Destino Selado. (Feliz Ano Novo. Axé!)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011 9 comentários







Deu alguns passos para trás, abaixou-se e bateu na terra com a mão espalmada. A poeira alvoroçou-se até tampar a visão do compadre Técio. Apenas com alguns resíduos de terra moída sobrevoando seus olhos, percebeu que Pai Tunho continuava na mesma postura. Contemplava o vazio. Pensou em bater em seu ombro para trazê-lo novamente à realidade. Mas recuou, temendo interromper o transe. Soube que, assim como os sonâmbulos que ao serem acordados podem cair duros no chão, se as pessoas em transe fossem sacudidas, incorporariam alma de outro mundo para sempre. Técio se afastou mais e descansou o corpo ao encostar no espesso tronco de uma mangueira do tipo carlotinha.

Pai Tunho havia flexionado o joelho esquerdo - no qual apoiara o queixo -, mantendo a planta do pé em contato com a terra, enquanto permanecia com o joelho da perna direita encostado no chão. Suspirou fundo. Procurou Técio com as velhas vistas. Ergueu o braço que não servia de base para sustentá-lo naquela posição cansativa, e pediu ao companheiro para que o ajudasse a se levantar. Técio saiu rapidamente do ostracismo e saltou ao encontro daquele homem para o qual devia a própria vida.

Quando jovem, Técio era conhecido na cidade de Barro Batido como um exímio capoeirista. Desafiava todos os mestres e iniciados do vilarejo para jogar e dançar. Poucos se arriscavam. A maioria esmagadora saía derrotada sem que Técio encostasse um dedo sequer em seus oponentes. Eles tombavam exaustos por não suportarem o ritmo frenético de sua ginga.

Próximo à roda de capoeira havia um homem sério que ficava sempre por ali apreciando a diversão dos meninos. Todos sempre estranharam a presença taciturna de Tunho. Vestido com uma longa bata branca, diversos colares e fumando seu inseparável cachimbo, Tunho demorava-se sentado numa cadeirinha de madeira para assistir à capoeira. Quase ninguém tinha coragem para chegar perto de tamanho macumbeiro - temia a crendice popular. Achavam até que se fosse encarado por mais de dois segundos, os curiosos seriam vítimas de mandinga e reza brava.

A fama de Técio se alastrara para além das fronteiras da humilde Barro Batido. Forasteiros souberam do nome daquele camarada tinhoso que enfrentava quaisquer briguentos que entrassem na roda. Um dia, um malandro que já tinha o orgulho ferido por outras pendengas, apostou com os comparsas que mataria Técio. Ele escondeu uma peixeira por baixo dos farrapos do que fora uma espécie de quimono e pulou na roda para jogar. Quando esse forasteiro malicioso, esquivando de um golpe de Técio, desembainhou a peixeira do cinturão, e estava prestes a perfurar-lhe o abdômen, Pai Tunho surgiu na frente do sujeito mal-intencionado e lhe arrancou a faca. Ninguém compreendeu aquela aparição. Era improvável que Tunho tivesse saído de sua cadeira, plenamente acomodado, e, de um salto, chegasse entre os dois para desarmar o adversário de Técio. Fora inexplicável tal façanha. O que se sabe é que o forasteiro, perplexo, ajoelhara as pés de Tunho e ficara lá, mudo, por longos minutos, até virar-se de costas e sair correndo para nunca mais voltar.

A partir de então, Pai Tunho tornou-se querido por todos, principalmente por Técio - que passou a segui-lo incondicionalmente - e pelas crianças que rodeavam-no para que lhes contasse histórias fantásticas dos seus antepassados. Técio, além de seguir Pai Tunho, virou um dos seus mais dedicados e promissores aprendizes. Fora batizado pelos orixás, recebendo justamente o nome Técio - seu nome civil era desconhecido -, iniciado e doutrinado pelas entidades espirituais que lhes protegiam e davam deveres para cumprimento e a disciplina do povo.

O tempo passou, compadre Técio já estava se preparando para suceder Tunho em sua missão de Pai, mas as questões começaram a aflorar. Tunho já estava cansado, bem velho. Logo desencarnaria para se juntar às entidades as quais se dedicou durante toda a vida de humilde servidor. Técio fora nomeado para sucedê-lo. Porém, ele não se sentia preparado e sabia que não teria a mesma capacidade e abnegação para continuar o sublime trabalho de Pai Tunho.

Técio estava se ajeitando para se despedir e tentando arrumar difíceis palavras para dizer a seu mestre, quando, à sombra daquela frondosa mangueira, Pai Tunho ajoelhou-se. Técio não conseguiu abrir a boca para pronunciar as palavras de despedida, muito menos para se explicar de sua covarde decisão. Pai Tunho, em transe, silenciou-se, de olhos fechados. Recolheu-se em sua insignificância perante os orixás, e recebeu a graça de ouvir sagradas orientações. Foi nesse instante que Técio, encostado na mangueira, como para não perder o equilíbrio da razão, num conflito irredutível e trágico entre a sua vocação, seu desejo, para a qual dedicou-se desde que Pai Tunho o salvou, e a vontade medrosa de se esquivar, fugir para cidade, refazer sua vida distante do lugar no qual, de suas raízes, brotariam cactos e flores.

Pai Tunho estendeu a mão. Técio saiu do seu conforto sob os galhos da mangueira para erguer o velho. Quando sentiu seus dedos tocarem a áspera e enrugada mão de Tunho, Técio percebeu a força dos ventos que sopravam em sua direção, assoviando ao atravessarem as lâminas cortantes das folhas novas. Não conseguia abrir os olhos, pois a força era tanta que suas pálpebras não se mexiam. No momento em que pôde ver, Pai Tunho havia rejuvenescido, mas não perdera o vigor e a sabedoria de um homem nobre. Fixou os olhos. A imagem se embaçara. Notou certa semelhança e familiaridade.

Surpreendido, Técio não pôde mais duvidar. Era ele o novo Pai. Tunho já desencarnara havia tempos. Aquele Tunho jovem que surgira diante de seus olhos, não era Tunho. Era um Pai, mas não Tunho. Técio estava diante de um espelho d'água cristalino refletindo áurea imagem no muro branco do quintal. Técio era agora, Pai Técio. Seguiu seu destino. Assimilou sua condição transmitida pelo amor. Destino selado - trágico e belo.



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

No Banco da Praça. (O Fim do Mundo).

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011 1 comentários








Rafael se sentou. Um odor nauseante invadia-lhe as grisalhas vibrissas de sua cavidade nasal. Uma ameaça de taquicardia o preocupava. Precisava descansar. Não mais prosseguiria enquanto todos aqueles sintomas não o deixassem.

Os correios cerrariam suas portas em breve. Não podia se atrasar. Estava com medo de ser vítima de uma parada cardíaca. Massageou o peito sufocado. Espichou os braços, massageando-os, suspirou fundo, contraiu o cenho e coçou a cabeça já quase calva.

Conferiu as horas na autêntica réplica de um Rolex que exibia no pulso esquerdo. O relógio marcava 16h12min. Rafael se deu conta de que o tempo não lhe concederia maiores regalias. Aquele dia era o prazo final para depositar a carta nos correios. No dia seguinte, um sábado, 22 de dezembro, já estaria viajando para cidade distante.

Tentou se levantar. Não conseguiu. Tentou novamente... Nada. Parecia que seu corpo estava colado ao banco em que sentara. Tentou tomar impulso, comprimindo-se para baixo, e, de repente, arrancou seu corpo para cima. Sem sucesso. Não compreendia o infortúnio para o qual se predestinara. Tentou, uma última vez, esquivar-se daquele assento que insistia em sugar seu traseiro. Mas continuou grudado, sem a menor possibilidade de êxito.

Deu mais uma olhadela para o relógio. Antes de ver as horas, fora arrebatado por estranho mal-estar que lhe deixou cego por alguns instantes. Ao recuperar a visão - ao menos aparentemente -, não mais pôde enxergar os ponteiros em sua maquininha circular. A realidade se alterou de tal maneira, que o mundo onírico passou a predominar. Seres mágicos se cumprimentavam calmamente diante dos seus incrédulos olhos.

Suas vistas ainda estavam turvas e enevoadas. Esfregou-as obstinadamente. E, de súbito, tudo voltou à habitual normalidade. As pessoas circulavam de um lado e de outro, apressadas, como em qualquer sexta-feira à tarde. Rafael achou que o normal também lhe atingira. Mas não. Após nova tentativa fracassada, assustado, quis se resignar sobre aquele tragicômico destino: Permanecer preso ao banco da pracinha.

Conseguiu relaxar um pouco, até se perceber sozinho na praça. Quase na certeza de ser alvo de delírios, mesmo não sendo usuário de tóxicos nem de substâncias lícitas, apalpou novamente o coração e inclinou a cabeça para trás. Foi aí que um par de mãos aveludadas deslizou pelo seu couro cabeludo, o que lhe arrepiou a espinha, embora evitasse de mover qualquer músculo. Um bafo ora quente ora gelado arranhou a nuca de Rafael. Sentiu aqueles lábios carnudos e frios ao pé do ouvido. Tremeu como vara verde. Foi aí que a voz trêmula e gutural anunciou: - São 16h15min, você tem uma hora.

Abalado, Rafael indagou sobre lhe sobrar uma hora, à voz. - Uma hora, tenho para quê? - Perguntou. A voz então, enfiando os dedos, agora ásperos, ainda mais intensamente em seus cabelos, retrucou: - De vida. Uma hora de vida. Rafael estancou a respiração, atônito, arregalou os olhos e ficou paralisado. A voz, então, para consolá-lo, disse para que não se afligisse com antecedência, pois toda a vida terráquea seria solidária à sua partida. O fim não era só dele, mas sim do mundo. Rafael resfolegou, perdeu o semblante aparvalhado, descontraiu o rosto, exercitando aerobicamente o contorno da boca, e recostou ainda mais a cabeça no encosto do banco.

