No Banco da Praça. (O Fim do Mundo).

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011








Rafael se sentou. Um odor nauseante invadia-lhe as grisalhas vibrissas de sua cavidade nasal. Uma ameaça de taquicardia o preocupava. Precisava descansar. Não mais prosseguiria enquanto todos aqueles sintomas não o deixassem.

Os correios cerrariam suas portas em breve. Não podia se atrasar. Estava com medo de ser vítima de uma parada cardíaca. Massageou o peito sufocado. Espichou os braços, massageando-os, suspirou fundo, contraiu o cenho e coçou a cabeça já quase calva.

Conferiu as horas na autêntica réplica de um Rolex que exibia no pulso esquerdo. O relógio marcava 16h12min. Rafael se deu conta de que o tempo não lhe concederia maiores regalias. Aquele dia era o prazo final para depositar a carta nos correios. No dia seguinte, um sábado, 22 de dezembro, já estaria viajando para cidade distante.

Tentou se levantar. Não conseguiu. Tentou novamente... Nada. Parecia que seu corpo estava colado ao banco em que sentara. Tentou tomar impulso, comprimindo-se para baixo, e, de repente, arrancou seu corpo para cima. Sem sucesso. Não compreendia o infortúnio para o qual se predestinara. Tentou, uma última vez, esquivar-se daquele assento que insistia em sugar seu traseiro. Mas continuou grudado, sem a menor possibilidade de êxito.

Deu mais uma olhadela para o relógio. Antes de ver as horas, fora arrebatado por estranho mal-estar que lhe deixou cego por alguns instantes. Ao recuperar a visão - ao menos aparentemente -, não mais pôde enxergar os ponteiros em sua maquininha circular. A realidade se alterou de tal maneira, que o mundo onírico passou a predominar. Seres mágicos se cumprimentavam calmamente diante dos seus incrédulos olhos.

Suas vistas ainda estavam turvas e enevoadas. Esfregou-as obstinadamente. E, de súbito, tudo voltou à habitual normalidade. As pessoas circulavam de um lado e de outro, apressadas, como em qualquer sexta-feira à tarde. Rafael achou que o normal também lhe atingira. Mas não. Após nova tentativa fracassada, assustado, quis se resignar sobre aquele tragicômico destino: Permanecer preso ao banco da pracinha.

Conseguiu relaxar um pouco, até se perceber sozinho na praça. Quase na certeza de ser alvo de delírios, mesmo não sendo usuário de tóxicos nem de substâncias lícitas, apalpou novamente o coração e inclinou a cabeça para trás. Foi aí que um par de mãos aveludadas deslizou pelo seu couro cabeludo, o que lhe arrepiou a espinha, embora evitasse de mover qualquer músculo. Um bafo ora quente ora gelado arranhou a nuca de Rafael. Sentiu aqueles lábios carnudos e frios ao pé do ouvido. Tremeu como vara verde. Foi aí que a voz trêmula e gutural anunciou: - São 16h15min, você tem uma hora.

Abalado, Rafael indagou sobre lhe sobrar uma hora, à voz. - Uma hora, tenho para quê? - Perguntou. A voz então, enfiando os dedos, agora ásperos, ainda mais intensamente em seus cabelos, retrucou: - De vida. Uma hora de vida. Rafael estancou a respiração, atônito, arregalou os olhos e ficou paralisado. A voz, então, para consolá-lo, disse para que não se afligisse com antecedência, pois toda a vida terráquea seria solidária à sua partida. O fim não era só dele, mas sim do mundo. Rafael resfolegou, perdeu o semblante aparvalhado, descontraiu o rosto, exercitando aerobicamente o contorno da boca, e recostou ainda mais a cabeça no encosto do banco.

Pensou que seu nome, Rafael, não fora dado à toa por seus pais. Sabia que era um missionário, desde o batismo, pois quem recebe nome de anjo, em seu imaginário, está incumbido da salvação. Fechou os olhos, ajeitou a cabeça, e recebendo as massagens contínuas daquelas mãos invisíveis, porém agora macias e sedosas, esperou. Antes, só para verificar, por desencargo de consciência, tentou se levantar mais uma vez do banco. Conseguiu! Mas pensou melhor... Resolveu voltar e esperar. A massagem era tão aconchegante que adormeceu. Ficou lá, dormindo... No sonho, entregue a um sono pesado, vestia uma capa vermelha e salvava o mundo. Continuou gozando de sua façanha por uma hora... Aí... Bem... Já se sabe!



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

1 comentários:

{ Evanir } at: 7 de janeiro de 2012 16:54 disse...

Que a fé e a esperança anda de mãos dadas, bem juntinho de você.
Esta esperança é nossa esperança. É com esta fé em Deus que
estou para 2012.
É com esta fé que nós seremos capazes de transformar esse mundo se cada um de nos
fizermos nossa parte.
E a esperança não ilude, porque o amor de
Deus foi derramado sobre todos nos.
Esta luta do filho de Deus não anda de mãos dadas com renúncias e tristezas,
e sim de esperança num amanhã mais feliz.
Um feliz final de semana.
O primeiro de 2012.
Muita paz muito amor para você.
Beijos no coração.
Evanir..

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