Dois Livros e um Amor.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014 1 comentários


Dois Livros e Um Amor.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Dois livros abertos, jogados na cama bagunçada. O de capa dura era de cor azul, e o outro, laranja. O primeiro, edição de luxo, embora sem orelha, aberto na página 25, apresentava visgos e dobras distribuídos pelos quatro cantos da folha em questão. Já o de tom laranja, aberto num tal capítulo III – quase já não faltando páginas para o fim -, mais modesto, de frágil brochura, estava desalinhado e com a lombada desbotada e arrepiada. Exibia velhas costuras e alinhavos com linhas de alfaiate, e não de escriba. O livro azul, apesar de ter quase 200 páginas, interrompera-se precocemente na página de número 25. O restante permanecera em branco. Um denso e massacrante branco, suprimindo a pequena quantidade de páginas escritas.

Muitas histórias não contadas. Muitas vidas esquecidas, perdidas na invisibilidade da linguagem. O que ficara para trás? O que não pôde ser contado? O que não seguiu o curso das palavras? Interrogações encobertas pela túnica branca da opressora falta de palavras. A história pode ser lida até o ponto em que o livro ficara aberto, até a folha amaldiçoada por visgos e dobras.

Se alguém que padecesse de heroica valentia lesse em retrospecto, da última à primeira página, transportaria-se sensorialmente ao tilintar de xícaras, ao trepidar da porcelana no granito escuro do balcão, ao chuá da água corrente rejuvenescendo a prataria. Aroma de café fresco recentemente moído. O encanto místico da bebida sendo coada e servida. Havia apenas uma mesa ocupada. Madeira rústica perfurada pelas ranhuras do amor. Talvez algum solitário com a alma em chamas recortara formas estranhas no tampo da madeira para se aprofundar em sua superfície. Ou foram entalhes feitos por quatro mãos enlaçadas pelo afeto de outrora.

Gil, com os cotovelos apoiados na mesa, repousou a cabeça na extremidade das palmas das mãos, encostadas uma na outra, formando asas de borboleta ou de anjo adormecido. Pedira um expresso com creme para não se afligir com a longa espera. Quando se conheceram, numa das aulas-espetáculo de Ariano Suassuna, ele que muito se atrasara. Ao chegar, havia apenas uma cadeira vazia ao lado de uma moça que, pontualíssima, lá estava antes mesmo do início da entusiasmada palestra. Afobado, pisando nos pés dos pobres espectadores - uns chiando de desgosto, outros solidários com a pressa do rapaz -, esbarrara no ombro de Cora, derrubando seus livros e papéis, antes equilibrados no espaço em que os braços das cadeiras se encontravam. Sem olhar para o desajeitado autor daquele empurrão, ela apenas curvou o corpo para frente, recolhendo o material espalhado pelo chão.

Constrangido pelo acidente e meio atrapalhado, sem perceber que Cora já recolhia seus pertences, Gil se precipitou sobre a moça, dando-lhe um puxão de cabelo daqueles que quase escalpelam as moças mais sensíveis. Erguendo seu tronco subitamente, por conta do dolorido sobressalto, houve um encontrão da nuca de Cora com a testa de Gil. Cada um levou a mão ao próprio alvo da pancada. Os papéis e os livros permaneceram espalhados. Sem pedir desculpas, Gil apenas se sentou, dobrando seu corpo logo em seguida para pegar os objetos de Cora. Ainda zonzo pela situação malsã, juntou os papéis e os entregou a ela. Depois, ele apanhou os dois livros que restavam caídos. Não conseguiu ler o título e o nome dos autores. Viu apenas que se tratava de um livro de capa azul e outro de capa laranja. Apoiou-os novamente nos braços das cadeiras e voltou-se para a aula.

O escritor discursava sobre a beleza de se combinar a cultura erudita com a arte popular. Ao longo de uma hora e meia de palestra, os dois ficaram quietos, sem o menor desvio de atenção, se não fosse pelas singelas viradinhas de cabeça de Gil para fitar o suave e compenetrado rosto de Cora. No instante em que a aula foi encerrada, ambos continuaram sentados enquanto uma fila gigantesca se formava na lateral do anfiteatro para os cumprimentos ao ilustre e bem-humorado acadêmico. Um círculo de pessoas ávidas pelo autógrafo de Ariano praticamente o engoliu, desaparecendo do campo de visão do público que se manteve sentado. Com o fracasso de acompanhar os movimentos do renomado dramaturgo com o olhar, simultaneamente, de modo aparentemente inexplicável, entreolharam-se. Cora respirou fundo, pegou sua papelada e os livros do braço da cadeira, depositando-os no colo com a cabeça baixa, e diante da frustração por não ter meios de chegar perto do seu ídolo, deu o pontapé inicial, meio como quem nada quer, para um diálogo com Gil:

- Esse cara é um dos meus autores favoritos. Queria tanto mostrar um conto que eu escrevi pra ele...