Pensou que seu nome, Rafael, não fora dado à toa por seus pais. Sabia que era um missionário, desde o batismo, pois quem recebe nome de anjo, em seu imaginário, está incumbido da salvação. Fechou os olhos, ajeitou a cabeça, e recebendo as massagens contínuas daquelas mãos invisíveis, porém agora macias e sedosas, esperou. Antes, só para verificar, por desencargo de consciência, tentou se levantar mais uma vez do banco. Conseguiu! Mas pensou melhor... Resolveu voltar e esperar. A massagem era tão aconchegante que adormeceu. Ficou lá, dormindo... No sonho, entregue a um sono pesado, vestia uma capa vermelha e salvava o mundo. Continuou gozando de sua façanha por uma hora... Aí... Bem... Já se sabe!



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Serenidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011 4 comentários




Sentada à beira de um rio, com os pés cruzados à altura dos tornozelos, Hana já havia trocado a exaltação pela calmaria. Sabia que não seria capaz de mudar aquele destino. No início protestou, blasfemou, foi à luta. Fez das tripas coração para interferir na violenta realidade que lhe aguardava de braços abertos. Mas apesar dos esforços não medidos, o resultado era inalterável, recebendo apenas a frustração como resposta pela paciente impotência de sua condição humana.

Quando a notícia trágica lhe cumprimentou fugazmente, um sorriso incrédulo resplandeceu no semblante castigado. Pediu que repetisse a comunicação, na esperança que seus ouvidos tivessem lhe pregado uma peça. Mas a sentença fora proferida com todas as vírgulas e pontos em seus respectivos lugares - afastando qualquer possível equívoco que a negação da morte pudesse articular.

Seu sorriso inverteu. Murchou como botão de flor que não desabrocha. Uma súbita necessidade de gritar lhe alfinetou a garganta e acariciou as cordas vocais. Não reprimiria o sincero apelo de suas vísceras em estado de choque. As náuseas aos borbotões não respeitavam a lei da gravidade. Força desumana que lhe corroia o íntimo macerado.

A inquietude de Hana logo adquiriu um aspecto brando e cristalino, ocupada pela serenidade que lhe invadia o espírito condoído. A mãe que morava sozinha em uma casinha no interior de sua cidade natal, logo surgiu em seus pensamentos. O marido e os filhos estavam se divertindo numa viagem de férias e Hana não queria ser a porta voz da desilusão. Ela não teve a licença de seu emprego para se integrar à família na viagem dos sonhos de seus filhos. Combinou com eles que ficaria em casa enquanto eles sairiam com o pai - afinal os momentos com o pai pouco duravam. Além disso, o dia agendado para buscar o resultado de alguns exames estava se aproximando. Há tempos, Hana sentia um mal-estar indescritível. Esteve se consultando com diversos especialistas, até chegar a um clínico que recomendou alguns exames.

Aproveitou o tempo em que passava só em casa e foi pegar o documento que lhe causaria irreversível estrago em seus projetos de vida. Questionou se o poder da descoberta não aceleraria sua partida deste mundo. Talvez, se não soubesse, seu corpo não reagiria com a tal volúpia destrutiva que lhe arrancaria as entranhas. Mas foi aí, com o recorrente desejo de visitar sua mãe que começou um incessante ritual. Deixou os seus pais para crescer na carreira de artista plástica na cidade grande. Em uma das inúmeras exposições de seus trabalhos em galerias de arte, conhecera seu marido, um curador responsável por organizar os eventos artísticos.

A última vez que voltou ao vilarejo em que nascera foi para enterrar seu pai que morrera de ataque cardíaco durante a lida na lavoura. Há quase dez anos só conversava com a mãe por telefone, ainda assim quando combinavam para que ela fosse à rua e ficasse próxima a um telefone público, pois não tinha aparelho instalado em sua casa e não se adaptou com o uso de celulares. Às vezes também contava com os favores dos vizinhos, em caso de urgência, como a notícia da morte do pai de Hana. Sua mãe pediu que um vizinho de confiança desse o recado à sua filha, pois ela já estava fraca para encarar tal missão dolorosa.

Hana sempre insistia para que sua mãe fosse morar com sua família na cidade grande. Mas a velha mulher não suportava a hipótese de se separar de seus pertences rústicos. Jamais admitia a sofisticação das cidades grandes. A filha nunca conseguiu convencê-la de que morasse com ela, nem mesmo de que fosse visitá-la na capital paulista. A única vez que viu seus netos e pôde abraçá-los, foi no mesmo enterro do seu marido - ocasião tão difícil de enfrentar para ambas as mulheres, mãe e filha. Os filhos de Hana gostavam de conversar com a avó por telefone, mas se deslocar até um orelhão público já se tornara um sacrifício para alguém que a velhice já acenava à entrada de seus aposentos. A mãe de Hana foi nascida e criada na mesma casa no sertão da Paraíba, onde teve seus seis filhos, criou-os e os educou bravamente. Um filho morreu durante a juventude em aventuras insólitas pelo mundo afora, à procura de emprego e de diversão. Acabou se envolvendo com contrabandistas da região, contraiu dívidas e foi assassinado em acerto de contas. Três outros filhos se estabeleceram em lugares longínquos também no nordeste brasileiro - afastados do interior. Só um permaneceu na mesma casa, ajudando o pai a cuidar da lavoura até conhecer uma mulher que amarrou seu coração como um vaqueiro laçando o gado no pasto e o levou para Goiás - terra em que o pai da moça era proprietário de uma fazenda pecuarista. Hana, a única filha, nessa época já desenvolvia trabalhos plásticos muito valorizados na Paraíba.

Desde novinha, Hana demonstrava seu afinado talento. Juntava objetos aparentemente inúteis espalhados no quintal, montando belas esculturas, inclusive com sobras de madeira do fogão de lenha, parafusos e britas. Suas obras infantis eram apreciadas pelos vizinhos e enfeitavam a mesinha de cabeceira dos pais ou a humilde arca da salinha na qual a família se reunia para ouvir música no final da tarde.

Quando já estava adulta, um caçador de talentos que passava pela Paraíba, ouviu rumores sobre a riqueza poética dos trabalhos plásticos de uma mocinha do sertão. Foi até lá, comprovou o valor artístico de suas obras e a convidou para acompanhá-lo em sua viagem para São Paulo. Ele propôs matriculá-la numa escola de belas artes para lapidar suas virtudes manuais e visuais, prometendo um sustentável retorno financeiro. Como Hana já era adulta, coube somente a ela essa decisão. Mas o conflito por deixar seus pais sozinhos - era a única filha que ainda continuava ao lado deles - estremecera aquele corpo que também recebera belos retoques artísticos pela genética de seus genitores.

Mas, como era de se esperar, sua vocação vencera o medo da distância. No dia seguinte à proposta do caçador de talentos, Hana já arrumava suas malas com as modestas peças de roupa ocupando a menor parte do espaço. A maioria absoluta do espaço das malas fora ocupada por suas esculturas prediletas para apresentar à escola de belas artes. Dois dias depois, embarcou para São Paulo sem previsão de regresso. Despediu de sua mãe com lágrimas nos olhos e deu um abraço apertado e demorado em seu velho pai.

(....)

Já com a morte jogando pedrinhas na janela do seu quarto de dormir, com a ideia fixa de visitar sua mãe e de repousar no colo da encantadora natureza na qual cresceu, Hana amadureceu seus planos para viajar de volta ao sertão paraibano. Sabia que não seria fácil tal empreitada. O problema não era o preço de uma passagem de ônibus ou de avião, afinal ganhava muito bem com suas exposições, mas a duração da viagem e a conversa que teria com seu marido e filhos, justificando seu desejo.

Não é que ela devesse explicações à família, mas seu lugar de esposa e de mãe já deixava transparecer uma saudade antes mesmo de partir. De qualquer forma, precisa ter uma séria conversa com seu marido, transmitir-lhe a notícia de sua brevidade, e combinar com ele a melhor maneira de contar que sua partida não resumiria a uma simples viagem para outro estado do país. Ela não confiava na possibilidade de um filho assimilar a morte da mãe, muito menos na idade deles. Como superar essa partida. Como lidar com a perda? E a sua perda, em deixar seus filhos? Pensou em adiar essa conversa. Seus sentimentos eram comprimidos como o teto que desce e achata a cabeça dos prisioneiros nas câmaras de tortura que via nos filmes. Esperou o marido e os filhos voltarem de férias.

No meio de prantos e indignações, soluços e amarguras, Hana enxugou uma lágrima do rosto de seu marido que mais parecia um tristonho orvalho ao escorregar pela macia folha verde - como um choro baixinho - antes de secar e subir como vapor d’água para o sol da manhã.Resolveram que poupariam os filhos de maiores detalhes. Contaram apenas que Hana faria uma viagem longa para cuidar da vovó que já estava bem idosa e não poderia continuar sozinha. Precisava do auxílio de sua filha para o serviço doméstico e outros afazeres. Seus filhos protestaram um pouco pelo afastamento da mãe, mas rapidamente compreenderam a situação e se convenceram de que a mãe precisaria fazer tal viagem.

Os filhos fizeram-na prometer que em breve ela voltaria. Esse pedido amoroso e carente dos filhos provocou alguns soluços que logo contiveram o choro doído para não causar sofrimento nos filhos. Hana reprimiu as lágrimas e as trocou por um leve sorriso. Os filhos visivelmente emocionados, mas alegres em ter sua mãe por perto, saltaram no pescoço de Hana e todos deram um demorado e gostoso abraço. Ficaram naquela posição por um bom tempo, até que eles se recuperassem do impacto afetivo e descansassem do choro. Hana os colocou para dormir, cobrindo-os e beijando as pequeninas testas dos filhos e foi para o quarto com o marido.

