si: Ritinha. Era uma dedicatória. Ele a amava...


(...)


Os bombeiros não conseguiram conter o fogo que lambeu toda a casa de Poe. Estava condenada. Sem recuperação. Todos os pertences foram perdidos, carbonizados, engolidos pelas chamas ardentes. A perícia investigou as causas do incêndio. Não havia objetos que comprovassem a autoria de nenhum crime. Apenas um pedacinho de papel, provavelmente da página de algum livro, chamuscado nas bordas, fora salvo do incêndio, nada mais. “Um bálsamo para os olhos”, a única frase que podia ser lida.



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Meu livro de contos à venda!

sexta-feira, 9 de março de 2012 17 comentários
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O Escritor.

segunda-feira, 5 de março de 2012 8 comentários










Um final que não agradaria nem os leitores menos letrados. Nunca foi nenhum cânone, mas já era merecidamente badalado pela imprensa local. Aquele final medíocre era indigno de seu talento literário.
Seu festejado protagonista - homem de iniciativa e poucas palavras - morrera estupidamente antes do final da história. Quando estava a caminho para mais uma empreitada de sucesso - vendedor brilhante de seguros que a todos convencia - passando por baixo de um dos prédios mais altos da cidade, fora atingido por um objeto até então não identificado. A robusta lombada de um livro lançado do último andar do edifício acertou em cheio a sua cabeça. Foi morte súbita. Destino cruel ou irônico para a personagem de um escritor quase renomado. Tiro e queda. Imediatamente, o próspero vendedor, antes mesmo de fazer qualquer careta de dor, perdera os sentidos e tombou como um touro abatido.
Pensou duas vezes para concluir o trágico desfecho. Todas as alternativas de preservação do seu protagonista redundaram em absoluto fracasso. Por que terminar assim? - Ele se perguntava com frequência... Vencido pelo cansaço, já exausto por não inventar um destino mais atraente para seu personagem, aceitou a derrota, pediu trégua à falta de criatividade, e deixou que o livro despencasse, em queda livre, batendo diretamente na cachola do seu astuto, porém indefeso, vendedor de seguros.
O autor desconsolado ensaiou a derradeira tentativa para alterar o esdrúxulo final reservado ao seu personagem. Ao iniciar a reescrita, talvez por imprimir muita força nos dedos - já demasiadamente frustrado -, quebrou ao meio a frágil madeirinha do lápis. Foi aí que reconheceu que o universo literário conspirava contra seu gênio autoral. Aquilo não poderia ser obra da mente humana - ponderou o já assustado escritor. Não tão resignado, aceitou o destino que alguma força maior reservara para ele. Fechou o livro, colocou-o sobre a escrivaninha, levantou-se e caminhou calmamente para o sofá. Quis tirar um cochilo breve.
Ao se dirigir para o sofá, subitamente teve a sensação que seu cérebro fervia. Estava quase derretendo. Uma fumaça esbranquiçada saia pelos orifícios de sua cabeça, principalmente ouvidos, olhos e narinas. Deteve-se. Num átimo, atirou-se contra o livro. Engalfinhou-se no chão, amassando, com fúria, a capa e o miolo. Mordeu-o com tanta vontade, que as marcas dos dentes estampou na orelha da contracapa, ranhuras como um código de barra. Não estava nem um pouco conformado com sua incapacidade de mudar o destino de seu querido vendedor de seguros - criado com a dedicação digna de escritores consagrados.
Combalido e já quase vencido pelo embate corporal, cravou as unhas no livrinho inacabado e arremessou-o pela janela meio aberta. Um senhor distinto, vestindo um elegante terno, numa infeliz coincidência, distraidamente, atravessou a marquise do prédio do qual o livro despencava acelerado, de uma altura nada convencional, e estacionou rente à coluna em que residia o irascível e fatigado autor. Como se houvesse uma mira invisível, o objeto de celulose traçou uma linha certeira até atingir a moleira do incauto transeunte. O impacto fulminante nem estremeceu sua vítima. Os pedestres ao redor nada perceberam. Apenas após o corpo desfalecido do homem tombar no espaço público, que uma porção de curiosos rodeou-o, só cedendo lugar quando os paramédicos chegaram para logo constatarem que nada poderiam fazer.