- Nossa! Você escreve? Que legal. Eu adoro literatura, mas ainda não escrevi nenhuma linha.

- Mas se você gosta tanto assim, por que nunca se arriscou?

- Acho que eu não tenho talento pra isso...

- Não precisa desse negócio. É só sentar e deixar fluir. Mesmo que você não goste do resultado. Tente!

- É... Pode ser... Tenho medo. Mas enfim... Mudando de assunto, o que você faz? Ah... Desculpe meu mau jeito. Gafe minha. Não nos apresentamos ainda. Qual o seu nome?

- Eu me chamo Cora. Sou advogada. Até advogo, mas a minha paixão é pela literatura. Advogo para viver e vivo para escrever. E você? O que faz? Antes, seu nome, é claro!

- Sou Gil, uma contradição em pessoa. Eu me formei em letras. Dou aula de literatura. Engraçado, né? Sou professor disso, mas não tomo coragem pra escrever minha própria ficção.

- Sabe de uma coisa? Este livro laranja é a minha história. É uma edição independente. Eu mesma o editei e fiz algumas tiragens na gráfica. É sobre uma menina que sonha com um amor. O romance acontece no futuro. Tudo o que eu narro, o ambiente, o contexto, os personagens, a história toda acontece num futuro que não chega a se realizar. Tudo se passa na imaginação dessa menina. Meu livro tem dois capítulos e um terceiro que na verdade é o fim, deixando margem para que a história da menina abandone o futuro e se torne presente. É um convite para que o leitor também imagine um “e se fosse verdade”, como seria? Entendeu?

- Hummm... Parece ser um bom romance. Me deu vontade de ler e... também... digamos... Viver um amor desses, no presente. Nada de fantasias.

- Mas quem disse que o amor no presente não é fantasioso? O futuro idealizado pode ser mais pé no chão do que as fantasias vividas no presente.

- Será que é assim? É... deve ser... Mas esse outro livro aí, o de capa azul?

- Então... É sobre ele que eu quero falar. Ele é seu. Vou dar ele a você. Tome!

- Sério? Legal. Espere um pouco, deixe eu folheá-lo. Cadê o nome do autor? O título? Não tem nada escrito? Ué?! Como assim? Não entendi...

- Pois é... Isso que é o maior barato. Ele está todo em branco. É pra você escrever sua história. Quero que você escreva, que assine sua ficção!

- Nossa! Achei a ideia ótima. Mas estou apavorado.

- Quer minha ajuda?

- Como?

- Que tal contarmos uma história juntos?

- Juntos como?

- Venha!

Cora pediu a Gil para que ele segurasse seu material e o pegou pela mão. Foram se esgueirando por entre as cadeiras e pela plateia que já se acotovelava para conseguir um autógrafo do Ariano, até deixarem o anfiteatro para trás. Meio sem reação, Gil foi sendo levado pela mão até uma rua arborizada, ladeada por oitis repletos de frutos maduros, bem amarelinhos e rajados de verde. À sombra do oiti, Cora parou, colocou delicadamente uma mão em cada lado do rosto de Gil e encostou seus lábios nos seus. Ainda com as mãos no rosto de Gil, afastou-se o suficiente para olhar dentro dos seus olhos. Encostou seus lábios nos deles novamente, recuou outra vez e perguntou o que ele sentiu.

Quando ele, razoavelmente recuperado do toque e daquele encontro mágico, pôde responder a pergunta de Cora, ela colocou seus dedos em sua boca e o convidou para que se sentassem num banquinho à sombra do mesmo oiti. Ela pediu a ele que abrisse seu livro azul e escrevesse justamente sobre aquela sensação que ela acabara de lhe provocar. Ele atendeu seu pedido e assim registrou na primeira página: “Quando sua boca veio de encontro à minha, nada mais vi nem senti ao meu redor. Apenas um toque fascinante que me coloriu por dentro. A memória é eterna. É impossível esquecer-me dela. Nem o perfume das flores, nem o sabor dos frutos abafarão o gosto do seu beijo. E quando você se afastar, nos segundos em que seus lábios se fixam aos meus e deles evadem, não deixando você partir, sentirei que serei para sempre seu”. Cora, não desviando seus olhos dos de Gil, fechou o livro azul e o abandonou no colo dele. Os dois, ainda sentados, aproximaram-se e se beijaram acaloradamente.

Passaram-se outonos e primaveras, invernos e verões nutrindo o sentimento iniciado naquele encontro poético, porém inusitado e em nada convencional. O namoro oficializado só confirmou o fortalecimento daquilo que começou com palavras e eletrificou corações. Seus corpos trepidaram, bambearam, rodopiaram ao ritmo de palavras vulcânicas, beijos vibrantes e indecorosos enlaces da paixão. Decidiram alugar um cantinho para que o afeto se consolidasse ainda mais com a íntima experiência sob um teto comum. Passaram a conviver diariamente. Compartilharam a vida, os costumes, os erros, as qualidades, defeitos e felicidades. Dividiram as contas, os afazeres, as despesas, o amor, loucuras, acalantos e brevidades.

