Alegria na Cara.

quinta-feira, 21 de julho de 2011











Valter se segurava para não ceder ao irresistível impulso de virar a mão na cara de alguém. Não suportava mais o acúmulo de tensão pela vontade reprimida de distribuir pancadas a torto e a direito. Tentou puxar da memória alguma pessoa que lhe causasse aversão. Não achou nenhuma. Todos eram seus amigos, lamentavelmente amigos. E isso era o pior de tudo. Sua cabeça parecia oca, sem lembranças de desafetos para alimentar sua ira. Era bastante consciente que não se irritava facilmente. A vontade de espancar as pessoas não era motivada pelo humor explosivo ou revoltado. Valter sempre foi muito calmo e de bem com a vida. O desejo de quebrar algumas cabeças não excluía seu temperamento alto-astral.

Palavras amigas de reconforto, gentileza e solidariedade jamais faltaram no vocabulário de Valter para que as ofertasse aos amigos nos momentos mais difíceis. E a recíproca era mais do que verdadeira. Quando passava por apertos, sejam emocionais ou financeiros, seus amigos sempre se dispunham a ajudá-lo prontamente, sem que precisassem pensar duas vezes. Tinha muitos amigos e nenhum inimigo. Nada o tirava do sério. Jamais se aborrecia. Sua sensibilidade para a alegria funcionava como antenas para boas companhias, atraindo todo tipo de gente que se deliciava com suas história e bom humor.

Para Valter, nunca o clima esquentava. Não havia mal tempo. Sua alegria contagiava até os vitimados pela baixa autoestima. Embora continuasse distribuindo sorrisos - e isso não era nem um pouco cansativo -, ele queria inovar, acrescentar mais possibilidades à sua vida. Valter queria distribuir socos e pontapés a todos ao seu redor. Quanta satisfação teria se pudesse aleijar alguns narizes! Ele acreditava que se realizasse seu desejo de espancamento, certamente seria um homem completo. Não seria mais alegre do que já era, pois sua alegria já chegara ao máximo que um ser humano pode sentir. Mas tinha plena convicção de que produzir hematomas no meio da cara das pessoas representaria a glória plena na Terra. Pensou, pensou, e não chegou a lugar nenhum. Por mais esforço que fizesse não era capaz de extrair a mínima desavença em sua história que justificasse um ato agressivo de sua parte. A felicidade generalizada fazia-o malograr em sua nobre intenção de amassar umas cacholas.

Diziam que Valter possuía excepcional poder persuasivo. Confiante nesse dom, começou a elaborar um plano para convencer os seus amigos que levar pancadas sem renunciar a paz interior, significaria a aquisição da maior das virtudes: A Bem-Aventurança. Ao colocar em prática seu teorema, enfrentou a resistência pacífica dos sujeitos mais inquietos. Eles alegaram que tal comportamento se aproximava de um tipo de masoquismo resignado, típico das donas de casa que apanham de seus maridos em silêncio, sem soltar nenhum pio, como santas imaculadas. Valter recorreu à sua infinita sapiência e reavivou o exemplo de abnegação de Mahatma Gandhi.

Esse líder político, adepto da não-violência, pregava a desobediência civil para libertar a Índia do domínio inglês. Gandhi se impôs diversos estigmas, como greves de fome - longos jejuns - como estratégia reformista. Conta-se que certa vez, Gandhi e seus discípulos foram duramente reprimidos por oficiais britânicos. Eles imploravam pela liberdade e pelo fim do massacre econômico. Os soldados riram daqueles homens raquíticos e desarmados que se aproximavam. Então, para divertirem, os ingleses desafiaram os desnutridos indianos para que se conseguissem bater em um deles, concederiam alguns benefícios, permitindo-os que atravessassem a rua.

Gandhi humildemente se abaixou e ofereceu a cabeça para que os ingleses lhe desferissem golpes. Logo todos os seus discípulos repetiram o gesto do líder. Os soldados estranharam aquela bizarra atitude, não acreditando no que viam. Mas obedeceram. Bateram tanto nas cabeças dos indianos que ficaram completamente exaustos. Já não aguentando mais depois de tanto baterem, acabaram caídos e vencidos. Os indianos ,então, mesmo machucados, saíram vitoriosos. Valter quis transmitir uma lição de moral, citando as conquistas heróicas de Gandhi.

Seus argumentos traçavam considerações elogiosas sobre os benefícios de levar cacetadas na moleira. Gandhi foi um vitorioso levando porrada e passando necessidades. Quanto mais apanhava, mais ganhava a guerra e inscrevia seu nome como benfeitor da humanidade. Os amigos de Valter ouviam-no com atenção. Eles acompanharam seu raciocínio até serem dobrados pela lábia digna de um político brasileiro. Valter novamente resgatou a memória do mestre indiano para acrescentar uma valiosa observação: Gandhi alcançou a paz e a plenitude, levando porrada dos ingleses. Ele não era masoquista. Ele era um homem que conhecia a verdadeira felicidade - Afirmou Valter.

As pessoas às quais Valter endereçava seu discurso não se surpreendiam com a facilidade do amigo em abordar as cicatrizes humanas - assuntos que abalariam a maioria dos ouvintes - sem esboçar a menor angústia. Ninguém questionava que por trás daquele sorriso meigo algum tipo de perversão jazia camuflada. Caso houvesse algum distúrbio, Valter ignorava. Ele acreditava piamente em suas boas intenções. Um dos amigos, apoiando-se na leitura de um filósofo esloveno que sempre citava, afirmou que os movimentos pacíficos que resultam em grandes reformas sociais, são de extrema violência, pois mudam toda uma crença popular. Mudar a forma de pensar é a violência das violências.

Após as considerações finais do grupo de amigos, já devidamente convencidos pelas generosas alusões e milagrosas evocações do discurso de Valter, eles ficaram tão eufóricos que se despiram e lhe ofereceram pedaços de galhos e as fivelas dos cintos - que já não mais eram usados para segurar suas calças - para que Valter iniciasse o ritual de espancamento. Viraram-se todos de costas para o bem-aventurado Valter. Recebendo essa resposta afirmativa de total confiança em suas palavras e aceitação de suas nobres intenções, Valter não se conteve e soltou um berro de contentamento.

Imediatamente, ainda com a mão suspensa - já com o cinto em punho -, ele desabou fulminado. Por não sentir nenhuma pancada até então, um dos amigos se virou e deu de cara com o corpo de Valter estendido no chão. Ele morrera com o braço para cima, o mesmo que empunhava o cinto, e com um semblante de extrema felicidade. Ao invés de chorarem, eles se alegraram com aquela partida maravilhosa. Em sua lápide, os amigos mandaram que a frase que mais representasse o espírito feliz de Valter fosse inscrita: "Segue para a eternidade, o homem mais feliz do mundo!"



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

1 comentários:

{ ॐ Shirley ॐ } at: 5 de agosto de 2011 08:53 disse...

Até que enfim, Débora alcançou a lucidez. Muito bom. Beijo!

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