Beatitude.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O manto negro e felpudo dos deuses já cobria o céu. O véu da noite - esse exuberante disfarce - diluía a sensualidade na inocência. De tecido puído, sem um digno alfaiate para remendá-lo, os inúmeros furinhos - faróis oculares - iludem desavisados astrônomos. A luxúria se esconde na moral das mais nobres intenções. Logo, a vendada nudez do colorido - enegrecida pelas fendas secretas em que as estrelas espiam - cederá lugar ao espreguiçar dos primeiros raios de ressaca de um sol madrugado.

De luz morna pelos cílios enluarados, a calada manhã alçou voo nas espessas sobrancelhas da aurora. Com passos brejeiros, o dia não tem pressa de chegar. Pisca o olho de mansinho e desliza com graciosas sapatilhas de bailarina. Ao se ajeitar na silhueta sensual de perfumadas almofadas de cetim, a dama da manhã solta seu rechonchudo novelo de lã que, flanando, trança algodões de chuva.

Debruçada no tórax do amante, fagulhas introspectivas bordam as coxas úmidas. Secreções turvas em desatados ninhos gotejam dos largos poros e estreitas ranhuras. Superfícies crespas e rugosas, gérmen desnutrido por trás de convulsivas nucas. O fluxo corporal se afina pela correnteza do rio em chamas.

Já quase adormecido sobre os fartos seios - suavemente arredondados e esguios -, com os toques sedentos e famintos aliviando a secura dos lábios mal-amados, na concavidade sensual dos seios sedosos e ferinos, Hélio submerge na mata nativa e virginal. Ele se enrosca em seu pescoço como serpente contorcendo sua vítima, mas a fatalidade só se afoga plenamente em pequenas mortes anunciadas pelo espasmo anônimo. Colchas descosturadas em retalhos esquecidos. Desejos amassados por siderados grãos de areia. Ela se agasalha na densa pelugem de laminado brilho negro. Ele se revira, dobra-se pelo avesso e se sufoca no vale caudaloso das nádegas de Suzane. Lombadas macias lanhadas pela aspereza da barba por fazer. Ao toque horizontal da palma da mão, deslizando pela depressão suave das calotas aveludadas - reentrância que resguarda o veio do prazer -, a pele se granula pela violenta sensibilidade.

Enrijecida pelo gozo corrosivo, gemidos tônicos reverberam na acústica das narinas dilatadas por vaporosos suores. Grutas flamejantes. Grito surdo ecoando no calibre tênue das vísceras lambuzadas no pântano movediço. Espaços sucessivos como o tempo de engrenagem interrompida. Tempos simultâneos das batidas cardíacas. Amores subterrâneos, sem sacramento - pano de chão. Trapos empilhados, pratos quebrados, devassos se dão.

Hélio ouvia os sussurros da amada pela língua mordiscada por peçonhentas cascavéis. O som do chocalho, advertindo sobre os perigos lodaçais da embriaguez, vibrava nas carnes ardidas. Suzane tremula como bandeira no mastro de corsários destemidos e carniceiros. As fraturas expostas do orgasmo reordenam o universo num doce desequilíbrio e gotejam lágrimas de prazer nas inchadas brochuras do criado-mudo.

Seus corpos pasteurizados doam ao leito dos rios viscosa seiva na qual dourados e namorados, enlaçados pelas barbatanas - esses férteis nadadores - se lambuzam até chafurdarem nas fugidias salivas das bocas entreabertas. Nos semblantes contraídos, escamas e couraças borbulhando paixão viram presas fáceis no rasgão de flechas famintas.

Frágeis jardineiras de terra fofa regadas por suores e secretos líquidos do sexo, pulsando no ritmo de desordeiros redemoinhos. Nó cego de braços e pernas. Exaustos, Suzane e Hélio se entregam às profundas raízes do colchão molhado. Ofegantes, entreolham-se. As palavras lhe faltam. A goma de sílabas desbotadas escorre pelo sanguíneo fluxo de lantejoulas e paetês cutâneos. Humores fátuos congelados na linguagem orgânica. Flagelos exasperados de cicatrizes que bordejam o infinito.

Ainda espremida pelo último suspiro dos espasmos, Suzane, virando-se para o lado, contorce-se na posição fetal. Já Hélio, de abdômen estufado como se digerisse o vasto jantar, espalha-se na cama de barriga para cima. Esticou o braço, sem olhar, para o criado-mudo, em busca de sua carteira de cigarros para sorver os resíduos decadentes do orgasmo, mas não a encontrou. Por causa dos músculos que se demoravam numa tensa transpiração, derrubou as brochuras que assistiam em silêncio a dramaturgia corporal, deixando as marcas de suor - não sabia se as de Suzane ou as suas - nas capas amarrotadas.

