Partido.

sábado, 23 de julho de 2011 0 comentários













Passou a mão no peito e suspirou. Não era a primeira vez que estava apaixonada. Sabia de todas as mazelas do término de um amor por experiência própria. Não queria sofrer novamente. Jamais. Já havia tomado uma potente vacina contra as consequências do amor não correspondido ou abruptamente rompido sem a menor explicação. Mas apesar disso, a imunidade não alcançava aquele órgão pulsante sobre o qual Pascal afirmou ser o portador de razões além da razão humana.

Opondo-se a suas amigas alienadas, que repetiam sucessivamente uma determinada condição da qual tinham ojeriza, sem que pudessem admitir suas escolhas, Débora era consciente de seus atos. Não duvidava de sua condenação aos amores e desamores. Nunca se imaginou vitimada por estranhas forças sobre as quais não exercia nenhum domínio. A única coisa que Débora não conhecia era o motivo dessa incapacidade de acertar no que verdadeiramente queria. Quando um novo amor surgia, ela possuía a certeza que tudo, mais cedo ou mais tarde, ruiria. Acabaria tragicamente como em todas as outras vezes.

No início, chorava com amargura pelos cantos da casa, sendo consolada por uma amiga que também fracassava em matéria de coração. Com a diferença que a amiga acreditava que eram os homens que não prestavam. Débora não se submetia à repetição do fracasso. Não porque ela descobrira uma forma de interromper essa sina repetitiva - pois recusava a ingenuidade das amigas -, mas porque não queria perder a exclusividade como causadora de suas desgraças afetivas.

Contrariando expectativas, a continuação dos fracassos não possibilitou que Débora adquirisse maior aprendizado da vida. Seus erros não produziam acertos. Numa lógica primária, quanto mais errava, apenas errava ainda mais. No seu caso, o erro só levava a maiores sofisticações do próprio erro. Errava de maneira cada vez mais elaborava. Na primeira vez, um namorado a deixara numa longa conversa a luz de velas num restaurante elegante da cidade. Ele a havia convidado para jantar, preparou os maîtres para a situação, decorou e ornamentou aquele encontro, também levando flores e uma caixinha de bombons. Débora não se conformou ao ser informada que seu namoro chegara ao fim. A delicadeza e cortesia do rapaz em dizer o sonoro "não!", a sensibilizou. Pelo menos teve a oportunidade de xingá-lo e estragar o clima romântico. Aquilo lhe fez um bem enorme. Havia ridicularizado-o na frente de todos daquele restaurante chique. Perdeu o namorado, mas não perdeu a dignidade.

Só que já na segunda vez que perdeu um amor, o rapaz nem se preocupou em organizar um evento para lhe dar a notícia. Ele simplesmente chegou à sua casa - sem levar nenhum mimo -, segurou suas mãos, pediu que sentasse com ele na mesma cama que fora palco de noites memoráveis, olhou fundo nos seus olhos e disse: "Está tudo acabado". Só isso. Diante da revolta de Débora, ele apenas virou as costas com uma relutante lágrima nos olhos que insistia em ficar presa nos cílios, e foi embora para sempre.

Já o rapaz do terceiro namoro, terminou com ela sem nem ao menos olhar em seus olhos. Ele terminou por telefone. Fez uma única ligação e, revelando um pouco de constrangimento, despejou suas verdades insipientes, rompendo de modo frio e distante. Débora tentou ligar para ele diversas vezes, mas não atendia seus telefonemas. Ela chorou, mas demorou menos para se conformar. O quarto rompimento foi por e-mail. O rapaz lhe enviou uma mensagem sucinta justificando seus motivos, sem nem ter dado aviso prévio, e desapareceu. O quinto então nem se fala. Depois de uma noite quente de amor, ele nunca mais deu as caras. Ele a riscou do mapa sem nenhum e-mailzinho.

E os rompimentos foram aumentando e evoluindo em termos de sofisticação. Nesse caso, a palavra "sofisticação" não se refere ao complexo e ao mais bem elaborado. Muito pelo contrário. Caso fosse assim, o primeiro, o do jantar de velas, seria o mais sofisticado. Mas essa palavra tem a ver com a escala decrescente. Significa que com o passar do tempo, Débora testemunha - sem ser vítima, ela sabia muito bem - uma maneira de romper o relacionamento cada vez mais líquida e evasiva. Então, ela só pôde compreender que se os caras a largavam sem nem participarem de uma conversinha sequer, a sofisticação em expulsá-los inconscientemente só poderia estar do lado dela. Era ela, e mais ninguém, a responsável por acabar com seus amores. Mas qual seria seu requinte de crueldade? - Ela avaliava. Será que mordia? Mas mordiscar incrementava o sexo, levando-os a excitações que não estavam no gibi. Não sabia a causa. Só sabia que a causa estava nela.

Débora passou um tempo sem arranjar namorado. Apenas saía com as amigas e se divertia em animadas conversas regadas com muita cerveja. Até que um dia reencontrou seu primeiro namorado - o que terminou com ela a luz de velas. Ele tinha se casado com outra mulher e o casamento não ia bem das pernas. Disse que desde que romperam, ele sentia sua falta. Nunca mais sentira prazer com nenhuma mulher do mesmo jeito que sentia com Débora. Ele a abraçou na frente das amigas - já alterado pela bebida, pois também bebia com amigos na mesa ao lado -, deitou a cabeça em seu colo, chorando. Débora ficou comovida com aquele gesto suplicante. Ele levantou a cabeça e tentou beijá-la. Ela recuou, colocando as mãos espalmadas em seu rosto, como um sinal para que se afastasse. Ele então subiu na cadeira e gritou que a amava. Débora o fez descer e o conduziu em silêncio até uma mesinha reservada na parte de trás do bar. Sentaram-se. Ele em prantos, soluçando, pegou suas mãos entre os copos da mesa e disse que não viveria mais sem ela. Débora ouviu tudo sem dizer nenhuma palavra.

Enquanto o rapaz discursava em absoluta aflição, Débora teve um lampejo de verdade. Aquele homem se debulhando em lágrimas só podia significar uma coisa: Eles terminavam com ela porque se sentiam impotentes para assumirem que só ela seria o amor de suas vidas. Ela se recriminou esse tempo todo à toa. A solução sempre fora objetiva. Débora continuava, em silêncio, sendo iluminada pela razão. O rapaz, chorando copiosamente, deu um tapa na mesa, agarrou os ombros de Débora, olhando profundamente em seus olhos e começou a repetir sem parar que não vive sem ela de jeito nenhum. Ela disse que compreendia perfeitamente, e esboçou um sorriso. Disse que ficasse calmo, pois ela estava entendendo tudo.

Não tinha mais nenhuma dúvida sobre a missão para a qual fora eleita: Débora era uma deusa reprimida num corpo de mulher que causava o amor dos homens e os enlouquecia. Eles rompiam com ela por não mais poderem viver com tanto amor. Não eram capazes de revelarem seus segredos. A linguagem não era suficiente para traduzir tal excessivo sentimento. Só seu primeiro namorado, em desespero, pôde sintetizar e transmitir-lhe sua aflição. Débora sabia o que tinha que fazer. Ele não poderia viver sem ela, e ela não poderia viver com ele. A solução para que ele encontrasse a paz estava por vir.