Uma vez por mês, às vezes sozinho, outras vezes acompanhado de Cora, Gil voltava ao oiti para escrever mais uma página de sua história de amor. O estímulo literário criado pela namorada atravessou os limites do ponderável e se converteu numa verve artística de grandes proporções. Gil se tornara um romancista. Mesmo com compromissos inadiáveis com seu editor, todo mês, uma vez por mês, voltava à sombra daquele mesmo oiti, sentava-se naquele mesmo banquinho e escrevia mais uma página do seu livro azul, sobre os sentimentos que, à flor da pele, doava à amada, e as sensações que esse amor sempre lhe provocava. Foram 25 meses de impressões ininterruptas. Naquelas páginas, escreveu sobre prazeres, volúpias, medos, deveres domésticos, obrigações conjugais, delírios, devaneios, alegrias, satisfações e emoções. Fez também alguns apontamentos sobre ameaças de partidas, idas e vindas, brigas, melindres, discussões e retornos sempre apaixonados.

Numa dessas idas e vindas, Cora não queria mais compartilhar e dividir sua vida com Gil. Apesar de muita insistência e declarações de amor dele, ela resistia. Depois de algumas semanas da última separação, Cora aceitou ter uma conversa com ele numa cafeteria que, no auge do amor - na época das carícias mútuas -, os dois gostavam de frequentar. Empolgado, Gil combinou o horário e, com uma incomum pontualidade, de manhã bem cedo, ele lá estava à espera de Cora. Ansioso, pediu um café com creme para ajudar a enfrentar a longa espera. Cinco xícaras de café expresso e quase duas horas se passaram sem nenhum sinal de Cora. Gil, arrasado, levantou-se e seguiu o caminho do apartamento em que viveu com ela por dois anos e um mês. Chegando em casa, ainda sem notícias de Cora, sentou-se na beirada da cama, desolado. Um tempo depois, notou que o livro que ela escreveu estava jogado na cama, aberto nas páginas finais. Espichou o corpo até alcançar o livro laranja. Segurou com pouca firmeza, até com certo tremor, e viu que havia algo escrito com caneta esferográfica logo abaixo da linha em que o capítulo III era anunciado.

Estava escrito assim: “Caros leitores, fui estúpida em acreditar que imaginar uma história de amor num futuro irreal, pudesse ser preenchido, com toques de veracidade, pela história real de cada um de vocês. Vejo agora o quanto fui cruel, pois uma história de amor verdadeira é humanamente impossível. Peço o perdão e a absolvição de vocês pelo ato de covardia, mas declaro que nunca mais me aventurarei a escrever essas besteiras que, iludida, tanto insisti em traçar literariamente. Termino aqui estas e nestas linhas. Esqueçam o capítulo III. Se ainda assim quiserem me ler, que terminem no segundo capítulo e jamais tentem dar realidade à fantasia do amor. De agora em diante, sou apenas Dra. Cora, advogada. Vou para uma cidade distante em que exercerei minha profissão plenamente. Ninguém me achará, nem editores nem ninguém. Adeus, Cora”.

Gil enxugou uma lágrima que descia, solitária, por sua bochecha um tanto quanto inchada por um choro reprimido. Esticou novamente o corpo para deixar o livro aberto exatamente onde o tirou. Encolheu-se logo após, chegando ainda mais para a beirada da cama. Apoiou os cotovelos nas pernas e colocou a cabeça entre as mãos. Ficou um pouco meditativo. Abriu sua mochila e retirou seu livro azul. Abriu-o e o folheou. Ainda faltava uma infinidade de páginas em branco. Ergueu o corpo, mantendo o livro seguro com as duas mãos. Abriu-o na página 25 e, impulsionando-se para chegar perto do livro laranja de Cora, apertou o azul contra a cama até que a última página escrita se amassasse por completo. Arrumou suas coisas numa pasta. Aprontou-se e foi para dar mais uma de suas aulas de literatura.

Gil continuou morando no mesmo apartamento durante muito tempo. Nunca soube para qual cidade Cora se mudou. Não teve mais notícias. Depois de alguns anos, numa noite de autógrafos, evento organizado para o lançamento do seu novo romance, Gil teve quase certeza de que tinha visto Cora olhando para ele e com um dos seus livros nas mãos. Achou que ela se aproximaria dele. Falaria com ele. Mas ela desapareceu em meio à multidão que o cercava.

Guardou o livro laranja escrito por Cora na gavetinha de sua cabeceira. O seu permanecera interrompido na página 25. Mas toda noite, antes de dormir, Gil o abria e escolhia uma página aleatória. Só dessa forma, sentia o aroma que as letras do afeto de ontem exalavam no presente, para que jamais perdesse o real motivo da sua verdadeira vocação. Sempre escreveu com o amor e nunca esqueceu do amor verdadeiro ao escrever.


Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Até a Última Estação.

