Destino Selado. (Feliz Ano Novo. Axé!)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011 9 comentários







Deu alguns passos para trás, abaixou-se e bateu na terra com a mão espalmada. A poeira alvoroçou-se até tampar a visão do compadre Técio. Apenas com alguns resíduos de terra moída sobrevoando seus olhos, percebeu que Pai Tunho continuava na mesma postura. Contemplava o vazio. Pensou em bater em seu ombro para trazê-lo novamente à realidade. Mas recuou, temendo interromper o transe. Soube que, assim como os sonâmbulos que ao serem acordados podem cair duros no chão, se as pessoas em transe fossem sacudidas, incorporariam alma de outro mundo para sempre. Técio se afastou mais e descansou o corpo ao encostar no espesso tronco de uma mangueira do tipo carlotinha.

Pai Tunho havia flexionado o joelho esquerdo - no qual apoiara o queixo -, mantendo a planta do pé em contato com a terra, enquanto permanecia com o joelho da perna direita encostado no chão. Suspirou fundo. Procurou Técio com as velhas vistas. Ergueu o braço que não servia de base para sustentá-lo naquela posição cansativa, e pediu ao companheiro para que o ajudasse a se levantar. Técio saiu rapidamente do ostracismo e saltou ao encontro daquele homem para o qual devia a própria vida.

Quando jovem, Técio era conhecido na cidade de Barro Batido como um exímio capoeirista. Desafiava todos os mestres e iniciados do vilarejo para jogar e dançar. Poucos se arriscavam. A maioria esmagadora saía derrotada sem que Técio encostasse um dedo sequer em seus oponentes. Eles tombavam exaustos por não suportarem o ritmo frenético de sua ginga.

Próximo à roda de capoeira havia um homem sério que ficava sempre por ali apreciando a diversão dos meninos. Todos sempre estranharam a presença taciturna de Tunho. Vestido com uma longa bata branca, diversos colares e fumando seu inseparável cachimbo, Tunho demorava-se sentado numa cadeirinha de madeira para assistir à capoeira. Quase ninguém tinha coragem para chegar perto de tamanho macumbeiro - temia a crendice popular. Achavam até que se fosse encarado por mais de dois segundos, os curiosos seriam vítimas de mandinga e reza brava.

A fama de Técio se alastrara para além das fronteiras da humilde Barro Batido. Forasteiros souberam do nome daquele camarada tinhoso que enfrentava quaisquer briguentos que entrassem na roda. Um dia, um malandro que já tinha o orgulho ferido por outras pendengas, apostou com os comparsas que mataria Técio. Ele escondeu uma peixeira por baixo dos farrapos do que fora uma espécie de quimono e pulou na roda para jogar. Quando esse forasteiro malicioso, esquivando de um golpe de Técio, desembainhou a peixeira do cinturão, e estava prestes a perfurar-lhe o abdômen, Pai Tunho surgiu na frente do sujeito mal-intencionado e lhe arrancou a faca. Ninguém compreendeu aquela aparição. Era improvável que Tunho tivesse saído de sua cadeira, plenamente acomodado, e, de um salto, chegasse entre os dois para desarmar o adversário de Técio. Fora inexplicável tal façanha. O que se sabe é que o forasteiro, perplexo, ajoelhara as pés de Tunho e ficara lá, mudo, por longos minutos, até virar-se de costas e sair correndo para nunca mais voltar.

A partir de então, Pai Tunho tornou-se querido por todos, principalmente por Técio - que passou a segui-lo incondicionalmente - e pelas crianças que rodeavam-no para que lhes contasse histórias fantásticas dos seus antepassados. Técio, além de seguir Pai Tunho, virou um dos seus mais dedicados e promissores aprendizes. Fora batizado pelos orixás, recebendo justamente o nome Técio - seu nome civil era desconhecido -, iniciado e doutrinado pelas entidades espirituais que lhes protegiam e davam deveres para cumprimento e a disciplina do povo.

O tempo passou, compadre Técio já estava se preparando para suceder Tunho em sua missão de Pai, mas as questões começaram a aflorar. Tunho já estava cansado, bem velho. Logo desencarnaria para se juntar às entidades as quais se dedicou durante toda a vida de humilde servidor. Técio fora nomeado para sucedê-lo. Porém, ele não se sentia preparado e sabia que não teria a mesma capacidade e abnegação para continuar o sublime trabalho de Pai Tunho.

Técio estava se ajeitando para se despedir e tentando arrumar difíceis palavras para dizer a seu mestre, quando, à sombra daquela frondosa mangueira, Pai Tunho ajoelhou-se. Técio não conseguiu abrir a boca para pronunciar as palavras de despedida, muito menos para se explicar de sua covarde decisão. Pai Tunho, em transe, silenciou-se, de olhos fechados. Recolheu-se em sua insignificância perante os orixás, e recebeu a graça de ouvir sagradas orientações. Foi nesse instante que Técio, encostado na mangueira, como para não perder o equilíbrio da razão, num conflito irredutível e trágico entre a sua vocação, seu desejo, para a qual dedicou-se desde que Pai Tunho o salvou, e a vontade medrosa de se esquivar, fugir para cidade, refazer sua vida distante do lugar no qual, de suas raízes, brotariam cactos e flores.

