Amor em Outra.

terça-feira, 9 de agosto de 2011











Ela me pegou pela mão. Puxou-me com delicadeza para a área gramada - um extenso espaço entre os prédios da faculdade. Notando o meu semblante infantil, tripudiou de minha inexperiência com um sorriso malicioso. Quis agarrar-me a ela. Seu corpo desvaneceu. Pensei tê-la perdido. Enquanto eu permanecia na borda do canteiro, hesitante, ela reapareceu dançando entre as árvores. Com um chamado doce, posicionando levemente a palma da mão nos lábios contraídos, exalou aquele sopro aromático que me tirou da inércia extasiada. Fui com ela.

Exercendo uma vocação nínfica, saltando e cantando, seduzindo sem se aproximar, afastando para tocar, convidou-me para vê-la em ato. Novamente me pegou pela mão e me levou até um fino banquinho armado entre dois troncos espessos. Pediu-me para que sentasse na grama, aos seus pés. beliscou-me o queixo devagar. Fiquei lá, inebriado pelo que nela ainda não vivia, por uma promessa ondulando no ar. Ela me fez recuar. Ainda sentado eu a vi dar um impulso, segurando nas cordas do que talvez fora um balanço. Apoiando-se nos troncos, deu um salto certeiro. Ficou de pé sobre o banquinho.

Cantou, cantou, cantou... Insinuava se esconder, deixando entrever apenas o mínimo do seu corpo. Tinha prazer em me enganar. Mas talvez se escondesse de si, não de mim. Quanto menos eu a via, mais eu a sentia, mais eu a possuía. As partes do seu corpo que se alternavam, mostrando-me na fantasia o que não podia ser visto - ela toda - causavam em mim um medo súbito, regado pela estridente paixão que se acercava de minha pele infantil. Já era um homem, crescido, mas não adulto. Sentia-me inocente diante do feitiço feminino. No jogo da presença e ausência, não havia opção, fatalmente perderia. Não havia mais nada a ser visto além dela - seu corpo nu, apesar de bem vestido.

Não tive outra reação além de contemplá-la. Aquilo me invadia, me tensionava, me atraía. Estava submetido à mágica aparição que desaparecia num piscar de olhos, para se deslocar e reaparecer em outro lugar - meus afetos e desafetos. Ela bailava, esvaía, ricocheteava e eu, reprimia. Ela articulada, gozando de minha demora em despertar. Eu embasbacado, de queixo caído, engessado, vendo-a levitar.

Canções, interpretações, um repertório sem fim. Dançava para uma platéia de cegos, reduzida ao único afeto que a mobilizava mais e mais: O meu assombro. Ao resvalar no meu olhar tímido, erógeno e pueril, ela se enterneceu. Subitamente estancou os passos da dança, aos quais se entregara. Inclinou-se para melhor me enquadrar em sua visão bucólica, e voltou a se sentar no banquinho entre as árvores. Contemplou a paisagem da baía. O espetáculo do pôr do sol, que concentrava multidões - gazeadores de aula - para lhe assistir, ainda demoraria. Tínhamos muito tempo sozinhos.

Ela esticou os braços, espreguiçando-os, e laçou os dois troncos por trás, simultaneamente, com os pulsos ligeiramente amolecidos e preguiçosos. Jogou o corpo como se fosse se balançar, e espichou as pernas nuas, cruzando os pés na altura dos tornozelos. Esses sutis movimentos retraíram sua pequena saia de seda, concedendo um pouco mais a visão de suas bem modeladas coxas ao desejo fugaz que se expandia em luzes contidas pelo gramado orvalhado.

O vento mudou de direção. Roubou algumas folhas que giraram em redemoinho. Seus cabelos esvoaçaram, livres. Ela me contava algumas histórias. Era sua vida confidenciada ao estranho imaturo. Não estava preparado para ouvi-las. Quanto mais falava, mais me permitia ser levado com as folhas aos ventos. Repetia a violência radiante da natureza. Eu queria ouvir tudo. Não queria perder nada, nenhuma palavra que me era segredada. Uma força desconhecida, um desejo, me impelia a ficar, a beber e saborear suas histórias de mulher com meus ouvidos de moleque.

Após muito me maltratar, entregando-me ao deleite em sua companhia, saiu em disparada. Despediu-se rapidamente. Disse, virando-se para trás, em direção a minha distante presença cada vez menor, que voltaria. Quem sabe um esbarrão aqui ou acolá? Mas ela não mais voltou. Não mais nos vimos. Só a sua lembrança - o que dela me pertencia - um pouco embaçada e iludida, admito!, insistiu em não se despedir. Minha memória, responsável por esculpir belezas indescritíveis em sua ausência, cravou um prego solitário e agônico na madeira de lei do meu coração.

Muito tempo se passou. Eu abandonara a peraltice envergonhada com a qual eu a conhecera. Um pouco mais adulto, por que não? Já estava terminando a faculdade. Ela ressurgiu. Parecia um pouco mais criança. Já eu, adulto. Nossos lugares se inverteram. Aqueles anos foram suficientes para que me tornasse homem, embora pouco tivesse envelhecido. Nos esbarramos, como prenunciou antes de partir. Ficamos frente a frente. Nos encaramos. Depois sorrimos. Nos demos as mãos. Eu estava confiante. Mesmo que a idade cronológica denunciasse realidade diversa, eu estava mais velho do que ela.

