Serenidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011 4 comentários




Sentada à beira de um rio, com os pés cruzados à altura dos tornozelos, Hana já havia trocado a exaltação pela calmaria. Sabia que não seria capaz de mudar aquele destino. No início protestou, blasfemou, foi à luta. Fez das tripas coração para interferir na violenta realidade que lhe aguardava de braços abertos. Mas apesar dos esforços não medidos, o resultado era inalterável, recebendo apenas a frustração como resposta pela paciente impotência de sua condição humana.

Quando a notícia trágica lhe cumprimentou fugazmente, um sorriso incrédulo resplandeceu no semblante castigado. Pediu que repetisse a comunicação, na esperança que seus ouvidos tivessem lhe pregado uma peça. Mas a sentença fora proferida com todas as vírgulas e pontos em seus respectivos lugares - afastando qualquer possível equívoco que a negação da morte pudesse articular.

Seu sorriso inverteu. Murchou como botão de flor que não desabrocha. Uma súbita necessidade de gritar lhe alfinetou a garganta e acariciou as cordas vocais. Não reprimiria o sincero apelo de suas vísceras em estado de choque. As náuseas aos borbotões não respeitavam a lei da gravidade. Força desumana que lhe corroia o íntimo macerado.

A inquietude de Hana logo adquiriu um aspecto brando e cristalino, ocupada pela serenidade que lhe invadia o espírito condoído. A mãe que morava sozinha em uma casinha no interior de sua cidade natal, logo surgiu em seus pensamentos. O marido e os filhos estavam se divertindo numa viagem de férias e Hana não queria ser a porta voz da desilusão. Ela não teve a licença de seu emprego para se integrar à família na viagem dos sonhos de seus filhos. Combinou com eles que ficaria em casa enquanto eles sairiam com o pai - afinal os momentos com o pai pouco duravam. Além disso, o dia agendado para buscar o resultado de alguns exames estava se aproximando. Há tempos, Hana sentia um mal-estar indescritível. Esteve se consultando com diversos especialistas, até chegar a um clínico que recomendou alguns exames.

Aproveitou o tempo em que passava só em casa e foi pegar o documento que lhe causaria irreversível estrago em seus projetos de vida. Questionou se o poder da descoberta não aceleraria sua partida deste mundo. Talvez, se não soubesse, seu corpo não reagiria com a tal volúpia destrutiva que lhe arrancaria as entranhas. Mas foi aí, com o recorrente desejo de visitar sua mãe que começou um incessante ritual. Deixou os seus pais para crescer na carreira de artista plástica na cidade grande. Em uma das inúmeras exposições de seus trabalhos em galerias de arte, conhecera seu marido, um curador responsável por organizar os eventos artísticos.

A última vez que voltou ao vilarejo em que nascera foi para enterrar seu pai que morrera de ataque cardíaco durante a lida na lavoura. Há quase dez anos só conversava com a mãe por telefone, ainda assim quando combinavam para que ela fosse à rua e ficasse próxima a um telefone público, pois não tinha aparelho instalado em sua casa e não se adaptou com o uso de celulares. Às vezes também contava com os favores dos vizinhos, em caso de urgência, como a notícia da morte do pai de Hana. Sua mãe pediu que um vizinho de confiança desse o recado à sua filha, pois ela já estava fraca para encarar tal missão dolorosa.

Hana sempre insistia para que sua mãe fosse morar com sua família na cidade grande. Mas a velha mulher não suportava a hipótese de se separar de seus pertences rústicos. Jamais admitia a sofisticação das cidades grandes. A filha nunca conseguiu convencê-la de que morasse com ela, nem mesmo de que fosse visitá-la na capital paulista. A única vez que viu seus netos e pôde abraçá-los, foi no mesmo enterro do seu marido - ocasião tão difícil de enfrentar para ambas as mulheres, mãe e filha. Os filhos de Hana gostavam de conversar com a avó por telefone, mas se deslocar até um orelhão público já se tornara um sacrifício para alguém que a velhice já acenava à entrada de seus aposentos. A mãe de Hana foi nascida e criada na mesma casa no sertão da Paraíba, onde teve seus seis filhos, criou-os e os educou bravamente. Um filho morreu durante a juventude em aventuras insólitas pelo mundo afora, à procura de emprego e de diversão. Acabou se envolvendo com contrabandistas da região, contraiu dívidas e foi assassinado em acerto de contas. Três outros filhos se estabeleceram em lugares longínquos também no nordeste brasileiro - afastados do interior. Só um permaneceu na mesma casa, ajudando o pai a cuidar da lavoura até conhecer uma mulher que amarrou seu coração como um vaqueiro laçando o gado no pasto e o levou para Goiás - terra em que o pai da moça era proprietário de uma fazenda pecuarista. Hana, a única filha, nessa época já desenvolvia trabalhos plásticos muito valorizados na Paraíba.

Desde novinha, Hana demonstrava seu afinado talento. Juntava objetos aparentemente inúteis espalhados no quintal, montando belas esculturas, inclusive com sobras de madeira do fogão de lenha, parafusos e britas. Suas obras infantis eram apreciadas pelos vizinhos e enfeitavam a mesinha de cabeceira dos pais ou a humilde arca da salinha na qual a família se reunia para ouvir música no final da tarde.

Quando já estava adulta, um caçador de talentos que passava pela Paraíba, ouviu rumores sobre a riqueza poética dos trabalhos plásticos de uma mocinha do sertão. Foi até lá, comprovou o valor artístico de suas obras e a convidou para acompanhá-lo em sua viagem para São Paulo. Ele propôs matriculá-la numa escola de belas artes para lapidar suas virtudes manuais e visuais, prometendo um sustentável retorno financeiro. Como Hana já era adulta, coube somente a ela essa decisão. Mas o conflito por deixar seus pais sozinhos - era a única filha que ainda continuava ao lado deles - estremecera aquele corpo que também recebera belos retoques artísticos pela genética de seus genitores.

Mas, como era de se esperar, sua vocação vencera o medo da distância. No dia seguinte à proposta do caçador de talentos, Hana já arrumava suas malas com as modestas peças de roupa ocupando a menor parte do espaço. A maioria absoluta do espaço das malas fora ocupada por suas esculturas prediletas para apresentar à escola de belas artes. Dois dias depois, embarcou para São Paulo sem previsão de regresso. Despediu de sua mãe com lágrimas nos olhos e deu um abraço apertado e demorado em seu velho pai.

(....)

Já com a morte jogando pedrinhas na janela do seu quarto de dormir, com a ideia fixa de visitar sua mãe e de repousar no colo da encantadora natureza na qual cresceu, Hana amadureceu seus planos para viajar de volta ao sertão paraibano. Sabia que não seria fácil tal empreitada. O problema não era o preço de uma passagem de ônibus ou de avião, afinal ganhava muito bem com suas exposições, mas a duração da viagem e a conversa que teria com seu marido e filhos, justificando seu desejo.

Não é que ela devesse explicações à família, mas seu lugar de esposa e de mãe já deixava transparecer uma saudade antes mesmo de partir. De qualquer forma, precisa ter uma séria conversa com seu marido, transmitir-lhe a notícia de sua brevidade, e combinar com ele a melhor maneira de contar que sua partida não resumiria a uma simples viagem para outro estado do país. Ela não confiava na possibilidade de um filho assimilar a morte da mãe, muito menos na idade deles. Como superar essa partida. Como lidar com a perda? E a sua perda, em deixar seus filhos? Pensou em adiar essa conversa. Seus sentimentos eram comprimidos como o teto que desce e achata a cabeça dos prisioneiros nas câmaras de tortura que via nos filmes. Esperou o marido e os filhos voltarem de férias.

No meio de prantos e indignações, soluços e amarguras, Hana enxugou uma lágrima do rosto de seu marido que mais parecia um tristonho orvalho ao escorregar pela macia folha verde - como um choro baixinho - antes de secar e subir como vapor d’água para o sol da manhã.Resolveram que poupariam os filhos de maiores detalhes. Contaram apenas que Hana faria uma viagem longa para cuidar da vovó que já estava bem idosa e não poderia continuar sozinha. Precisava do auxílio de sua filha para o serviço doméstico e outros afazeres. Seus filhos protestaram um pouco pelo afastamento da mãe, mas rapidamente compreenderam a situação e se convenceram de que a mãe precisaria fazer tal viagem.

Os filhos fizeram-na prometer que em breve ela voltaria. Esse pedido amoroso e carente dos filhos provocou alguns soluços que logo contiveram o choro doído para não causar sofrimento nos filhos. Hana reprimiu as lágrimas e as trocou por um leve sorriso. Os filhos visivelmente emocionados, mas alegres em ter sua mãe por perto, saltaram no pescoço de Hana e todos deram um demorado e gostoso abraço. Ficaram naquela posição por um bom tempo, até que eles se recuperassem do impacto afetivo e descansassem do choro. Hana os colocou para dormir, cobrindo-os e beijando as pequeninas testas dos filhos e foi para o quarto com o marido.

(...)

Hana chegou sem avisar no final da tarde. Sua mãe estava sentada em sua cadeira de balanço na varanda da antiga casa, fazendo uma colcha de crochê. Ao ver a filha se aproximar, ela se levantou com dificuldade pelas dores no corpo, mas sem senti-las, mergulhada que estava na emoção do reencontro, e se esforçou para chegar até a filha - o máximo que seus frágeis ossos lhe permitiram. Mas Hana, deixando suas malas soltarem de suas mãos, até tombarem no chão de barro, foi em direção à mãe, correndo de braços abertos. As duas mulheres machucadas pela vida abraçaram-se com tal singular vibração que só amor entre a mãe e sua filha é capaz de explicar. Aquele instante sublime encurtara quilômetros de distância e quase dez anos de um tempo que separou as duas fisicamente, mas não em seus corações.

(...)

Sentada à beira de um rio, com os pés cruzados à altura dos tornozelos, Hana já havia trocado a exaltação pela calmaria. Não tinha mais do que temer. Encontrara sua mãe, seus filhos estavam aos cuidados de um pai generoso, atencioso e dedicado. Logo ele encontraria uma mulher igualmente carinhosa que cumpriria a função de mãe na educação de seus filhos. Sentia a falta de todos, assim como doía saber que os seus também levariam tempo para assimilarem sua partida. Mas a certeza que estavam todos bem direcionados na vida, que fizera um bom trabalho, confortava-a, mesmo que não plenamente.

Estava naquele lugar, pois a natureza da sua infância a havia chamado. Precisava se reconciliar com aquele lugar há muito tempo esquecido. Retornara à sua alma com tamanha vivacidade e júbilo íntimo, despertando uma sensação afetuosa como o afago de seus pais e irmãos. O sentimento era tão puro e acolhedor, que subitamente sentiu sonolência. Uma moleza prazerosa começou em seus pés e foi subindo lentamente até relaxar a sua face antes contraída por algumas preocupações.

Deixou seu corpo reclinar levemente até encostar-se à grama fresca com um tom claro de verde. Há muito tempo não sentia o cheiro do mato, não ouvia o som dos pássaros e das águas apressadas dos riachos. Com os dedos, cavou um buraco na terra e entrou em contato com a umidade juvenil do solo. Estava muito satisfeita em dialogar com sua natureza interior representada em cada sentido seu que contemplava a flora de sua terra natal, tocando-a. Fechou os olhos e se permitiu tatear todas as folhinhas em que seu corpo repousava. O cheiro do sol se pondo, misturado aos pinguinhos do riacho que pulavam em seu rosto quando as águas se encontravam com as pedras, compuseram fielmente o deleite daquele inesquecível momento.

Logo, suas preocupações se afastaram, seus pensamentos foram esvaziando até não mais assustá-la. Hana era puro sentir, era puro tato, olfato e audição. De olhos fechados, sem ver com os olhos carnais, absorvia o sabor das imagens de paz que presenteavam seu paladar. Serenamente Hana adormeceu. Não pensava em nada, não tinha dor. Só ouvia a cantoria das aves - saudando-a -, sentia o cheiro do mato, do rio, e o sabor da suave melodia que lhe acariciava como a pétala da flor que seu pai lhe ofereceu nos seus quinze anos.

Com o passar das horas, Hana se desapegou do seu ser. Hana não era mais Hana. Ela era cada gotinha do riacho que escorria por sua face em límpida placidez. Ela era a canção dos pássaros, o sabor da terra molhada e a textura verde da grama. Hana passou a ser apenas a sua natureza... E partiu serenamente.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Cai a Chuva

quarta-feira, 16 de novembro de 2011 1 comentários

Música: Kadu Paulino - Letra: Edison Gil