Folha da minha árvore.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pois foi bem assim:

Cochilo no finalzinho da tarde, acordar de supetão bem na hora, que era a hora, de dormir realmente. Daí, a cabeça que tá quase vazia, vê a TV vomitar as sangrentas atitudes dos insanos sem alma. Ah, melhor nem ver isto. Desliga, levanta e sai do quarto. E ao passar pelo corredor, olha, sem muito gosto, a correspondência preta e branca estirada sobre a mesa. Desliza os dedos, espalha ao acaso a papelada, e quase ia dando as costas, quando o dedo esbarra no único envelope colorido. O olho cresce, a pupila cresce, o sorriso vem pra cara e absorve a mão que puxa o sobrescrito pra perto do peito. Tem um gigante aqui dentro! Ela sabe disto.

Arruma um canto e no encanto se cala: degusta as letras da carta colorida. As folhas do papel digital mostram pequenos arbustos e falam das folhas da árvore nossa vida. Diz que cada folha é gente e que mesmo quando se vão, nunca vão, porque até ali se faz presente ao adubar a nossa raiz. Também conta dos amigos de todos os jeitos; família, amor e irmãos. Ao final diz que ninguém passa na nossa história, por um acaso.

Com o papel na mão fica pensando nestas palavras e a mente vai até o dia que foi fazer um resgate. Sim, foi um resgate. Por que, no meio da questão, tinha uma criança que não sabia falar. E veio da denuncia de que, num sobrado abandonado, homens e mulheres usavam a aparência do menino pra ter dinheiro. As moedas e notas eram convertidas em tragadas de qualquer coisa que os embriagasse.

O menino que não falava tinha os olhos mais sérios que já vira, e uma total ausência de expressão. Na hora do pega-prende, agachada, diante dele, só pra ele, tentou explicar o que era aquilo: “vou te levar pra um lugar onde você vai tomar leite quentinho quando acordar e aprender usar estes lápis coloridos pra desenhar um arco-íris”. O menino não sorriu, não pegou a caixa de lápis de cor, não olhou pra lado nenhum, nem quando os gritos da gentalha bêbada se espalharam pelo lugar. No meio disto, o menino que não tinha voz foi, com a caixa de lápis de cor, encaminhado a uma fazenda sem muros, nem portões com correntes.

Não se sabe por que, nem pra que, estas lembranças se juntaram àquela carta que falava de árvores e amigos. Por isto foi lá, na fazenda sem muros nem portões com correntes, saber daquela criança.

Não vou me delongar no que sua alma foi pensando pelo caminho. Só sei dizer que quando lá chegou, podia estar até sem muita esperança, mas não estava preparada para o que viu.

A casa limpa de chão vermelho. As panelas fervendo cheiro de comida boa. Quartos com beliches e camas esticadas. Procurou pra todo lugar. Um grupo jogava futebol, mas nada do menino.

- Fugiu, é? - quis saber

- Não. Olha ele ai. Rodrigo, oh Rodrigo, vem cá. Tem visita pra você!

E do meio do time no campo, uma nova criança surge. Vem correndo. Corre com a cara aberta, a alma limpa e o corpo leve. E do nada, assim, no meio da corrida, salta uma estrela no ar. Posso garantir: nunca houve nada mais bonito do que aquela estrela no ar.

Conversaram só um pouquinho, porque estava no meio do jogo, por isto foi só: Oi, tudo bem? Como cê tá bonito! Ta gostando daqui?, tudo respondido ofegante e cheio de sim, sim e hum-hum e o sorriso grande. Volta pra seu jogo, fica com Deus! E depois: Ahhh, adorei sua estrela!

Daí, nesta hora, ele volta. Pega uma das folhas de papel que estavam no chão e entrega. Leva pra você. Diz e volta pro jogo.

No papel o desenho de uma árvore, abarrotada de folha coloridas.

Agora lê novamente carta do amigo gigante e acha que o mundo pode até ser mau, mas que os pequenos milagres são insistentes o bastante pra fazer uma enorme diferença. São anjos de todo tamanho e todo jeito colorindo as folhas da minha árvore.Alguns pequenos, outros gigantes!

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