(...)

Hana chegou sem avisar no final da tarde. Sua mãe estava sentada em sua cadeira de balanço na varanda da antiga casa, fazendo uma colcha de crochê. Ao ver a filha se aproximar, ela se levantou com dificuldade pelas dores no corpo, mas sem senti-las, mergulhada que estava na emoção do reencontro, e se esforçou para chegar até a filha - o máximo que seus frágeis ossos lhe permitiram. Mas Hana, deixando suas malas soltarem de suas mãos, até tombarem no chão de barro, foi em direção à mãe, correndo de braços abertos. As duas mulheres machucadas pela vida abraçaram-se com tal singular vibração que só amor entre a mãe e sua filha é capaz de explicar. Aquele instante sublime encurtara quilômetros de distância e quase dez anos de um tempo que separou as duas fisicamente, mas não em seus corações.

(...)

Sentada à beira de um rio, com os pés cruzados à altura dos tornozelos, Hana já havia trocado a exaltação pela calmaria. Não tinha mais do que temer. Encontrara sua mãe, seus filhos estavam aos cuidados de um pai generoso, atencioso e dedicado. Logo ele encontraria uma mulher igualmente carinhosa que cumpriria a função de mãe na educação de seus filhos. Sentia a falta de todos, assim como doía saber que os seus também levariam tempo para assimilarem sua partida. Mas a certeza que estavam todos bem direcionados na vida, que fizera um bom trabalho, confortava-a, mesmo que não plenamente.

Estava naquele lugar, pois a natureza da sua infância a havia chamado. Precisava se reconciliar com aquele lugar há muito tempo esquecido. Retornara à sua alma com tamanha vivacidade e júbilo íntimo, despertando uma sensação afetuosa como o afago de seus pais e irmãos. O sentimento era tão puro e acolhedor, que subitamente sentiu sonolência. Uma moleza prazerosa começou em seus pés e foi subindo lentamente até relaxar a sua face antes contraída por algumas preocupações.

Deixou seu corpo reclinar levemente até encostar-se à grama fresca com um tom claro de verde. Há muito tempo não sentia o cheiro do mato, não ouvia o som dos pássaros e das águas apressadas dos riachos. Com os dedos, cavou um buraco na terra e entrou em contato com a umidade juvenil do solo. Estava muito satisfeita em dialogar com sua natureza interior representada em cada sentido seu que contemplava a flora de sua terra natal, tocando-a. Fechou os olhos e se permitiu tatear todas as folhinhas em que seu corpo repousava. O cheiro do sol se pondo, misturado aos pinguinhos do riacho que pulavam em seu rosto quando as águas se encontravam com as pedras, compuseram fielmente o deleite daquele inesquecível momento.

Logo, suas preocupações se afastaram, seus pensamentos foram esvaziando até não mais assustá-la. Hana era puro sentir, era puro tato, olfato e audição. De olhos fechados, sem ver com os olhos carnais, absorvia o sabor das imagens de paz que presenteavam seu paladar. Serenamente Hana adormeceu. Não pensava em nada, não tinha dor. Só ouvia a cantoria das aves - saudando-a -, sentia o cheiro do mato, do rio, e o sabor da suave melodia que lhe acariciava como a pétala da flor que seu pai lhe ofereceu nos seus quinze anos.

Com o passar das horas, Hana se desapegou do seu ser. Hana não era mais Hana. Ela era cada gotinha do riacho que escorria por sua face em límpida placidez. Ela era a canção dos pássaros, o sabor da terra molhada e a textura verde da grama. Hana passou a ser apenas a sua natureza... E partiu serenamente.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Cai a Chuva

quarta-feira, 16 de novembro de 2011 1 comentários

Música: Kadu Paulino - Letra: Edison Gil

Contradição

sábado, 1 de outubro de 2011 22 comentários


































Ardo em contradição
Não sei o que falar
Não sei o que fazer
Eu só queria deixar de sofrer.

O coração no peito já não existe
É só a carcaça permanentemente a chorar
E nem Deus sabe como é triste
um corpo sem alma ter que alimentar.

Alimentar para sobreviver
Sobreviver por quê?
Se morrer é todo o meu desejo
Dentro do próprio viver?

De que adianta viver
de que adianta forçar um sorriso
se você já não está mais comigo?

Mas apesar de sofrido, doído, fodido
com uma força sinistra a apunhalar
meu coração, de amor, está a transbordar

E foi extamente esse amor que me matou
exatamente esse amor que faz
com que eu nem exista, de tanta dor!

Ardo em contradição
não sei o que pensar
não sei o que dizer
eu só queria de tudo poder esquecer.



Texto by Fiesta
Imagem by Nekranea




Infida Poesia

segunda-feira, 26 de setembro de 2011 1 comentários


Poema e edição: Edison Gil / Áudio e narração: José R. Assumpção

Esse poema é parte do livro: Psicotrópico

Beatitude.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011 5 comentários

O manto negro e felpudo dos deuses já cobria o céu. O véu da noite - esse exuberante disfarce - diluía a sensualidade na inocência. De tecido puído, sem um digno alfaiate para remendá-lo, os inúmeros furinhos - faróis oculares - iludem desavisados astrônomos. A luxúria se esconde na moral das mais nobres intenções. Logo, a vendada nudez do colorido - enegrecida pelas fendas secretas em que as estrelas espiam - cederá lugar ao espreguiçar dos primeiros raios de ressaca de um sol madrugado.

De luz morna pelos cílios enluarados, a calada manhã alçou voo nas espessas sobrancelhas da aurora. Com passos brejeiros, o dia não tem pressa de chegar. Pisca o olho de mansinho e desliza com graciosas sapatilhas de bailarina. Ao se ajeitar na silhueta sensual de perfumadas almofadas de cetim, a dama da manhã solta seu rechonchudo novelo de lã que, flanando, trança algodões de chuva.

Debruçada no tórax do amante, fagulhas introspectivas bordam as coxas úmidas. Secreções turvas em desatados ninhos gotejam dos largos poros e estreitas ranhuras. Superfícies crespas e rugosas, gérmen desnutrido por trás de convulsivas nucas. O fluxo corporal se afina pela correnteza do rio em chamas.

Já quase adormecido sobre os fartos seios - suavemente arredondados e esguios -, com os toques sedentos e famintos aliviando a secura dos lábios mal-amados, na concavidade sensual dos seios sedosos e ferinos, Hélio submerge na mata nativa e virginal. Ele se enrosca em seu pescoço como serpente contorcendo sua vítima, mas a fatalidade só se afoga plenamente em pequenas mortes anunciadas pelo espasmo anônimo. Colchas descosturadas em retalhos esquecidos. Desejos amassados por siderados grãos de areia. Ela se agasalha na densa pelugem de laminado brilho negro. Ele se revira, dobra-se pelo avesso e se sufoca no vale caudaloso das nádegas de Suzane. Lombadas macias lanhadas pela aspereza da barba por fazer. Ao toque horizontal da palma da mão, deslizando pela depressão suave das calotas aveludadas - reentrância que resguarda o veio do prazer -, a pele se granula pela violenta sensibilidade.

Enrijecida pelo gozo corrosivo, gemidos tônicos reverberam na acústica das narinas dilatadas por vaporosos suores. Grutas flamejantes. Grito surdo ecoando no calibre tênue das vísceras lambuzadas no pântano movediço. Espaços sucessivos como o tempo de engrenagem interrompida. Tempos simultâneos das batidas cardíacas. Amores subterrâneos, sem sacramento - pano de chão. Trapos empilhados, pratos quebrados, devassos se dão.

Hélio ouvia os sussurros da amada pela língua mordiscada por peçonhentas cascavéis. O som do chocalho, advertindo sobre os perigos lodaçais da embriaguez, vibrava nas carnes ardidas. Suzane tremula como bandeira no mastro de corsários destemidos e carniceiros. As fraturas expostas do orgasmo reordenam o universo num doce desequilíbrio e gotejam lágrimas de prazer nas inchadas brochuras do criado-mudo.

Seus corpos pasteurizados doam ao leito dos rios viscosa seiva na qual dourados e namorados, enlaçados pelas barbatanas - esses férteis nadadores - se lambuzam até chafurdarem nas fugidias salivas das bocas entreabertas. Nos semblantes contraídos, escamas e couraças borbulhando paixão viram presas fáceis no rasgão de flechas famintas.

Frágeis jardineiras de terra fofa regadas por suores e secretos líquidos do sexo, pulsando no ritmo de desordeiros redemoinhos. Nó cego de braços e pernas. Exaustos, Suzane e Hélio se entregam às profundas raízes do colchão molhado. Ofegantes, entreolham-se. As palavras lhe faltam. A goma de sílabas desbotadas escorre pelo sanguíneo fluxo de lantejoulas e paetês cutâneos. Humores fátuos congelados na linguagem orgânica. Flagelos exasperados de cicatrizes que bordejam o infinito.

Ainda espremida pelo último suspiro dos espasmos, Suzane, virando-se para o lado, contorce-se na posição fetal. Já Hélio, de abdômen estufado como se digerisse o vasto jantar, espalha-se na cama de barriga para cima. Esticou o braço, sem olhar, para o criado-mudo, em busca de sua carteira de cigarros para sorver os resíduos decadentes do orgasmo, mas não a encontrou. Por causa dos músculos que se demoravam numa tensa transpiração, derrubou as brochuras que assistiam em silêncio a dramaturgia corporal, deixando as marcas de suor - não sabia se as de Suzane ou as suas - nas capas amarrotadas.