(...)

Mediram sua pulsação. O bafo deixado no espelhinho colocado diante do seu nariz revelara o quase óbvio. A vida não havia lhe abandonado. Mesmo com a pressão arterial um pouco enfraquecida, pôde segurar uma xícara de café meio requentado. Sentou-se no sofá. Ainda estava um pouco tonto. Achou que dormira demais. Logo que se despediu dos seus companheiros, com apertos de mão e beijinhos no rosto das senhoras, levantou-se rapidamente - porém se escorando no braço de uma velha cadeira -, pois a tontura ameaçou derrubá-lo, e colocou em prática uma idéia fixa que não deixara de martelar sua cabeça quando acordara.
Pegou sua esferográfica e rabiscou as primeiras linhas. Não mais adiaria a execução dos seus planos. Seria agora ou nunca. Estava certo disso. Apontou sua caneta para o papel e num movimento retilíneo, enfiou a ponta de sua ferramenta tinteira nas páginas em branco do seu caderno de anotações e manuscritos. Vagarosamente, a tinta escura se espalhou pelas folhas, cobrindo-as de uma mancha espessa, sem uniformidade. Inclinou a cabeça para trás, num gesto típico de regozijo, e se entregou a uma gargalhada estridente, repetindo a mesma frase incessantemente: “Sou um assassino!”. “Sou um assassino!”.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Morte na Folia.

sábado, 25 de fevereiro de 2012 3 comentários



A penúltima agremiação já estava chegando à Dispersão. Aquela extensão do sambódromo foi construída para que todos os integrantes e ritmistas da escola se agrupassem, saudando o público. Mas era um espaço exíguo demais e não havia tempo suficiente para tal apresentação apoteótica. Alfredo, imerso num mar de plumas e paetês, fantasias, adereços e alegorias monumentais, desejava ser um anônimo na multidão. Mas em meio à radical falta de identidade dos mascarados, da massa homogênea de foliões, não se sentida seguro. Qualquer um poderia ser o seu potencial assassino.

A única certeza que latejava em sua alma, era que estava jurado de morte. Tentou se preservar, imiscuindo-se ao frêmito das massas divinizadas em exaltação foliônica. Mas quanto mais se dissolvia no anonimato dos mascarados, mais sua angústia sinalizava uma devastadora presença. Seria alvo fácil? Será que alguém o observava? Por baixo das festivas vestimentas de qualquer um, poderia se esconder o autor do futuro crime, aquele que o aniquilaria.

(...)

Um pouco antes das primeiras manifestações carnavalescas do ano seguinte, precisamente no mês de outubro, Alfredo se encontrava na residência de um estimado amigo, há muito sumido, o Péricles. Prosearam animadamente, atualizando assuntos extintos ou esquecidos numa época remota. Péricles serviu com satisfação o amigo, oferecendo apetitosos quitutes e petiscos, brindando-o com um não menos excitante coquetel que só ele sabia fazer.

- Estou muito contente em poder revê-lo, meu amigo! – Exclamou Alfredo com lágrimas nos olhos.

- Eu que estou lisonjeado em recebê-lo no meu humilde lar.

Ao visualizar sua cinemateca particular, Alfredo afirmou:

- Vejo que você continua amante dos diretores europeus...

Péricles pegou um filme do Buñuel, retirou a contra capa que continha a sinopse e argumentou:

- Este cineasta espanhol foi o responsável por uma das mais apreciadas receitas do esplêndido drinque que estamos saboreando agora, o destilado dry martini.

- Sim... Um homem versátil... Seu paladar apurado vai além de seu refinamento magistral na Sétima Arte. Buñuel sabia apreciar este aperitivo com elegância ímpar.

- Saber degustar uma boa bebida é condição sine qua non para a qualidade de qualquer cineasta que se preze.

- Sempre achei que sua capacidade de crítico de cinema foi desperdiçada. Você deveria ter trilhado uma carreira mais jornalística, dando ênfase aos estudos cinematográficos. Deveria ter investido na literatura. Admiro sua declarada paixão pelo cinema!