Suzane se retirou do êxtase quando uma leve coceira subiu de fininho do púbis, contornando a suave curva da cintura e se depositando em suas axilas encharcadas de libido. Ela levou a mão à virilha e pinçou com as pontas dos dedos alguns pelos molhados que do corpo de seu amante, agora lhe pertenciam. Pegou uma toalha que estava embolada embaixo de sua cabeça, servindo de travesseiro, enxugou o corpo de Hélio, priorizando o órgão já detumescido que antes fora completamente seu. Mas num ímpeto irresistível, enquanto sentia suas próprias pulsações refletidas no corpo do amado, Suzane pulou sobre Hélio, esfregando seus glúteos túrgidos em suas descontraídas coxas. Comprimindo-se em seu tórax e acariciando seus ombros úmidos pelo suor da moça, Suzane abençoou o tronco de Hélio com a água santa de seu sexo e contemplou os lábios masculinos com o biquinho em riste dos incandescentes seios de fêmea.

Após o segundo tempo do frenesi, os dois subitamente apagaram - desmaiaram em quatro braços. Suzane enroscada no corpo de Hélio como saudosa serpentina na quarta-feira de cinzas. Ele, no mesmo lugar em que estava desde o êxtase final do primeiro tempo - em decúbito dorsal -, mesmo com a mulher aninhada em seu tronco, ressonava pacificamente como os justos dormem, sem culpas e pecados.

O entardecer se avoluma nas cores cítricas e ensaboadas pela pureza ardente da alma. Cães atordoados farejam o cio fleumático da vulgaridade milagrosa e beata. As gotas resistentes do desejo que ainda brotam na epiderme inflamada da volúpia, são drenadas pela ebulição da noite ou rompem o silêncio rasteiro em busca de ralo ou bueiro para se integrarem aos restos de outros casais. Suzane e Hélio atravessam a noite.

Ainda refestelado e espaçoso, sonhando com delícias edênicas, Hélio reluta em sair da cama. Suzane, com leveza, ergue o seu braço que já estava formigando sobre o peito de Hélio. Estala a língua no céu da boca - a saliva endurecida a impedia de abri-la. Com os lábios ressecados, a sensação de sede a impele a abandonar o corpo do amado para se dirigir à cozinha e pegar um copo com água.

Quando os dois já haviam se espreguiçado, alongado os músculos, finalmente se levantam. Vão tomar um revigorante banho. Embebem a esponja com sabonete líquido e massageiam um ao outro - não com a explosão erótica que os dominou no dia anterior, mas com uma fraternal cumplicidade. Ambos nus, agora com a água suave correndo pelo relevo corporal, em nada se assemelham ao conjunto de trilhas e dobras por onde as trombas d’água se arrebentavam no peito desejante das núpcias.

Após o banho, secaram-se e se vestiram. Voltaram ao quarto para arrumá-lo, deixando apenas os vestígios invisíveis da memória. Eles sentaram enviesados na cama, um de frente para o outro - com o joelho esquerdo de Hélio roçando no direito de Suzane - espicharam os braços e deram as mãos, permanecendo ainda por alguns instantes se entreolhando. Tentavam recuperar suas identidades sociais para mais um dia útil que se contrastava com a inutilidade do puro fluxo e fruição.

Cada um se via na superfície espelhada dos olhos do outro. Nesse delicado gesto, tentaram se reconhecer no reflexo ocular. Hélio se via nos olhos de Suzane, mas de alguma forma sabia que não se tratava de sua imagem em miniatura. Ele habitava o interior de Suzane. Seus olhos eram as janelas pelas quais espia a si ao contemplar Suzane. Ele se esforça para apreender o olhar de Suzane, mas quanto mais se inclina, já quase no limite para naufragar naquele mar sem fundo e sem fim, mais é olhado por sua própria imagem que o engolia nos olhos de Suzane.

Suzane não resistiu ao ver aqueles olhos siderados em desejo e se aproximou para beijá-los. Em contato com os lábios da amada, instintivamente as pálpebras se fecharam, e ela saboreou uma gota órfã de suor que se escondia nos cílios de Hélio. Com o sol já no centro de suas cabeças, acusando meio-dia, os dois pulsaram eternamente num tempo que rompia a convenção do mundo.


Conto Escrito por Alex Azevedo Dias.

5 comentários:

{ Marlon Weasdor } at: 22 de setembro de 2011 13:48 disse...

Belíssimo!
Mesmo!
Está de parabéns!

{ Alex Azevedo Dias } at: 23 de setembro de 2011 00:40 disse...

Obrigado, Marlon! Foi a minha contribuição para oferecer um brinde à poesia da luxúria.

{ Gle Montvã } at: 23 de setembro de 2011 14:49 disse...

Oi!!!
Agradecida por ter passado no blog e me seguir. Também estou te seguindo aqui.

Seu blog e lindo.
Andei lendo os contos e estou encantada com o modo que escreve. Fico viajando.
Realmente adorei ler.
Está de parabéns.
Abraços e volto sempre que puder.

{ silvioafonso } at: 26 de setembro de 2011 19:23 disse...

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Este blog me deixou triste por só
agora conhecê-lo.

Um abraço a todos.

silvioafonso




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{ REGINA AZEVEDO e MAURO RUBENS } at: 16 de outubro de 2011 15:32 disse...

Belos escritos. Que tal reuni-los e publicar conosco em http://livro-virtual.org Será um imenso prazer. Abraços!

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