Débora abriu a bolsa em seu colo. Pegou um objeto pontiagudo. Olhou fixamente para o rapaz em franca aflição. Com uma das mãos acariciou o rosto daquele homem que era seu primeiro namorado. Tentou acalmá-lo com afagos. Foi aí que, com um movimento brusco, levou a mão com o objeto ao pescoço do rapaz, e massageou-o com as pontas dos dedos. Imediatamente, ainda com o pescoço seguro entre o polegar e o indicador, beliscando-o levemente, deixou cair o objeto sobre a mesa. Ele parou de chorar, olhou em direção ao objeto e se surpreendeu com um porta-retratos em formato de batom, contendo a fotografia de Débora. Ela sabia que com a sua foto ele jamais sentiria sua falta. Deixaria na cabeceira de sua cama. Quando sentisse saudades, abraçaria o porta-retratos e ficaria em paz. Débora se levantou convicta, deixou o rapaz quieto sentado à mesa, e foi beber com suas amigas. Já se passara muito tempo que estava ausente. Não poderia abandoná-las - além de estar com muita sede... de cerveja... é claro!


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Alegria na Cara.

quinta-feira, 21 de julho de 2011 1 comentários











Valter se segurava para não ceder ao irresistível impulso de virar a mão na cara de alguém. Não suportava mais o acúmulo de tensão pela vontade reprimida de distribuir pancadas a torto e a direito. Tentou puxar da memória alguma pessoa que lhe causasse aversão. Não achou nenhuma. Todos eram seus amigos, lamentavelmente amigos. E isso era o pior de tudo. Sua cabeça parecia oca, sem lembranças de desafetos para alimentar sua ira. Era bastante consciente que não se irritava facilmente. A vontade de espancar as pessoas não era motivada pelo humor explosivo ou revoltado. Valter sempre foi muito calmo e de bem com a vida. O desejo de quebrar algumas cabeças não excluía seu temperamento alto-astral.

Palavras amigas de reconforto, gentileza e solidariedade jamais faltaram no vocabulário de Valter para que as ofertasse aos amigos nos momentos mais difíceis. E a recíproca era mais do que verdadeira. Quando passava por apertos, sejam emocionais ou financeiros, seus amigos sempre se dispunham a ajudá-lo prontamente, sem que precisassem pensar duas vezes. Tinha muitos amigos e nenhum inimigo. Nada o tirava do sério. Jamais se aborrecia. Sua sensibilidade para a alegria funcionava como antenas para boas companhias, atraindo todo tipo de gente que se deliciava com suas história e bom humor.

Para Valter, nunca o clima esquentava. Não havia mal tempo. Sua alegria contagiava até os vitimados pela baixa autoestima. Embora continuasse distribuindo sorrisos - e isso não era nem um pouco cansativo -, ele queria inovar, acrescentar mais possibilidades à sua vida. Valter queria distribuir socos e pontapés a todos ao seu redor. Quanta satisfação teria se pudesse aleijar alguns narizes! Ele acreditava que se realizasse seu desejo de espancamento, certamente seria um homem completo. Não seria mais alegre do que já era, pois sua alegria já chegara ao máximo que um ser humano pode sentir. Mas tinha plena convicção de que produzir hematomas no meio da cara das pessoas representaria a glória plena na Terra. Pensou, pensou, e não chegou a lugar nenhum. Por mais esforço que fizesse não era capaz de extrair a mínima desavença em sua história que justificasse um ato agressivo de sua parte. A felicidade generalizada fazia-o malograr em sua nobre intenção de amassar umas cacholas.

Diziam que Valter possuía excepcional poder persuasivo. Confiante nesse dom, começou a elaborar um plano para convencer os seus amigos que levar pancadas sem renunciar a paz interior, significaria a aquisição da maior das virtudes: A Bem-Aventurança. Ao colocar em prática seu teorema, enfrentou a resistência pacífica dos sujeitos mais inquietos. Eles alegaram que tal comportamento se aproximava de um tipo de masoquismo resignado, típico das donas de casa que apanham de seus maridos em silêncio, sem soltar nenhum pio, como santas imaculadas. Valter recorreu à sua infinita sapiência e reavivou o exemplo de abnegação de Mahatma Gandhi.

Esse líder político, adepto da não-violência, pregava a desobediência civil para libertar a Índia do domínio inglês. Gandhi se impôs diversos estigmas, como greves de fome - longos jejuns - como estratégia reformista. Conta-se que certa vez, Gandhi e seus discípulos foram duramente reprimidos por oficiais britânicos. Eles imploravam pela liberdade e pelo fim do massacre econômico. Os soldados riram daqueles homens raquíticos e desarmados que se aproximavam. Então, para divertirem, os ingleses desafiaram os desnutridos indianos para que se conseguissem bater em um deles, concederiam alguns benefícios, permitindo-os que atravessassem a rua.

Gandhi humildemente se abaixou e ofereceu a cabeça para que os ingleses lhe desferissem golpes. Logo todos os seus discípulos repetiram o gesto do líder. Os soldados estranharam aquela bizarra atitude, não acreditando no que viam. Mas obedeceram. Bateram tanto nas cabeças dos indianos que ficaram completamente exaustos. Já não aguentando mais depois de tanto baterem, acabaram caídos e vencidos. Os indianos ,então, mesmo machucados, saíram vitoriosos. Valter quis transmitir uma lição de moral, citando as conquistas heróicas de Gandhi.

Seus argumentos traçavam considerações elogiosas sobre os benefícios de levar cacetadas na moleira. Gandhi foi um vitorioso levando porrada e passando necessidades. Quanto mais apanhava, mais ganhava a guerra e inscrevia seu nome como benfeitor da humanidade. Os amigos de Valter ouviam-no com atenção. Eles acompanharam seu raciocínio até serem dobrados pela lábia digna de um político brasileiro. Valter novamente resgatou a memória do mestre indiano para acrescentar uma valiosa observação: Gandhi alcançou a paz e a plenitude, levando porrada dos ingleses. Ele não era masoquista. Ele era um homem que conhecia a verdadeira felicidade - Afirmou Valter.

As pessoas às quais Valter endereçava seu discurso não se surpreendiam com a facilidade do amigo em abordar as cicatrizes humanas - assuntos que abalariam a maioria dos ouvintes - sem esboçar a menor angústia. Ninguém questionava que por trás daquele sorriso meigo algum tipo de perversão jazia camuflada. Caso houvesse algum distúrbio, Valter ignorava. Ele acreditava piamente em suas boas intenções. Um dos amigos, apoiando-se na leitura de um filósofo esloveno que sempre citava, afirmou que os movimentos pacíficos que resultam em grandes reformas sociais, são de extrema violência, pois mudam toda uma crença popular. Mudar a forma de pensar é a violência das violências.

Após as considerações finais do grupo de amigos, já devidamente convencidos pelas generosas alusões e milagrosas evocações do discurso de Valter, eles ficaram tão eufóricos que se despiram e lhe ofereceram pedaços de galhos e as fivelas dos cintos - que já não mais eram usados para segurar suas calças - para que Valter iniciasse o ritual de espancamento. Viraram-se todos de costas para o bem-aventurado Valter. Recebendo essa resposta afirmativa de total confiança em suas palavras e aceitação de suas nobres intenções, Valter não se conteve e soltou um berro de contentamento.