- Sou um homem de negócios, meu caro. Não tenho tempo a perder com prazeres fúteis. Só me entrego à apreciação de boas bebidas e de bons filmes quando estou prestes a realizar projetos ambiciosos. Minha vida é clara e distintamente direcionada às especulações econômicas, ao jogo do câmbio flutuante, às milionárias aplicações nas Bolsas de Valores, aos investimentos em ações.

Visivelmente constrangido pelo modo imperativo e frio com o qual seu amigo definiu o interesse pela arte, associando-a à ganância comercial, às frivolidades mercadológicas, Alfredo tentou abordar amenidades, puxar assuntos que envolvessem mais a intimidade familiar. Alfredo não estava distraído. Percebeu logo pelas palavras do amigo, já que estavam bebendo, que naquele encontro, Péricles trataria apenas de negócios com ele.

- E sua esposa e filhos, por que não estão aqui?

- Não estou mais casado, meu caro. E filhos?! Sempre fui contra tê-los.

- Mas eu me recordo com vivacidade dos seus filhos! Como você agora me diz que não tem filhos?

- Eu não estou dizendo isso só “agora”, pois realmente nunca tive filhos.

Prevendo que aquele diálogo seria reduzido a uma absurda discussão, Alfredo resolveu contemporizar e conduzir a conversa para outras plagas.

- Você tem visto alguém dos tempos de faculdade?

Embaraçado pelo silêncio de Péricles, Alfredo prosseguiu, reformulando sua pergunta:

- E a Karina e a Alessandra? Sei que você tinha certa quedinha por elas... e...

- Basta de trivialidades! Vamos direto ao assunto que lhe trouxe aqui.

Péricles estava com uma fisionomia rígida, cenho franzido, dedos crispados sobre o criado mudo.

- Mandei uma equipe de confiança para acompanhar seus passos durante todo tempo. Também andei observando-o pessoalmente. E constatei que você é o cara ideal para o serviço.

Ainda mais assustado, Alfredo indagou com relativa gagueira:

- Mas que serviço?

- Você é um sujeito honesto, trabalhador, pai de um casal de lindas filhas. Está acima de qualquer suspeita. Encaixa-se perfeitamente, como uma luva, para o perfil do homem que eu preciso contratar.

- Não estou alcançando seu raciocínio, Péricles.

- Oferecer-lhe-ei uma boa quantia. Irrecusável! Sei também que você está passando por dificuldades financeiras, que contraiu algumas dívidas com empréstimos bancários. Esta será uma grande chance! Ótima oportunidade que só um amigo como eu poderia lhe dar.

- Você está me deixando apreensivo.

- Não fique, não fique! Acredito em você! Por mais que o mundo resista em valorizar seus talentos, eu os reconheço e admiro! Você trabalhará para mim.

- Mas o que terei que fazer?

- Calma, meu velho companheiro! Primeiro farei minha proposta sobre a quantia que você receberá.

- Certo... mas... Não estou conseguindo compreendê-lo. Aonde você quer chegar?

- Você tem um saldo positivo comigo, meu caro. Mesmo com antecedência, tenho convicção que você cumprirá com êxito a missão para a qual o instruirei. Por isso, pagarei todas as suas dívidas – que não são poucas – e darei todo o conforto para você e sua família pelo resto de suas vidas. Terão uma vida à altura da realeza.

Com uma ligeira afonia, Alfredo balbuciou:

- Mas... mas... Por que eu?

- Ora, já disse! Resumindo, você é um dos meus mais confiáveis amigos!

- Já estamos afastados há anos. Nunca mais nos vimos, desde a faculdade.

- Você não me viu, meu caro. Você que não me viu. Eu o acompanhei em cada segundo de sua vida. Não deixei escapar nada. Investiguei cada detalhe. Então, confirmou-se a minha hipótese em sua eficiência e honestidade.

- Ok. O que você quer que eu faça?

- Bem... Tem um empresário grego, o Sr. Karagounis, proprietário de uma grande rede de lojas de departamento, que está atravessando meus negócios. Preciso absorver sua firma para assumir a liderança empresarial de suas filiais, preservando a matriz.

- Entendo... Mas o que quer que eu faça? Não tenho nenhuma formação empresarial. Não sei nada desse mundo dos negócios.

- Mas você sabe segurar um revólver. Sabe apertar um gatilho. Sabe matar! Quero que o mate, meu caro.