Suzane se retirou do êxtase quando uma leve coceira subiu de fininho do púbis, contornando a suave curva da cintura e se depositando em suas axilas encharcadas de libido. Ela levou a mão à virilha e pinçou com as pontas dos dedos alguns pelos molhados que do corpo de seu amante, agora lhe pertenciam. Pegou uma toalha que estava embolada embaixo de sua cabeça, servindo de travesseiro, enxugou o corpo de Hélio, priorizando o órgão já detumescido que antes fora completamente seu. Mas num ímpeto irresistível, enquanto sentia suas próprias pulsações refletidas no corpo do amado, Suzane pulou sobre Hélio, esfregando seus glúteos túrgidos em suas descontraídas coxas. Comprimindo-se em seu tórax e acariciando seus ombros úmidos pelo suor da moça, Suzane abençoou o tronco de Hélio com a água santa de seu sexo e contemplou os lábios masculinos com o biquinho em riste dos incandescentes seios de fêmea.

Após o segundo tempo do frenesi, os dois subitamente apagaram - desmaiaram em quatro braços. Suzane enroscada no corpo de Hélio como saudosa serpentina na quarta-feira de cinzas. Ele, no mesmo lugar em que estava desde o êxtase final do primeiro tempo - em decúbito dorsal -, mesmo com a mulher aninhada em seu tronco, ressonava pacificamente como os justos dormem, sem culpas e pecados.

O entardecer se avoluma nas cores cítricas e ensaboadas pela pureza ardente da alma. Cães atordoados farejam o cio fleumático da vulgaridade milagrosa e beata. As gotas resistentes do desejo que ainda brotam na epiderme inflamada da volúpia, são drenadas pela ebulição da noite ou rompem o silêncio rasteiro em busca de ralo ou bueiro para se integrarem aos restos de outros casais. Suzane e Hélio atravessam a noite.

Ainda refestelado e espaçoso, sonhando com delícias edênicas, Hélio reluta em sair da cama. Suzane, com leveza, ergue o seu braço que já estava formigando sobre o peito de Hélio. Estala a língua no céu da boca - a saliva endurecida a impedia de abri-la. Com os lábios ressecados, a sensação de sede a impele a abandonar o corpo do amado para se dirigir à cozinha e pegar um copo com água.

Quando os dois já haviam se espreguiçado, alongado os músculos, finalmente se levantam. Vão tomar um revigorante banho. Embebem a esponja com sabonete líquido e massageiam um ao outro - não com a explosão erótica que os dominou no dia anterior, mas com uma fraternal cumplicidade. Ambos nus, agora com a água suave correndo pelo relevo corporal, em nada se assemelham ao conjunto de trilhas e dobras por onde as trombas d’água se arrebentavam no peito desejante das núpcias.

Após o banho, secaram-se e se vestiram. Voltaram ao quarto para arrumá-lo, deixando apenas os vestígios invisíveis da memória. Eles sentaram enviesados na cama, um de frente para o outro - com o joelho esquerdo de Hélio roçando no direito de Suzane - espicharam os braços e deram as mãos, permanecendo ainda por alguns instantes se entreolhando. Tentavam recuperar suas identidades sociais para mais um dia útil que se contrastava com a inutilidade do puro fluxo e fruição.

Cada um se via na superfície espelhada dos olhos do outro. Nesse delicado gesto, tentaram se reconhecer no reflexo ocular. Hélio se via nos olhos de Suzane, mas de alguma forma sabia que não se tratava de sua imagem em miniatura. Ele habitava o interior de Suzane. Seus olhos eram as janelas pelas quais espia a si ao contemplar Suzane. Ele se esforça para apreender o olhar de Suzane, mas quanto mais se inclina, já quase no limite para naufragar naquele mar sem fundo e sem fim, mais é olhado por sua própria imagem que o engolia nos olhos de Suzane.

Suzane não resistiu ao ver aqueles olhos siderados em desejo e se aproximou para beijá-los. Em contato com os lábios da amada, instintivamente as pálpebras se fecharam, e ela saboreou uma gota órfã de suor que se escondia nos cílios de Hélio. Com o sol já no centro de suas cabeças, acusando meio-dia, os dois pulsaram eternamente num tempo que rompia a convenção do mundo.


Conto Escrito por Alex Azevedo Dias.

A Linguagem do Coração.

terça-feira, 20 de setembro de 2011 4 comentários










Em seu leito de morte, Benedito suspirava de saudades. Esperava que alguém que considerava especial fosse visitá-lo antes de sua partida. Mesmo moribundo, fazia um enorme sacrifício para ser entendido. Raramente era compreendido, por isso, concentrava-se na imagem de quem desejava que fosse visitá-lo, rezava o terço, pedia fervorosamente, mas nem sinal da pessoa que ele precisava ver. A afasia o impedia de se comunicar verbalmente. Articulava os lábios, mas não emitia nenhum som.

Nos horários de visita, quando seus familiares - já cansados da rotina do hospital - se aproximavam do seu leito, mesmo os que se achavam entendidos de leitura labial, não conseguiam decodificar o que Benedito queria falar afinal de contas. Uma vez ofereceram uma prancheta com papel e caneta para que ele escrevesse, mas sua alfabetização não lhe permitia uma boa caligrafia, o que, além de sua condição enferma, tinha como resultado uma letra ilegível.

Desde que ficara acamado, por causa de uma isquemia cerebral, Benedito se submeteu à incomunicabilidade. Ouvia com perfeição, mas perdera o dom da voz. Os médicos o desenganaram, afirmando que tal quadro era irreversível. Por sua coordenação motora também estar comprometida, muitos se aproximavam dele com resistência em tocá-lo, pois talvez o considerassem abobalhado. Sua fisionomia ficara rígida e sem plástica facial, o que deixava suas feições transfiguradas toda vez que reconhecia alguma pessoa na hora da visita - pelo simples esforço para cumprimentá-la.

Seus amigos e familiares eram cuidadosos e carinhosos, mas eles não agiam com naturalidade em sua presença. Até as inúmeras discussões - coisa que antes era frequente - haviam desaparecido por completo. A sensação de mascaramento e artificialidade pairava no semblante de seus congêneres. Benedito sentia que se fosse tratado por estranhos seria mais familiar do que seus próprios familiares, pois a família foi coberta por uma capa de invisibilidade e estranheza.

Mas Benedito até se conformava com a mudança no ambiente familiar, pois sabia do inconveniente de tal situação quando a realidade afetiva não corresponde com a materialidade dos fatos. O que realmente o inquietava era a ausência da enigmática pessoa que seria imprescindível para apaziguar a aflição de Benedito. Há tempos que ele não o via. Já muito antes de adoecer haviam perdido o contato. Houve uma ocasião em que mudara de endereço e, a partir daí, o paradeiro de ambos ficou sem pistas e referências.

Até as enfermeiras se mobilizaram para a resolução do mistério sobre quem seria a pessoa que Benedito tanto desejava ver. Compadecidas com sua agonia, elas se reuniram com a direção do hospital solicitando o levantamento do histórico de Benedito. Receberam autorização, e para além das meras informações técnicas do seu prontuário, marcaram entrevistas com as pessoas mais íntimas da convivência do paciente que virou mártir das causas perdidas.

Descobriram que ele era solteirão e que não tinha filhos. Pouco era flagrado em algum relacionamento amoroso. Como estava aposentado, quase não saía de casa e só algumas vezes ao mês se encontrava com velhos amigos para jogar xadrez num campo perto de sua residência. Esses amigos não souberam informar se ele estava envolvido sentimentalmente com alguma mulher, mas puderam garantir que não tinha namorada e que nunca se casara.

Mesmo suspeitando que pudesse ser uma mulher pela qual havia se apaixonado - mantendo o relacionamento escondido dos amigos -, logo essa hipótese foi descartada, pois não seria concebível que ela soubesse do ocorrido e não se prontificasse em visitar o amado Benedito. A não ser que fosse comprometida e evitasse exposição, ou que talvez estivesse viajando para algum lugar longínquo, fora do alcance das notícias, ou ainda que tivessem rompido por alguma fatalidade grave e desconhecida.

Mas a questão é que mesmo pela boa vontade quase misericordiosa da equipe de enfermagem para amenizar o sofrimento de Benedito, ele continuava sentindo falta da presença de quem precisava muito ver. Conversando com a família, as enfermeiras souberam que ele ajudava financeiramente um irmão que não trabalhava por ser portador de necessidades especiais. Diziam que Benedito tinha tanto cuidado e afetuosidade a esse irmão como se fosse um autêntico filho. Num primeiro instante, logo que souberam da existência desse irmão, as enfermeiras, muito esperançosas, acreditaram que o caso se encaminhava para a solução final.

Porém, não contaram com uma informação crucial: Esse irmão, cadeirante, era levado semanalmente para visitar Benedito. Ele se emocionava quando esse irmão ficava ao seu lado no hospital, demonstrando contentamento e alegria. Ainda assim a agonia e amargura pela falta desse alguém que até então não fora visitá-lo, prolongava-se de modo intacto - com a mesma intensidade de antes, sem em nada reduzir-se no semblante aflito do paciente.

A equipe do hospital já estava prestes a se desincumbir da missão salvadora, quando um homem elegante, de estatura mediana, com blandícia no olhar, usando terno surrado, cartola e bengala, aproximou-se do leito de Benedito. Ao vê-lo, sua tensão de desanuviou e eles ficaram imóveis, apenas se entreolhando com ternura e meiguice. Parecia que eles se compreendiam plenamente sem precisarem da tão cara linguagem verbal.

Perplexas e surpresas com a espontânea e inesperada aparição, as enfermeiras apenas seguiram-nos com o olhar, numa silenciosa cumplicidade. Inerente à intimidade de qualquer ser humano, elas puderam identificar que em tal inusitado encontro se condensava um vínculo transcendente, para além de qualquer possibilidade de explicação racional.