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Até a Última Estação.
autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Enquanto a composição atravessava a vegetação coberta de neve, vários exemplares do chapim-real e do pisco-de-peito-ruivo entoavam cânticos de liberdade ao primeiro bater de asas naquela fria manhã. A fumaça espessa, como nuvem carregada que se adensa e enruga o céu, pigmentando-o de pesar e aflição, contrastava com finas camadas de gelo lançadas ao longe pelo frenético roçar de trilho e trem. Antes que a nevasca embranquecesse ainda mais a paisagem, ínfimos pontos azulados ainda resistiam num céu aprisionado pelo negrume que anunciava a sorrateira tempestade. Cedros, pinheiros e abetos, com suas grossas e gélidas folhagens, mantinham-se imponentes. As árvores suavizavam a paisagem melancólica que se descortinava ao toque célere da locomotiva, cortando a paralisia branca do inverno europeu. A natureza reagia com indiferença ao barulho daquela imensa máquina fumegante rasgando, em linha reta e suaves curvas, o cenário de bucolismo, lirismo e solidão.

Os vagões de passageiro, embora externamente se assemelhassem às cabines luxuosas, exibiam barras de ferro verticais, lembrando grades de uma gaiola, em cada janelinha lateral. O espaço interno mergulhava em sombras. Andrajosos, com chapéus, luvas, capotes, pulôveres e suéteres em estado lastimável - mas de uso necessário para que se protegessem da hipotermia que já os espreitava pela greta, vestindo capuz e foice -, as pessoas repartiam um pedaço de pão deixado em cima de palhas secas e feno. As cabines que já alojaram famílias abastadas, contemplando-as pelo deslumbrante visual campestre, foram adaptadas para o transporte de humanos, outrora dignos, agora reduzidos a porcos e a animais de quinta categoria. Até os bancos que não eram acolchoados foram barbaramente arrancados para que mais e mais famílias fossem apinhadas.

Assim espremidas, sem privacidade, submetidas a métodos retrógrados de higiene, ao menos, pelo calor dos corpos, podiam se esquentar, pois suas roupas não eram suficientes, e retardar a morte pelo frio extremo antes que chegassem ao destino final. Não sabiam o que os aguardava, mas só a condição subumana em que conviviam no trem e a maneira agressiva como foram retirados de suas casas e enfiados ali, já sinalizavam com todas as letras o fim da linha. Crianças chorosas e soluçantes, mulheres inquietas e trêmulas, homens desolados e de olhar perdido. Muitos passageiros foram empurrados para os vagões frios já previamente peneirados entre válidos e inválido, úteis e inúteis, capazes e incapazes.

Essas vidas desvalorizadas, reduzidas ao nada, entendidas como insignificantes pelas sórdidas intenções dos que estavam no poder e ousavam julgar seus semelhantes, eram imediatamente ceifadas sem direito à súplica. Mães assistiam aos filhos enfermos sendo puxados de seus braços e executados a sangue frio. Netos observavam, aflitos e passivos, seus avós sendo arremessados cruelmente do último andar de suas casas, muitas vezes quando jantavam calmamente, na calada da noite. Reduzidos a produtos que seriam descartados mais cedo ou mais tarde, os "tomates podres" apontados por bárbaros impolutos e bem vestidos, eram esmagados pelas mãos do ódio antes mesmo de embarcarem para a morte. Por causa das circunstâncias inóspitas a que se submetiam nas cabines do trem, mesmo os mais saudáveis e robustos que seriam aproveitados para trabalhos pesados, ficavam suscetíveis ao contágio de doenças incuráveis, sucumbindo antes do fim.

Por mais que estivessem naquele trem, sendo concedido o adiamento do inevitável desfecho trágico, a via férrea só lhes permitia a lamentável sobrevida. Alguns ainda tinham a felicidade transitória de se reunirem derradeiramente com suas famílias ao longo de todo o percurso. De alguma forma compartilhavam o sofrimento e a apreensão com um pouco de calor e afeto de pai, de mãe, de filhos, de esposa e marido. Nas poucas malas permitidas, os pertences mais caros não eram objetos usáveis, mas sim sentidos. Lágrimas, saudades, um aroma bom de infância, um sabor suave de dias amáveis na ponta adocicada da língua, ursinhos de pelúcia, caixinhas de música, trapinhos de história e paixão, carinho e dor, valores de uma memória que lutava com unhas e dentes para que não se perdesse.

Itzig, um jovem que ainda não chegara aos trinta anos, viajava sozinho. Seus irmãos foram postos em outro vagão, ou mesmo em outro trem, mas isso era o que ele acreditava, pois os que restaram ao massacre da primeira seleção ficaram para trás quando Itzig fora embarcado à força. Por resistir ao embarque, sem querer que seus irmãos ficassem para trás, recebera uma pancada na cabeça com a coronha de um revólver. Se seus colegas de infortúnio não se solidarizassem, teria se esvaído em sangue até perder os sentidos subitamente. Embora, infelizmente, nem toda solidariedade, boas intenções e caridade, resultem sempre na benção da vida. Um homem alto, de boina, pegou um pano bordado em sua malinha, um artefato sagrado com uma insígnia bordada, desdobrou-o e o levou aos lábios para beijá-lo. Logo depois, com os olhos fechados, rasgou-o com um só movimento dos dedos.

Recorreu novamente à sua mala. Apanhou uma espécie de emplastro curativo, uma mistura úmida de ervas que estava num potinho redondo, aplicou-o no ferimento da cabeça de Itzig para cicatrizar e em seguida enfaixou-o para estancar o sangue que escorria sem parar. Em contato com a substância, fez uma careta de dor e rapidamente encolheu-se no canto do vagão. Com a cabeça entre os joelhos, permaneceu um tempo em silêncio. Itzig levou as mãos ao abdômen, contorcendo-se e fazendo um esgar de dor. Olhou à sua volta. Avistou apenas um baldinho usado como latrina improvisada. Sentiu ojeriza. Esperou que melhorasse, mantendo-se por mais algum tempo sentado e recurvado, com a cabeça entre os joelhos, sem recorrer à tal necessária humilhação.

Quando restava apenas uma leve sensação de desconforto intestinal, ele se levantou escorado por outros dois homens um pouco mais velhos. Já de pé, sem ter em que se apoiar, tocou em cilindros de ferro. Ao virar-se para tal, deparou-se com as grades na janela, confirmando se tratar de um cárcere sobre trilhos. O vento frio já lhe inflamara a garganta, deixando-a de aspecto macilento pela infecção atroz. Percebeu o motivo de muitas crianças agonizarem, respirando mal no colo de suas mães e com o peito arfando em suspiros penosos. Uma delas já exibia um aspecto arroxeado de tanto frio. A janela não tinha vidro, só as barras da jaula móvel em que cumpriam o martírio. Alguns montículos de neve já se acumulavam no interior do vagão.

Os que podiam, cobriam o nariz com cachecóis ou aproximavam a ponta de mantas para filtrar o ar gelado que já enrijecia a tez dos mais debilitados. Itzig segurou firme nas barras de ferro e, protegendo o nariz com uma das mãos em formato de concha, observou o horizonte branco e as quase invisíveis copas verdes das árvores, por causa da neblina que se avolumava. Entrando em contato com a natureza, Itzig despediu-se de sentimentos puros que ainda lhe povoavam a alma. Seus sorrisos, amores e ilusões - os únicos que nasceram livres e assim sempre serão -, ultrapassaram as grades vergonhosas que segregavam a vida com um leve aceno de saudade. Itzig visualizou mentalmente seus pais adoecidos que não tiveram suas vidas poupadas. Foram executados com um tiro. Um tiro covarde que cada um recebera na cabeça. Mortos pela estupidez de um regime sangrento.

Sentiu novamente uma pontada dolorida no peito, como se sua noiva fosse arrancada outra vez de seus braços e jogada com tanta brutalidade ao chão que não resistira. Ela fora espancada enquanto já extinguia o sopro de vida do seu peito. Durante a sessão de tortura, com golpes de botina no ventre já morto, os soldados gargalhavam com o sofrimento de Itzig - que presenciara tudo sem nada poder fazer. Toda maldade assolando um Itzig impotente em seu desespero absoluto. Ainda na janelinha do vagão, ele se angustiou também por não saber do paradeiro de seus irmãos, atirados à própria sorte. Tal turbilhão de emoções fez com que ele forçasse instintivamente as barras de ferro, com ambas as mãos, para entortá-las e abrir uma brecha capaz de passar um corpo inteiro. Ao se deparar com tal pretensão, analisou-se dos pés à cabeça. Estava enfraquecido, desnutrido. Assustou-se com sua magreza quase cadavérica. Percebeu que precisaria apenas de um pequeno espaço entre as grades para que seu corpo franzino passasse.

Olhou à sua volta. Parecia invisível aos seus companheiros. Forçou ainda mais as sólidas e intransponíveis barras de ferro. Forçou pela terceira, quarta, quinta, sexta vez, até se esgotar quase que completamente. Observou outra vez seus colegas de cela. Todos o ignoravam, sem exceção. A solidariedade que tiveram com ele quando ali chegou havia cessado. Ninguém mais se solidarizava. O semblante de todos exibia apenas a resignação com o destino cruel. Estavam conformados com a condenação imposta pela soberba humana. Itzig convenceu-se que teria que agir sozinho. Retirou seu casaco de flanela, enroscou-o numa das barras, segurou nas extremidades do tecido e, chegando ao máximo que podia para trás, impulsionou os braços com toda força.