Imediatamente, ainda com a mão suspensa - já com o cinto em punho -, ele desabou fulminado. Por não sentir nenhuma pancada até então, um dos amigos se virou e deu de cara com o corpo de Valter estendido no chão. Ele morrera com o braço para cima, o mesmo que empunhava o cinto, e com um semblante de extrema felicidade. Ao invés de chorarem, eles se alegraram com aquela partida maravilhosa. Em sua lápide, os amigos mandaram que a frase que mais representasse o espírito feliz de Valter fosse inscrita: "Segue para a eternidade, o homem mais feliz do mundo!"



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Morrer de Prazer.

segunda-feira, 18 de julho de 2011 6 comentários










O corte profundo anunciava o fim. seu infortúnio sempre fora seu maior deleite, sua fortuna. Ter sua pele arranhada era o mínimo dos prazeres que poderia sentir, um acréscimo humilde de gozo. Não que tivesse apreço pelo flagelo como os penitentes. Jamais pensara em pagar promessas. Não se imaginava subindo a infinita escadaria de um outeiro, de joelhos, para agradecer a graça gentilmente cedida pelos deuses. Tinha aversão ao ler nos livros de história sobre a punição impingida aos escravos infratores. A visão da chibata ardendo no lombo causava-lhe ânsia de vômito.

Há tempos não obtinha tanto prazer quanto o de ser achincalhado por mãos femininas. O filete sanguíneo que despontava das feridas assemelhava-se ao gotejar das lágrimas, ao suor que brotava do orgasmo e ao líquido seminal depositado na glande exausta. Ele havia aperfeiçoado uma tática infalível para abordar as mulheres mais selvagens. Baseando-se em estudos esotéricos, apostou na potência dos nomes como parâmetro de personalidade. Frequentava botequins de quinta categoria e puxava assunto com as mais variadas mulheres - a maioria prostitutas - até que elas lhe dissessem seus nomes completos. Apesar de quase nenhuma revelar a verdadeira identidade, ele insistia. Elas, já aborrecidas por sua perseverança patética, apenas lhe informavam o "nome artístico" - ou de guerra -, como costumava ser chamado pelos zombeteiros bebedores compulsivos.

Ele desenvolveu um método de avaliação que chegou ao sobrenome "Silva" como um ideal de agressividade espontânea. Num cálculo etimológico, descobriu que "Silva" se originou de "Selva". Os indígenas, por seus hábitos selvagens, foram tecnicamente rotulados de "silvícolas". Então, concluiu, as mulheres com esse sobrenome, Silva, seriam logicamente mais enfurecidas na cama. Algumas mulheres, interessadas em migalhas monetárias e já entediadas pela repetitiva pergunta daquele homem esquisitão - possível cliente -, diziam que tinham "Silva" como nome do pai. Outras, que o "Silva" vinha da mãe. Pouco importava. Ele se satisfazia, calava a boca, e as convidava para sua casa, pagando-lhes o programa. Algumas se assustavam com o comportamento extravagante do rapaz. Ele pulava na cama, ficava em pé, soltava gritos histéricos e se contorcia moderadamente como elástico velho.

A maioria de suas parceiras chegava ao ponto de se apavorar, ameaçar chamar um médico - quando parecia que ele fora vítima de ataque epilético -, ou mesmo a polícia - quando a esdrúxula cena se comparava a dos mais perigosos maníacos sexuais. Muitas nem esperavam para receber o pagamento. Simplesmente viravam as costas e corriam desesperadas para a rua. Quando ele recobrava a consciência, não via mais nenhuma mulher ao seu lado, muito menos seus tão queridos arranhões. Por não ter obtido êxito com o minucioso estudo dos nomes, partiu para o cara-a-cara. Ele passou a encarar as mulheres. Tentava identificar algum traço que transmitisse o temperamento intempestivo ideal para realizar seus sonhos de retalhamento orgástico.

Depois de muitas investidas fracassadas, ele finalmente encontrou aquela que seria a encarnação do seu gozo, sua alma gêmea, seu algoz sexual. Ela exibia um semblante harmônico, equilibrando na medida certa um olhar irascível com a doçura de lábios bem desenhados. Um misto de ternura com ódio brutal. O odor da sensualidade tirânica antecipava o instante supremo de ser trucidado pelo prazer. Aproximou-se dela com a convicção típica dos santos e dos paranóicos.

Não foi capaz de cuspir palavras sujas, como as escritas por autores anônimos na latrina dos banheiros públicos. Não que as palavras de baixo calão lhe faltassem na hora "h" - ou no ponto "g", pouco importa -, mas porque a libido as envelopava como cartas-bomba para que fossem entregues a um destinatário desprovido de destino. As palavras inexistiam. Agora o ato, em sua dolorosa verdade como boa bofetada, ridiculamente real - justamente o que ele mais ansiava -, era a única ferramenta comunicativa de que dispunha. A comunicação em sua mais radical violência. Estupidamente erótica.

Quando já estavam na cama, o carrasco e sua vítima se revezavam avidamente como num jogo infantil digno de reformatórios. Ela por cima, de pernas abertas, enganchada em seu tronco, açoitava-lhe verbalmente enquanto cavalgava com obstinação. Ele firme, esbelto, como um cavalo puro sangue, alternando rebeldia - para cravar com maior virilidade o membro -, com a submissão dos selvagens adestrados. Ao sentir os primeiros espasmos do orgasmo que lhe subia pela espinha, eriçando sua nuca, ela enfiou as unhas febris na carne úmida do seu homem-cavalo. Um uivo de prazer fora entoado como a nota mais aguda de um soprano. Se houvesse alguma taça de cristal na alcova, certamente não resistiria e explodiria como uma ejaculação quente - não de sêmen, mas do mais viscoso sangue. Os encontros corrosivos, antes ponderados, mais suaves e semanais, tornaram-se diários e cada vez mais intensos, famintos, com direto a dentadas, cera derretida no escroto e anzóis nos mamilos.

Uma noite, no auge da sandice, ela tirou da bolsa um garrote feito com dois bastões de alumínio e um potente fio de náilon. Sem que ele percebesse, ela iniciou lentamente o estrangulamento. Enquanto o fio apenas encostava em sua garganta, ele nada sentira. No início, o regozijo se apresentava em sua mais exuberante manifestação. Mas quanto mais ela apertava o garrote com os braços já cruzados em seu pescoço, mais ele sufocava numa dramática exibição de suplício. Naquele instante ele se desesperou. Sentiu a morte iminente. Já estava quase sendo sumariamente degolado. A asfixia o deixara de olhos arregalados e com a língua pendurada, como quisesse abandonar sua boca. O sangue escorreu-lhe pelo queixo, pois mordera a mesma língua que, vencida entre os dentes pontiagudos, desfalecera. O náilon já lhe atravessara as cordas vocais, tocando, como última melodia, o instrumento de solitária nota. Os espasmos de agonia substituíram os de prazer. O sangue descia quente como a seiva bruta que escorre de um tronco roletado.