- Ahm... Nãoo... Nãoo posso...

- Pode, pode! – Disse calmamente Péricles.

Péricles estendeu a mão com algo embrulhado num pano preto.

- Tome... Ensiná-lo-ei a manuseá-la.

Tremendo, Alfredo desembrulhou o revólver. Sua vista ficou turva e mal via o rosto do amigo. Enquanto Péricles dava as instruções para utilizar o revólver, Alfredo só pensava em sua família, em suas alegrias, mas também em suas tristezas, e titubeava, oscilando suas emoções. Logo em seguida, Péricles começou a instruí-lo sobre algumas técnicas e artimanhas para o amigo entrar na mansão do Karagounis. Explicou o funcionamento do sistema de alarme, informou sobre seus horários e a exata maneira de limpar todas as evidências do crime, para não deixar pistas para a polícia.

Alfredo ouviu atentamente as instruções do amigo. Em diversos instantes sofreu princípios de desmaio, mas resistiu com rara firmeza para não alarmar a confiança que Péricles depositou em seus ombros. Suas pernas tremiam como vara verde. Mas se manteve bravamente aprumado. No final do treinamento verbal que recebeu do amigo, apertaram as mãos e Alfredo se retirou da casa de Péricles.

Ao chegar à varanda de sua casa, permaneceu por longos minutos contemplando a arquitetura de um antigo sonho concretizado. Já era noite, quando resolveu entrar. Todos já dormiam. Foi ao quarto das filhas, que ainda eram pequenas, a mais nova de 6 anos e a mais velha de 8 anos, beijou-as delicadamente na testa para não acordá-las e saiu.

Logo depois caminhou para o seu quarto, encontrando a sua bela esposa entregue a um gostoso sono. Sentiu leve amargura, um medo de perdê-la. Hesitou em realizar a operação para a qual fora instruído. Sua esposa era tão linda... Mas logo retomou sua obstinação quando se recordou das vantagens que daria à família se fosse bem sucedido em sua empreitada.

A esposa, notando sua presença a observando ao pé da cama, abriu um pouco os olhos, e carinhosamente o chamou para se deitar. Alfredo respondeu com delicadeza e se acomodou ao seu lado. Mas durante toda a noite, não relaxou um só segundo.

(...)

No mês de fevereiro, conforme o combinado, Alfredo estava preparado para impetrar o crime. Certificou-se da ausência dos seguranças. Desarmou os sensores de calor e desativou os alarmes. Estava dentro da mansão do Sr. Karagounis. Uma onda de adrenalina percorreu sua espinha. Nunca matara nem uma mosca. Sempre fora um homem honesto e respeitado, porém desvalorizado pelos seus patrões, sempre lhe usurpando suas merecidas promoções e gratificações.

Já não mais estava paralisado pelo medo. Agora obedecia a um impulso agressivo, homicida que talvez sempre estivesse habitando seu íntimo, mas que jamais acordara como naquele exato instante. Seus olhos estavam vermelhos como duas bolas incandescentes. Seu rosto, inexpressivo, pela concentração sanguínea, exibia uma plácida fúria.

Não necessitou nem fazer uma recapitulação de sua incumbência, parecia que tinha nascido para aquela circunstância. Ansiava ouvir o grito de dor, últimos suspiros de um corpo agonizante, baleado num crime perfeito. Mas se lembrou do seu treinamento, e a morte seria praticamente indolor. Lamentou essa parte das instruções. Adaptou o silenciador em sua pistola e finalmente alcançou o quarto no qual Karagounis repousava.

Quando abriu a porta, constatando a volumosa presença do grego deitado em sua cama, após apontar o revólver para a nuca de sua vítima, sentiu uma pancada lancinante no alto de sua cabeça, parecia um porrete de madeira maciça. Urrou de dor e imediatamente desabou no chão daquele quarto, deixando respingar algumas gotas de sangue, manchando o valioso carpete.

(...)