O homem retirou o paletó e a cartola, depositando-os num cabideiro ao lado do aparelho que monitorava os batimentos cardíacos do paciente. Inclinou-se sobre o leito e apertou o braço direito de Benedito, segurando-o com as duas mãos. Logo depois se abaixou e pegou uma maleta de couro. Apoiou-a na mesinha abaixo do monitor - com umas flores em um vasinho de cerâmica improvisado, certamente colocado pela família para colorir a morbidez hospitalar - abriu a maleta e retirou um objeto volumoso. Estendeu os braços e o entregou a Benedito.

Com os olhos iluminados por uma cândida leveza infantil, o paciente suspirou fundo e abraçou o objeto lúdico de outrora. Estava envolto em atmosfera pacífica, na típica paz de quem se deixou absorver pela benéfica regressão aos tempos de sincera meninice. As enfermeiras descongelaram a paralisia de suas feições, devido à presença sideral do forasteiro, e logo conseguiram se aproximar daquele obscuro homem, perguntando o seu nome. Ele não respondeu, ignorou-as, nem se moveu pelo som de suas palavras - parecia que não as ouvia. Então repetiram a mesma pergunta diversas vezes.

Constrangidas pelo homem que nem sequer se virava para a direção delas ao ser chamado - ficando como se não existissem -, recuaram e não mais perguntaram nada. Pensaram melhor e perceberam que deveriam respeitar o momento singular que não lhes pertencia, pois não cabia a mais ninguém além dos exclusivos sentimentos de seu paciente Benedito.

Após os prolongados instantes nos quais ele permaneceu abraçado ao objeto, as curiosas enfermeiras que haviam se distanciado do evento mas ainda assim não deixavam de acompanhar o desenrolar da situação, deram-se conta que o objeto se tratava apenas de um bichinho de pelúcia. Elas ficaram intrigadas com o que acabaram de descobrir. Interrogavam-se mentalmente sobre a utilidade de um bichinho de pelúcia na vida daquele paciente idoso, que já se despedia do mundo. Enquanto não obtinham respostas, Benedito se demorava com o brinquedo seguro pelo braço esquerdo dobrado contra o peito, e mantendo a mão direita firmemente apertada no braço do homem que ainda se encontrava de pé ao lado do seu leito, contemplando-o placidamente.

Depois de longa espera para que aquela história se encaixasse na apelativa razão das enfermeiras, elas avistaram uma senhora muito polida que acabara de entrar no CTI. Ela cumprimenta o misterioso homem, tocando-o no ombro, faz um rápido afago em Benedito, vai até as enfermeiras e começa a contar o que estava se passando.

- Vocês querem saber o que está acontecendo... - Afirma ponderadamente a senhora.

- Pois bem... Soube que vocês muito se empenharam para ajudar esse paciente que nada é de suas famílias. Isso é louvável na profissão de vocês e merecem pelo menos uma satisfação minha sobre o que estão presenciando.

Diante da assombrada quietude das funcionárias do hospital, a senhora se apresentou: - Eu me chamo Leonor e sou casada com esse homem que fez tanta falta ao Benedito.

Continuou: - Meu marido é psicanalista. Quando ele ficou surdo por causa de uma doença hereditária, recusou-se terminantemente a exercer a função clínica. Dizia que a escuta é a única ferramenta de trabalho do psicanalista, e sem ela, teria que reconhecer a sua incapacidade para sustentar o ofício. Já mergulhado em profunda depressão, passava horas em seu consultório vazio - sem atender ninguém - apenas debruçado sobre uma mesinha de anotações, lendo alguns livros, ou apenas olhando o relógio mexer os ponteiros. Foi numa dessas vezes em que esteve sozinho em seu consultório, já tendo inclusive dispensado sua secretária, que Benedito bateu à porta. Ele chegou desavisado, achando que o psicanalista ainda estivesse em atividade profissional. Mas por coincidência, encontrou-o em sua sala.

Benedito tocou a campainha e bateu à porta, mas ninguém foi atendê-lo. Seus serviços competentes foram indicados por seu psiquiatra que considerava anormal a saudade que Benedito sentia de sua infância. Tentou ministrar vários remédios, esgotando seu receituário e não obtendo nenhum sucesso. Sentindo-se derrotado, o psiquiatra resolveu encaminhar Benedito a um psicanalista de sua confiança.

Por já ter ligado diversas vezes, deixando mensagens em sua caixa postal pedindo retorno da ligação, Benedito pesquisou o endereço do psicanalista e foi à sua sala sem hora marcada. Chegando lá parecia que não tinha ninguém, pois não atendiam à porta. Quando já estava indo embora, antes teve um impulso de verificar a maçaneta. Para sua surpresa, a porta estava destrancada. Ele entrou timidamente e deu de cara com o analista sentado em frente a uma escrivaninha sobre a qual apoiava os cotovelos. Chamou-o pelo nome, mas não obteve nenhuma resposta. Chegou perto dele e o tocou. O psicanalista, disfarçando o susto, levantou a cabeça e se surpreendeu com a presença de Benedito ao seu lado.

Incomodado com aquele encontro, o psicanalista tentou falar. Mas por estar afetado com um possível paciente que o buscava naquele momento tão delicado, não teve palavras para expressar sua condição, e apenas emitiu alguns sons desarticulados. Sem entender, Benedito colocou sua mão no ombro do analista. Ele então apontou o dedo para o ouvido e escreveu: “Estou completamente surdo”.

Logo que se viram, aqueles dois homens se submeterem inexplicavelmente a um vínculo afetuoso. Benedito escreveu para o analista que mesmo sabendo de sua condição que impossibilitava uma conversa verbal, queria se tratar com ele. A manifestação desse desejo comoveu o analista de tal maneira que ele aceitou o desafio. Durante o tempo da análise, Benedito não sentiu necessidade de se comunicar com palavras - e não era só pela falta de audição de seu analista, mas uma correspondência real e concreta se estabeleceu entre ambos sem que o verbo se impusesse como a única verdade do entendimento humano.

Como o motivo da procura por análise era a grande saudade da infância, em cada sessão, Benedito levava alguns brinquedos da época de criança que guardava em seu quarto. Cada vez contava uma história que estava intimamente associada àquele brinquedo. Os objetos funcionavam como suportes de suas palavras. Ele sabia que o analista não conseguiu ouvir nenhuma frase que dizia, mas também tinha certeza que mesmo totalmente surdo, o analista o escutava muito bem. Benedito se sentia acolhido e compreendido por seu analista.

Depois de certo tempo frequentando regularmente o analista, conseguiu elaborar a saudade da infância até se dar conta que não mais sentia nenhuma falta dos tempos de criança. Pôde voltar ao trabalho que havia interrompido pelas lembranças saudosistas e retomou a normalidade de sua vida. Concordou em se desfazer de todos os seus brinquedos, doando-os a uma instituição de caridade e a um orfanato. Só não se desfez de um brinquedo apenas.

A única demanda que Benedito endereçou ao seu generoso analista, como gesto derradeiro que simbolizaria o final da análise, foi que ele guardasse em seu consultório, um singelo ursinho de pelúcia - o primeiro brinquedo que ganhara de presente de seu pai logo depois do seu nascimento. O analista aceitou prontamente. Benedito renasceu para a vida. Os dois homens se cumprimentaram, ambos com lágrimas nos olhos e se despediram. A partir daí, Benedito se mudou para outra cidade, bem distante de sua antiga morada, e nunca mais soube notícias do seu abnegado analista. Benedito ficou curado e, sem saber, curou a depressão do seu analista por confiar nele apesar de sua deficiência.

(...)

A esposa do psicanalista - após relatar sua história - finalmente se calou e um afetuoso silêncio se apoderou do ambiente hospitalar. Os dois permaneceram de mãos dadas, olhando-se ternamente, com um leve sorriso nos lábios. Debaixo do braço esquerdo, contra o peito, Benedito continuava com o bichinho de pelúcia. Ele se ajeitou no leito e suspendeu o corpo. O velho analista dobrou os joelhos e se escorou na grade do leito de Benedito, de modo que os rostos dos dois ficassem nivelados na mesma altura. Nesse instante, a esposa do analista e toda a equipe do hospital testemunharam um “obrigado” dito simultaneamente pelos dois homens. Eles não disseram nenhuma palavra, mas todos puderam jurar que escutaram o agradecimento mútuo falado pela silenciosa linguagem do coração.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Amor em Outra.

terça-feira, 9 de agosto de 2011 9 comentários











Ela me pegou pela mão. Puxou-me com delicadeza para a área gramada - um extenso espaço entre os prédios da faculdade. Notando o meu semblante infantil, tripudiou de minha inexperiência com um sorriso malicioso. Quis agarrar-me a ela. Seu corpo desvaneceu. Pensei tê-la perdido. Enquanto eu permanecia na borda do canteiro, hesitante, ela reapareceu dançando entre as árvores. Com um chamado doce, posicionando levemente a palma da mão nos lábios contraídos, exalou aquele sopro aromático que me tirou da inércia extasiada. Fui com ela.

Exercendo uma vocação nínfica, saltando e cantando, seduzindo sem se aproximar, afastando para tocar, convidou-me para vê-la em ato. Novamente me pegou pela mão e me levou até um fino banquinho armado entre dois troncos espessos. Pediu-me para que sentasse na grama, aos seus pés. beliscou-me o queixo devagar. Fiquei lá, inebriado pelo que nela ainda não vivia, por uma promessa ondulando no ar. Ela me fez recuar. Ainda sentado eu a vi dar um impulso, segurando nas cordas do que talvez fora um balanço. Apoiando-se nos troncos, deu um salto certeiro. Ficou de pé sobre o banquinho.

Cantou, cantou, cantou... Insinuava se esconder, deixando entrever apenas o mínimo do seu corpo. Tinha prazer em me enganar. Mas talvez se escondesse de si, não de mim. Quanto menos eu a via, mais eu a sentia, mais eu a possuía. As partes do seu corpo que se alternavam, mostrando-me na fantasia o que não podia ser visto - ela toda - causavam em mim um medo súbito, regado pela estridente paixão que se acercava de minha pele infantil. Já era um homem, crescido, mas não adulto. Sentia-me inocente diante do feitiço feminino. No jogo da presença e ausência, não havia opção, fatalmente perderia. Não havia mais nada a ser visto além dela - seu corpo nu, apesar de bem vestido.

Não tive outra reação além de contemplá-la. Aquilo me invadia, me tensionava, me atraía. Estava submetido à mágica aparição que desaparecia num piscar de olhos, para se deslocar e reaparecer em outro lugar - meus afetos e desafetos. Ela bailava, esvaía, ricocheteava e eu, reprimia. Ela articulada, gozando de minha demora em despertar. Eu embasbacado, de queixo caído, engessado, vendo-a levitar.

Canções, interpretações, um repertório sem fim. Dançava para uma platéia de cegos, reduzida ao único afeto que a mobilizava mais e mais: O meu assombro. Ao resvalar no meu olhar tímido, erógeno e pueril, ela se enterneceu. Subitamente estancou os passos da dança, aos quais se entregara. Inclinou-se para melhor me enquadrar em sua visão bucólica, e voltou a se sentar no banquinho entre as árvores. Contemplou a paisagem da baía. O espetáculo do pôr do sol, que concentrava multidões - gazeadores de aula - para lhe assistir, ainda demoraria. Tínhamos muito tempo sozinhos.

Ela esticou os braços, espreguiçando-os, e laçou os dois troncos por trás, simultaneamente, com os pulsos ligeiramente amolecidos e preguiçosos. Jogou o corpo como se fosse se balançar, e espichou as pernas nuas, cruzando os pés na altura dos tornozelos. Esses sutis movimentos retraíram sua pequena saia de seda, concedendo um pouco mais a visão de suas bem modeladas coxas ao desejo fugaz que se expandia em luzes contidas pelo gramado orvalhado.

O vento mudou de direção. Roubou algumas folhas que giraram em redemoinho. Seus cabelos esvoaçaram, livres. Ela me contava algumas histórias. Era sua vida confidenciada ao estranho imaturo. Não estava preparado para ouvi-las. Quanto mais falava, mais me permitia ser levado com as folhas aos ventos. Repetia a violência radiante da natureza. Eu queria ouvir tudo. Não queria perder nada, nenhuma palavra que me era segredada. Uma força desconhecida, um desejo, me impelia a ficar, a beber e saborear suas histórias de mulher com meus ouvidos de moleque.

Após muito me maltratar, entregando-me ao deleite em sua companhia, saiu em disparada. Despediu-se rapidamente. Disse, virando-se para trás, em direção a minha distante presença cada vez menor, que voltaria. Quem sabe um esbarrão aqui ou acolá? Mas ela não mais voltou. Não mais nos vimos. Só a sua lembrança - o que dela me pertencia - um pouco embaçada e iludida, admito!, insistiu em não se despedir. Minha memória, responsável por esculpir belezas indescritíveis em sua ausência, cravou um prego solitário e agônico na madeira de lei do meu coração.

Muito tempo se passou. Eu abandonara a peraltice envergonhada com a qual eu a conhecera. Um pouco mais adulto, por que não? Já estava terminando a faculdade. Ela ressurgiu. Parecia um pouco mais criança. Já eu, adulto. Nossos lugares se inverteram. Aqueles anos foram suficientes para que me tornasse homem, embora pouco tivesse envelhecido. Nos esbarramos, como prenunciou antes de partir. Ficamos frente a frente. Nos encaramos. Depois sorrimos. Nos demos as mãos. Eu estava confiante. Mesmo que a idade cronológica denunciasse realidade diversa, eu estava mais velho do que ela.

Com a condição que se impôs, namoramos. Aquele calor de todo início de relação... Independente do amadurecimento, regredíamos. Viramos dois adolescentes, como se fosse a primeira paixão. E era, apesar de já sermos experientes. Quando, desamparada, ela procurou o conforto e a segurança em meu peito, fora inesquecível. A primeira vez que meu corpo servira de aconchego para seus medos e privações. Mas era tão difícil nos entregarmos totalmente, dizermos que nos amávamos... Nós dois. Só Deus sabe o quanto ficamos tímidos para expressar as três palavrinhas mágicas: "Eu te amo". Criávamos mil artifícios para dizê-las sem que disséssemos nada. Ou talvez sem dizer nada, era aí que mais dizíamos.

Quando conseguimos falar, quando não tivemos mais medo de nos machucarmos, quando o passado já não mais se apresentou como fantasmas a serem comparados com a atualidade, pudemos nos entregar plenamente. Nada mais existia ao nosso redor. Só nós dois. Seguimos assim, nos amando, por um longo tempo. Mas a fatalidade de que éramos dois, e não um, bateu à porta com a ira de quem descumprira o mandamento da descontinuidade entre as criaturas. Os desejos assimétricos, que antes nos uniram, revelaram-se maquiavélicos. Uma prudência que nada mais se animava para reinventar. Desmorecemos. Fomos nos apagando, nos perdendo.

Até que a luz sumiu definitivamente. E, no escuro, só podia me apalpar. Senti-la em mim. Após o rompimento, ainda nos vimos mais algumas vezes. Tentamos reacender a chama. Tentamos resgatar a paixão. E ela, a paixão, deu as caras em alguns instantes, não vou negar!, mas quanto mais eu a tocava, menos a sentia. Ela não estava mais nela. Ela se transferiu para mim, internalizou-se. "Ela não estava mais nela", que coisa estranha!, mas era verdade. Talvez tenha se desmaterializado. Ganhou vida própria, independente de um corpo. Estava em mim. Só em mim. Só, em mim.

Na minha ânsia em encontrar alguma justificação para o injustificável, pensei no latim - uma língua morta. Assim como o meu amor já não mais habitava o corpo do meu amor - a saudade que eu sentia dela não se realizava em sua presença - o latim já não mais existia no próprio latim. O latim se disseminara como uma entidade invisível, fertilizando a maioria dos idiomas vivos do nosso velho e novo mundos. Era isso! Ela e o latim. Duas entidades mortas que criavam vida, a raiz do vocabulário latino, da gramática do amor que jamais apontaria para um lugar comum, pois estaria sempre em outro lugar - distante ou perto, não importa mais.

Tentamos nos ver mais e mais. Tentativas frustradas. Quanto mais a via, menos ela existia para mim. Quanto menos a via, mais seu afeto se fortalecia dentro de mim. Eu a amava em silêncio. Eu a amava em sua ausência. Eu a odiava em sua presença. Como eu não queria apagá-la de minha vida - pois ela já estava mergulhada em mim - não mais a vi. Deixei que seu fluido me dominasse. Ela é o latim. Uma língua morta. Mas responsável por fecundar as riquezas do francês, do espanhol, do português, do italiano... Eu a amo. Eu não a amo. Eu só a amo quando não estou com ela. Uma condenação. Eu só a vejo... em outra. Eu só a sinto... em outra. Ela mesma... nunca mais.


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Partido.

sábado, 23 de julho de 2011 0 comentários













Passou a mão no peito e suspirou. Não era a primeira vez que estava apaixonada. Sabia de todas as mazelas do término de um amor por experiência própria. Não queria sofrer novamente. Jamais. Já havia tomado uma potente vacina contra as consequências do amor não correspondido ou abruptamente rompido sem a menor explicação. Mas apesar disso, a imunidade não alcançava aquele órgão pulsante sobre o qual Pascal afirmou ser o portador de razões além da razão humana.

Opondo-se a suas amigas alienadas, que repetiam sucessivamente uma determinada condição da qual tinham ojeriza, sem que pudessem admitir suas escolhas, Débora era consciente de seus atos. Não duvidava de sua condenação aos amores e desamores. Nunca se imaginou vitimada por estranhas forças sobre as quais não exercia nenhum domínio. A única coisa que Débora não conhecia era o motivo dessa incapacidade de acertar no que verdadeiramente queria. Quando um novo amor surgia, ela possuía a certeza que tudo, mais cedo ou mais tarde, ruiria. Acabaria tragicamente como em todas as outras vezes.

No início, chorava com amargura pelos cantos da casa, sendo consolada por uma amiga que também fracassava em matéria de coração. Com a diferença que a amiga acreditava que eram os homens que não prestavam. Débora não se submetia à repetição do fracasso. Não porque ela descobrira uma forma de interromper essa sina repetitiva - pois recusava a ingenuidade das amigas -, mas porque não queria perder a exclusividade como causadora de suas desgraças afetivas.

Contrariando expectativas, a continuação dos fracassos não possibilitou que Débora adquirisse maior aprendizado da vida. Seus erros não produziam acertos. Numa lógica primária, quanto mais errava, apenas errava ainda mais. No seu caso, o erro só levava a maiores sofisticações do próprio erro. Errava de maneira cada vez mais elaborava. Na primeira vez, um namorado a deixara numa longa conversa a luz de velas num restaurante elegante da cidade. Ele a havia convidado para jantar, preparou os maîtres para a situação, decorou e ornamentou aquele encontro, também levando flores e uma caixinha de bombons. Débora não se conformou ao ser informada que seu namoro chegara ao fim. A delicadeza e cortesia do rapaz em dizer o sonoro "não!", a sensibilizou. Pelo menos teve a oportunidade de xingá-lo e estragar o clima romântico. Aquilo lhe fez um bem enorme. Havia ridicularizado-o na frente de todos daquele restaurante chique. Perdeu o namorado, mas não perdeu a dignidade.

Só que já na segunda vez que perdeu um amor, o rapaz nem se preocupou em organizar um evento para lhe dar a notícia. Ele simplesmente chegou à sua casa - sem levar nenhum mimo -, segurou suas mãos, pediu que sentasse com ele na mesma cama que fora palco de noites memoráveis, olhou fundo nos seus olhos e disse: "Está tudo acabado". Só isso. Diante da revolta de Débora, ele apenas virou as costas com uma relutante lágrima nos olhos que insistia em ficar presa nos cílios, e foi embora para sempre.

Já o rapaz do terceiro namoro, terminou com ela sem nem ao menos olhar em seus olhos. Ele terminou por telefone. Fez uma única ligação e, revelando um pouco de constrangimento, despejou suas verdades insipientes, rompendo de modo frio e distante. Débora tentou ligar para ele diversas vezes, mas não atendia seus telefonemas. Ela chorou, mas demorou menos para se conformar. O quarto rompimento foi por e-mail. O rapaz lhe enviou uma mensagem sucinta justificando seus motivos, sem nem ter dado aviso prévio, e desapareceu. O quinto então nem se fala. Depois de uma noite quente de amor, ele nunca mais deu as caras. Ele a riscou do mapa sem nenhum e-mailzinho.

E os rompimentos foram aumentando e evoluindo em termos de sofisticação. Nesse caso, a palavra "sofisticação" não se refere ao complexo e ao mais bem elaborado. Muito pelo contrário. Caso fosse assim, o primeiro, o do jantar de velas, seria o mais sofisticado. Mas essa palavra tem a ver com a escala decrescente. Significa que com o passar do tempo, Débora testemunha - sem ser vítima, ela sabia muito bem - uma maneira de romper o relacionamento cada vez mais líquida e evasiva. Então, ela só pôde compreender que se os caras a largavam sem nem participarem de uma conversinha sequer, a sofisticação em expulsá-los inconscientemente só poderia estar do lado dela. Era ela, e mais ninguém, a responsável por acabar com seus amores. Mas qual seria seu requinte de crueldade? - Ela avaliava. Será que mordia? Mas mordiscar incrementava o sexo, levando-os a excitações que não estavam no gibi. Não sabia a causa. Só sabia que a causa estava nela.

Débora passou um tempo sem arranjar namorado. Apenas saía com as amigas e se divertia em animadas conversas regadas com muita cerveja. Até que um dia reencontrou seu primeiro namorado - o que terminou com ela a luz de velas. Ele tinha se casado com outra mulher e o casamento não ia bem das pernas. Disse que desde que romperam, ele sentia sua falta. Nunca mais sentira prazer com nenhuma mulher do mesmo jeito que sentia com Débora. Ele a abraçou na frente das amigas - já alterado pela bebida, pois também bebia com amigos na mesa ao lado -, deitou a cabeça em seu colo, chorando. Débora ficou comovida com aquele gesto suplicante. Ele levantou a cabeça e tentou beijá-la. Ela recuou, colocando as mãos espalmadas em seu rosto, como um sinal para que se afastasse. Ele então subiu na cadeira e gritou que a amava. Débora o fez descer e o conduziu em silêncio até uma mesinha reservada na parte de trás do bar. Sentaram-se. Ele em prantos, soluçando, pegou suas mãos entre os copos da mesa e disse que não viveria mais sem ela. Débora ouviu tudo sem dizer nenhuma palavra.

Enquanto o rapaz discursava em absoluta aflição, Débora teve um lampejo de verdade. Aquele homem se debulhando em lágrimas só podia significar uma coisa: Eles terminavam com ela porque se sentiam impotentes para assumirem que só ela seria o amor de suas vidas. Ela se recriminou esse tempo todo à toa. A solução sempre fora objetiva. Débora continuava, em silêncio, sendo iluminada pela razão. O rapaz, chorando copiosamente, deu um tapa na mesa, agarrou os ombros de Débora, olhando profundamente em seus olhos e começou a repetir sem parar que não vive sem ela de jeito nenhum. Ela disse que compreendia perfeitamente, e esboçou um sorriso. Disse que ficasse calmo, pois ela estava entendendo tudo.

Não tinha mais nenhuma dúvida sobre a missão para a qual fora eleita: Débora era uma deusa reprimida num corpo de mulher que causava o amor dos homens e os enlouquecia. Eles rompiam com ela por não mais poderem viver com tanto amor. Não eram capazes de revelarem seus segredos. A linguagem não era suficiente para traduzir tal excessivo sentimento. Só seu primeiro namorado, em desespero, pôde sintetizar e transmitir-lhe sua aflição. Débora sabia o que tinha que fazer. Ele não poderia viver sem ela, e ela não poderia viver com ele. A solução para que ele encontrasse a paz estava por vir.

Débora abriu a bolsa em seu colo. Pegou um objeto pontiagudo. Olhou fixamente para o rapaz em franca aflição. Com uma das mãos acariciou o rosto daquele homem que era seu primeiro namorado. Tentou acalmá-lo com afagos. Foi aí que, com um movimento brusco, levou a mão com o objeto ao pescoço do rapaz, e massageou-o com as pontas dos dedos. Imediatamente, ainda com o pescoço seguro entre o polegar e o indicador, beliscando-o levemente, deixou cair o objeto sobre a mesa. Ele parou de chorar, olhou em direção ao objeto e se surpreendeu com um porta-retratos em formato de batom, contendo a fotografia de Débora. Ela sabia que com a sua foto ele jamais sentiria sua falta. Deixaria na cabeceira de sua cama. Quando sentisse saudades, abraçaria o porta-retratos e ficaria em paz. Débora se levantou convicta, deixou o rapaz quieto sentado à mesa, e foi beber com suas amigas. Já se passara muito tempo que estava ausente. Não poderia abandoná-las - além de estar com muita sede... de cerveja... é claro!


CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Alegria na Cara.

quinta-feira, 21 de julho de 2011 1 comentários











Valter se segurava para não ceder ao irresistível impulso de virar a mão na cara de alguém. Não suportava mais o acúmulo de tensão pela vontade reprimida de distribuir pancadas a torto e a direito. Tentou puxar da memória alguma pessoa que lhe causasse aversão. Não achou nenhuma. Todos eram seus amigos, lamentavelmente amigos. E isso era o pior de tudo. Sua cabeça parecia oca, sem lembranças de desafetos para alimentar sua ira. Era bastante consciente que não se irritava facilmente. A vontade de espancar as pessoas não era motivada pelo humor explosivo ou revoltado. Valter sempre foi muito calmo e de bem com a vida. O desejo de quebrar algumas cabeças não excluía seu temperamento alto-astral.

Palavras amigas de reconforto, gentileza e solidariedade jamais faltaram no vocabulário de Valter para que as ofertasse aos amigos nos momentos mais difíceis. E a recíproca era mais do que verdadeira. Quando passava por apertos, sejam emocionais ou financeiros, seus amigos sempre se dispunham a ajudá-lo prontamente, sem que precisassem pensar duas vezes. Tinha muitos amigos e nenhum inimigo. Nada o tirava do sério. Jamais se aborrecia. Sua sensibilidade para a alegria funcionava como antenas para boas companhias, atraindo todo tipo de gente que se deliciava com suas história e bom humor.

Para Valter, nunca o clima esquentava. Não havia mal tempo. Sua alegria contagiava até os vitimados pela baixa autoestima. Embora continuasse distribuindo sorrisos - e isso não era nem um pouco cansativo -, ele queria inovar, acrescentar mais possibilidades à sua vida. Valter queria distribuir socos e pontapés a todos ao seu redor. Quanta satisfação teria se pudesse aleijar alguns narizes! Ele acreditava que se realizasse seu desejo de espancamento, certamente seria um homem completo. Não seria mais alegre do que já era, pois sua alegria já chegara ao máximo que um ser humano pode sentir. Mas tinha plena convicção de que produzir hematomas no meio da cara das pessoas representaria a glória plena na Terra. Pensou, pensou, e não chegou a lugar nenhum. Por mais esforço que fizesse não era capaz de extrair a mínima desavença em sua história que justificasse um ato agressivo de sua parte. A felicidade generalizada fazia-o malograr em sua nobre intenção de amassar umas cacholas.

Diziam que Valter possuía excepcional poder persuasivo. Confiante nesse dom, começou a elaborar um plano para convencer os seus amigos que levar pancadas sem renunciar a paz interior, significaria a aquisição da maior das virtudes: A Bem-Aventurança. Ao colocar em prática seu teorema, enfrentou a resistência pacífica dos sujeitos mais inquietos. Eles alegaram que tal comportamento se aproximava de um tipo de masoquismo resignado, típico das donas de casa que apanham de seus maridos em silêncio, sem soltar nenhum pio, como santas imaculadas. Valter recorreu à sua infinita sapiência e reavivou o exemplo de abnegação de Mahatma Gandhi.

Esse líder político, adepto da não-violência, pregava a desobediência civil para libertar a Índia do domínio inglês. Gandhi se impôs diversos estigmas, como greves de fome - longos jejuns - como estratégia reformista. Conta-se que certa vez, Gandhi e seus discípulos foram duramente reprimidos por oficiais britânicos. Eles imploravam pela liberdade e pelo fim do massacre econômico. Os soldados riram daqueles homens raquíticos e desarmados que se aproximavam. Então, para divertirem, os ingleses desafiaram os desnutridos indianos para que se conseguissem bater em um deles, concederiam alguns benefícios, permitindo-os que atravessassem a rua.

Gandhi humildemente se abaixou e ofereceu a cabeça para que os ingleses lhe desferissem golpes. Logo todos os seus discípulos repetiram o gesto do líder. Os soldados estranharam aquela bizarra atitude, não acreditando no que viam. Mas obedeceram. Bateram tanto nas cabeças dos indianos que ficaram completamente exaustos. Já não aguentando mais depois de tanto baterem, acabaram caídos e vencidos. Os indianos ,então, mesmo machucados, saíram vitoriosos. Valter quis transmitir uma lição de moral, citando as conquistas heróicas de Gandhi.

Seus argumentos traçavam considerações elogiosas sobre os benefícios de levar cacetadas na moleira. Gandhi foi um vitorioso levando porrada e passando necessidades. Quanto mais apanhava, mais ganhava a guerra e inscrevia seu nome como benfeitor da humanidade. Os amigos de Valter ouviam-no com atenção. Eles acompanharam seu raciocínio até serem dobrados pela lábia digna de um político brasileiro. Valter novamente resgatou a memória do mestre indiano para acrescentar uma valiosa observação: Gandhi alcançou a paz e a plenitude, levando porrada dos ingleses. Ele não era masoquista. Ele era um homem que conhecia a verdadeira felicidade - Afirmou Valter.

As pessoas às quais Valter endereçava seu discurso não se surpreendiam com a facilidade do amigo em abordar as cicatrizes humanas - assuntos que abalariam a maioria dos ouvintes - sem esboçar a menor angústia. Ninguém questionava que por trás daquele sorriso meigo algum tipo de perversão jazia camuflada. Caso houvesse algum distúrbio, Valter ignorava. Ele acreditava piamente em suas boas intenções. Um dos amigos, apoiando-se na leitura de um filósofo esloveno que sempre citava, afirmou que os movimentos pacíficos que resultam em grandes reformas sociais, são de extrema violência, pois mudam toda uma crença popular. Mudar a forma de pensar é a violência das violências.

Após as considerações finais do grupo de amigos, já devidamente convencidos pelas generosas alusões e milagrosas evocações do discurso de Valter, eles ficaram tão eufóricos que se despiram e lhe ofereceram pedaços de galhos e as fivelas dos cintos - que já não mais eram usados para segurar suas calças - para que Valter iniciasse o ritual de espancamento. Viraram-se todos de costas para o bem-aventurado Valter. Recebendo essa resposta afirmativa de total confiança em suas palavras e aceitação de suas nobres intenções, Valter não se conteve e soltou um berro de contentamento.

Imediatamente, ainda com a mão suspensa - já com o cinto em punho -, ele desabou fulminado. Por não sentir nenhuma pancada até então, um dos amigos se virou e deu de cara com o corpo de Valter estendido no chão. Ele morrera com o braço para cima, o mesmo que empunhava o cinto, e com um semblante de extrema felicidade. Ao invés de chorarem, eles se alegraram com aquela partida maravilhosa. Em sua lápide, os amigos mandaram que a frase que mais representasse o espírito feliz de Valter fosse inscrita: "Segue para a eternidade, o homem mais feliz do mundo!"



CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.

Morrer de Prazer.

segunda-feira, 18 de julho de 2011 6 comentários










O corte profundo anunciava o fim. seu infortúnio sempre fora seu maior deleite, sua fortuna. Ter sua pele arranhada era o mínimo dos prazeres que poderia sentir, um acréscimo humilde de gozo. Não que tivesse apreço pelo flagelo como os penitentes. Jamais pensara em pagar promessas. Não se imaginava subindo a infinita escadaria de um outeiro, de joelhos, para agradecer a graça gentilmente cedida pelos deuses. Tinha aversão ao ler nos livros de história sobre a punição impingida aos escravos infratores. A visão da chibata ardendo no lombo causava-lhe ânsia de vômito.

Há tempos não obtinha tanto prazer quanto o de ser achincalhado por mãos femininas. O filete sanguíneo que despontava das feridas assemelhava-se ao gotejar das lágrimas, ao suor que brotava do orgasmo e ao líquido seminal depositado na glande exausta. Ele havia aperfeiçoado uma tática infalível para abordar as mulheres mais selvagens. Baseando-se em estudos esotéricos, apostou na potência dos nomes como parâmetro de personalidade. Frequentava botequins de quinta categoria e puxava assunto com as mais variadas mulheres - a maioria prostitutas - até que elas lhe dissessem seus nomes completos. Apesar de quase nenhuma revelar a verdadeira identidade, ele insistia. Elas, já aborrecidas por sua perseverança patética, apenas lhe informavam o "nome artístico" - ou de guerra -, como costumava ser chamado pelos zombeteiros bebedores compulsivos.

Ele desenvolveu um método de avaliação que chegou ao sobrenome "Silva" como um ideal de agressividade espontânea. Num cálculo etimológico, descobriu que "Silva" se originou de "Selva". Os indígenas, por seus hábitos selvagens, foram tecnicamente rotulados de "silvícolas". Então, concluiu, as mulheres com esse sobrenome, Silva, seriam logicamente mais enfurecidas na cama. Algumas mulheres, interessadas em migalhas monetárias e já entediadas pela repetitiva pergunta daquele homem esquisitão - possível cliente -, diziam que tinham "Silva" como nome do pai. Outras, que o "Silva" vinha da mãe. Pouco importava. Ele se satisfazia, calava a boca, e as convidava para sua casa, pagando-lhes o programa. Algumas se assustavam com o comportamento extravagante do rapaz. Ele pulava na cama, ficava em pé, soltava gritos histéricos e se contorcia moderadamente como elástico velho.

A maioria de suas parceiras chegava ao ponto de se apavorar, ameaçar chamar um médico - quando parecia que ele fora vítima de ataque epilético -, ou mesmo a polícia - quando a esdrúxula cena se comparava a dos mais perigosos maníacos sexuais. Muitas nem esperavam para receber o pagamento. Simplesmente viravam as costas e corriam desesperadas para a rua. Quando ele recobrava a consciência, não via mais nenhuma mulher ao seu lado, muito menos seus tão queridos arranhões. Por não ter obtido êxito com o minucioso estudo dos nomes, partiu para o cara-a-cara. Ele passou a encarar as mulheres. Tentava identificar algum traço que transmitisse o temperamento intempestivo ideal para realizar seus sonhos de retalhamento orgástico.

Depois de muitas investidas fracassadas, ele finalmente encontrou aquela que seria a encarnação do seu gozo, sua alma gêmea, seu algoz sexual. Ela exibia um semblante harmônico, equilibrando na medida certa um olhar irascível com a doçura de lábios bem desenhados. Um misto de ternura com ódio brutal. O odor da sensualidade tirânica antecipava o instante supremo de ser trucidado pelo prazer. Aproximou-se dela com a convicção típica dos santos e dos paranóicos.

Não foi capaz de cuspir palavras sujas, como as escritas por autores anônimos na latrina dos banheiros públicos. Não que as palavras de baixo calão lhe faltassem na hora "h" - ou no ponto "g", pouco importa -, mas porque a libido as envelopava como cartas-bomba para que fossem entregues a um destinatário desprovido de destino. As palavras inexistiam. Agora o ato, em sua dolorosa verdade como boa bofetada, ridiculamente real - justamente o que ele mais ansiava -, era a única ferramenta comunicativa de que dispunha. A comunicação em sua mais radical violência. Estupidamente erótica.

Quando já estavam na cama, o carrasco e sua vítima se revezavam avidamente como num jogo infantil digno de reformatórios. Ela por cima, de pernas abertas, enganchada em seu tronco, açoitava-lhe verbalmente enquanto cavalgava com obstinação. Ele firme, esbelto, como um cavalo puro sangue, alternando rebeldia - para cravar com maior virilidade o membro -, com a submissão dos selvagens adestrados. Ao sentir os primeiros espasmos do orgasmo que lhe subia pela espinha, eriçando sua nuca, ela enfiou as unhas febris na carne úmida do seu homem-cavalo. Um uivo de prazer fora entoado como a nota mais aguda de um soprano. Se houvesse alguma taça de cristal na alcova, certamente não resistiria e explodiria como uma ejaculação quente - não de sêmen, mas do mais viscoso sangue. Os encontros corrosivos, antes ponderados, mais suaves e semanais, tornaram-se diários e cada vez mais intensos, famintos, com direto a dentadas, cera derretida no escroto e anzóis nos mamilos.

Uma noite, no auge da sandice, ela tirou da bolsa um garrote feito com dois bastões de alumínio e um potente fio de náilon. Sem que ele percebesse, ela iniciou lentamente o estrangulamento. Enquanto o fio apenas encostava em sua garganta, ele nada sentira. No início, o regozijo se apresentava em sua mais exuberante manifestação. Mas quanto mais ela apertava o garrote com os braços já cruzados em seu pescoço, mais ele sufocava numa dramática exibição de suplício. Naquele instante ele se desesperou. Sentiu a morte iminente. Já estava quase sendo sumariamente degolado. A asfixia o deixara de olhos arregalados e com a língua pendurada, como quisesse abandonar sua boca. O sangue escorreu-lhe pelo queixo, pois mordera a mesma língua que, vencida entre os dentes pontiagudos, desfalecera. O náilon já lhe atravessara as cordas vocais, tocando, como última melodia, o instrumento de solitária nota. Os espasmos de agonia substituíram os de prazer. O sangue descia quente como a seiva bruta que escorre de um tronco roletado.

Após o derradeiro trepidar de um corpo inconsciente, ela se afastou, limpou as mãos ensanguentadas nas coxas e na vagina - fecundando-se com a morte - manteve o garrote fincado no pescoço do cadáver, apanhou todo o dinheiro em sua carteira, guardou-o na bolsa também respingada de sangue e saiu da alcova com uma absoluta sensação de dever cumprido. Já na rua, em direção ao local em que faz ponto, no botequim, contando o dinheiro, satisfez-se por se sentir muito bem paga. Tinha total consciência que fizera um favor à sua vítima. Ela lhe deu o que ele mais desejava: Morreu em seu próprio gozo. Fora asfixiado pelo prazer.

CONTO ESCRITO por ALEX AZEVEDO DIAS.