Após o derradeiro trepidar de um corpo inconsciente, ela se afastou, limpou as mãos ensanguentadas nas coxas e na vagina - fecundando-se com a morte - manteve o garrote fincado no pescoço do cadáver, apanhou todo o dinheiro em sua carteira, guardou-o na bolsa também respingada de sangue e saiu da alcova com uma absoluta sensação de dever cumprido. Já na rua, em direção ao local em que faz ponto, no botequim, contando o dinheiro, satisfez-se por se sentir muito bem paga. Tinha total consciência que fizera um favor à sua vítima. Ela lhe deu o que ele mais desejava: Morreu em seu próprio gozo. Fora asfixiado pelo prazer.

CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Tramar e Amar.

domingo, 17 de julho de 2011 8 comentários











Os tiros explodiam lá fora, vibrando a vidraça empoeirada. A revolução chegara às ruas com os rebeldes amotinados na marginalidade conspiratória. Era somente na alcova que se tramava o futuro da resistência. Enquanto grupos mais radicais aderiam às armas de fogo, Jôsi e Théo guerreavam com as armas de tinta e das notas musicais. Era somente na escuridão das residências silenciosas que as inquietas lógicas apaixonadas traçavam o futuro da pátria. O risco de grampos telefônicos e de escutas espalhadas por algum agente do governo infiltrado, potencializava o clima paranóico de que quaisquer paredes ouviam muito bem.

O lar já não mais representava segurança, embora o refúgio fosse inevitável. Os manifestos políticos que Jôsi escrevia, assinando com um pseudônimo, foram descobertos, associados à sua autoria. Ela estava jurada de morte nas perversas entrelinhas da lei do seu solo materno. Precisando de abrigo, e recusando a opção do exílio, Théo, um velho amigo e exímio violinista, convidou-a para se esconder em seu modesto apartamento no Catete. Ironicamente, esse bairro carioca remetia aos aspirantes a oficiais militares, representantes do sórdido governo que tanto combatiam - os cadetes do exército. Era só trocar uma letra - o "t" para o "d" - que logo passaria de Catete para Cadete. O bairro do Catete foi a sede do poder Executivo até às vésperas do golpe militar - mais uma ironia. Jôsi prontamente assentiu o convite de Théo - irrecusável na ocasião , mudando-se para seu apartamento só com a roupa do corpo para não levantar suspeitas pela movimentação da mudança.

Théo mantinha uma posição quase apolítica, sem muitas participações nos inflamados debates que aconteciam sempre aos sussurros e às escuras. Ele era um músico em início de carreira, mas já conquistara um público vasto e fiel. Compunha importantes concertos em orquestra de câmara. Temia destruir sua promissora carreira, envolvendo-se com a subversiva esquerda revolucionária. Mas ao ver sua amiga em apuros, não hesitou em chamá-la para seu apartamento, mesmo tendo absoluta consciência de que Jôsi era uma militante de esquerda. Há anos não se viam. Jôsi sabia da existência de Théo pois acompanhava o noticiário. Nos suplementos de arte dos jornais, seu nome era citado com frequência como um violinista renomado, apesar de jovem. Théo sabia que Jôsi era escritora. Já lera alguns de seus romances, mas jamais desconfiara que ela fosse autora daqueles subversivos textos. Impulsionado por um estranho sentimento - estranho, pois nunca manifestara nada por ela -, ele não se fez de rogado e, mantendo as devidas precauções, conseguiu entrar em contato com a moça fugitiva.

Jamais passara pela cabeça de Théo a possibilidade de seu nome ser estampado nas principais manchetes dos jornais, não como músico de sucesso - que já era -, mas como foragido da polícia naqueles tempos de chumbo. Sabia que agora, abrigando uma subversiva, mais cedo ou mais tarde teria seu "crime" descoberto pelo DOI-CODI. O serviço secreto da polícia o perseguiria implacavelmente. Desde que Jôsi chegara, ele não mais dormia direito. Quando conseguia conciliar o sono, acordava apavorado no meio da noite, suando, após sair de um pesadelo em que quebravam-lhe os dedos, torturando-o para confessar o inconfessável. Nunca mais poderia tocar seu instrumento tão adorado por ávidas platéias - pelo som ímpar que só ele conseguia tirar do violino.

No início, Jôsi e Théo quase não se falavam. Apenas trocavam alguns tímidos olhares. Théo havia cedido o seu quarto a ela. Jôsi recusou, pois o quarto era amplo e muito iluminado, e ela não poderia dar esse luxo de exposição, entendido como um suicídio programado. Ela preferiu se instalar num quartinho de empregada humilde que ficava bastante afastado, nos fundos do apartamento. Lá ela passava horas escrevendo, quase o dia inteiro. Embora dividissem a casa, às vezes Théo ficava um dia inteiro sem ver Jôsi, como se ela não estivesse presente.

Angustiado, Théo ameaçou não sair mais de casa, mas Jôsi, sussurrando, logo interviu, advertindo-o que tal procedimento iria levantar suspeitas e que ele deveria se esforçar ao máximo para levar uma vida normal. Desconfiado, ele seguiu seus conselhos. Continuou participando dos concertos, ia ao mercado fazer compras e ensaiava diariamente em seu quarto. Para que não estranhassem o excesso de comida, eles combinaram de racionar os alimentos por um tempo para que Théo não comprasse em dobro - o que os entregaria, denunciando que ele hospedara alguém de maneira duvidosa.

Os dias foram passando e os dois se aproximando. Théo já acompanhava Jôsi em seus escritos no apertado quartinho de empregada. Ela pedia sua opinião e ele se enveredava gradativamente na tão temida política de esquerda. Jôsi, na calada da noite, também ia ao quarto de Théo para visitá-lo. Queria ouvi-lo tocando seu violino. Quando escrevia, solitária, no quartinho, e ouvia Théo ensaiar do seu quarto, ela imediatamente parava, recostava no espaldar da cadeira e se deixava embalar pela divina melodia. Mas Jôsi não podia entrar no quarto de Théo durante o dia por causa da iluminação e à noite, ouvi-lo tocar, também levantaria suspeitas - afinal, ele nunca ensaiara à noite. As visitas ficaram cada vez mais frequentes.

Falando baixinho, os dois passaram das conspirações de uma esquerda subversiva, às subversões do desejo. A paixão os arrebatava. Não mais a paixão pelo violino de Théo. Não mais a paixão pelo discurso político de Jôsi. Ambos não foram descobertos pela polícia, mas descobriram o amor. Numa noite, deitaram-se juntos. Tiveram uma inesquecível conspiração sensual, consensual, lasciva. Assim como a subversão política, a lascívia também era condenada pela censura, mas aquela cumplicidade erótica, nos sussurros da alcova, era apenas testemunhada pelas paredes surdas do quartinho de empregada. Os ouvidos pertenciam ao casal que tocava seus corpos em êxtase debaixo dos lençóis puídos. Théo tocava o corpo de Jôsi como um enfático dedilhar das cordas de seu violino. Era música! Jôsi apalpava Théo como se inscrevesse a linguagem única de uma excitação intransmissível.

Na manhã seguinte, enquanto do quarto iluminado de Théo ouviam-se os estampidos dos revólveres ordinários, do quartinho de empregada, na penumbra, nada de fora se ouvia. Jôsi e Théo só eram sensíveis aos sussurros do prazer. Naquele dia, ambos não saíram da cama. Eles haviam sido protagonistas da revolução: A revolução apaixonada do encontro ácido de seus corpos. Eles fizeram história. Tornaram-se gente. Não pelas armas, mas pelo sexo.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Cafeteria Hospitalar.

sábado, 9 de julho de 2011 9 comentários













Numa sexta-feira à tarde, voltando do trabalho, procurei uma cafeteria na qual pudesse relaxar. Por toda a extensão da rua em que passava - repleta de casas velhas e abandonadas, com um denso matagal decorando-as, nem sinal de um cantinho para saborear um bom café. Cheguei a pensar naquelas lojas que oferecem o precioso líquido negro como cortesia em encardidas garrafas térmicas, servindo o homem que espera "pacientemente" as compras da mulher. Mas também não havia por perto nenhuma dessas lojinhas. Caminhei, caminhei caminhei... E, de repente, senti o aroma de um cafezinho fresco, que acabara de ser coado.

Olhei para um lado... Para o outro... Cadê? Não tinha cafeteria. Concluí que o cheiro vinha da casa de alguém, pois já estava num ponto em que os espigões de milionárias construtoras cercavam-me, bordando a rua com um traçado irregular. Intrigado pela origem daquela invisível e hipnótica fumacinha, andei mais um pouco. Parei em frente a um hospital especializado em cardiopatias. Dois grandes cilindros de oxigênio bombeavam o gás por não menores tubulações, perdendo-se no interior do hospital. A porta automática se abriu. Do tapete vermelho estendido para o exterior como uma careta, uma elegante senhora deslizou graciosamente ao estilo das andorinhas. Observei atentamente. A fachada parecia mais um sedutor portal de um shopping center convidando os consumidores a esvaziarem seus ricos bolsinhos.

Já quase retomando meu caminho, o cheiro do café voltou a me invadir, acariciando meu desejoso olfato. Dei um passo para trás e novamente fiquei perante o sofisticado nosocômio. Bem... Uma estrutura arquitetônica um pouco sem noção e realmente cômica. Não sem estranheza e espanto, tive que reconhecer que o fascinante aroma vinha do hospital, sem sombra de dúvidas. Quando a porta automática se abriu, empaquei no meio. Fiquei lá estatelado ao ver a decoração estonteante da cafeteria. Um garçom, notando menos a baba que escorria no canto da minha boca, do que demonstrando preocupação em desobstruir a passagem inconvenientemente entupida pelo meu corpo petrificado, sugeriu que eu me sentasse a uma mesa. O susto que se estampava em minha cara deve ter aguçado a sensibilidade dos abnegados enfermeiros de plantão. Mas, pasmem! Mão haviam enfermeiros de plantão. Só garçons adequadamente arrumados para um digna festa de gala.

Por alguns segundos eu quis recuar e sair correndo dali. Mas continuei lá. Acabei de entrar e segui a sugestão de me sentar. Aquilo era tudo, menos um hospital. Fato! Se os funcionários se comportassem como se estivessem num hospital, certamente teriam me jogado numa maca e me levado para o CTI, visto a minha cara de babaca, não acreditando no que estava diante dos meus olhos. Percebi que as evidências também enganam. Ainda sem confiar nos meus sentidos, dei uma olhadinha ao meu redor. A movimentação dos clientes e a maneira que os garçons os serviam, eram as mesmas de qualquer lanchonete que se preze - sem contar a pitada de requinte e elegância que a maioria das cafeterias não tem. Não poderia negar. Aquele lugar, como um hospital, era uma excelente cafeteria, obviamente merecedora de ser incluída no circuito gastronômico da cidade. Mas acredito que o tabu por se localizar num ambiente hospitalar não permitiria que figurasse em nenhum catálogo indicativo das melhores opções gourmet.

Rompi a barreira do alerta geral que foi ligado em mim - pois estava atento por causa da hipótese dos cafés estarem envenenados. Afinal, eles poderiam ter feito algum acordo ou pacto com o diretor do hospital, envenenando suas bebidas para causar ataques cardíacos, aumentando o faturamento dos seus comércios. Mas descartei essa possibilidade, pois o preço que o proprietário já estaria pagando para manter aquele espaço - aluguel gentilmente cedido pelo hospital - deveria ser tão exorbitante que poderia arrancar o olho do dono do café. Aí, não seria ali que iriam tratar de um caolho. Acho que a segunda hipótese era a mais economicamente viável.

Não totalmente relaxado, mas já tendo a desconfiança vencida, pedi uma xícara de café carioca. Não estava muito disposto. A concentração do expresso me tombaria facilmente. Por isso pedi com um pouquinho mais de água. Fui servido numa bandejinha com o açúcar mascavo como mais uma opção além do adoçante e do açúcar refinado. Não adocei com o mascavo porque o sabor se alteraria de tal maneira que ninguém distinguiria o café do caldo de cana. Comi o biscoitinho amanteigado que veio de cortesia, molhando-o antes no café. Recostei na confortável poltrona hospitalar da cafeteria e comecei a observar as pessoas que, como eu, também se deliciavam com os quitutes e aperitivos.

Sei que na emergência do hospital, muitos pacientes e seus familiares dão entrada no mais absoluto desespero. Muitos são internados e submetidos a cirurgias. A maioria dos familiares - os que não torcem para que o parente abastado morra rapidamente, tendo acesso às heranças - sofrem mais do que os enfermos. Alguns pessimistas tem convicção que os hospitais são a porta de entrada dos cemitérios. Eu que não sou adepto desse ceticismo, prefiro entender que os hospitais são os portadores das nem sempre tão disputadas chaves de São Pedro. Mas paraíso mesmo era aquela cafeteria. Impossível que alguém morresse ali.

Esse hospital tinha entrada por duas ruas paralelas. Suas instalações atravessavam o quarteirão. Do lado da emergência, a rua era calma e florida, como de uma cidadezinha do interior. Do lado oposto, no qual se encontrava a cafeteria, a rua era agitada e barulhenta. Talvez a direção do hospital acreditasse que passar pela rua silenciosa auxiliaria, como numa terapia, aos doentes que chegassem à emergência em fase terminal. Ou talvez a rua vazia ajudasse a entrada e saída das viaturas socorristas. As ambulâncias não passavam pela rua de acesso à cafeteria. Acho que se invertessem as posições, colocando a cafeteria no lugar da emergência, certamente quando os pacientes moribundos vissem a obra de arte e o frescor de vitalidade do elegante café, se recuperariam instantaneamente - assim como o macarrão japonês miojo. Se alguém tivesse a ousadia de tentar morrer ali, o garçom a curaria prontamente.

Todos que usufruíam do lugar estavam divinamente ornamentados. Gente finíssima. A conversa girava sobre todos os assuntos, menos sobre doença e morte. A maioria das discussões abordava os temas prediletos da futilidade, mas ainda assim negavam qualquer possibilidade de tocar as farpas das doenças e das mortes. Pela primeira vez tive a experiência de estar num hospital em que a morte não existia, como as sujeirinhas faceiramente varridas para debaixo do tapete persa. Uma jovem rodeada por familiares que pareciam visitá-la em sua juventude e vigor, ao invés de visitarem algum paciente à míngua, do alto de sua beleza e formosura - com seus finíssimos saltinhos - contava para uma platéia embasbacada, a glamorosa história de seu passeio pela Europa.

Ela chegou a falar que tinha acabado de fazer uma visitinha à tia hospitalizada - mas isso era o de menos. O que importava é que estava prestes a se casar e os preparativos chiquérrimos do casamento não poderiam falhar de nenhuma maneira. Ela tirou da bolsa um embrulhinho que segundo ela continha uns docinhos finos. Perguntaram-na sobre o nome dos doces. Ela disparou com um fluente francês parisiense que se tratava de "petit-gateau", e que não deixaria que eles experimentassem, que deveriam esperar até seu casamento.

Encantado, tendo já esvaziado quase completamente minha xicarazinha de porcelana - deixando apenas um restinho no fundo, como manda a fina etiqueta -, eu me retirei com a doce sensação que em vez de ter saído de um hospital, acabara de me despedir dos elegantes convidados de uma festa da alta sociedade. Talvez eu devesse ter adoçado meu café com o açúcar mascavo. Assim poderia ter eliminado qualquer resíduo do seu característico amargo.


CRÔNICA ESCRITA por ALEX AZEVEDO DIAS.

Sadness

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Não sei viver a vida presente
Prefiro a minha vida do passado.
Passei por tudo, tive um ou outro sonho realizado
Mas tudo o que eu queria, era você ao meu lado.

Foi tão poder amá-lo assim, demasiadamente
Tudo tão belo, os dias tão risonhos
Eu só queria  poder vê-lo crescer
Tornar-se independente.

Nem notei que sem você ao meu lado
Tão rapidamente ia envelhecendo
E agora, descubro, de repente, que é
Por sua falta que estou morrendo.

Estou fraca, estou sentindo
Dia a dia me acabando
Nem só o que  pede pão é mendigo
Eu peço, em vão, tê-lo ao meu lado, sorrindo.

Sempre tão sofrida, triste de fazer dó
Quando cabisbaixa sigo pela rua
Só o que consigo pensar é:
"Que vida ingrata, quão triste foi a sorte sua!"

Mas no vaivém desta vida
Eu não venho, eu não vou
Eu não sou nada, não existo
Fui alguém que se acabou.

Sinto chegar a hora da minha partida
Quero, ao menos, poder dar-lhe o meu adeus
Venha e traga-me em sua vinda,
Esses seus lindos olhos, que são meus!




Texto:Neusa Fiesta
Imagem: aiki-ame

Apenas Um Sonho.

quinta-feira, 7 de julho de 2011 6 comentários












Todos o aguardavam ansiosos. O grande gênio da psicanálise estaria ali para nos doar pitadas de sua quase infinita sabedoria. O auditório estava lotado. Alguns em silêncio, já concentrados. Outros, como eu, agitados e falando baixinho para seus vizinhos de cadeira, sobre a demora do palestrante. Seu nome foi anunciado. Surpresos pela notícia, não se contentando pela espera, os convidados se viraram em direção ao portão de entrada. Como chibata estalando no ar em pleno açoite, Lacan atravessa a soleira da porta e dispara até a plataforma na qual se acomodará.

Os que estavam em silêncio agora cochicham. Os que tagarelavam ansiosos, agora redobraram a atenção numa quietude fascinada. O símbolo máximo, padrasto da psicanálise - pois alguns reivindicam a paternidade da invenção freudiana ao mestre francês - inicia um discurso triunfante. Boquiabertos com tais eloquentes palavras, siderados por sua divina figura, a platéia se reduz a testemunhas cegas, surdas e mudas, presenciando a onisciência daquele homem sedutor. Sua gravata borboleta quase girava como um catavento em contato com o pomo-de-Adão arrebitado.

Mal notamos o encerramento da palestra e o Lacan já havia se retirado, não aguardando os aplausos entusiasmados. Estávamos congelados em nossas cadeiras. Sofríamos da febre do seu saber - ou sabor, não sei. Quando conseguimos abrir os olhos, após a desintoxicação do venenoso encantamento, deparamo-nos com sua ausência. Apenas um leve odor de desodorante passado ainda se demorava no auditório. Ninguém abandonou seu lugar. Nos entreolhamos atônitos, aguardando que Lacan retornasse ou que um abnegado mestre de cerimônias declarasse o fim evento. Mas não. Deveríamos encarar a dura realidade. Lacan havia ido embora. Sua saída era inegável. Talvez ele tivesse se despedido, mas não ouvíamos o homem, apenas o mito.

O primeiro se levantou, recolheu seu material de anotações e se debandou. Num típico efeito dominó, todos repetiram o gesto e se retiraram. Eu fui um dos últimos a sair. Com os que sobraram, lamentando não terem apertado as mãos do mestre francês, combinamos de montarmos um acampamento na saída da universidade para que tivéssemos a oportunidade de trocarmos algumas palavrinhas - mesmo que apenas o tão sonhado aperto de mão. Pedir autógrafo seria exagerado. Afinal, não se tratava de uma celebridade efêmera, que nasce e morre nos realitys shows. Era Lacan, um pensador. Ele talvez ficasse incomodado com a tietagem.

Uma preciosa informação nos foi bondosamente cedida: Lacan estava conversando com alguns professores na sala do mestrado. Sabíamos que em breve ele passaria por onde iríamos nos instalar. Rapidamente pegamos algumas cadeiras emprestadas e nos deslocamos para o local aonde esperaríamos sua gloriosa passagem de despedida. Como fazia muito frio e a noite já caíra, um dos nossos colegas ficou encarregado de comprar um cobertor com o qual nos abrigássemos dos ventos cortantes. Ele chegou com uns panos robustos que pareciam qualquer coisa, menos cobertores. Eram feitos de tecidos grossos, meio rasgados, barbantes e espumas prensados como se fossem restos colados de alguma lixeira de alfaiates e costureiras. Ele disse que não havia outro e que popularmente se chamava "cobertor peleja", fama que conquistou por enrolar uma parte do corpo e desenrolar a outra - ao tentar cobrir uma parte, descobre-se a outra e vice versa. Sem alternativa, nos contentamos com o que tínhamos. Tudo era tolerável, mesmo a maior precariedade, para cumprimentarmos nosso mestre querido.

Escolhemos o cantinho menos esburacado e úmido para nos aconchegarmos. Tentamos nos posicionar atrás de uma larga pilastra, mas não queríamos que nossa visibilidade fosse prejudicada. Não poderíamos perder nenhum detalhe da movimentação dos transeuntes para que nosso ilustríssimo não escapasse facilmente da contínua vigilância. Então, ficamos expostos ao frio castigante. Nos embrulhamos com os cobertores metidos à besta e ficamos lá, paradinhos, só esperando. Não movíamos nenhum músculo sequer. O tempo passou. Passou. Menos Lacan. Ele não passava. Estranhávamos sua falta. Onde estaria? Não sabíamos. Só sabíamos que ele ainda não havia saído da universidade, senão o veríamos. Mas nada. Nem sinal dele.

Nesse meio tempo, uma jovem de feições suaves e desembaraçadas, veio ao meu encontro. Num gesto espontâneo, como se me conhecesse, agachou-se diante de mim, deu um sorriso matreiro e beliscou meu queixo com o polegar e o dedo indicador em formato de pinça. Fiquei intrigado com aquela reação. Quem era ela? Não fazia a menor ideia. Olhei para os meus colegas para receber um sinal de cumplicidade com minha inquietação. Mas eles pareciam que dormiam. Observei-os novamente. Não dormiam. Seus olhos estavam abertos, mas eram olhos de peixes mortos. Passei a mão repetidas vezes para cima e para baixo em frente às suas vistas. Nenhuma reação. Eles não tinham olhos para mais nada além da expectativa da passagem do grande ídolo. Mas o mártir Lacan não aparecia. Desejei ardentemente seguir aquela misteriosa mulher. Acho que era o que ela queria - que eu a seguisse. Estava interessada em mim. Ela me queria por perto. Olhei mais uma vez para meus colegas. Nada. Estava envergonhado. Não queria que eles soubessem que eu desviava minha atenção para outros fins - menos sublimes do que apertar a mão do mestre francês.

Titubeei. Titubeei mais um pouco. Mais ainda... E... Fui. Tentei me comunicar, explicar que não estava abandonando-os, que eu retornaria para os acompanhar naquela espera bem-aventurada, cheia de boas intenções. Eles não me ouviam, ou simplesmente meneavam as cabeças afirmativamente, revelando menos assentimento do que total ignorância. Eles me ignoravam. Queria que eles soubessem que eu desejava mais do que ninguém me encontrar com Lacan. Não suportava a ideia de ser um filho desgarrado. Não suportava ser tido como um desinteressado. Precisava demonstrar interesses nobres e não me deixar fisgar por futilidades. Mas espere um pouco! Qual a fronteira da nobreza com a futilidade? Talvez seus valores estejam invertidos. Esperar Lacan enrolado em cobertores pestilentos, ao relento, à porta da universidade, com a gélida noite cada vez mais avançada, era um gesto de nobreza? Será? Encontrar-me com a bela moça, aquecer-me em seus braços, deitar-me em seus calorosos seios, era fútil? Será?

Levantei-me sem olhar para trás. Só ouvi uns murmúrios esparsos - vindos talvez dos mortos-vivos que permaneciam enrolados em suas cadeiras cativas. Procurei pela bela mulher que me esperava. Eu a encontrei no alto de uma escadaria, após cruzar a longa via universitária, em sentido oposto, pela qual as pessoas ganhavam a rua. Eu a cumprimentei formalmente. Ela rompeu o meu embaraço, amassou a formalidade, abraçou-me e me beijou longamente. Ficamos assim por mais algum tempo. Abraçados, descemos as escadas. Seguimos o fluxo das pessoas que saíam da universidade. Já quase na rua, ainda abraçados, instintivamente eu olhei para o lado e notei que passávamos em frente aos sôfregos homens acampados. Eles mantinham a mesma posição. Continuavam sem mover nenhum músculo. Tive medo que eles me endereçassem um olhar de reprovação. Mas isso quase já não mais me interessava. Eles se tornaram minha platéia.

Eles me viam sair abraçado com uma mulher ao invés do adorado Lacan. Aqueles homens sujos, maltrapilhos, já quase fedorentos, sentindo frio, enrolados em cobertores mal-acabados. Eles todos lá, reunidos, vendo-me passar. Eram testemunhas da noite de sexo que me aguardava. Eles não sabiam, mas Lacan já havia morrido. Esperavam um homem morto. No ano seguinte à sua morte, eu nasci.

CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Começa o começo...

segunda-feira, 4 de julho de 2011 3 comentários
Quando eu era criança e pegava uma tangerina para descascar, corria para meu pai e pedia: - "pai, começa o começo!". O que eu queria era que ele fizesse o primeiro rasgo na casca, o mais difícil e resistente para as minhas pequenas mãos.
Depois, sorridente, ele sempre acabava descascando toda a fruta para mim. Mas, outras vezes, eu mesmo tirava o restante da casca a partir daquele primeiro rasgo providencial que ele havia feito.




















Meu pai faleceu há muito tempo (e há anos, muitos, aliás) não sou mais criança. Mesmo assim, sinto grande desejo de tê-lo ainda ao meu lado para, pelo menos, "começar o começo" de tantas cascas duras que encontro pelo caminho. Hoje, minhas "tangerinas" são outras. Preciso "descascar" as dificuldades do trabalho, os obstáculos dos relacionamentos com amigos, os problemas no núcleo familiar, o esforço diário que é a construção do casamento, os retoques e pinceladas de sabedoria na imensa arte de viabilizar filhos realizados e felizes, ou então, o enfrentamento sempre tão difícil de doenças, perdas, traumas, separações, mortes, ificuldades financeiras e, até mesmo, as dúvidas e conflitos que nos afligem diante de decisões e desafios.












Em certas ocasiões, minhas tangerinas transformam-se em enormes abacaxis...

Lembro-me, então, que a segurança de ser atendido pelo papai quando lhe pedia para "começar o começo" era o que me dava a certeza que conseguiria chegar até ao último pedacinho da casca e saborear a fruta. O carinho e a atenção que eu recebia do meu pai me levaram a pedir ajuda a Deus, meu Pai do Céu, que nunca morre e sempre está ao meu lado. Meu pai terreno me ensinou que Deus, o Pai do Céu, é eterno e que Seu amor é a garantia das nossas vitórias.

Quando a vida parecer muito grossa e difícil, como a casca de uma tangerina para as mãos frágeis de uma criança, lembre-se de pedir a Deus:


Não sei que tipo de dificuldade eu e você encontraremos pela frente. Sei apenas que vou me garantir no Amor Eterno de Deus para pedir, sempre que for preciso: "Pai, começa o começo!".

Reflita....

Meu carinho,

JB PIRES

Estranhas Criaturas.

domingo, 3 de julho de 2011 9 comentários












Com o ar sufocado pelas estridentes buzinas, numa paisagem composta por canos de descargas e óleo diesel, o semáforo abriu para os pedestres sem nem ao menos testemunhar os arrepios mornos da estação. Eu atravessei o asfalto raspado pela borracha queimada, já tendo em vista um restaurante no qual possivelmente almoçaria. Por causa do tumulto e das longas filas para se servir no bufê depois do meio-dia, consegui antecipar meus horários já quase estrangulados e me dirigi ao restaurante pouco depois das onze horas. Optei por um estabelecimento amplo e pouco frequentado, em troca dos ambientes espremidos e asfixiantes da maioria. Mas me surpreendi ao chegar lá e encontrá-lo completamente vazio. Talvez por estar muito cedo mesmo ou pela simples razão de que tal lugar não fosse opção de ninguém - além de mim, é claro.

O preço era moderado, condizendo com um cardápio limitado, típico de fast-foods, que só oferecem pão e carne bovina processada. Então, para variar, já que faltava qualidade na refeição, pedi um sanduíche para não se assemelhar a lanches rápidos. Enquanto esperava que meu pedido chegasse, constatei que não mais ficaria sozinho. Duas pessoas adentraram o recinto, cabisbaixas, mas com olhares reveladores de que a fome já batia à porta sem prévio aviso. Eram dois homens, um adolescente e o outro, um idoso. O adolescente era bastante magro, despojado, vestido de camisa preta, bermuda jeans rasgada e tênis esfolado; cabelos compridos - mas não tão longos - e espichados na testa para simular uma franja. Já o idoso estava mais social, porém arrojado, com blusa colorida de gola e botão, enfiada por dentro de uma calça brim verde-musgo, além de usar sapatos polidos. Pela circunstância, arrisquei o palpite que fossem avô e neto.