Alfredo acordou, com uma penetrante dor de cabeça, ainda desorientado, encostado num poste em plena Avenida Getúlio Vargas, no centro do Rio de Janeiro. Era tarde da noite. A Avenida estava interditada, parecia que havia alguns festejos mais adiante. Quando ele se levantou, cambaleando, com muita dificuldade, recebeu um telefonema. Um homem com uma voz metalizada, que não quis se identificar, dizia que estava sob a mira de um matador de aluguel, um assassino profissional que não perdia nenhum de seus movimentos. Estava jurado de morte. A única forma de sobreviver, era se encontrar com uma pessoa usando uma máscara veneziana do libertino Giacomo Casanova, durante os desfiles das Escolas de Samba, na Dispersão da penúltima agremiação daquela noite. Logo após a última orientação, a ligação foi cortada.

Apavorado, seguiu em direção ao sambódromo. Estava ainda no início da Presidente Vargas, por isso demorou muito até visualizar a intensa iluminação, o aglomerado de pessoas entulhadas na passarela do samba e nas arquibancadas. Levou tempo também para ouvir a batucada estridente dos desfiles, propagada pelos amplificadores de som que ficavam espalhados na Avenida Marquês de Sapucaí, transversal à Presidente Vargas.

A princípio, ao se misturar na multidão de mascarados, vestindo uma fantasia que estava abandonada no canto da calçada, sentiu-se seguro. Foi prontamente integrado à homogênea massa. Estava protegido pelo total anonimato. Deixou transparecer até uma pontinha de satisfação, contagiado pela cadência do samba e pela alegria transmitida pelos foliões.

Mas quando novamente se deu conta da trágica situação em que estava envolvido até o pescoço, redobrou-se em um estado de generalizada paranóia. Quando a penúltima escola já cruzava a Dispersão na Apoteose, teve uma taquicardia, intensificando ainda mais seu estado paranóico, desconfiando de todos aqueles que pulavam aparentemente felizes ao seu redor. Poderia ser qualquer um. Eram todos idênticos. Não tinha a menor condição de discernir um potencial assassino.

De repente, relembrou as orientações da sinistra voz. Precisava encontrar, naquele justo momento, a tal pessoa usando a fantasia da personalidade dissoluta do Casanova. Mas como distingui-la no meio de uma quantidade infinita de mascarados? Logo que fez essa consideração, avistou o Casanova. Um sujeito enorme, esguio, imóvel, parado à sua frente. Pensou em recuar. Mas continuou se aproximando da figura medonha. Ao tocá-lo, perdeu novamente os sentidos.

(...)

Eram 2 horas da tarde de uma terça-feira gorda. Alfredo tinha sido convidado para um baile carnavalesco na casa de um amigo seu que há muito tempo não via, o Péricles. Estava se arrumando quando recebeu um telefonema avisando que a festa foi cancelada. Quis saber o motivo. A voz do outro lado da linha deu a notícia da morte de Péricles. A causa do óbito foi um infarto fulminante.

Alfredo estava ainda de ressaca pela noite anterior regada de muita bebedeira em um clube tradicional na Lapa. Sacudiu a cabeça, na tentativa de afugentar estranha sensação. Ainda reverberava uma nítida memória que esteve na casa do Péricles alguns meses antes. Mas como? Eles não se viam há muitos anos, desde a faculdade. Aquela notícia de sua morte deixou-o ainda mais intrigado e confuso. Reclinou-se em seu sofá com um saco de gelo pressionado em sua testa.

Alfredo estava sozinho como sempre estivera. Invejava os homens que optaram pelo casamento, por terem esposa e filhos. Mas ele sempre esteve envolvido com negócios. Gerenciava uma lucrativa empresa. Nunca teve tempo para os afetos familiares, por isso, jamais se vinculou à qualquer mulher por mais de uma noite. Péricles era um desses homens, objeto de sua inveja. Ele era casado com uma bela mulher e tinha duas filhinhas. Como sua família vai se sustentar em sua ausência, sem o seu amor?

Continuou por longas horas, pensativo, em seu sofá, até adormecer. Sonhou que havia reencontrado o amigo Péricles. Ele estava satisfeito com a sua visita. Péricles ainda demonstrava profunda gratidão pela mulher que Alfredo lhe apresentou ainda na época da faculdade. Ele imediatamente previu que aquela seria a mãe de seus filhos. Meses depois, casaram-se. Péricles havia convidado o amigo Alfredo, que era o padrinho de seu casamento, para celebrarem juntos, suas tão esperadas Bodas de Prata.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS