Estranhas Criaturas.

domingo, 3 de julho de 2011












Com o ar sufocado pelas estridentes buzinas, numa paisagem composta por canos de descargas e óleo diesel, o semáforo abriu para os pedestres sem nem ao menos testemunhar os arrepios mornos da estação. Eu atravessei o asfalto raspado pela borracha queimada, já tendo em vista um restaurante no qual possivelmente almoçaria. Por causa do tumulto e das longas filas para se servir no bufê depois do meio-dia, consegui antecipar meus horários já quase estrangulados e me dirigi ao restaurante pouco depois das onze horas. Optei por um estabelecimento amplo e pouco frequentado, em troca dos ambientes espremidos e asfixiantes da maioria. Mas me surpreendi ao chegar lá e encontrá-lo completamente vazio. Talvez por estar muito cedo mesmo ou pela simples razão de que tal lugar não fosse opção de ninguém - além de mim, é claro.

O preço era moderado, condizendo com um cardápio limitado, típico de fast-foods, que só oferecem pão e carne bovina processada. Então, para variar, já que faltava qualidade na refeição, pedi um sanduíche para não se assemelhar a lanches rápidos. Enquanto esperava que meu pedido chegasse, constatei que não mais ficaria sozinho. Duas pessoas adentraram o recinto, cabisbaixas, mas com olhares reveladores de que a fome já batia à porta sem prévio aviso. Eram dois homens, um adolescente e o outro, um idoso. O adolescente era bastante magro, despojado, vestido de camisa preta, bermuda jeans rasgada e tênis esfolado; cabelos compridos - mas não tão longos - e espichados na testa para simular uma franja. Já o idoso estava mais social, porém arrojado, com blusa colorida de gola e botão, enfiada por dentro de uma calça brim verde-musgo, além de usar sapatos polidos. Pela circunstância, arrisquei o palpite que fossem avô e neto.

Até aí nada de mais, a não ser pelo fato que desde quando cruzaram o umbral da entrada, embora estivessem lado a lado, pareciam absolutamente dois estranhos que chegaram juntos, porém sem se conhecerem. Cada um com a cabeça virada para o lado oposto ao outro. E não pareciam que estavam de birra por possível desentendimento. Entraram lépidos e fagueiros, com o cenho descontraído, à vontade e em paz de espírito. Cada um habitava seu universo particular sem que o outro pudesse - ou mesmo quisesse - compartilhar dele. Mergulhados em seus próprios pensamentos e interesses visuais, ainda assim ambos permaneciam lado a lado - simetricamente como as atletas olímpicas de nado sincronizado.

Ligeiramente distraído no instante em que o garçom me servia um caprichado pão com carne de boi processada na bandeja, parecendo uma cápsula espacial - inclusive com bandeirolas ornamentando o sofisticado prato - perdi a cerimônia do pedido de um lanche ou almoço. Será que para pedir ao garçom, falaram? Bem... Se eles falaram, eu não os ouvi. Não descarto a hipótese de que tenham gesticulado ou se comunicado por algum sistema de códigos especialmente desenvolvido para a ocasião.

Ao dar a primeira mordida, interrompi a gula pela visão pitoresca dos supostos avô e neto sentados à mesa que um garçom lhes indicou. Ambos se ajeitaram em seus respectivos assentos e mantiveram a mesma posição estapafúrdia - cada um com a cabeça virada para um canto e assoviando melodias ensimesmadas. Um magnetismo sobrenatural impelia-os à união e ao mesmo tempo, repelia-os para a condição de abjetos. Será que estavam separados pela proximidade? Ou juntos pela separação? Uma sórdida incógnita!

Enquanto o adolescente sustentava uma posição aparvalhada, como se estivesse abduzido num estrato não-gravitacional, o idoso articulava os lábios, cantarolando algum inaudível refrão. Rompendo convenções de cronologia, abriu o zíper de sua pochete de couro sintético - última moda no país dos antiquados - e retirou um fone de ouvido. Conectou o fio em seu aparelho celular, encaixou os fones nos ouvidos, realizando movimentos circulares para garantir um contato seguro - como quem usa grampo com algodão na ponta para se livrar do cerume indesejado no canal auditivo -, deixou os braços caírem sobre as pernas, ajeitou-se na cadeira e se entregou ao seu “egoísta” para ser levado pelo som que só existia dentro de sua cabeça.

O garçom levou à mesa dos dois apenas um prato. Ele se inclinou com a bandeja e serviu o adolescente. O idoso não havia pedido nada e estava bancando o lanche do suposto neto. Com a comida à sua frente, o garoto fixamente a analisa e resiste um pouco para iniciar o ritual da deglutição. O idoso retira os fones de ouvido e os guarda na pochete. Levanta-se - sem soltar um pio sequer - e se dirige ao banheiro que se localiza no extremo oposto de sua mesa. Na ausência do outro, o adolescente começa a comer com voracidade, sem cerimônias.

Inúmeras fantasias, singrando os mares de minha mente inquieta, impuseram deduções escabrosas: O ancião na verdade se tratava de um perverso sequestrador que tomou o jovem como seu refém e agora o torturava, deixando-o faminto? Mas por que o levara para comer então?

O rapaz engolia a comida, quase não a mastigava. Estava enfarado. Bem... O que fica incoerente nesses argumentos - confesso que absurdos - é que afinal de contas, o idoso levou o adolescente ao restaurante, o que já denota a intenção de alimentá-lo. Ou será que o garoto era um daqueles rebeldes sem causa que fazia greve de fome para ganhar o vídeo-game - último modelo caríssimo - que tanto desejava? Então ele aproveitou a saída do avô para devorar o lanche, para depois, com o seu regresso, inventar uma desculpa como a que meninos de rua esfomeados entraram e exigiram - com um canivete riscando sua garganta - que ele entregasse toda a comida.

Quando o idoso voltou ao seu assento, o adolescente parou imediatamente de comer - mesmo restando apenas mais algumas migalhas no prato. Mas o idoso nem se dignou a olhar o prato do rapaz. Ele simplesmente se sentou - ignorando-o por completo - e depositou seu celular sobre a mesa. De repente, dois sons de toques distintos de celular tocaram. O adolescente, impassível, leva a mão ao bolso da bermuda e retira seu celular. Simultaneamente o idoso também pega o seu. Por coincidência, ambos os aparelhos tocaram ao mesmo tempo, sem cessar. O idoso e o adolescente recebiam misteriosas chamadas. Será que eram do além? Talvez eles fossem cadáveres ambulantes que se encontraram num dia frio para ressuscitarem os demais mortos de suas tumbas.

Com o pescoço virado para o lado oposto um do outro, atenderam suas ligações como se estivessem sozinhos à mesa. Depois de um tempo, ainda falando aos celulares, ajeitaram-se em suas cadeiras de modo a se emparelharem de costas. Enquanto cada um discutia os assuntos mais díspares, ignorando verbalmente a presença do outro, encostaram reciprocamente suas costas. De alguma forma eles estavam intimamente conectados. Seus corpos não denegavam essa ligação íntima. Será que realmente se trata do óbvio? São avô e neto? O choque de gerações não permitia um contato verbal, mas seus corpos se reconheciam, respeitavam-se e dialogavam sutilmente.

A conversa ao celular acabou. Ambos recolheram seus aparelhos. Ficaram por mais um tempo em absoluto silêncio, virados para frente, exibindo semblantes alienados. Finalmente o idoso se vira para o adolescente e pergunta se o lanche estava bom. Ele responde algo que eu não pude ouvir. Nesse instante o idoso coloca a mão no ombro do adolescente, recebendo em troca um cafuné. O idoso diz que eles precisam se apressar para os últimos preparativos da festa surpresa da avó. Eles foram ao caixa pagar o lanche e saíram rindo, comentando a respeito de como a avó ficaria alegre ao descobrir a surpresa de aniversário.

Bem... Acho que o enigma foi resolvido. Eram avô e neto num raro momento de silêncio cúmplice. Tramavam dar um belo susto de aniversário na avó. Talvez não pudessem falar com o risco de serem vistos e ouvidos por dedos duros. E se eu fosse um desses, esperando pacientemente saber a verdade para ir correndo estragar a surpresa da tal avó? Afinal, as paredes tem ouvidos!

Já com o meu sanduíche mais do que gelado, encerro estas linhas. Talvez eu peça outro sanduíche... Não, perdi a fome. Farei um embrulho e levarei o pedaço que restou para casa. Assim, após esquentá-lo no microondas, poderei saboreá-lo novamente para reviver toda essa história filtrada pelos dedos da ficção.

CRÔNICA ESCRITA por ALEX AZEVEDO DIAS.

9 comentários:

{ Neusa Fiesta } at: 3 de julho de 2011 23:03 disse...

Parabéns Alex! Seu croniconto é excelente!
Seja muito bem-vindo à nossa Sala dos Amigos Escritores! Certamente, vc irá abrilhantar este nosso espaço!
BEIJOSSSSSSS

{ Alex Azevedo Dias } at: 3 de julho de 2011 23:08 disse...

Agradeço a gentileza, minha querida amiga. Com esta moldura - esteticamente elaborada - do blog, não há texto que não seja imediatamente embelezado. :)

{ Taís } at: 4 de julho de 2011 18:52 disse...

Putz, muito bom. Está de parabéns!

{ Urbano } at: 4 de julho de 2011 19:41 disse...

Putz, na empolgação escrevi um texto enorme falando do teu texto, cliquei em postar mas não sei se foi, a pg saiu. Enfim, achei esse o mais maduro que li aqui, acho que vc se conteve pra não inclkuir um elemento fantástico, não? ficou dukcete!

{ Ravi Barros } at: 4 de julho de 2011 19:43 disse...

Criaturas realmente estranhas, juro que por alguns momentos pensei coisas bem exorbitantes, mas o desenrolar do texto me aliviou, afinal de contas, é somente uma ficção não é mesmo?! :D

{ Filipe Dias } at: 4 de julho de 2011 19:56 disse...

Fiquei tenso com esses dois, e o personagem acertou, hein, neto e avô.
Gostei da tenção que você colovou no texto. Me lembrei de "A última crônica" do Fernando Sábino, um cara que obicerva um casal e a filha numa lanchonete.

{ Alex Azevedo Dias } at: 4 de julho de 2011 21:26 disse...

Uma ficção jamais é somente uma ficção. Acho que não há nada mais real que a ficção. O real - isso que escapa das garras do verbo - é o que o escritor deposita na palavra escrita, tentando contorná-la simbolicamente. Mas, ao invés de conseguir capturar o real, é o real que o captura e deposita o autor em suas palavras escritas. A ficção não suprime o real. A ficção sustenta o real. A ficção cava um lugar para o real no desejo do autor - e também em sua angústia, é claro!

{ Alex Azevedo Dias } at: 4 de julho de 2011 21:31 disse...

Como eu escrevi no final: " ...essa história filtrada pelos dedos da ficção.". O que filtra a história são os dedos do escritor, que, em forma ficção, concerne ao próprio escritor. Não há nada mais orgânico e real, demasiadamente real, que os dedos, os tatos, causadores dos mais arrepiantes afetos ficcionais - e jamais fictícios! :)

{ jaka } at: 5 de julho de 2011 03:47 disse...

texto curioso, instiga o leitor a imaginar o pior, rs.

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