Até aí nada de mais, a não ser pelo fato que desde quando cruzaram o umbral da entrada, embora estivessem lado a lado, pareciam absolutamente dois estranhos que chegaram juntos, porém sem se conhecerem. Cada um com a cabeça virada para o lado oposto ao outro. E não pareciam que estavam de birra por possível desentendimento. Entraram lépidos e fagueiros, com o cenho descontraído, à vontade e em paz de espírito. Cada um habitava seu universo particular sem que o outro pudesse - ou mesmo quisesse - compartilhar dele. Mergulhados em seus próprios pensamentos e interesses visuais, ainda assim ambos permaneciam lado a lado - simetricamente como as atletas olímpicas de nado sincronizado.

Ligeiramente distraído no instante em que o garçom me servia um caprichado pão com carne de boi processada na bandeja, parecendo uma cápsula espacial - inclusive com bandeirolas ornamentando o sofisticado prato - perdi a cerimônia do pedido de um lanche ou almoço. Será que para pedir ao garçom, falaram? Bem... Se eles falaram, eu não os ouvi. Não descarto a hipótese de que tenham gesticulado ou se comunicado por algum sistema de códigos especialmente desenvolvido para a ocasião.

Ao dar a primeira mordida, interrompi a gula pela visão pitoresca dos supostos avô e neto sentados à mesa que um garçom lhes indicou. Ambos se ajeitaram em seus respectivos assentos e mantiveram a mesma posição estapafúrdia - cada um com a cabeça virada para um canto e assoviando melodias ensimesmadas. Um magnetismo sobrenatural impelia-os à união e ao mesmo tempo, repelia-os para a condição de abjetos. Será que estavam separados pela proximidade? Ou juntos pela separação? Uma sórdida incógnita!

Enquanto o adolescente sustentava uma posição aparvalhada, como se estivesse abduzido num estrato não-gravitacional, o idoso articulava os lábios, cantarolando algum inaudível refrão. Rompendo convenções de cronologia, abriu o zíper de sua pochete de couro sintético - última moda no país dos antiquados - e retirou um fone de ouvido. Conectou o fio em seu aparelho celular, encaixou os fones nos ouvidos, realizando movimentos circulares para garantir um contato seguro - como quem usa grampo com algodão na ponta para se livrar do cerume indesejado no canal auditivo -, deixou os braços caírem sobre as pernas, ajeitou-se na cadeira e se entregou ao seu “egoísta” para ser levado pelo som que só existia dentro de sua cabeça.

O garçom levou à mesa dos dois apenas um prato. Ele se inclinou com a bandeja e serviu o adolescente. O idoso não havia pedido nada e estava bancando o lanche do suposto neto. Com a comida à sua frente, o garoto fixamente a analisa e resiste um pouco para iniciar o ritual da deglutição. O idoso retira os fones de ouvido e os guarda na pochete. Levanta-se - sem soltar um pio sequer - e se dirige ao banheiro que se localiza no extremo oposto de sua mesa. Na ausência do outro, o adolescente começa a comer com voracidade, sem cerimônias.

Inúmeras fantasias, singrando os mares de minha mente inquieta, impuseram deduções escabrosas: O ancião na verdade se tratava de um perverso sequestrador que tomou o jovem como seu refém e agora o torturava, deixando-o faminto? Mas por que o levara para comer então?

O rapaz engolia a comida, quase não a mastigava. Estava enfarado. Bem... O que fica incoerente nesses argumentos - confesso que absurdos - é que afinal de contas, o idoso levou o adolescente ao restaurante, o que já denota a intenção de alimentá-lo. Ou será que o garoto era um daqueles rebeldes sem causa que fazia greve de fome para ganhar o vídeo-game - último modelo caríssimo - que tanto desejava? Então ele aproveitou a saída do avô para devorar o lanche, para depois, com o seu regresso, inventar uma desculpa como a que meninos de rua esfomeados entraram e exigiram - com um canivete riscando sua garganta - que ele entregasse toda a comida.

Quando o idoso voltou ao seu assento, o adolescente parou imediatamente de comer - mesmo restando apenas mais algumas migalhas no prato. Mas o idoso nem se dignou a olhar o prato do rapaz. Ele simplesmente se sentou - ignorando-o por completo - e depositou seu celular sobre a mesa. De repente, dois sons de toques distintos de celular tocaram. O adolescente, impassível, leva a mão ao bolso da bermuda e retira seu celular. Simultaneamente o idoso também pega o seu. Por coincidência, ambos os aparelhos tocaram ao mesmo tempo, sem cessar. O idoso e o adolescente recebiam misteriosas chamadas. Será que eram do além? Talvez eles fossem cadáveres ambulantes que se encontraram num dia frio para ressuscitarem os demais mortos de suas tumbas.

Com o pescoço virado para o lado oposto um do outro, atenderam suas ligações como se estivessem sozinhos à mesa. Depois de um tempo, ainda falando aos celulares, ajeitaram-se em suas cadeiras de modo a se emparelharem de costas. Enquanto cada um discutia os assuntos mais díspares, ignorando verbalmente a presença do outro, encostaram reciprocamente suas costas. De alguma forma eles estavam intimamente conectados. Seus corpos não denegavam essa ligação íntima. Será que realmente se trata do óbvio? São avô e neto? O choque de gerações não permitia um contato verbal, mas seus corpos se reconheciam, respeitavam-se e dialogavam sutilmente.

A conversa ao celular acabou. Ambos recolheram seus aparelhos. Ficaram por mais um tempo em absoluto silêncio, virados para frente, exibindo semblantes alienados. Finalmente o idoso se vira para o adolescente e pergunta se o lanche estava bom. Ele responde algo que eu não pude ouvir. Nesse instante o idoso coloca a mão no ombro do adolescente, recebendo em troca um cafuné. O idoso diz que eles precisam se apressar para os últimos preparativos da festa surpresa da avó. Eles foram ao caixa pagar o lanche e saíram rindo, comentando a respeito de como a avó ficaria alegre ao descobrir a surpresa de aniversário.

Bem... Acho que o enigma foi resolvido. Eram avô e neto num raro momento de silêncio cúmplice. Tramavam dar um belo susto de aniversário na avó. Talvez não pudessem falar com o risco de serem vistos e ouvidos por dedos duros. E se eu fosse um desses, esperando pacientemente saber a verdade para ir correndo estragar a surpresa da tal avó? Afinal, as paredes tem ouvidos!

Já com o meu sanduíche mais do que gelado, encerro estas linhas. Talvez eu peça outro sanduíche... Não, perdi a fome. Farei um embrulho e levarei o pedaço que restou para casa. Assim, após esquentá-lo no microondas, poderei saboreá-lo novamente para reviver toda essa história filtrada pelos dedos da ficção.

CRÔNICA ESCRITA por ALEX AZEVEDO DIAS.