Com a condição que se impôs, namoramos. Aquele calor de todo início de relação... Independente do amadurecimento, regredíamos. Viramos dois adolescentes, como se fosse a primeira paixão. E era, apesar de já sermos experientes. Quando, desamparada, ela procurou o conforto e a segurança em meu peito, fora inesquecível. A primeira vez que meu corpo servira de aconchego para seus medos e privações. Mas era tão difícil nos entregarmos totalmente, dizermos que nos amávamos... Nós dois. Só Deus sabe o quanto ficamos tímidos para expressar as três palavrinhas mágicas: "Eu te amo". Criávamos mil artifícios para dizê-las sem que disséssemos nada. Ou talvez sem dizer nada, era aí que mais dizíamos.

Quando conseguimos falar, quando não tivemos mais medo de nos machucarmos, quando o passado já não mais se apresentou como fantasmas a serem comparados com a atualidade, pudemos nos entregar plenamente. Nada mais existia ao nosso redor. Só nós dois. Seguimos assim, nos amando, por um longo tempo. Mas a fatalidade de que éramos dois, e não um, bateu à porta com a ira de quem descumprira o mandamento da descontinuidade entre as criaturas. Os desejos assimétricos, que antes nos uniram, revelaram-se maquiavélicos. Uma prudência que nada mais se animava para reinventar. Desmorecemos. Fomos nos apagando, nos perdendo.

Até que a luz sumiu definitivamente. E, no escuro, só podia me apalpar. Senti-la em mim. Após o rompimento, ainda nos vimos mais algumas vezes. Tentamos reacender a chama. Tentamos resgatar a paixão. E ela, a paixão, deu as caras em alguns instantes, não vou negar!, mas quanto mais eu a tocava, menos a sentia. Ela não estava mais nela. Ela se transferiu para mim, internalizou-se. "Ela não estava mais nela", que coisa estranha!, mas era verdade. Talvez tenha se desmaterializado. Ganhou vida própria, independente de um corpo. Estava em mim. Só em mim. Só, em mim.

Na minha ânsia em encontrar alguma justificação para o injustificável, pensei no latim - uma língua morta. Assim como o meu amor já não mais habitava o corpo do meu amor - a saudade que eu sentia dela não se realizava em sua presença - o latim já não mais existia no próprio latim. O latim se disseminara como uma entidade invisível, fertilizando a maioria dos idiomas vivos do nosso velho e novo mundos. Era isso! Ela e o latim. Duas entidades mortas que criavam vida, a raiz do vocabulário latino, da gramática do amor que jamais apontaria para um lugar comum, pois estaria sempre em outro lugar - distante ou perto, não importa mais.

Tentamos nos ver mais e mais. Tentativas frustradas. Quanto mais a via, menos ela existia para mim. Quanto menos a via, mais seu afeto se fortalecia dentro de mim. Eu a amava em silêncio. Eu a amava em sua ausência. Eu a odiava em sua presença. Como eu não queria apagá-la de minha vida - pois ela já estava mergulhada em mim - não mais a vi. Deixei que seu fluido me dominasse. Ela é o latim. Uma língua morta. Mas responsável por fecundar as riquezas do francês, do espanhol, do português, do italiano... Eu a amo. Eu não a amo. Eu só a amo quando não estou com ela. Uma condenação. Eu só a vejo... em outra. Eu só a sinto... em outra. Ela mesma... nunca mais.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

9 comentários:

{ Artes e escritas } at: 9 de agosto de 2011 23:18 disse...

Sonho de um não se pode sonhar a dois, triste e real. Um abraço, Yayá.

{ Malu } at: 10 de agosto de 2011 19:17 disse...

Hoje estou passando apenas para lhe fazer um convite.
Estou falando do www.superlinks.blog.br que é um site agregador que vale a pena visitar, pois é mais um espaço no qual você poderá publicar seus links de matérias, pois é um site sério e com critérios bem positivos.
Espero que goste da dica.
Um grande abraço

{ *Patricia* } at: 27 de agosto de 2011 20:17 disse...

As vezes mesmo sem querer nos separamos, nos machucamos, perdoamos, voltamos a nos machucar porque? Se as vezes o que mais temos é o amor.

{ Marli Carmen } at: 4 de setembro de 2011 18:27 disse...

Gostei muuuito!!!!!!!!!!!!!
Sou autora parceira no Blog Novo Autores. Em breve haverá sorteio do meu livro por lá!
Mas por enquanto, se vc quiser, tem no meu blog um sorteio! Vc gostaria de participar?
Beijocas.
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{ Borboletas no Estômago } at: 4 de setembro de 2011 23:26 disse...

esse espaço aqui é ótimo!

{ Luma Rosa } at: 12 de setembro de 2011 17:24 disse...

Um amor que poderia ter se fortalecido e se tornado algo mais palpável, menos interiorizado, como a amizade, por exemplo. Na amizade, amamos sem compromisso e com mais compreensão. Boa semana! Beijus,

{ Amapola } at: 17 de setembro de 2011 21:43 disse...

Boa noite.

Estou lhe seguindo e voltarei depois, para apreciar melhor.

Tenha uma linda semana.

{ Alex Azevedo Dias } at: 17 de setembro de 2011 23:50 disse...

Obrigado, amigos, pela leitura e apreciação. Abraços...

{ fus } at: 19 de setembro de 2011 08:13 disse...

me ha gustado mucho tu relato, acabo de conocerte y me quedrè por tu blog para leerte lo que escribas...soy español.

un fuerte abrazo

fus

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