Como a flanela começou a ceder, viu que necessitava aprimorar a ideia. Chegou à conclusão que com a flanela molhada, girando-a em espiral até formar um tipo de trança, faria um resistente torniquete. Foi direto a um dos montinhos de neve no canto do vagão. Cambaleou pelo frio intenso que já o corroía pela falta do agasalho. Agachou-se para umedecer a flanela. Como o gelo que derretia não era suficiente para encharcar o pano, frustrou-se. Olhou para um lado, olhou para o outro. Ficou sem alternativa. Pensou em desistir até ver o baldinho que era usado como latrina. Mesmo enojado, foi até ele e enfiou de uma tacada só, com a cabeça virada para o lado, mantendo os olhos fechados e prendendo a respiração, o casaco inteiro na urina já turva e viscosa.

Devidamente encharcado, preparou o torniquete, enlaçou-o na grade, tomou distância, e puxou com toda força que ainda possuía, assim como as crianças brincando de cabo de guerra. Puxou, puxou, puxou, trincando os dentes e soltando grunhidos pela agressividade que imprimia na trança, descontando toda a raiva e o ódio reprimidos. Seu empenho foi tanto que, ouvindo um rangido, a barra de ferro foi entortando, entortando, entortando, até abrir um espaço suficiente para que seu corpo seco pudesse passar. Antes de partir, apenas com uma camisa pouco impermeável à friagem, Itzig deu uma última olhada para trás, buscando um olhar de complacência dos companheiros. Continuavam ignorando-o. Não compreendeu. Tal situação era absurda. Eles não podiam permanecer tão conformados com o juízo final. Muitos, como ele, passariam facilmente por entre aquelas grades entortadas. Não suportando o alheamento, gritou a todo vapor, usando o máximo de seus pulmões, para que aquele povo todo despertasse do sonambulismo.

Achou que temessem a morte, que acreditassem que se fossem descobertos seriam assassinados imediatamente. Mas morreriam de qualquer jeito. Por que ninguém, além dele, queria se aventurar numa fuga espetacular como possibilidade ímpar para que suas vidas fossem enfim devolvidas? Itzig desistiu de esperar pelos outros. Saltou, espremendo-se todo até se jogar do trem em movimento, caindo de joelhos num imenso bolo de neve. Ao se entregar à liberdade de braços abertos e com um sorriso de cabo a rabo estampado no rosto, nem sentiu o corpo ralado pela queda. Encantou-se ao contemplar os frondosos abetos, cedros e pinheiros com suas folhagens verdes cobertas pela brancura da neve. Alegrou-se com o canto do chapim-real e do pisco-de-peito-ruivo, embalando a liberdade com uma música sublime.

Ao erguer-se do chão, viu um arco-íris de cores brilhantes. Como os antigos sempre afirmavam que a bonança estava no final do arco-íris, foi ao seu encontro, na esperança de voltar para casa. Porém, quanto mais dele se aproximava, mais dele se afastava. Itzig, exausto, deixou-se desabar novamente naquela neve de dor. Lá ficou até ser tocado por delicados dedos de mulher. Abriu os olhos com dificuldade. Esfregou-os, não acreditando no que acabara de ver. Sua noiva sorria para ele, convidando-o para que se levantasse e segurasse sua mão. Sem nada falar, apenas correspondendo ao sorriso da amada, obedeceu ao pedido dela sem titubear. Abraçou-a calorosamente e demorou-se num longo beijo de cumplicidade, paixão e saudade. Ela o levou mais à frente. De trás do arco-íris, seus pais apareceram. Suas imagens pouco nítidas, distantes, meio nebulosas, foram adquirindo foco, nitidez, até o semblante do pai e da mãe exalar um puro e verdadeiro amor. Itzig não resistiu e se entregou às lágrimas copiosas.

Não contendo a emoção, correu para abraçá-los. Abriu os braços ao máximo que pôde para envolver os três de uma só vez, como se fosse um meninote exigindo de sua pequena compleição física dar a volta com os bracinhos de fino calibre, num grosso e antigo tronco de árvore. Sua voz sumira, pois seus sentimentos transbordaram. Só as lágrimas e os beijos da noiva e de seus pais lhe tocavam a face trêmula. Quando se recuperou suficientemente do enternecedor reencontro, acalmando-se e reorganizando o raciocínio para falar, indagou a respeito dos irmãos que ficaram para trás quando ele embarcou. Seus pais se limitaram a olhar para ele com doçura e carinho. Sua noiva foi quem tomou a palavra, dizendo que ainda não havia chegado a hora deles, que passariam por tormentas, mas que ficariam bem e chegariam à velhice.

Itzig pouco compreendeu o que ela dissera, afinal, todos ali também estavam bem, mas atribuiu o estranhamento de sua escuta ao trauma vivido até então. Também não quis pensar, para não reviver a tragédia, sobre ter visto seus pais e sua noiva sendo mortos. Talvez o momento traumático assim tinha desenhado a cena, pregando-lhe uma peça, pois a morte não passara de má alucinação. Aceitou a sucinta explicação da noiva. Olhou para todos com enorme felicidade, apalpando-os para se certificar da realidade do amor e como deles não mais suportasse se separar. Desse jeito, Itzig caminhou com eles para onde tinham surgido, atravessando a túnica transparente de sete cores vivas, para o outro lado do arco-íris.

No vagão, por mais que se esforçassem para estancar o sangramento - fluindo continuamente feito água tingida de vermelho - do rapaz que recebera a violenta coronhada, o unguento e a tala não foram suficientes para conter a vitalidade que dele escapava a galopes acelerados. Sem que ninguém nele mais mexesse, lá ficou, na mesma posição, sentado e com a cabeça entre os joelhos, balançando os ombros flácidos apenas ao trepidar da locomotiva, até a última estação.


Escrito por Alex Azevedo Dias.

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Uma Cena no Rio.

quinta-feira, 24 de julho de 2014 0 comentários


Uma Cena no Rio.
Autor: ALEX AZEVEDO DIAS.

Foi à recepção, mostrou a identidade surrada à recepcionista para provar que era o dia do seu aniversário, e apresentou-lhe sua acompanhante para que também entrasse com gratuidade. Deteriorada, a carteira estava com os dias contados. Com dificuldades em conferir a data, a recepcionista ameaçou retirá-la do envelope plástico. Instintivamente, Lourival esticou o braço e agarrou o pulso da moça, evitando que os restos mortais se esfarelassem de vez. Assustada, a fiel funcionária manteve o olhar fixado nos olhos de Lourival. Titubeou. Em coisa de segundos, foi dominada por um desejo irresistível de chamar o segurança e expulsar o cliente abusado. Conteve-se. Observou a data, confirmou com o gerente a gratuidade do casal. Carimbou e assinou a comanda, autorizando a isenção da entrada.

Lourival enlaçou Catarina pela cintura, recebendo um beijo no canto da boca e um sorrisinho cúmplice. Subiram a suntuosa escadaria de madeira de lei, embalados pelo ritmo contagiante da percussão que espocava do palco retrô com finas cortinas vermelhas, decoradas com babados típicos de cabarés. O gogó afinado do cantor, reverberando no salão abarrotado de amadores rodopiando e tropeçando nos pés das parceiras, entoava um "Lalaiá, lalaiá, laiá... Lalaiá, lalaiá, laiá, o show tem que continuar...". O ambiente dançante era sufocado por objetos antiquíssimos, adornos seculares, esculturas renascentistas, pinturas modernistas, monumentos bizantinos, cadeiras flutuantes, presas por invisíveis fios de náilon, painéis com inúmeros retratos antigos, lustres e candelabros, sombrinhas asiáticas, ecletismo pitoresco e bem brasileiro com uma culinária típica e música para nenhum carioca botar defeito.

Contaminada pela atmosfera nauseante, Catarina puxou Lourival para dançar. Contrariado, pois queria se sentar no enorme sofá vinho e reconhecer antes de qualquer coisa, ao lado da mulher, o terreno em que pisava, continuou deslizando pelo salão, indiferente. Ela o tocou no ombro, insistindo para que ele se virasse e aceitasse seu pedido. Mas se manteve impávido e incorruptível, fingindo não se importar com a encarecida teimosia da mulher para que lhe concedesse uma dança. Enfezada e profundamente amargurada com a recusa daquele homem ignorante, Catarina encurtou o vestido - que já era bem curto -, deixando as coxas livres, leves e soltas. Pediu passagem - sem ter dificuldade para isso -, arrumando-se exatamente no meio do salão. Lá, bailou desavergonhada, vibrante, recheada de frenesi e sex appeal.

Ao seu redor, o salão esvaziou. Os casais e os solitários encostados no corrimão da escadaria pararam subitamente. Olhares excitados, babões boquiabertos, mulheres estupefatas e marinheiros de primeira viagem foram espontânea e energicamente atraídos para aquela extasiada e extravagante dançarina. Alguns, talvez motivados pelo vestido vermelho e rendado da moça, acreditaram piamente que se tratava da incorporação contumaz da Pomba Gira, saltitando e seduzindo os homens com seu encanto de sereia foguenta. Moçoilos afoitos tentaram uma abordagem mais acintosa, puxando-a pelos braços, pernas e alisando seus cabelos. Lourival, sem querer se virar para trás e não dar o braço a torcer a Catarina, custou muito para perceber a balbúrdia no salão. Um sujeito atarracado e rechonchudo que piscava demasiadamente e apontava com a boca, fazendo biquinho para chamar a atenção do possível futuro corno da noite, rejeitou sua incisiva recusa de reconhecer o par de chifres e o informou do fato quase consumado. Lourival, que mordiscava despreocupadamente um palito de dentes, virou-se inflamado, já inconformado pelas caretas de deboche que eram dirigidas a ele.

Não acreditou no que viu. Cuspiu furioso o palito mordido por cima de seu ombro direito. Contraiu o cenho, bufou, fez que ia... fez que não ia... e precisou de amparo para não tombar para trás. Estava tonto, zonzo, vendo estrelinhas. Tudo rodava ao ritmo do rodopiar de Catarina e da batida do tambor. Algumas pessoas conduziram-no ao requintado sofá que desde o início quisera se sentar com conforto e aconchego. Precisava tomar fôlego, colocar a cabeça no lugar, mas a visão de Catarina se esbaldando e sendo apalpada por marmanjos xexelentos, nauseava-o ainda mais. Acabou ficando com o semblante vermelho-escuro, quase se assemelhando ao estofado vinho do sofá tão cobiçado.

Atarantado, visando ganhar tempo e força, pediu ao garçom uma aguardente poderosa. O garçom o serviu prontamente. Uma dose caprichada. Lourival virou o copo e, numa golada só, sorveu todo o conteúdo do copinho de vidro. Com as costas da mão esquerda, limpou a boca e soltou um guincho de prazer. O garçom ofereceu outra dose. Ele tomou a garrafa da mão do pacífico empregado, encarando-o com a cara feia, agarrou a botija imitando terracota da cachaça, e a abraçou com ardor. Encostou a embalagem da bebida no peito, que arfava ininterruptamente como um galo de briga, e mandou que o garçom se afastasse.

O homem cordial e servil obedeceu-o sem nenhuma resistência, apenas anotando na comanda o pedido avantajado do cliente beberrão. Depois de já suficientemente calibrado, sobrando apenas um golinho no fundo da garrafa, Lourival se levantou. Cambaleou e inclinou o corpanzil para trás, ficando por um triz de desabar outra vez. Nesse instante, Catarina estava sendo carregada por cinco trogloditas salivando e sem camisa, girando nos braços o seu corpo suado e arrepiado pela adrenalina e feromônios reinantes no salão. Lourival aprumou-se, ficando ereto e alinhou os ombros. Cerrou os dentes e mirou a mulher de forma fulminante, espumando e grunhindo. Fuçou o chão feito porco ou boi bravo e se atirou de cabeça como autêntico chifrudo enraivecido para derrubar os cinco pinos bombados de um boliche grotesco.

Antes que o indignado Lourival chegasse perto dos brutamontes embevecidos pela folia das curvas de Catarina, ela saltou e se requebrou para longe dali, enquanto ele, cabeceando o rígido abdome de um careca aluado, desequilibrou-se e bateu no corrimão entalhado também numa nobre madeira de lei. De lá, escorregou e se precipitou no vazio, desabando até se estatelar no pavimento inferior. Catarina, sambando às apalpadelas dos barbados gotejando libido, estancou os movimentos sinuosos e provocantes ao ouvir aquele estrondo vindo do primeiro piso. Ela chegou ao corrimão e se debruçou para observar de perto Lourival esborrachado lá embaixo. Estremeceu. Pôs instintivamente as duas mãos na boca, abafando um suspiro mais profundo, e se afastou. Um chinês animado e ébrio, alheio ao sofrimento da pobre mulher, tascou um tapa bem dado nas nádegas de Catarina. Ela se virou imediatamente.

Do alto de seus saltos monumentais, teve dificuldade de notar um jovem chinês sorridente ameaçando dar um apertão em seus seios, esticando o braço com supremo empenho de baixote tarado. Sem pensar duas vezes, Catarina aplicou um tabefe certeiro no meio da cara do chinesinho abusado, que caiu para trás desacordado. Catarina desdobrou o vestido, cobrindo novamente as coxas, arrancou os sapatos, desceu a escadaria com pressa e meio desajeitada e se ajoelhou ao lado de Lourival. Agarrou-o pelos ombros e o fez virar de barriga para cima. Deu uns tapinhas em suas bochechas. Ele abriu os olhos preguiçosamente. Um sorriso estonteante estampou-se de súbito no rosto fogoso e irrequieto daquela mulher. Debruçou-se mais sobre o peito de Lourival e começou a beijar, satisfeita, toda a extensão da cara daquele valente e combalido homem.

Ele se levantou, apoiando-se no espaldar de uma cadeira decorativa, objeto do antiquário, e enlaçou Catarina pela cintura, assim como ali chegaram. Ela, vencendo o mau hálito deixado pelo excesso de birita, beijou-o com tal enroscar de língua jamais presenciado na história de pés de cana, bambas e manguaceiros cativos. Por alguns segundos, a maioria parou de dançar e aplaudiu aquela explosão de amor e volúpia. Rapidamente, embalados pelo batuque e pelo beijo arranca-goela, todos novamente caíram na cadência bonita do samba.

Enquanto a percussão e o gogó do vocalista pegavam fogo, o casal não mais se desgrudou, dançando até o dia clarear para finalizar, com chave de ouro e muito samba no pé, a comemoração de mais um ano de vida do boêmio Lourival... “Mas iremos achar o tom. Um acorde com um lindo som. E fazer com que fique bom. Outra vez, o nosso cantar. E a gente vai ser feliz. Olha nós outra vez no ar. O show tem que continuar...”. E por aí vai...

Escrito por Alex Azevedo Dias.

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