Pai Tunho estendeu a mão. Técio saiu do seu conforto sob os galhos da mangueira para erguer o velho. Quando sentiu seus dedos tocarem a áspera e enrugada mão de Tunho, Técio percebeu a força dos ventos que sopravam em sua direção, assoviando ao atravessarem as lâminas cortantes das folhas novas. Não conseguia abrir os olhos, pois a força era tanta que suas pálpebras não se mexiam. No momento em que pôde ver, Pai Tunho havia rejuvenescido, mas não perdera o vigor e a sabedoria de um homem nobre. Fixou os olhos. A imagem se embaçara. Notou certa semelhança e familiaridade.

Surpreendido, Técio não pôde mais duvidar. Era ele o novo Pai. Tunho já desencarnara havia tempos. Aquele Tunho jovem que surgira diante de seus olhos, não era Tunho. Era um Pai, mas não Tunho. Técio estava diante de um espelho d'água cristalino refletindo áurea imagem no muro branco do quintal. Técio era agora, Pai Técio. Seguiu seu destino. Assimilou sua condição transmitida pelo amor. Destino selado - trágico e belo.



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

No Banco da Praça. (O Fim do Mundo).

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011 1 comentários








Rafael se sentou. Um odor nauseante invadia-lhe as grisalhas vibrissas de sua cavidade nasal. Uma ameaça de taquicardia o preocupava. Precisava descansar. Não mais prosseguiria enquanto todos aqueles sintomas não o deixassem.

Os correios cerrariam suas portas em breve. Não podia se atrasar. Estava com medo de ser vítima de uma parada cardíaca. Massageou o peito sufocado. Espichou os braços, massageando-os, suspirou fundo, contraiu o cenho e coçou a cabeça já quase calva.

Conferiu as horas na autêntica réplica de um Rolex que exibia no pulso esquerdo. O relógio marcava 16h12min. Rafael se deu conta de que o tempo não lhe concederia maiores regalias. Aquele dia era o prazo final para depositar a carta nos correios. No dia seguinte, um sábado, 22 de dezembro, já estaria viajando para cidade distante.

Tentou se levantar. Não conseguiu. Tentou novamente... Nada. Parecia que seu corpo estava colado ao banco em que sentara. Tentou tomar impulso, comprimindo-se para baixo, e, de repente, arrancou seu corpo para cima. Sem sucesso. Não compreendia o infortúnio para o qual se predestinara. Tentou, uma última vez, esquivar-se daquele assento que insistia em sugar seu traseiro. Mas continuou grudado, sem a menor possibilidade de êxito.

Deu mais uma olhadela para o relógio. Antes de ver as horas, fora arrebatado por estranho mal-estar que lhe deixou cego por alguns instantes. Ao recuperar a visão - ao menos aparentemente -, não mais pôde enxergar os ponteiros em sua maquininha circular. A realidade se alterou de tal maneira, que o mundo onírico passou a predominar. Seres mágicos se cumprimentavam calmamente diante dos seus incrédulos olhos.

Suas vistas ainda estavam turvas e enevoadas. Esfregou-as obstinadamente. E, de súbito, tudo voltou à habitual normalidade. As pessoas circulavam de um lado e de outro, apressadas, como em qualquer sexta-feira à tarde. Rafael achou que o normal também lhe atingira. Mas não. Após nova tentativa fracassada, assustado, quis se resignar sobre aquele tragicômico destino: Permanecer preso ao banco da pracinha.

Conseguiu relaxar um pouco, até se perceber sozinho na praça. Quase na certeza de ser alvo de delírios, mesmo não sendo usuário de tóxicos nem de substâncias lícitas, apalpou novamente o coração e inclinou a cabeça para trás. Foi aí que um par de mãos aveludadas deslizou pelo seu couro cabeludo, o que lhe arrepiou a espinha, embora evitasse de mover qualquer músculo. Um bafo ora quente ora gelado arranhou a nuca de Rafael. Sentiu aqueles lábios carnudos e frios ao pé do ouvido. Tremeu como vara verde. Foi aí que a voz trêmula e gutural anunciou: - São 16h15min, você tem uma hora.

Abalado, Rafael indagou sobre lhe sobrar uma hora, à voz. - Uma hora, tenho para quê? - Perguntou. A voz então, enfiando os dedos, agora ásperos, ainda mais intensamente em seus cabelos, retrucou: - De vida. Uma hora de vida. Rafael estancou a respiração, atônito, arregalou os olhos e ficou paralisado. A voz, então, para consolá-lo, disse para que não se afligisse com antecedência, pois toda a vida terráquea seria solidária à sua partida. O fim não era só dele, mas sim do mundo. Rafael resfolegou, perdeu o semblante aparvalhado, descontraiu o rosto, exercitando aerobicamente o contorno da boca, e recostou ainda mais a cabeça no encosto do banco.

Pensou que seu nome, Rafael, não fora dado à toa por seus pais. Sabia que era um missionário, desde o batismo, pois quem recebe nome de anjo, em seu imaginário, está incumbido da salvação. Fechou os olhos, ajeitou a cabeça, e recebendo as massagens contínuas daquelas mãos invisíveis, porém agora macias e sedosas, esperou. Antes, só para verificar, por desencargo de consciência, tentou se levantar mais uma vez do banco. Conseguiu! Mas pensou melhor... Resolveu voltar e esperar. A massagem era tão aconchegante que adormeceu. Ficou lá, dormindo... No sonho, entregue a um sono pesado, vestia uma capa vermelha e salvava o mundo. Continuou gozando de sua façanha por uma hora... Aí... Bem... Já se sabe!



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.